O
favoritismo de Lula e o desespero do mercado
As
agruras da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à presidência da
República têm deslocado o debate eleitoral para o programa do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, para um eventual quarto
mandato.
As
dificuldades de Flávio em se desvencilhar dos problemas que cercam sua
campanha, como o envolvimento no caso Master, os conflitos com Michelle
Bolsonaro e a incapacidade de formalizar a aliança do campo da direita,
fortalecem a avaliação de que Lula tem um favoritismo nestas eleições.
O país
está profundamente dividido, a eleição presidencial está longe de qualquer
definição e a disputa deve terminar somente no 2º turno por uma margem pequena.
A possibilidade de intervenção do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump,
no processo eleitoral brasileiro, deixa o cenário ainda mais imprevisível.
No
entanto, as chances do petista cresceram no último período. Diante disso, o
mercado e a imprensa empresarial estão colocando peso maior no debate sobre o
programa econômico que será apresentado pelo petista e as perspectivas do seu
quarto governo.
Em
2022, o centro do embate foi a democracia, ameaçada pela reeleição do então
presidente Jair Bolsonaro (PL), depois de um período de crise institucional,
movimentação nas Forças Armadas e ataques ao STF (Supremo Tribunal Federal).
Diante
disso, Lula apresentou linhas mais genéricas para a economia e colocou peso na
agenda da justiça tributária, com a linha de “colocar os ricos no imposto de
renda e os pobres no orçamento”.
Agora,
a Faria Lima faz pressão para arrancar compromissos de Lula em relação à
política fiscal, com o endurecimento do arcabouço fiscal, a desvinculação de
gastos obrigatórios (em saúde, educação e direitos sociais) e o corte de
investimentos públicos.
Para
pavimentar esse caminho, colocou as artilharias contra a política econômica do
governo Lula 3, atacando os indicadores apresentados na gestão de Fernando
Haddad no Ministério da Fazenda.
Editorial
da Folha de S.Paulo, intitulado “A ‘herança maldita’ que o PT esconde”,
apresenta um balanço negativo da política econômica, com um conjunto de dados
para demonstrar a deterioração das contas públicas.
Na
mesma semana, vazou na imprensa – em uma reportagem sem fontes – que o ministro
da Fazenda, Dario Durigan, estaria discutindo com Lula o aperto das regras do
arcabouço fiscal. Entre as mudanças, a diminuição do limite para o crescimento
de despesas para 1,5%, a criação de gatilhos mais restritivos e o controle de
despesas obrigatórias.
A
tática do mercado é simples: diante das dificuldades para derrotar Lula nas
urnas, sequestrar seu próximo governo e tutelar a política econômica. Para
isso, atua para consolidar a avaliação da piora nas contas públicas nos últimos
anos e opera para arrancar compromissos de aprofundamento das medidas de
restrição fiscal.
A opção
do PT desde os anos 2000 é contornar esse debate, reforçando o compromisso com
o equilíbrio fiscal e o tripé macroeconômico, mas defendendo a necessidade dos
investimentos públicos para alavancar o crescimento econômic
Assim,
conseguiu uma margem para implementar um programa que atendesse parcialmente o
grande capital, os trabalhadores e os mais pobres. No entanto, esse arranjo
está cada vez mais frágil e não funcionou como nos anos 2000, antes da crise
mundial do capitalismo.
Com a
perda do controle da política monetária, com a autonomia do Banco Central, e as
restrições à política fiscal, com a regulamentação de regras para o
investimento público, as margens estão cada vez mais estreitas.
A
campanha de Lula terá que construir uma linha para enfrentar essa pressão do
mercado, que deve se agudizar no próximo período. As medidas de Trump contra o
Brasil abriram o debate sobre a necessidade de recursos para políticas para
garantir a soberania nacional, em um quadro de instabilidade geopolítica.
O
cenário de recrudescimento do conflito estratégico entre Estados Unidos e China
exige que o Brasil dê um salto para um novo modelo de desenvolvimento nacional
com foco na indústria do futuro, com investimentos pesados em ciência,
tecnologia e inovação.
Aumentar
a dose do ajuste, cedendo à pressão por novas medidas para restringir a
política fiscal, enfraquece o arranjo débil que sustenta o governo Lula,
prejudica o país no cenário internacional e, sobretudo, adia o projeto de
construção do Brasil do futuro no eventual último mandato da maior liderança
popular da história da Nação.
• Lula teve reunião com dirigentes do
Podemos e do Republicanos antes de partidos recusarem apoio a Flávio
A
decisão de Republicanos e Podemos de não aderir à campanha presidencial de
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi precedida por uma ofensiva direta do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) junto a dirigentes das duas siglas em Brasília.
Segundo informações publicadas pelo jornal O Globo, Lula se reuniu
separadamente, na segunda-feira (3), com integrantes da cúpula do Republicanos
e do Podemos.
Na
terça-feira (4), os dois partidos anunciaram neutralidade no pleito nacional,
resultado interpretado por aliados do governo como uma derrota relevante para
Flávio, principal adversário do petista na eleição.
Pela
manhã, Lula esteve com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), o
presidente do PT, Edinho Silva, e o ministro José Guimarães, da Secretaria de
Relações Institucionais. De acordo com relatos de pessoas que acompanharam as
conversas, o presidente foi informado de que o Republicanos não formalizaria
aliança com a candidatura de Flávio Bolsonaro.
No
mesmo dia, Lula também conversou com a presidente nacional do Podemos, deputada
federal Renata Abreu (SP). A dirigente relatou a interlocutores que o encontro
foi positivo. Procurada por meio de sua assessoria, ela não respondeu.
As
articulações ocorreram após semanas de conversas entre integrantes dos partidos
de centro e representantes do entorno de Lula. No PT, a avaliação é que a
atuação de Edinho Silva e José Guimarães foi decisiva para manter siglas da
centro-direita fora da coligação de Flávio.
O
senador do PL vinha tentando atrair partidos como Republicanos, Podemos, PP e
União Brasil para sua chapa. Chegou a oferecer a vaga de vice a essas siglas,
mas não obteve êxito. Na quarta-feira (5), anunciou o deputado bolsonarista
Alfredo Gaspar (PL-AL) como companheiro de chapa.
No caso
do Republicanos, aliados de Hugo Motta afirmam que o encontro com Lula não teve
como objetivo tratar de eventual apoio do governo, do PT ou do presidente à
reeleição do parlamentar ao comando da Câmara a partir de 2027. Ainda assim,
pessoas próximas a Motta dizem que “política é feita de gestos” e defendem que
a neutralidade da sigla, favorável a Lula, seja considerada no futuro.
Um
parlamentar próximo ao presidente da Câmara afirmou que já há negociações em
curso com deputados e partidos em favor da reeleição de Motta, prevista para
fevereiro.
A
presença de Marcos Pereira, presidente nacional do Republicanos, no encontro é
alvo de versões divergentes. Quatro pessoas, entre participantes e
interlocutores, disseram ao jornal que ele esteve na reunião. Pereira nega.
Na
convenção do Republicanos, Pereira afirmou que, embora o partido tenha adotado
posição de neutralidade, ele “pessoalmente” irá colaborar com a campanha de
Flávio Bolsonaro. Segundo ele, a legenda “só não emprestará o tempo de
televisão”.
Relatos
de pessoas a par das conversas indicam que Lula pediu que Republicanos e
Podemos mantenham diálogo aberto em um eventual segundo turno e que não tomem
decisões sobre apoios futuros sem novas conversas. Dois políticos que ouviram
relatos das reuniões dizem que o presidente sinalizou a possibilidade de
discutir apoios adiante, o que foi interpretado como abertura para a
participação dessas siglas em um eventual quarto governo Lula.
A
operação para conter o avanço de Flávio sobre partidos de centro também
envolveu articulações com a federação União Brasil-PP. Nesse caso, são citados
os líderes Doutor Luizinho (PP-RJ) e Pedro Lucas (União Brasil-MA). No
Republicanos, aliados destacam ainda a atuação do ex-ministro Silvio Costa
Filho (PE), aliado de longa data de Lula.
• Lula deve propor “pacto” entre Poderes
para limitar emendas e extinguir supersalários
O
presidente Lula (PT) pretende incluir em seu plano de governo para a reeleição
a proposta de um “pacto” entre os Poderes da República focado na redução dos
gastos públicos, informa Gustavo Uribe, da CNN Brasil. A estratégia prevê a
adoção de um arcabouço fiscal mais rigoroso e a contenção de despesas com
empresas estatais. O movimento visa qualificar o gasto público.
Entre
os pontos centrais da proposta está o estabelecimento de um teto para as
emendas parlamentares no Orçamento da União, que alcançaram a marca recorde de
R$ 61 bilhões. Lula tem reiterado internamente que o controle sobre a escalada
do montante dessas emendas deve ser prioridade absoluta para a gestão federal,
garantindo que o Poder Executivo recupere sua capacidade de investimento direto
na sociedade.
Nesse
contexto, o chefe do Executivo apoia o posicionamento do ministro Flávio Dino,
do Supremo Tribunal Federal (STF), no que tange à exigência de transparência
absoluta na destinação dos recursos orçamentários, defendendo a aprovação de um
novo modelo de controle de despesas.
O pacto
proposto por Lula prevê também a aprovação, pelo Congresso Nacional, do projeto
de lei que acaba com os chamados supersalários no funcionalismo público. Já
chancelada pela Câmara dos Deputados, a matéria aguarda votação no Senado
Federal. A medida estabelece limites para remunerações em todas as esferas de
governo e Poderes, com impacto direto e principal sobre o Judiciário.
A
articulação serve como uma resposta estratégica às pressões do mercado
financeiro e do setor produtivo, recorrentes críticos do equilíbrio fiscal da
atual administração. Paralelamente, atua como uma blindagem eleitoral diante
dos questionamentos de opositores em relação ao déficit primário registrado
pelo governo federal.
Apesar
da orientação voltada à responsabilidade orçamentária — que leva setores da
equipe de campanha a defenderem até mesmo um aceno em direção a uma reforma
administrativa —, Lula evita deliberadamente o termo “ajuste fiscal” para não
desencadear reações adversas em sua base política e em segmentos de esquerda. A
linha de comunicação adotada pela campanha apresentará as propostas sob o pilar
da eficiência e da moralização da administração pública.
Fonte:
Por Igor Felippe Santos, em Opera Mundi/Brasil 247

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