Anthony
Fauci - o que renasce agora não é dúvida, é desinformação requentada
Quem
acompanha a mídia digital percebeu, nas últimas semanas, um apito de cachorro
reaparecer: “Fauci”. Apito de cachorro (dog whistle), já sabemos, é o
uso de palavras ou expressões com linguagem codificada na política e no
discurso público, sobretudo pela extrema direita global para disseminar uma
narrativa orquestrada.
Anthony
Fauci é um médico, imunologista e infectologista norte-americano que se tornou
mundialmente conhecido durante a pandemia da Covid-19, sendo uma das principais
vozes científicas da Força-Tarefa de Coronavírus da Casa Branca, defendendo o
uso de máscaras, a contenção ou distanciamento social e a vacinação. A
repercussão da sua audiência no Senado dos Estados Unidos, em 29 de julho de
2026, virou ponto de partida para reviver um conjunto de alegações sobre a
pandemia de Covid-19 que, em sua maior parte, já havia sido examinado à
exaustão pela literatura científica.
Cloroquina,
ivermectina, uso de máscaras, segurança das vacinas, origem do vírus: tudo
volta, sem nenhuma informação científica nova para ser reconsiderada com
seriedade.
Vale
explicar o episódio para quem não acompanhou de perto. Na referida audiência
perante uma comissão do Congresso americano majoritariamente conduzida por
republicanos, Anthony Fauci, por décadas a principal referência da resposta
sanitária dos Estados Unidos, invocou a Quinta Emenda da Constituição – o
direito a não produzir prova contra si mesmo – mais de cem vezes, ao longo de
mais de duas horas de sessão.
Juridicamente
isso não equivale a confissão de culpa: é garantia prevista no ordenamento
constitucional estadunidense, recomendação padrão de advogados em audiências
hostis, usada tanto por culpados quanto por inocentes. Politicamente, porém, o
silêncio rendeu horas de conteúdo. Um relatório final de outra subcomissão de
maioria republicana, divulgado em dezembro de 2024, sugeriu que o vírus
provavelmente vazou de um laboratório em Wuhan, na China, com base
nas características biológicas do Sars-CoV-2. Contudo, a mesma investigação não
encontrou evidência alguma que ligasse Anthony Fauci a irregularidades. Dois
fatos que cabem lado a lado sem contradição, e que a narrativa que circula
agora prefere fundir num só.
O
mecanismo é sempre esse: um acontecimento político recente empresta aparência
de novidade a um argumento cuja base empírica não mudou. A cronologia se move;
a evidência, não. E ela merece ser revisitada com calma. A mesma calma que
falta a quem repete a mesma tese negacionista pela enésima vez sem produzir
evidências científicas consistentes.
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A cloroquina e a ivermectina não funcionaram
A
hidroxicloroquina foi a promessa mais barulhenta do início da pandemia. Estudos
de bancada mostravam alguma atividade antiviral contra o vírus, e pequenos
ensaios sugeriam benefício promissor. Isto foi o suficiente para justificar
investigação, não para fechar questão. Quando ensaios clínicos randomizados de
maior porte chegaram, o resultado se mostrou diferente.
A
revisão Cochrane, referência em síntese rigorosa de evidência em saúde, reuniu
doze ensaios com 8.569 participantes e concluiu que a hidroxicloroquina não
beneficia pacientes hospitalizados com covid-19 nem previne a doença em quem
foi exposto ao vírus. A recomendação que se seguiu foi direta: nenhum novo
estudo do medicamento para esse fim precisava ser iniciado, porque a pergunta
já tinha resposta conclusiva.
Não foi
um grupo isolado que chegou a essa conclusão. O estudo Solidarity,
coordenado pela Organização Mundial da Saúde, testou hidroxicloroquina em larga
escala e também não encontrou redução de mortalidade. Equipes diferentes,
países diferentes, bases de dados diferentes, com resultado convergente. É o
oposto do que uma conspiração misantrópica para esconder a “cura” tão desejada
exigiria: convergência independente é justamente um critério de validação forte
que separa hipótese descartada de hipótese aceita.
O custo
de promover o medicamento sem evidência científica aceitável não foi abstrato.
A corrida por cloroquina e hidroxicloroquina gerou escassez que deixou
pacientes com lúpus e artrite reumatoide, os quais já dependiam do remédio para
tratamentos comprovados, sem acesso a ele. Reviver essa narrativa hoje não é
ousadia contra o mainstream. É reciclar um erro cujo preço já foi
pago por quem menos culpa tinha nele.
A
ivermectina seguiu roteiro parecido, com uma diferença: relatos de recuperação
individual seguiam sendo o principal combustível da tese. O problema é que
esses relatos não provam nada sozinhos, porque a maioria das infecções por
Covid evolui bem independentemente de tratamento. É para isso também que
existem ensaios randomizados controlados: para separar melhora espontânea de
efeito terapêutico. O ensaio Together, conduzido no Brasil, testou
ivermectina em pacientes ambulatoriais e não encontrou redução de
hospitalizações). A revisão Cochrane sobre o medicamento chegou à mesma
direção, com confiança baixa na evidência disponível por causa do tamanho
reduzido dos estudos, e não por “perseguição ideológica” ao fármaco.
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Vacina reduz morte
Nenhuma
alegação sobre a pandemia foi tão estudada quanto a redução de mortalidade pela
vacinação. Uma coorte francesa acompanhou 28 milhões de pessoas por quatro anos
e não encontrou aumento de risco de mortalidade por todas as causas entre
adultos vacinados de 18 a 59 anos.
Um
estudo de vigilância da região europeia da Organização Mundial da Saúde estimou
mais de um milhão de vidas salvas diretamente pela vacinação entre dezembro de
2020 e março de 2023. Esses números vêm de agências de países com sistemas de
saúde, economias e governos diferentes entre si, o que torna a hipótese de
conluio global, científica e politicamente, incoerente: seria preciso que
reguladores rivais, financiados majoritariamente por dinheiro público,
forjassem o mesmo resultado, de forma independente, em dezenas de países.
Isso
não significa risco zero, e ninguém dotado de lucidez afirmou isso. A
miocardite pós-vacinal existe, é rara, e foi capturada pelo próprio sistema de
farmacovigilância que a narrativa negacionista alega estar “escondendo coisas”:
incidência aproximada de 14,8 casos por milhão de doses, mais frequente em
homens jovens após a segunda aplicação. O dado que a narrativa sistematicamente
omite é o de comparação: o risco de miocardite depois da infecção pelo próprio
vírus é muito maior do que depois da vacina. Recusar a vacina não elimina esse
risco. Multiplica.
A
alternativa real, durante uma pandemia com vírus circulante, nunca foi “vacina
versus risco zero”. Foi vacina versus infecção. E, frente a essa comparação, a
única que a medicina baseada em evidência reconhece como válida, a balança não
é sutil e favorece fortemente a vacinação.
Máscaras,
redução temporária de circulação e reorganização dos serviços de saúde também
voltaram a ser tratadas, nesse revival, como puro exagero
regulatório. É verdade que essas medidas tiveram custos sociais relevantes.
Quem adotou tais medidas reconheceu impactos econômicos, educacionais e
psicológicos que fizeram parte da experiência de quem viveu a pandemia.
Reconhecer esse custo, porém, não equivale a concluir que as medidas foram
inúteis.
O
objetivo dessas intervenções não farmacológicas era reduzir a velocidade de
transmissão e evitar que os hospitais e outras unidades de pronto atendimento
fossem colapsados pela demanda explosiva. Numa crise sanitária, a sobrecarga
hospitalar aumenta mortes não só por Covid, mas por qualquer condição que
dependa de atendimento rápido: infarto, acidente de trânsito, parto complicado.
Como essas medidas raramente foram adotadas isoladamente, e cada país combinou
intervenções de formas e intensidades diferentes, tanto “todas as medidas
funcionaram perfeitamente” quanto “nenhuma medida teve efeito” são
simplificações de uma realidade complexa.
A
pergunta que vale fazer é outra: qual intervenção funcionou, em qual contexto,
com qual intensidade e a que custo. E a resposta é que essas medidas
contribuíram para manter os sistemas de saúde de muitos países em operação,
atendendo e salvando vidas.
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A origem do vírus
Aqui a
precisão importa mais do que em qualquer outro ponto, porque simplificar para
qualquer lado repete o erro que este texto tenta corrigir. Um estudo publicado
na Science mapeou a distribuição dos primeiros casos em Wuhan
e encontrou concentração significativa ao redor do mercado de Huanan, com maior
positividade em amostras próximas a bancas de animais silvestres e material
genético de espécies já apontadas como hospedeiras intermediárias em outros
coronavírus. Um segundo estudo, analisando a diversidade genética das primeiras
linhagens, concluiu que os padrões observados eram compatíveis com mais de um
evento de transmissão animal-humano entre novembro e dezembro de 2019.
A
hipótese de acidente laboratorial não é absurda, pois acidentes com agentes
infecciosos já aconteceram antes, e biossegurança é preocupação legítima. Mas
existe diferença entre “possibilidade a investigar” e “coisa demonstrada”, e é
aí que o debate público mal-conduzido costuma tropeçar. A subcomissão
republicana concluiu, com base em características biológicas do vírus, que o
vazamento laboratorial é a explicação mais provável; a avaliação de
inteligência do próprio governo americano, por outro lado, registrou
divergência entre agências, com diferentes níveis de confiança atribuídos a
cada hipótese. Nenhum desses documentos é um estudo revisado por pares com
metodologia pública: são avaliações institucionais, com peso próprio, mas de
natureza diferente.
Do lado
da genômica, um dos primeiros grandes estudos sobre a estrutura molecular do
vírus, concluiu que os dados disponíveis não indicavam manipulação genética
deliberada, embora a análise não tivesse como objetivo eliminar todos os
cenários possíveis de acidente laboratorial. É uma diferença que importa: uma
evidência pode enfraquecer uma hipótese específica sem eliminar todos os
cenários teoricamente possíveis.
Esse
episódio também deixa em aberto uma questão de governança que sobrevive a
qualquer conclusão sobre a origem do Sars-CoV-2: como pesquisas de alto risco
com vírus de potencial pandêmico são supervisionadas. Mecanismos de avaliação,
transparência e controle precisam acompanhar esse tipo de pesquisa, mas
“precisamos melhorar a segurança de pesquisas com agentes infecciosos” e “uma
pesquisa específica causou esta pandemia” são afirmações de natureza diferente,
e a primeira não autoriza a segunda sem prova correspondente.
O
resultado honesto dessa comparação é desconfortável para quem gosta de certeza
rápida: a origem zoonótica tem forte respaldo em estudos publicados; a hipótese
de acidente segue levada a sério por parte da comunidade investigativa, sem
prova pública definitiva. Cobrar transparência de instituições é legítimo e
necessário. Isso não obriga a aceitar automaticamente a tese do vazamento de
laboratório, do mesmo modo que defender a origem zoonótica com a evidência
disponível não faz de ninguém apologista de laboratório. O erro dos dois lados
é fingir uma certeza que os dados ainda não sustentam.
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Por que a mesma história sempre volta
O
padrão que atravessa alegações conspiratórias sobre cloroquina, ivermectina,
medidas de contenção, vacina e origem do vírus é único: nenhuma dessas
alegações encontra sustentação em ensaio clínico, coorte ou revisão sistemática
publicada quando reexaminada hoje. O que sustenta o revival não
é evidência nova, é anedota pessoal no lugar de dado robusto, indignação
midiática no lugar de metodologia, uso abusivo de distorção informacional com
fins político-eleitorais, e uma inversão silenciosa do ônus da prova, que exige
da ciência séria e ética explicação infinita enquanto a alegação contrária
nunca precisa provar coisa alguma.
Chamar
isso de ceticismo científico é generoso demais. Ceticismo pergunta que dado
sustenta a conclusão. O que se vê aqui pergunta outra coisa: como descartar
qualquer dado que contrarie o que já se decidiu acreditar, sob o viés de
confirmação típico da dissonância cognitiva de grupos panfletários e
extremistas. A diferença entre as duas perguntas parece pequena. Não é: uma
constrói conhecimento científico e gera tecnologia que reduz a carga de
sofrimento, doença e morte; a outra só embala convicção prévia (e pérfida) com
aparência de debate. Não há simetria ou equivalência para gerar um debate
sério.
Essa
mesma dissonância explica por que o revival funciona tão bem
no ambiente digital. Conteúdo com forte carga emocional viaja mais rápido do
que explicação cuidadosa: uma frase alarmante cabe num story, uma
metanálise não. Há um efeito conhecido na literatura sobre desinformação: a
simples repetição de uma afirmação aumenta sua familiaridade, mesmo depois de
corrigida, o que faz combater esse tipo de erro exigir mais do que apresentar
fatos isolados. Exige explicar como o conhecimento foi produzido, e por que
algumas conclusões pesam mais do que outras.
Uma
crítica recorrente é que as recomendações científicas mudaram ao longo da
pandemia, como se isso fosse prova de fragilidade. É o contrário. Conhecimento
científico é dinâmico no sentido correto da palavra: continua válido enquanto
novas evidências não exigirem revisão. Mudar de posição diante de dado novo não
é fracasso, é o método científico funcionando. O erro não é rever uma
conclusão. É insistir que uma conclusão inicial precisa ficar de pé mesmo
depois que a evidência acumulada aponta para outro lugar.
Fauci
calado no Senado dos EUA é fato político, e pode ser discutido como tal. Só não
é argumento científico. E a ciência não muda de resposta contingente porque uma
testemunha ficou em silêncio numa sala em Washington.
Fonte:
Por Samuel Jorge Moysés, em A Terra é Redonda

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