A
dois meses da eleição, Brasil enfrenta crises diplomáticas inéditas com EUA e
Argentina
A dois
meses das eleições presidenciais, o Brasil enfrenta um momento sem precedentes
nas relações internacionais, com conflitos diplomáticos abertos com dois de
seus mais tradicionais parceiros: Argentina e Estados
Unidos.
No
mesmo dia em que o governo brasileiro decidiu rebaixar o nível das relações
diplomáticas com Buenos Aires, os EUA revogaram
o visto da embaixadora do Brasil em Washington, em mais sinais do
desgaste nas relações entre os países.
Especialistas
ouvidos pela BBC News Brasil classificaram o momento como inédito, tanto pela
gravidade dos últimos acontecimentos, como pela simultaneidade dos fatos.
Na
terça-feira (05/08), após repetidos
ataques do presidente Javier Milei a Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o
Itamaraty informou ao embaixador argetino, Guillermo Daniel Raimondi, que agora
o governo fará tratativas apenas com o encarregado de negócios argentino em
Brasília.
Segundo
diplomatas, com o rebaixamento, Raimondi não deve continuar no Brasil, mas a
decisão brasileira não representa uma expulsão formal.
Também
na terça, o governo de Donald Trump revogou o visto da embaixadora do Brasil em
Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Com isso, a diplomata terá que
solicitar um novo visto para entrar no país, caso saia dos EUA.
O ato,
segundo apurou a BBC, foi em resposta à demora do governo brasileiro em
autorizar o nome indicado pela Casa Branca para chefiar a embaixada americana
em Brasília, Daniel Perez. No rito diplomático, essa autorização é a concessão
de um agrément.
Fontes
ouvidas pela reportagem afirmam que o governo brasileiro não tinha a intenção
de bloquear a indicação de Perez. Contudo, os Estados Unidos anunciaram o nome
do embaixador antes de solicitar formalmente o agrément ao
Brasil, contrariando a praxe diplomática.
Segundo
uma fonte do governo americano ouvida pela BBC News Brasil, a gestão do
republicano ainda avalia novas medidas diplomáticas caso o governo brasileiro
não autorize a nomeação do novo embaixador americano.
Rubens
Barbosa, diplomata aposentado e ex-embaixador em Londres e Washington, afirma
que o Brasil jamais enfrentou uma crise diplomática com os Estados Unidos como
a atual ao longo do período republicano.
Da
mesma maneira, diz, apesar de muitos momentos de tensão e desencontro ao longo
dos anos, a relação diplomática entre Brasília e Buenos Aires nunca havia sido
rebaixada desta maneira, pelo menos nas últimas décadas.
"Partidarismos
e ideologia estáo tendo um papel muito importante em ambas as crises, e isso
não deveria acontecer. A diplomacia existe para resolver questões pontuais, não
agravar a crise", avalia.
Para
Felipe Krause, professor da Universidade de Oxford e coordenador do Programa de
Estudos Brasileiros mantido pela instituição acadêmica britânica, o atual
momento também é sintoma da aliança de líderes conservadores na América do Sul
ao redor de Donald Trump.
"É
um momento gravíssimo para as relações internacionais do Brasil com EUA e
Argentina, e um momento muito grave, infelizmente, para as relações
internacionais na nossa região, nas Américas", diz.
O
analista aponta também para a crescente internacionalização das eleições
brasileiras, com mais declarações de líderes estrangeiros e atenção no
exterior.
"A
internacionalização das eleições e a crescente importância das relações
internacionais e da política externa para o processo eleitoral brasileiro são
bastante inéditos", afirma.
Andreza
Aruska de Souza Santos, diretora do Instituto Brasil da universidade King's
College London, argumenta ainda que as atuais crises, embora inéditas até pela
sua simultaneidade, não chegam a ser uma surpresa.
"E
o Brasil já vem diversificando ou tentando as suas relações e parcerias
internacionais. A extrema direita está mais organizada mundialmente, resta
saber como governos progressistas vão se apoiar, as respostas não tem sido tão
coordenadas como tem sido a aliança da extrema direita internacional",
afirma.
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'Pior momento entre Brasil e Argentina desde os anos 70'
A crise
atual entre Brasil e Argentina foi impulsionada por comentários feitos por
Milei durante o evento de lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à
Presidência da República em São Paulo no mês passado.
Na
ocasião, o presidente argentino criticou Lula e suas políticas sociais e chamou
o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de "lixo
careca".
O
magistrado havia negado um pedido de Milei para visita a Jair Bolsonaro (PL),
que está em prisão domiciliar.
Logo
após as declarações, o Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador
da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para "transmitir a repulsa"
do governo brasileiro.
O
embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, também foi chamado para
prestar esclarecimentos ao Itamaraty sobre a relação entre os dois países.
A
convocação de um embaixador estrangeiro para uma conversa com o chanceler é uma
medida séria nas relações internacionais e uma demonstração de desagrado com a
outra nação.
E
chamar um embaixador brasileiro que está em missão no exterior para consultas,
como fez o Itamaraty, também demonstra, na linguagem diplomática, enorme
descontentamento com o país anfitrião.
Na
semana seguinte, porém, Milei voltou a fazer duras críticas a Lula, chamando o
brasileiro de "ladrão" e "corrupto" durante um programa de
televisão argentino no domingo (02/08).
"Ele
foi solto [da prisão] devido a um erro processual. Ele não é inocente",
disse Milei, em referência à condenação de Lula na operação Lava Jato, que foi
anulada em 2021.
O
presidente argentino defendeu suas declarações anteriores sobre Lula e disse
que foram dadas de forma espontânea. "Eles falam sobre interferência
política na região. Se alguém está interferindo politicamente na região, é
Lula, contaminando tudo com as ideias imundas do socialismo."
A
resposta brasileira veio nesta terça, com o rebaixamento das relações. Segundo
o jornal Folha de S.Paulo, Raimondi teria sido convocado ao Itamaraty, onde
recebeu a informação de que poderia voltar para casa.
Já o
jornal argentino Clarín reportou que Bitelli, que está em Brasília desde 26 de
julho, não voltaria a Buenos Aires, pois o governo decidiu manter apenas um
encarregado de negócios enquanto persistirem os ataques de Milei.
Para
Felipe Krause, o atual momento pode ser classificado como "o pior ponto
das relações entre Brasil e Argentina desde o final dos anos 70".
"É
um momento gravíssimo", diz. "Mas é positivo que o lado argentino
tenha decidido não fazer uma retaliação e tenha mantido o embaixador em
Brasília para tentar normalizar as coisas."
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Uma medida 'agressiva' dos EUA
O
desgaste entre os governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva começou
ainda no início do mandato do presidente americano, em janeiro de 2025.
As
diferenças ideológicas entre os dois líderes, somadas à proximidade de Trump
com o ex-presidente Jair Bolsonaro, criaram um ambiente de crescente tensão
diplomática. Desde então, sucessivos episódios de atrito contribuíram para
aprofundar a crise entre Brasília e Washington.
O mais
recente, porém, é visto por especialistas como inédito e um precedente
perigoso.
"Nunca
houve isso [a revogação do visto da embaixadora] na história do Brasil na
relação com os Estados Unidos", disse o ex-embaixador Rubens Barbosa à BBC
Brasil.
A
revogação do visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Ribeiro Viotti segue
uma troca de acusações entre os dois países em torno da aprovação do novo chefe
da embaixada dos EUA em Brasília.
Daniel
Perez foi indicado por Trump para o posto em 1º de junho, mas ainda não teve
seu nome aprovado pelo governo brasileiro.
Diante
de relatos não confirmados publicados pela imprensa brasileira de que a
avaliação da indicação seria deixada para depois das eleições presidenciais de
outubro, o governo americano reagiu e acusou o Brasil de tentar interferir em
processos internos.
Em
nota, o governo brasileiro repudiou a decisão dos EUA e afirmou que as
justificativas apresentadas pelo Departamento de Estado são falsas.
O
Itamaraty disse que Washington rompeu a praxe diplomática ao anunciar o
indicado para a embaixada em Brasília antes de solicitar formalmente o agrément e
afirmou que não há prazo definido para a concessão da autorização.
O
governo também acusou os EUA de adotar medidas hostis contra o Brasil e de
tentar interferir nas eleições do país.
"A
decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de
medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com
uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo. Fica óbvio
também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para
presidente", diz um trecho da nota.
Além de
adiar a aprovação de Perez, o Itamaraty recusou, no mês passado, pedidos de
visto de Riley Barnes e Samuel Samson, funcionários do Departamento de Estado
dos Estados Unidos, após o jornal The Washington Post ter publicado uma
reportagem afirmando que a visita ao Brasil poderia ser utilizada para levantar
suspeitas sobre a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.
Barnes
e Samson visitariam Brasília de 27 a 30 de julho para se reunirem com
autoridades governamentais, líderes religiosos e representantes da sociedade
civil para discutir a integridade eleitoral, a liberdade religiosa e a
liberdade de expressão.
Para
Rubens Barbosa, foi um problema o governo americano ter ignorado o rito normal
da diplomacia e ter anunciado seu novo embaixador para o Brasil sem antes ter
solicitado o agrément ao governo brasileiro.
"Na
praxe diplomática, a forma é importante. A primeira coisa que têm que fazer é
pedir o agrément", destaca.
"E
o agrément demora uns 30 dias. Então, é uma forçação um pouco
de barra para antecipar a chegada do embaixador aqui", continuou.
Mas
segundo o diplomata, a ação americana é resultado de meses de troca de farpas e
acusações mútuas, não apenas de um conflito em torno da nomeação de oficiais em
missões no exterior.
"Houve
uma evolução gradual da crise político-diplomática", disse, citando
acusações feitas por Trump contra Lula e um artigo do presidente brasileiro
publicado no jornal americano Washington Post no final de julho.
Felipe
Krause, professor em Oxford, classifica ainda a medida americana recente contra
o Brasil como "agressiva", mas ao mesmo tempo "bizarra".
"O
movimento de expulsar um diplomata é considerado muito grave, mas é algo já
conhecido", diz.
"Agora
revogar o visto, apesar de menos grave, é algo bem estranho", aponta.
"Parece que eles tentaram buscar um meio-termo para mandar uma mensagem
[para o Brasil]."
"De
toda forma, é uma medida muito agressiva."
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O futuro das relações
Mas o
que esperar a partir de agora?
Para
Rubens Barbosa, as relações tanto com os EUA quanto com a Argentina devem se
normalizar após as eleições de outubro, pois existem muitos interesses
econômicos e financeiros em jogo que precisam ser levados em conta.
"Isso
vai continuar até a eleição e depois os países vão ter que se ajustar ao novo
governo, seja qual for", diz o diplomata.
E
quando se trata do governo argentino, diz Barbosa, é preciso relevar algumas
das declarações e posturas de Javier Milei, que é conhecido por seu
comportamento errático.
"Ele
tem um estilo meio desvairado, não tem o que fazer", diz o ex-embaixador.
"O Brasil precisa colocar isso em perspectiva, sem dramatizar."
Já
Felipe Krauser aposta mais na normalização das relações com a Argentina do que
com os Estados Unidos.
Segundo
o especialista, Buenos Aires tem muito a perder se afastando do Brasil,
especialmente considerando os laçõs comerciais históricos e a ligação por meio
do Mercosul.
"Brasil
e Argentina tem um relacionamento histórico e econômico muito importante,
comparitlham uma fronteira, participam do Mercosul e de diversos outros
mecanismos regionais bilaterais importantíssimos", aponta. "A relação
tende a melhorar e os argentinos já estão demonstrando interesse."
Por
outro lado, argumenta Krauser, o governo Trump "tem menos a perder".
"Claro
que existe investimento americano pesado no Brasil e interesses financeiros e
econômicos em jogo que fazem pressão para manter a relação, mas eles têm menos
a perder e estão jogando pesado agora em busca de mais uma vitória na América
Latina com a eleição de mais um governo pró-Trump na nossa região."
Fonte:
BBC News Brasil

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