Psicólogos:
por que a categoria se uberiza?
O
avanço das plataformas digitais na última década nos dá a impressão de que elas
ocuparam todos os poros da vida social. Seja para encontrar um relacionamento,
escutar podcasts, assistir a filmes, se locomover na cidade, contratar
serviços, encontrar um emprego ou realizar uma reunião, haverá uma ou mais
plataformas prontas para suprir novas necessidades. O mundo do trabalho não
passaria imune a essas transformações, sendo uma das áreas mais afetadas nessa
discussão.
Ao
falarmos em plataformização do trabalho, logo pensamos em motoristas da Uber,
entregadores do Ifood e, quando muito, em indivíduos treinando IA. Todavia, a
plataformização tem se espalhado para diferentes ocupações, como advocacia,
faxinas, tradução, psicologia, entre outros1. A experiência de psicólogas em
plataformas digitais explicita que esse fenômeno tem menos a ver com a mediação
de tecnologias e está mais relacionado com o aprofundamento da precarização do
trabalho. Se a utopia do avanço tecnológico nos prometia o aumento do tempo
livre e a transferência de atividades repetitivas para as máquinas, o
capitalismo-tardio-plataformizado tem nos entregado o aumento de doenças
psíquicas, fadiga mental e a transformação do tempo de lazer em tempo de trabalho.
Nesse
sentido, a psicologia é uma das ocupações que está paulatinamente se
plataformizando. Das diversas plataformas pesquisadas, uma das que foram mais
citadas nas entrevistas que realizamos é a PsyMeet, empresa criada em 2020 com
o objetivo, segundo alegam, de oferecer terapia online a um preço acessível.
Segundo o site da própria empresa, a PsyMeet oferece terapia online para mais
de 3 milhões de pessoas anualmente. Na referida plataforma, todas as consultas
possuem um valor tabelado de R$ 30, com a justificativa de oferecer terapia a
um valor social. Embora a ideia possa parecer promissora para tornar a terapia
clínica mais acessível, há uma série de reclamações sobre essa imposição de
preço. Muitas psicólogas reclamam que a PsyMeet não realiza uma fiscalização
para saber se as pessoas que procuram terapia online pela plataforma realmente
não possuem condição econômica para pagar o valor inteiro da consulta. Com
isso, pessoas com uma condição financeira estável acabam se valendo, de forma
indevida, dos atendimentos por valor social.
Em
síntese, a plataforma utiliza um discurso de cobrança de valor social como
forma de garantir terapia para pessoas em vulnerabilidade, mas não se
responsabiliza por fiscalizar que os clientes da plataforma estão em uma
condição financeira instável, o que acaba por rebaixar o valor do trabalho dos
psicólogos e psicólogas. Ademais, a PsyMeet parece utilizar a ideia de valor
social como uma estratégia para atrair pacientes a valores reduzidos. Essa
imposição cria sérios problemas, de modo que alguns entrevistados relatam que
chegam a atender 40 pacientes por semana para conseguirem obter uma renda
maior, considerando o baixo valor das consultas.
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Escolhendo o menos pior: “os planos de saúde são a experiência da plataforma
antes das plataformas”
Embora
os valores pagos pela PsyMeet sejam baixos, alguns psicólogos afirmam que a
plataforma ainda é melhor e mais rentável do que a experiência que tiveram com
atendimentos por planos de saúde. Nos planos corporativos, os psicólogos
realizam consultas de 30 minutos e ganham de 15 a 20 reais por sessão.
Guilherme, um dos entrevistados, tem 31 anos, mora em São Paulo e explica por
quê preferiu as plataformas aos planos de saúde. Ao se formar na faculdade,
trabalhava como operador de telemarketing e estava buscando possibilidades de
se inserir na psicologia. A primeira oportunidade que surge é para atender
planos de saúde em uma clínica em Osasco, de forma presencial:
Era bem
cansativo. Eu pegava ônibus aqui [ São Paulo] e ia até Osasco, pra receber pelo
convênio, que era 15 reais, por consulta de 30 minutos. E em geral, você recebe
60 dias depois da consulta. Então, nessa perspectiva, quando você compara com
plano de saúde, eu prefiro a plataforma. Porque, por exemplo, na PsyMeet eu
recebia 30 reais e eu atendia de casa, não tinha custo de deslocamento,
alimentação. Enquanto consultório presencial, eu tinha.
Algumas
clínicas ainda cobram uma mensalidade para a utilização da sala de atendimento.
De acordo com as psicólogas entrevistadas, a atuação em plataformas é mais
vantajosa do que a referida atuação em clínicas, pois embora gastem com a
mensalidade nas empresas-aplicativos, não precisam dividir uma parte dos
rendimentos das consultas com a clínica e não precisam pagar para utilizar as
salas de atendimento em espaços físicos. O fato de que não precisam gastar
tempo e dinheiro com deslocamentos também é um elemento destacado com
frequência pelas psicólogas.
Esse
debate evidencia os elementos de continuidade na precarização da psicologia
antes e depois do advento das empresas-plataformas, pois já podíamos observar,
antes da plataformização, psicólogos atendendo por planos de saúde em clínicas
de psicologia e ganhando 15 reais por consulta. Essa reflexão remete à fala de
um entrevistado sobre as semelhanças entre as plataformas digitais e os planos
de saúde:
Os
planos de saúde são essas estruturas também. São essas protoplataformas. São a
experiência de plataformas antes das plataformas. A minha impressão é que essa
relação que a gente vê hoje nas plataformas tem suas coisas próprias, mas ela
toma emprestado um modelo de negócio que já existia, que no caso a gente da
área de saúde é essa mediação dos planos”.
As
plataformas se utilizam de uma dinâmica já existente no mercado laboral da
saúde, realizada pelos planos, e atualizam essa atividade a partir de
diferentes arquiteturas digitais. Tais arquiteturas não apenas definem a
interação nas plataformas, mas também determinam relações laborais específicas.
Se os planos de saúde realizaram, décadas atrás, um cercamento do mercado da
saúde – para lembrar do processo de cercamento que ocorre no período de
acumulação primitiva do capital – as plataformas vão, progressivamente, criando
um cercamento a determinados setores do mercado de trabalho e construindo seus
oligopólios e monopólios no setor de transporte, saúde, publicidade, entre
outros.
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Qual a classe social dos psicólogos plataformizados?
Vale
ressaltarmos que essa realidade, embora disseminada entre as classes e frações
de classe, não atinge de forma igual os trabalhadores. No formulário online
respondido por 210 psicólogos e psicólogas que atuam em plataformas,
verificamos que a maioria deles tem uma trajetória social parecida, qual seja,
a necessidade de conciliar a graduação com o trabalho, a formação em faculdades
privadas de menor qualidade e o fato de serem a primeira pessoa da família a
acessar o ensino superior. Esse recorte demonstra que a maioria dos psicólogos
que enfrenta a precariedade das plataformas e dos planos de saúde são oriundos
da classe trabalhadora e não tiveram a oportunidade de se dedicar apenas aos
estudos durante a graduação.
Esse
resultado explicita um projeto de ascensão social pelo estudo interrompido
pelas próprias condições materiais existentes no mercado de trabalho. Embora
milhares de estudantes tenham conciliado a graduação de noite e emprego de dia
durante anos, após se formarem encontram ocupações tão precárias quanto as que
estavam antes de concluírem a faculdade. Essa discussão nos ajuda a compreender
a insatisfação de parte da população com o governo federal, apesar dos índices
recordes de empregabilidade no país. Não basta vermos o índice de
empregabilidade se desconsiderarmos a qualidade dos empregos, considerando que
a maioria das ocupações criadas no último ano pagam até dois salários-mínimos2.
Dito de
outro modo, é necessário recolocar no centro do debate público não apenas a
geração de empregos, mas a qualidade das ocupações criadas. A expansão do
ensino superior nas últimas décadas ampliou o acesso aos diplomas
universitários, mas não foi acompanhada por um processo equivalente de criação
de postos de trabalho qualificados capazes de absorver essa mão de obra. Nesse
contexto, a reindustrialização do país assume papel estratégico, na medida em
que possibilita a geração de empregos mais qualificados e com melhores
salários, criando alternativas concretas para trabalhadores que hoje se veem
compelidos a aceitar formas cada vez mais precárias de inserção profissional.
Fonte:
Por Matheus Silveira de Souza, em Outra Saúde

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