O
dilema argentino — modelo dato-exportador ou soberania digital
“Prezadas
amigas e amigos,
Saudações
da Oficina Nuestra América do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.
Este
mês nos encontramos envolvidos em bravatas incomparáveis, que nos levaram de um
extremo ao outro na escala das emoções. Ainda sofremos junto às nossas
companheiras e aos nossos companheiros da Venezuela, que seguem lutando para se
reerguer após o devastador terremoto em La Guaira.
A Copa
do Mundo teria sido um cenário incrível para impulsionar uma campanha de
solidariedade de espírito humanista, mas esta é a Copa dos milionários, com
ingressos que custam milhares de dólares, seus sistemas de apostas on-line e o
individualismo característico de um capitalismo desenfreado.
Aliás,
a Rússia não participou devido às sanções impostas contra o país em razão da
guerra na Ucrânia, mas o genocida Trump desfilou com arrogância, limpando os
sapatos sobre a cabeça do presidente da FIFA enquanto anunciava novos
bombardeios ao Irã. A destacada atuação dos países do Sul Global, o título
conquistado pelo jovem Lamine Yamal, que não se esqueceu da Palestina, e o
desdém da zaga central argentina em relação a Trump durante a cerimônia de
entrega das medalhas, entre outros acontecimentos, reforçam a mensagem
insurgente da resistência: “As Malvinas são argentinas”, dizia a bandeira
exibida pelos hermanos após a vitória épica sobre a Inglaterra.
Enquanto
isso, no Brasil e na Argentina, o Instituto Tricontinental tem impulsionado a
agenda da Inteligência Artificial, com os olhos voltados para o futuro, como
indicamos em nosso Dossiê nº 100, O Futuro. A visita do companheiro chinês Jeff
Xiong em terras latino-americanas permitiu-nos explicar o motivo pelo qual é
importante estarmos na vanguarda desse desenvolvimento inevitável, mas também
por que é fundamental ir além dos tentáculos do Vale do Silício. O modelo das
corporações estadunidenses busca nos conduzir ao abismo do passado, ao período
em que nossos países eram presas dos imperialismos e de um capitalismo
devastador de nossos bens comuns. Aquele Modelo Agroexportador iniciado no
final do século XIX — e que, aliás, jamais foi completamente superado — procura
renascer, um século e meio depois, sob a forma do Modelo Dado-Exportador. Sim,
os dados: o fator de produção cada vez mais valorizado na era das plataformas e
do capitalismo tech. Naturalmente, em todas as reuniões que tivemos com Jeff — com
pesquisadores, parlamentares, gestores públicos, sindicatos e jornalistas —
nunca faltou a pergunta: “Não estaríamos apenas trocando uma coisa pela outra?”
Vejamos
o caso da Argentina mais uma vez — que sociedade fascinante! No mesmo dia em
que as ruas se enchiam de jovens gritando “Quem não pula é inglês!”, o partido
A Liberdade Avança, do presidente Javier Milei, tentava aprovar no Congresso um
projeto de lei que eliminava os limites para a compra de terras por
estrangeiros, especialmente em áreas de fronteira. A oposição ao projeto foi
fragmentada e frágil, mas ainda assim conseguiu adiar sua votação para o
próximo dia 6 de agosto. Nesse processo, sem deixar de celebrar o avanço da
seleção de futebol, pesquisadores que impulsionaram o Observatório de Terras
assumiram a tarefa de desenvolver uma pedagogia sobre o colonialismo
libertário. Eles explicam que a atual discussão sobre a revogação de
dispositivos das Leis de Terras e de Glaciares ocorre em um país que já
entregou cerca de 13 milhões de hectares — aproximadamente 5% de seu
território, uma área equivalente à da Inglaterra — ao controle estrangeiro.
Além disso, enfatizam o fato de que a verdadeira dimensão do fenômeno aparece
em escala local, nas regiões onde se concentram cursos d’água, aquíferos ou
jazidas de minerais estratégicos. Em departamentos como General Lamadrid, na
província de La Rioja, mais da metade do território já pertence a proprietários
estrangeiros. O que aconteceria se nem mesmo esses limites existissem?
E o que
a terra tem a ver com a Inteligência Artificial? A resposta é: Peter Thiel. À
primeira vista parece estranho, mas faz sentido. Thiel é um dos investidores
mais influentes do Vale do Silício, cofundador do PayPal, primeiro investidor
externo do Facebook e fundador da Palantir, empresa de vigilância e análise de
dados que opera registros dos 45 milhões de argentinas e argentinos. Mas ele
também é um ideólogo: defensor do liberalismo extremo, do antiestatismo e da
separação radical entre democracia e liberdade. Foi por isso que abraçou Milei
em Davos e na Califórnia, chamando-o de “verdadeiro libertário”. Para Thiel, a
Argentina de Milei apresenta-se como um laboratório para sua distopia de
ocupação territorial e digital. Não por acaso, voltou a encontrá-lo em Buenos
Aires há poucas semanas: chegou, comprou uma das mansões mais caras da cidade e
apresentou ao presidente e ao seu ministro da Desregulamentação, Federico
Sturzenegger, um projeto de reforma da Lei Geral das Sociedades, que inclui as
chamadas “sociedades automatizadas” e “corporações não humanas”. As DAOs
(Organizações Autônomas Descentralizadas) são entidades governadas por
blockchain, sem mediação humana, e esse projeto do governo busca
reconhecer-lhes personalidade jurídica plena.
Mas o
desenho imperial é ainda mais complexo. Dias antes, Milei havia enviado outro
projeto de lei — já estamos falando de pelo menos três iniciativas — que passou
a ser conhecido como “Super RIGI”. Trata-se de um regime ampliado de incentivos
voltado especificamente para infraestrutura tech, data centers e investimentos
em Inteligência Artificial. A chamada “Lei de Bases”, aprovada em 2024, já
havia criado o RIGI original, cujo artigo 174 isenta os projetos de data
centers das restrições previstas na Lei de Terras. O circuito é lógico: terra → data centers → corporações
não humanas. Esse é o núcleo
do Modelo Dado-Exportador do século XXI.
Sem
disfarces, foi assim que Milei e Sturzenegger apresentaram essa proposta em um
artigo publicado no mês passado no Financial Times. Ali, esses representantes
das big tech à frente do governo argentino defenderam a necessidade de
libertar-se da “mão mortal” da regulação estatal, advogaram por um país
administrado por empresas “sem seres humanos responsáveis” e, em sua fascinação
desenfreada pelas injustiças históricas do capitalismo, lançaram a seguinte
consigna: “Que Buenos Aires se torne para a IA o que Amsterdã foi para a era
das navegações: o lugar onde a imaginação jurídica encontrou o momento
tecnológico, e o mundo mudou”, escreveram. Segundo eles, a máquina e a pessoa
jurídica constituíram a “dupla hélice da prosperidade moderna”.
Ao nos
conduzirem de volta ao passado, esses “verdadeiros libertários” não
economizaram nos exemplos: a Companhia Holandesa das Índias Orientais seria o
farol que ilumina seu caminho para o futuro. E o que foi essa companhia, que
disputou em ambição e crueldade com as companhias inglesa e francesa tanto no
Ocidente quanto no Oriente? No século XIX, Karl Marx utilizou o caso da
Companhia Inglesa das Índias Orientais para estudar a maneira como o capital
comercial e o Estado monárquico se fundiram em uma estrutura monopolista que,
primeiro, transformou uma empresa mercantil em um poder corporativo militar e
territorial, com exército e marinha próprios, para depois sucumbir à corrupção
interna, às guerras custosas e ao endividamento excessivo. Marx abordou essa
questão em diversas ocasiões, especialmente ao tratar da violência como
“potência econômica” e ao recordar que o sistema de colonização holandês não
foi senão “um quadro insuperável de traições, subornos, assassinatos e
infâmias”.
Não por
acaso, enquanto alguns hoje optam por erguer as bandeiras dessa história de
abusos e violência, outros lembram que até mesmo Adam Smith criticou duramente
o papel dessas companhias e que elas representam antecedentes não tão distantes
das empresas que atualmente violam os direitos humanos. Em última instância,
foi a pilhagem colonial, o retorno da escravidão em escala global e o
desenvolvimento da guerra — e não uma suposta inovação jurídica — que
impulsionaram o capitalismo naquele período.
Existe
alternativa? Sempre.
Devemos
recordar que o modelo agroexportador foi substituído, após um processo de
transformações econômicas e de lutas sociais, pelo modelo industrial. Já
sabemos do que se trata. Devemos trocar uma coisa pela outra? A Inteligência
Artificial, a tecnologia, não é um fenômeno puramente técnico nem uma
ferramenta neutra de “modernização”: trata-se de um processo de transformação
global que exige, com urgência, intervenção do Estado, infraestrutura,
regulação e combate à opacidade no tratamento dos dados e à criação de vieses
racistas, belicistas e consumistas. Também — como nos propõe Jeff Xiong — exige
formação especializada e uma ampla campanha de alfabetização digital. Em poucas
palavras: soberania digital.
Estamos
à altura desse desafio na América Latina? Se o grito “As Malvinas são
argentinas” é capaz de nos comover para além de uma inesquecível vitória no
futebol, que ele também sirva de farol para a defesa de nossas terras, de
nossos dados e para a construção de uma vida digital soberana: o ser humano
sempre em primeiro lugar.
Saudações,
¨
Megarreforma econômica de Kast avança no Chile e encerra
tramitação legislativa
O
Senado do Chile aprovou nesta terça-feira (04/08) o relatório da comissão mista
sobre a megarreforma econômica do governo de José Antonio Kast, com 27 votos a
favor e 22 contra, destravando o último ponto de divergência entre as duas
casas do Congresso.
Com
isso, o projeto conclui sua tramitação legislativa. A proposta agora segue para
os vetos presidenciais e o pronunciamento do Tribunal Constitucional sobre
recursos apresentados pela oposição.
O
acordo definiu uma compensação de $110 bilhões de pesos ao Fundo Comum
Municipal e mais $80 bilhões destinados diretamente aos municípios – o item que
travava a votação desde julho.
Batizada
de Ley de Reconstrucción Nacional y Desarrollo Económico y Social, a reforma é
o principal projeto econômico do governo Kast, que assumiu em março de 2026
prometendo um programa de emergência para reativar uma economia
estagnada.
O texto
prevê a redução gradual do imposto corporativo, de 27% para 23% até 2029. O
projeto também inclui a reintegração do sistema tributário, permitindo que
empresas descontem impostos já pagos, e a criação de um regime de estabilidade
tributária para grandes investimentos.
Uma das
normas mais controversas do pacote permite que empresas exijam indenização do
Estado sempre que um tribunal revogar uma Resolução de Qualificação Ambiental
(RCA).
O
Executivo já trata a aprovação como sua primeira grande vitória legislativa
desde que assumiu a Presidência, e Kast prepara um pronunciamento em cadeia
nacional.
Inspiração
em política econômica de Milei
Organizações
da sociedade civil têm criticado duramente a proposta. Em julho deste ano, a
Central de Trabalhadores (CUT) se posicionou contrária à medida, por acreditar
que a megarreforma irá aprofundar a desigualdade, ampliando as brechas sociais
e debilitando os direitos das trabalhadoras e trabalhadores”.
A
organização ainda classificou o pacote como “um retrocesso para o Chile” e “não
uma modernização”, em contraponto ao discurso do governo. A central acrescentou
que “a história julgará este governo por ter optado por favorecer os grandes
interesses econômicos sobre o trabalho decente e a justiça social”.
A
reforma é a principal aposta econômica de Kast e integra uma agenda que o
próprio governo associa ao modelo do presidente argentino Javier Milei, com
quem o mandatário chileno mantém uma aliança ideológica.
Como o
programa de ajuste de Milei, o pacote chileno reduz impostos e encargos sobre
as empresas e flexibiliza regras trabalhistas, sob a justificativa de atrair
investimentos e destravar o crescimento.
¨
No ano do13º aniversário de sua morte, legado de Chávez
na Venezuela mobiliza comunas diante da intervenção dos EUA
Embora
algumas narrativas queiram dizer o contrário, o chavismo segue sendo uma força
política poderosa na Venezuela, e o pensamento de Hugo Chávez ainda serve de
guia para os revolucionários venezuelanos. Inclusive para os jovens, como
Antonela, de apenas 17 anos, que saiu às ruas no último 28 de julho para
celebrar os 72 anos do nascimento do ex-presidente, falecido em 5 de março de
2013.
“Ele
nos ensinou a amar a pátria como nossa própria vida, porque quem não ama sua
pátria não quer sua mãe, como diz a canção. E ele nos ensinou isso: esse amor
pelo nosso povo, esse amor pela nossa pátria e a cuidar sempre uns dos outros”,
diz a jovem.
O
resgate do legado e da memória do comandante da Revolução
Bolivariana ganhou
um novo sentido em 2026. Em 3 de janeiro, as forças militares dos Estados
Unidos bombardearam o país e sequestraram o presidente Nicolás Maduro e sua
esposa, a deputada nacional Cília Flores.
Menos
de seis meses depois, um duplo terremoto de magnitude superior a 7 graus
sacudiu a região centro-norte do país, deixando milhares de mortos e
desabrigados.
Para
Mariela Machado, militante do movimento de moradia, são os ideais que o
ex-presidente promoveu que darão ao povo as ferramentas para superar as
dificuldades e seguir construindo o socialismo.
“O
legado do comandante tem sido, para nós, o elemento fundamental para resistir a
esta luta à qual o imperialismo nos submeteu. Hoje estamos aqui sem esmorecer.
Não vamos esmorecer. Como disse Martin Luther King, se não podemos
voar, caminhamos. Se não podemos caminhar, corremos. Se não podemos correr,
engatinhamos.
Mas
nunca vamos desfalecer no ideal de construir uma pátria livre, soberana, humana
e que seja uma projeção para o mundo inteiro. Não estamos de joelhos; estamos
sob a intervenção de uma força desumana, capitalista e selvagem, à qual só
interessa nossa riqueza”, afirma Machado.
E foi
com o objetivo de estudar e refletir sobre o pensamento de Chávez à luz do
atual contexto de ingerência externa contra o país que a Universidade da
Comunicação e o Instituto Simón Bolívar reuniram pensadores, lideranças sociais
e políticas na cátedra denominada “De Bolívar a Chávez, a arte de vencer se
aprende nas dificuldades”.
Embora
reconheça a gravidade da intervenção ilegal do governo estadunidense e a
permanente ingerência nos assuntos internos do país, a comuneira e deputada
nacional Noris Herrera avalia que o chavismo permanece sendo a principal força
política do país por um motivo central: não há intervenção que detenha um povo
organizado.
“Este
povo se fez governo desde a chegada do comandante Chávez. Assim ele o definiu,
assim o mantivemos, e hoje isso se vê expresso em todas as comunas do país. É o
povo governando. Isso nos dá esse diferencial importante para garantir que a
pátria siga sendo livre, independente e soberana”, pontua a parlamentar.
“Nós,
as comuneiras e os comuneros, somos essa força viva à qual Chávez encomendou a
pátria, esse poder popular que se expressa na diversidade dos movimentos
sociais, mas que hoje também é governo, acompanha todas as necessidades e
também os sonhos do povo venezuelano em cada uma das mais de 5.400 comunas do
país.”
O que
Chávez teria feito no atual contexto? Essa é a pergunta que fazem seus
seguidores no 13º ano de sua partida e de seu 72º aniversário.
¨
ONU condena sanções dos EUA a Cuba e alerta para risco de
‘Gaza silenciosa’
Especialistas
em direitos humanos das Nações Unidas (ONU) condenaram, nesta quinta-feira (6),
as recentes medidas tomadas pelos Estados Unidos contra Cuba e pediram à comunidade
internacional que atue rapidamente para evitar que uma “Gaza silenciosa” venha
a se formar na ilha.
“Os
alimentos nunca devem ser usados como instrumento de pressão política. Medidas
que, conscientemente, privam uma população dos meios de sobrevivência atentam
contra as garantias mais básicas do direito à vida e prejudicam a essência da
dignidade humana”, afirmaram os especialistas.
<><>
Embargo
No
início desta semana, o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, emitiu uma forte
condenação ao embargo petrolífero de Washington e ao endurecimento das sanções,
classificando a política do governo do presidente norte-americano, Donald
Trump, como “genocídio político”.
Ele
pediu o fim das sanções e do bloqueio petrolífero dos Estados Unidos contra a
ilha e agradeceu aos grupos internacionais que enviaram ajuda humanitária e
suprimentos para o país.
“Que Cuba viva em paz, e que também
vivam em paz os mais nobres do povo norte-americano, que
historicamente lutaram pelos direitos humanos de outros povos, sem esperar
reconhecimento e muitas vezes enfrentando perseguição, prisão e riscos à
própria vida”, disse ele.
<><>
Entenda
A crise
econômica sem precedentes na ilha levou várias empresas internacionais,
especialmente nos setores de turismo e financeiro, a encerrarem operações em
Cuba.
Além de
apagões recorrentes, o esgotamento do estoque de combustível provocou falhas na
rede elétrica em nível nacional. O transporte público do país também ficou
paralisado e o ano letivo foi encurtado por falta de combustível.
Washington
culpa o governo cubano pela má gestão econômica e pela falta de investimento.
Fonte: Por
Alejandro Jasinski, no Instituto Tricontinental/Opera Mundi/Diálogos do Sul
Global

Nenhum comentário:
Postar um comentário