Dinheiro
suspeito: a estratégia que transformou o conflito político em um modelo de
negócios
Há
alguns anos, o debate político seguia um ritmo relativamente previsível.
Campanhas eleitorais tinham começo, meio e fim. Passada a votação, a
temperatura diminuía e o país voltava a discutir economia, emprego, educação,
saúde ou infraestrutura. A polarização permanecia, mas perdia intensidade até a
disputa seguinte.
Essa
lógica parece ter ficado no passado.
Em 2025
e 2026, mesmo sem uma eleição presidencial em andamento, a política continuou
ocupando diariamente as redes sociais. Lives transmitidas para milhares de
pessoas, campanhas de arrecadação, influenciadores especializados em comentar o
noticiário, grupos em aplicativos de mensagens, podcasts, newsletters e cortes
de vídeos alimentam um fluxo contínuo de mobilização. A impressão é que o país
vive em campanha permanente.
O
fenômeno não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, Donald Trump retornou à
Casa Branca em 2025 depois de passar quatro anos fora do poder sem perder
protagonismo no debate público. Pelo contrário. Durante esse período, manteve
uma base altamente mobilizada, lançou sua própria rede social, transformou
aparições públicas em grandes eventos digitais e passou a explorar novos
mecanismos de monetização ligados ao universo das criptomoedas e dos ativos
digitais.
Na
Argentina, Javier Milei segue governando em confronto permanente com
adversários políticos, sindicatos, imprensa e universidades. Na Hungria, Viktor
Orbán consolidou um projeto político que há anos combina mobilização contínua,
domínio da comunicação e fortalecimento institucional.
Apesar
das diferenças entre esses governos, existe um elemento comum: a política
deixou de funcionar apenas como disputa eleitoral. Ela passou a operar como uma
atividade permanente, capaz de produzir audiência, fidelizar comunidades e
manter milhões de pessoas engajadas todos os dias.
Diante
desse cenário, uma pergunta costuma aparecer sempre que surgem investigações
sobre financiamento político ou campanhas digitais: quem paga essa conta? É uma
pergunta importante. Mas talvez, não suficiente.
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E se estivermos fazendo a pergunta errada?
Ao
longo dos últimos anos, investigações sobre movimentações financeiras, doações,
arrecadações, uso de plataformas digitais e esquemas de financiamento ocuparam
espaço frequente no noticiário. Sempre que um novo caso vem à tona, a atenção
se concentra na origem dos recursos.
É uma
abordagem necessária, pois sem transparência sobre o financiamento político não
há democracia saudável. O historiador João Cezar de Castro Rocha, porém, propõe
ampliar esse olhar. Em vez de perguntar apenas quem financia determinados
movimentos políticos, ele sugere investigar como o próprio conflito passou a
produzir recursos, engajamento e novas formas de financiamento.
Em sua
interpretação, o verdadeiro diferencial da extrema direita contemporânea talvez
não esteja apenas no discurso ou na ideologia, mas na capacidade de transformar
a radicalização política em um modelo economicamente sustentável.
A
hipótese representa uma mudança importante de perspectiva. Ela desloca o foco
das fontes de financiamento para os incentivos que mantêm esse ecossistema
funcionando.
Segundo
Castro Rocha, a guerra cultural continua sendo um importante elemento para
compreender o avanço transnacional da extrema direita. É ela que produz
narrativas simplificadas, cria inimigos permanentes e mantém uma mobilização
constante. Mas, em sua avaliação, existe um componente que recebeu menos
atenção do que deveria: a monetização desse conflito.
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Quando a política deixa de depender das eleições
Durante
boa parte do século XX, campanhas eleitorais exigiam grandes estruturas
partidárias, tempo de televisão, comícios e eventos presenciais. Mas hoje, a
internet alterou profundamente esse modelo.
Atualmente,
qualquer liderança política pode falar diretamente com milhões de pessoas sem
depender dos meios tradicionais de comunicação. Plataformas digitais
recompensam conteúdos capazes de gerar engajamento constante, e poucos formatos
mobilizam tanto quanto a indignação, o medo ou o conflito.
Quanto
maior a circulação de um conteúdo, maior seu alcance. Quanto maior o alcance,
maiores as possibilidades de transformar atenção em receita, seja por
publicidade, assinaturas, doações recorrentes, venda de produtos, eventos,
cursos, plataformas exclusivas ou campanhas de financiamento coletivo.
Essa
lógica não nasceu na política. Ela faz parte da chamada economia da atenção,
conceito desenvolvido para explicar como, em um ambiente de excesso de
informação, a atenção humana se tornou um dos recursos mais valiosos da
economia digital. João Cezar de Castro Rocha utiliza essa ideia para analisar
um fenômeno específico: a forma como determinados movimentos políticos
aprenderam a operar dentro dessa lógica, convertendo mobilização permanente em
ativo político e econômico.
É
justamente nesse ponto que sua hipótese começa a ganhar força. A radicalização
contemporânea talvez não possa ser compreendida apenas como uma disputa por
votos. Segundo essa interpretação, ela também responde aos incentivos de um
ambiente digital em que atenção significa influência, influência gera receita e
receita permite manter comunidades mobilizadas de forma permanente.
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O conflito como ativo
A
hipótese apresentada por João Cezar de Castro Rocha parte de uma constatação: a
extrema direita do século XXI não chegou ao poder da mesma forma que os regimes
fascistas do século passado.
Enquanto
o fascismo italiano e o nazismo recorreram à violência organizada e ao
rompimento institucional para consolidar seus projetos políticos, boa parte da
extrema direita contemporânea avançou por outro caminho. Donald Trump, Jair
Bolsonaro, Javier Milei, Viktor Orbán e outros chegaram ao poder por meio de
eleições livres, conquistando parcelas significativas do eleitorado.
Isso
exige uma pergunta diferente: como movimentos tão distintos conseguiram manter
níveis elevados de mobilização durante tantos anos, inclusive quando estavam
fora do governo?
A
resposta mais comum costuma apontar para a guerra cultural. Ela continua sendo
uma peça importante desse quebra-cabeça. Segundo Castro Rocha, é por meio dela
que narrativas simplificadas, inimigos permanentes e disputas morais mantêm
comunidades mobilizadas praticamente todos os dias.
Mas,
para o historiador, existe outro elemento que merece atenção. O conflito deixou
de ser apenas um instrumento para conquistar votos e passou a gerar valor por
si mesmo.
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A economia da indignação
As
plataformas digitais não remuneram ideias. Elas remuneram atenção.
Quanto
mais tempo uma pessoa permanece assistindo a um vídeo, compartilhando uma
publicação, comentando uma postagem ou participando de uma transmissão ao vivo,
maior tende a ser o alcance daquele conteúdo. Esse mecanismo criou incentivos
inéditos para quem produz informação na internet.
Na
política, esses incentivos encontraram um terreno fértil. Conflitos constantes
mantêm audiências ativas. Audiências ativas geram alcance. Alcance fortalece
lideranças, amplia comunidades e abre espaço para diferentes formas de
monetização.
É nesse
ambiente que a interpretação de João Cezar de Castro Rocha se distancia das
análises tradicionais. Em vez de enxergar a radicalização apenas como uma
estratégia de convencimento ideológico, ele propõe observá-la também como parte
de um modelo econômico sustentado pela lógica das plataformas digitais.
Não
significa dizer que toda liderança política monetiza seus seguidores da mesma
maneira ou que toda produção de conteúdo político responde aos mesmos
incentivos. O ponto é outro. Existe um ecossistema que depende da manutenção
permanente do conflito para continuar crescendo.
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Da campanha permanente ao negócio permanente
Durante
uma das aulas, Castro Rocha recupera uma ideia que ajuda a compreender esse
processo: a mobilização permanente.
Inspirando-se
na organização dos exércitos napoleônicos, ele argumenta que a guerra cultural
transportou para a política um princípio simples: nunca desmobilizar sua base.
Em vez de campanhas concentradas apenas durante o período eleitoral, cria-se
uma dinâmica em que a disputa precisa permanecer ativa durante os 365 dias do
ano.
Essa
observação ajuda a explicar por que determinados temas retornam continuamente
ao debate público. Mesmo quando uma polêmica perde força, outra ocupa seu
lugar. Pode ser uma decisão do Supremo Tribunal Federal, uma declaração de um
ministro, uma pauta ligada aos costumes, uma crise internacional, uma medida
econômica ou até um episódio aparentemente banal, transformado em símbolo de
uma disputa maior.
Nas
aulas, Castro Rocha lembra episódios em que produtos de consumo, campanhas
publicitárias e acontecimentos esportivos passaram a ser tratados como
manifestações de uma guerra política permanente. O objetivo não seria apenas
vencer um debate específico, mas impedir que a mobilização desapareça.
Essa
lógica também aparece no noticiário recente. No fim de 2025, por exemplo, uma
campanha publicitária da Havaianas protagonizada por Fernanda Torres foi
interpretada por setores da direita como uma provocação política, desencadeando
uma campanha de boicote nas redes sociais. Poucos meses depois, o deputado
Nikolas Ferreira anunciou a marca de chinelos Pé Direito, apresentada como uma
resposta ao episódio e voltada ao público conservador. O caso ilustra como
controvérsias políticas podem extrapolar o debate ideológico e se transformar
também em oportunidades de mobilização e consumo.
O mesmo
movimento pode ser observado em clubes de assinatura, plataformas exclusivas,
produtos licenciados, eventos presenciais, transmissões ao vivo e comunidades
fechadas que passaram a integrar de forma cada vez mais frequente o ecossistema
de comunicação política, no Brasil e em outros países.
Sob
essa perspectiva, o conflito deixa de ser apenas um instrumento para convencer
eleitores e passa a integrar um ecossistema em que atenção, engajamento e
financiamento se retroalimentam continuamente. É justamente essa dinâmica que
João Cezar de Castro Rocha propõe observar ao analisar a guerra cultural
contemporânea.
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O que Trump, Milei e Bolsonaro têm em comum?
Embora
pertençam a contextos nacionais muito diferentes, Donald Trump, Javier Milei e
Jair Bolsonaro aparecem nas aulas de Castro Rocha como exemplos de um fenômeno
mais amplo: lideranças que compreenderam profundamente o funcionamento da
economia digital.
No caso
de Trump, o historiador chama atenção para campanhas de arrecadação realizadas
após a derrota eleitoral de 2020, além da criação de produtos financeiros e
ativos digitais associados à sua imagem política.
Na
Argentina, ele analisa o episódio envolvendo a divulgação da criptomoeda Libra
por Javier Milei como parte de um ambiente em que política, mercado financeiro
e plataformas digitais passaram a dialogar de maneira inédita.
No
Brasil, menciona campanhas de arrecadação por PIX, venda de produtos ligados ao
bolsonarismo e outras iniciativas que ajudam a ilustrar como comunidades
altamente mobilizadas podem se transformar também em mercados consumidores.
Mas
Castro Rocha faz uma ressalva importante: sua hipótese não se limita a discutir
corrupção ou ilegalidades. O foco está em compreender uma transformação
estrutural: a política contemporânea passou a operar em um ambiente
profundamente influenciado pela financeirização da economia e pelos mecanismos
de monetização característicos das plataformas digitais. Essa mudança, segundo
ele, altera não apenas a forma de fazer campanha, mas também os incentivos que
organizam parte da disputa política contemporânea.
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Uma hipótese para compreender o presente
Ao
longo das últimas duas décadas, tornou-se comum interpretar o crescimento da
extrema direita a partir de seus discursos, de suas pautas morais ou de sua
capacidade de produzir desinformação. Esses elementos continuam sendo
fundamentais para compreender o fenômeno.
A
hipótese formulada por João Cezar de Castro Rocha, porém, convida a deslocar o
foco da análise. Em vez de observar apenas o conteúdo das mensagens, ele propõe
olhar para os incentivos que mantêm esse sistema funcionando. Em outras
palavras, perguntar não apenas o que é dito, mas por que determinados discursos
continuam sendo produzidos e quais mecanismos permitem que permaneçam
mobilizando milhões de pessoas.
Essa
mudança de perspectiva ajuda a explicar um aspecto que frequentemente escapa ao
debate público. Se a polarização fosse apenas uma estratégia eleitoral, ela
provavelmente perderia força após cada eleição. O que se observa, porém, é
justamente o contrário: as disputas continuam, novos conflitos substituem os
antigos, a produção de conteúdo não desacelera e as comunidades permanecem
mobilizadas. É como se a campanha nunca terminasse.
Na
interpretação de Castro Rocha, isso acontece porque a guerra cultural deixou de
ser apenas uma ferramenta para conquistar votos. Ela passou a operar em um
ambiente no qual conflito, atenção e monetização se reforçam mutuamente,
mantendo um ciclo permanente de engajamento e mobilização.
Isso
não significa que toda polarização decorra exclusivamente dessa lógica. Para
João Cezar de Castro Rocha, trata-se de uma hipótese construída a partir do
avanço transnacional da extrema direita e das transformações da economia
digital. Em vez de substituir outras formas de análise, ela acrescenta uma
dimensão ainda pouco explorada: a relação entre guerra cultural, economia da
atenção e financeirização da política.
Em um
momento no qual redes sociais ocupam um papel na vida pública, influenciadores
disputam espaço com partidos tradicionais e comunidades políticas permanecem
ativas durante todo o ano, essa hipótese oferece uma nova leitura para
compreender por que determinados conflitos parecem nunca se encerrar.
Fonte:
Por Leila Cangussu, em ICL Notícias

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