sábado, 8 de agosto de 2026

O favoritismo de Lula e o desespero do mercado

As agruras da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à presidência da República têm deslocado o debate eleitoral para o programa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, para um eventual quarto mandato.

As dificuldades de Flávio em se desvencilhar dos problemas que cercam sua campanha, como o envolvimento no caso Master, os conflitos com Michelle Bolsonaro e a incapacidade de formalizar a aliança do campo da direita, fortalecem a avaliação de que Lula tem um favoritismo nestas eleições.

O país está profundamente dividido, a eleição presidencial está longe de qualquer definição e a disputa deve terminar somente no 2º turno por uma margem pequena. A possibilidade de intervenção do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no processo eleitoral brasileiro, deixa o cenário ainda mais imprevisível.

No entanto, as chances do petista cresceram no último período. Diante disso, o mercado e a imprensa empresarial estão colocando peso maior no debate sobre o programa econômico que será apresentado pelo petista e as perspectivas do seu quarto governo.

Em 2022, o centro do embate foi a democracia, ameaçada pela reeleição do então presidente Jair Bolsonaro (PL), depois de um período de crise institucional, movimentação nas Forças Armadas e ataques ao STF (Supremo Tribunal Federal).

Diante disso, Lula apresentou linhas mais genéricas para a economia e colocou peso na agenda da justiça tributária, com a linha de “colocar os ricos no imposto de renda e os pobres no orçamento”.

Agora, a Faria Lima faz pressão para arrancar compromissos de Lula em relação à política fiscal, com o endurecimento do arcabouço fiscal, a desvinculação de gastos obrigatórios (em saúde, educação e direitos sociais) e o corte de investimentos públicos.

Para pavimentar esse caminho, colocou as artilharias contra a política econômica do governo Lula 3, atacando os indicadores apresentados na gestão de Fernando Haddad no Ministério da Fazenda.

Editorial da Folha de S.Paulo, intitulado “A ‘herança maldita’ que o PT esconde”, apresenta um balanço negativo da política econômica, com um conjunto de dados para demonstrar a deterioração das contas públicas.

Na mesma semana, vazou na imprensa – em uma reportagem sem fontes – que o ministro da Fazenda, Dario Durigan, estaria discutindo com Lula o aperto das regras do arcabouço fiscal. Entre as mudanças, a diminuição do limite para o crescimento de despesas para 1,5%, a criação de gatilhos mais restritivos e o controle de despesas obrigatórias.

A tática do mercado é simples: diante das dificuldades para derrotar Lula nas urnas, sequestrar seu próximo governo e tutelar a política econômica. Para isso, atua para consolidar a avaliação da piora nas contas públicas nos últimos anos e opera para arrancar compromissos de aprofundamento das medidas de restrição fiscal.

A opção do PT desde os anos 2000 é contornar esse debate, reforçando o compromisso com o equilíbrio fiscal e o tripé macroeconômico, mas defendendo a necessidade dos investimentos públicos para alavancar o crescimento econômic

Assim, conseguiu uma margem para implementar um programa que atendesse parcialmente o grande capital, os trabalhadores e os mais pobres. No entanto, esse arranjo está cada vez mais frágil e não funcionou como nos anos 2000, antes da crise mundial do capitalismo.

Com a perda do controle da política monetária, com a autonomia do Banco Central, e as restrições à política fiscal, com a regulamentação de regras para o investimento público, as margens estão cada vez mais estreitas.

A campanha de Lula terá que construir uma linha para enfrentar essa pressão do mercado, que deve se agudizar no próximo período. As medidas de Trump contra o Brasil abriram o debate sobre a necessidade de recursos para políticas para garantir a soberania nacional, em um quadro de instabilidade geopolítica.

O cenário de recrudescimento do conflito estratégico entre Estados Unidos e China exige que o Brasil dê um salto para um novo modelo de desenvolvimento nacional com foco na indústria do futuro, com investimentos pesados em ciência, tecnologia e inovação.

Aumentar a dose do ajuste, cedendo à pressão por novas medidas para restringir a política fiscal, enfraquece o arranjo débil que sustenta o governo Lula, prejudica o país no cenário internacional e, sobretudo, adia o projeto de construção do Brasil do futuro no eventual último mandato da maior liderança popular da história da Nação.

•        Lula teve reunião com dirigentes do Podemos e do Republicanos antes de partidos recusarem apoio a Flávio

A decisão de Republicanos e Podemos de não aderir à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi precedida por uma ofensiva direta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) junto a dirigentes das duas siglas em Brasília. Segundo informações publicadas pelo jornal O Globo, Lula se reuniu separadamente, na segunda-feira (3), com integrantes da cúpula do Republicanos e do Podemos.

Na terça-feira (4), os dois partidos anunciaram neutralidade no pleito nacional, resultado interpretado por aliados do governo como uma derrota relevante para Flávio, principal adversário do petista na eleição.

Pela manhã, Lula esteve com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), o presidente do PT, Edinho Silva, e o ministro José Guimarães, da Secretaria de Relações Institucionais. De acordo com relatos de pessoas que acompanharam as conversas, o presidente foi informado de que o Republicanos não formalizaria aliança com a candidatura de Flávio Bolsonaro.

No mesmo dia, Lula também conversou com a presidente nacional do Podemos, deputada federal Renata Abreu (SP). A dirigente relatou a interlocutores que o encontro foi positivo. Procurada por meio de sua assessoria, ela não respondeu.

As articulações ocorreram após semanas de conversas entre integrantes dos partidos de centro e representantes do entorno de Lula. No PT, a avaliação é que a atuação de Edinho Silva e José Guimarães foi decisiva para manter siglas da centro-direita fora da coligação de Flávio.

O senador do PL vinha tentando atrair partidos como Republicanos, Podemos, PP e União Brasil para sua chapa. Chegou a oferecer a vaga de vice a essas siglas, mas não obteve êxito. Na quarta-feira (5), anunciou o deputado bolsonarista Alfredo Gaspar (PL-AL) como companheiro de chapa.

No caso do Republicanos, aliados de Hugo Motta afirmam que o encontro com Lula não teve como objetivo tratar de eventual apoio do governo, do PT ou do presidente à reeleição do parlamentar ao comando da Câmara a partir de 2027. Ainda assim, pessoas próximas a Motta dizem que “política é feita de gestos” e defendem que a neutralidade da sigla, favorável a Lula, seja considerada no futuro.

Um parlamentar próximo ao presidente da Câmara afirmou que já há negociações em curso com deputados e partidos em favor da reeleição de Motta, prevista para fevereiro.

A presença de Marcos Pereira, presidente nacional do Republicanos, no encontro é alvo de versões divergentes. Quatro pessoas, entre participantes e interlocutores, disseram ao jornal que ele esteve na reunião. Pereira nega.

Na convenção do Republicanos, Pereira afirmou que, embora o partido tenha adotado posição de neutralidade, ele “pessoalmente” irá colaborar com a campanha de Flávio Bolsonaro. Segundo ele, a legenda “só não emprestará o tempo de televisão”.

Relatos de pessoas a par das conversas indicam que Lula pediu que Republicanos e Podemos mantenham diálogo aberto em um eventual segundo turno e que não tomem decisões sobre apoios futuros sem novas conversas. Dois políticos que ouviram relatos das reuniões dizem que o presidente sinalizou a possibilidade de discutir apoios adiante, o que foi interpretado como abertura para a participação dessas siglas em um eventual quarto governo Lula.

A operação para conter o avanço de Flávio sobre partidos de centro também envolveu articulações com a federação União Brasil-PP. Nesse caso, são citados os líderes Doutor Luizinho (PP-RJ) e Pedro Lucas (União Brasil-MA). No Republicanos, aliados destacam ainda a atuação do ex-ministro Silvio Costa Filho (PE), aliado de longa data de Lula.

•        Lula deve propor “pacto” entre Poderes para limitar emendas e extinguir supersalários

O presidente Lula (PT) pretende incluir em seu plano de governo para a reeleição a proposta de um “pacto” entre os Poderes da República focado na redução dos gastos públicos, informa Gustavo Uribe, da CNN Brasil. A estratégia prevê a adoção de um arcabouço fiscal mais rigoroso e a contenção de despesas com empresas estatais. O movimento visa qualificar o gasto público.

Entre os pontos centrais da proposta está o estabelecimento de um teto para as emendas parlamentares no Orçamento da União, que alcançaram a marca recorde de R$ 61 bilhões. Lula tem reiterado internamente que o controle sobre a escalada do montante dessas emendas deve ser prioridade absoluta para a gestão federal, garantindo que o Poder Executivo recupere sua capacidade de investimento direto na sociedade.

Nesse contexto, o chefe do Executivo apoia o posicionamento do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), no que tange à exigência de transparência absoluta na destinação dos recursos orçamentários, defendendo a aprovação de um novo modelo de controle de despesas.

O pacto proposto por Lula prevê também a aprovação, pelo Congresso Nacional, do projeto de lei que acaba com os chamados supersalários no funcionalismo público. Já chancelada pela Câmara dos Deputados, a matéria aguarda votação no Senado Federal. A medida estabelece limites para remunerações em todas as esferas de governo e Poderes, com impacto direto e principal sobre o Judiciário.

A articulação serve como uma resposta estratégica às pressões do mercado financeiro e do setor produtivo, recorrentes críticos do equilíbrio fiscal da atual administração. Paralelamente, atua como uma blindagem eleitoral diante dos questionamentos de opositores em relação ao déficit primário registrado pelo governo federal.

Apesar da orientação voltada à responsabilidade orçamentária — que leva setores da equipe de campanha a defenderem até mesmo um aceno em direção a uma reforma administrativa —, Lula evita deliberadamente o termo “ajuste fiscal” para não desencadear reações adversas em sua base política e em segmentos de esquerda. A linha de comunicação adotada pela campanha apresentará as propostas sob o pilar da eficiência e da moralização da administração pública.

 

Fonte: Por Igor Felippe Santos, em Opera Mundi/Brasil 247

 

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