quinta-feira, 6 de agosto de 2026

“O Iêmen imobilizou a Arábia Saudita no Mar Vermelho”, diz Pepe Escobar

A entrada das forças iemenitas em uma nova etapa do conflito no Oriente Médio colocou a Arábia Saudita diante de uma grave vulnerabilidade econômica e militar. Ao restringir a navegação de embarcações sauditas pelo estreito de Bab al-Mandeb, o movimento Ansar Allah passou a ameaçar uma das principais rotas utilizadas por Riad para exportar petróleo aos mercados asiáticos.

A avaliação foi feita pelo jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar, em vídeo publicado no canal Pepe Café no YouTube. Segundo ele, a decisão iemenita não representa um bloqueio indiscriminado do Mar Vermelho, mas uma operação direcionada contra os interesses sauditas, concebida para obrigar o reino a suspender as restrições impostas ao Iêmen há mais de uma década. O anúncio de ações contra a navegação saudita e os confrontos registrados na região também foram noticiados por outros veículos nos últimos dias.

“O Iêmen não bloqueou Bab al-Mandeb. Ele bloqueou Bab al-Mandeb para a Arábia Saudita”, afirmou Escobar. Na interpretação do jornalista, a medida demonstra a capacidade das forças iemenitas de selecionar seus alvos e utilizar a posição estratégica do país como instrumento de pressão política.

O estreito de Bab al-Mandeb liga o Mar Vermelho ao golfo de Áden e ao oceano Índico. Trata-se de uma passagem fundamental para o comércio internacional, especialmente para navios que utilizam o Canal de Suez. Qualquer interrupção prolongada nessa rota pode elevar os custos do transporte marítimo, dos seguros e das entregas de petróleo.

A estratégia atinge diretamente o porto saudita de Yanbu, localizado na costa do Mar Vermelho. O terminal recebe petróleo transportado pelo oleoduto Leste-Oeste, que atravessa a Arábia Saudita desde as regiões produtoras próximas ao Golfo Pérsico. A estrutura permite que Riad exporte parte de sua produção sem depender do estreito de Ormuz.

Escobar sustenta que o bloqueio iemenita reduz justamente essa alternativa. Caso os petroleiros não possam seguir de Yanbu em direção ao sul, atravessando Bab al-Mandeb, as embarcações podem ser obrigadas a buscar rotas mais longas ou permanecer nos portos sauditas.

“Vocês revogam o bloqueio, e a gente revoga o nosso bloqueio. Caso contrário, vocês continuarão bloqueados e não vão exportar petróleo pelo Mar Vermelho”, resumiu o jornalista ao descrever a mensagem que, em sua avaliação, foi enviada pelos iemenitas a Riad.

O efeito não se limita à impossibilidade física de navegar. A elevação dos riscos militares também encarece ou inviabiliza os seguros marítimos. Sem cobertura adequada, armadores e empresas transportadoras podem se recusar a deslocar grandes petroleiros pela região, mesmo quando a passagem ainda for tecnicamente possível.

Outra possibilidade seria conduzir as embarcações pelo Canal de Suez, atravessar o Mediterrâneo e contornar todo o continente africano pelo cabo da Boa Esperança antes de retornar ao oceano Índico. A operação, porém, ampliaria significativamente o tempo da viagem, o consumo de combustível e os custos logísticos.

“É um abacaxi gigantesco para o mercado global de petróleo”, declarou Escobar.

Segundo o jornalista, a ação de Ansar Allah foi precedida por um ataque saudita ao aeroporto de Sanaa. Escobar relatou que um avião iraniano da companhia Mahan Air, que transportava cidadãos iemenitas, teria sido impedido de pousar depois que a pista foi bombardeada.

O piloto teria desviado a aeronave para Hodeidah, na costa do Mar Vermelho, onde conseguiu aterrissar após uma manobra de emergência. Para Escobar, o episódio provocou forte repercussão entre os iemenitas e levou as forças de Ansar Allah a preparar uma resposta em escala superior.

“Eles bombardearam o nosso aeroporto. Então, vamos responder um degrau acima”, disse o analista ao reconstruir o raciocínio atribuído à liderança iemenita.

A resposta teria começado com ataques contra instalações sauditas e avançado posteriormente para o bloqueio direcionado da navegação. Na leitura de Escobar, a medida possui dois objetivos simultâneos: pressionar a Arábia Saudita a suspender o cerco ao Iêmen e dificultar uma ofensiva mais ampla dos Estados Unidos contra o chamado Eixo da Resistência.

Esse eixo reúne forças e organizações alinhadas ou próximas ao Irã, como Ansar Allah, no Iêmen, o Hezbollah, no Líbano, e grupos que integram as Forças de Mobilização Popular no Iraque. Segundo o jornalista, os serviços de inteligência iemenitas teriam identificado preparativos norte-americanos para atacar diferentes integrantes dessa articulação regional.

“Os iemenitas abriram um novo front e esvaziaram uma ofensiva americana contra o Eixo da Resistência”, afirmou.

Escobar argumenta que a abertura de uma frente no Mar Vermelho obriga Washington e seus aliados a distribuir recursos militares e políticos por uma área mais extensa. A estratégia também aumenta a pressão de países exportadores de petróleo e de governos preocupados com os efeitos da guerra sobre os preços da energia e sobre o comércio internacional.

Na avaliação do jornalista, as forças iemenitas demonstraram nos últimos anos que ataques aéreos e operações navais conduzidos pelos Estados Unidos não foram suficientes para impedir o lançamento de mísseis e drones contra embarcações na região.

“Não há como a Marinha americana impor sua vontade no Mar Vermelho contra os mísseis e drones das Forças Armadas do Iêmen”, declarou.

O analista também ressaltou que o bloqueio seria seletivo. De acordo com as informações apresentadas por ele, navios sauditas transportando petróleo destinado à China poderiam receber autorização para atravessar Bab al-Mandeb, em razão da relação histórica mantida entre Pequim e as autoridades de Sanaa.

A diferenciação reforçaria o caráter político da operação. Em vez de interromper todo o comércio marítimo, os iemenitas estariam preservando relações consideradas estratégicas e concentrando a pressão sobre a Arábia Saudita e outros parceiros dos Estados Unidos.

Escobar afirmou ainda que as forças iemenitas podem ampliar os ataques contra refinarias, terminais e contra o próprio oleoduto Leste-Oeste. Caso essa infraestrutura seja atingida, Riad não enfrentaria apenas dificuldades para embarcar o petróleo, mas também para transportá-lo das regiões produtoras até a costa do Mar Vermelho.

“Se vocês continuarem assim, nós vamos bombardear o oleoduto. Aí vocês nem terão petróleo para exportar”, afirmou o jornalista ao reproduzir a advertência atribuída aos iemenitas.

Para Escobar, a capacidade de ameaça decorre da experiência adquirida pelo Iêmen durante anos de guerra. Desde 2015, uma coalizão liderada pela Arábia Saudita realiza operações militares no país após Ansar Allah conquistar Sanaa e assumir o controle de amplas áreas do norte iemenita.

O jornalista recordou ter visitado Sanaa e Saada e relatou ter visto universidades, hospitais e outras estruturas atingidas durante os bombardeios. Segundo ele, a destruição acumulada não eliminou a capacidade de organização política e militar do movimento.

“Os iemenitas estão acostumados à barra mais pesada possível em termos de bombardeio, intimidação, sanções e bloqueio”, afirmou.

A nova ofensiva também se conecta, segundo Escobar, à guerra entre Estados Unidos e Irã. O jornalista avalia que as ações iemenitas aumentam os custos econômicos da escalada e podem ampliar a pressão sobre o governo norte-americano para que retome as negociações com Teerã.

Escobar disse que Paquistão, Omã e Catar atuam como mediadores e tentam reconstruir uma via diplomática. De acordo com as informações apresentadas por ele, autoridades iranianas aceitariam retomar as conversas desde que Washington cumpra compromissos anteriores e adote medidas concretas para restabelecer a confiança.

Entre as exigências estariam a liberação de recursos iranianos congelados no exterior, algum alívio das sanções econômicas e entendimentos relacionados à circulação pelo estreito de Ormuz. Somente depois dessas etapas Teerã aceitaria discutir novamente seu programa nuclear.

“Os iranianos não abandonam a diplomacia, mas impõem suas condições. Diplomacia, sim, desde que haja confiança e respeito mútuos”, declarou.

O principal impasse, segundo Escobar, é que os Estados Unidos pretendem iniciar as negociações pelo tema nuclear e condicionar qualquer concessão econômica à aceitação das exigências de Washington. O Irã, por sua vez, considera necessário que medidas de confiança sejam adotadas antes de uma nova rodada de negociações.

Embora veja poucas chances de acordo imediato, o jornalista afirmou que a atuação dos mediadores ainda mantém aberta uma pequena possibilidade de evitar uma nova escalada.

“A única notícia minimamente auspiciosa é que existe uma janela de oportunidade para trazer os americanos de volta à mesa”, disse.

Na avaliação de Escobar, a ofensiva iemenita reforça a transformação do equilíbrio regional. Um país submetido durante anos a bombardeios e restrições passou a controlar uma passagem marítima capaz de interferir diretamente nas exportações de uma das maiores potências petrolíferas do mundo.

Ao atingir a alternativa saudita ao estreito de Ormuz, Ansar Allah vincula as duas principais rotas energéticas da região. Riad passa a enfrentar riscos tanto no Golfo Pérsico quanto no Mar Vermelho, enquanto os custos econômicos de uma guerra prolongada se espalham para os mercados globais.

“O novo front iemenita influi diretamente na economia americana e na economia global”, concluiu Escobar.

¨      Arbaeen leva milhões de xiitas ao Iraque sob tensão da guerra no Oriente Médio

Eram 7h da manhã de 29 de julho quando a reportagem de Opera Mundi desembarcou no aeroporto de Bagdá. O local costuma ter um fluxo de passageiros reduzido devido à recente abertura do Iraque a nacionalidades estrangeiras após um período de isolamento internacional marcado por disputas territoriais com o grupo terrorista Estado Islâmico (ISIS). Na ocasião, porém, o terminal de desembarque encontrava-se cheio de viajantes ao chegar à capital iraquiana.

Na quinzena que antecede o Arbaeen, feriado religioso xiita, o aeroporto apresenta uma movimentação excepcional de aproximadamente sete a oito mil passageiros por dia, segundo o diretor de Residência e Passaportes do aeroporto internacional de Bagdá, Ahmad Al-Kinani, à mídia estatal INA.

A grande maioria dos passageiros em questão são peregrinos xiitas que vêm ao Iraque para o Arbaeen. O evento está previsto para culminar no dia 4 de agosto deste ano, mas não tem data fixa no calendário gregoriano. Isto ocorre pois o islamismo se baseia no calendário lunar, cuja contagem difere do calendário solar e, por isso, apresenta pequenas variações anuais.

O nome do feriado, em árabe, significa “quarenta” e é marcado pelo quadragésimo dia após a comemoração anual do martírio do Imã Hussein, neto do profeta Maomé, que foi morto na histórica Batalha de Karbala. A prática fúnebre está associada a uma tradição enraizada no islã xiita: a família de Hussein visitava seu túmulo, no local de seu falecimento, somente após 40 dias de luto. Segundo a tradição que acompanha esta vertente da religião, este é o período necessário, por meio de orações, para que a alma do falecido entre em estado de paz. Esse costume não ocorre em outras vertentes do islã, como o sunismo.

O significado por trás da Batalha de Karbala, que marca o xiismo enquanto vertente religiosa, repousa no combate à injustiça e corrupção. O contexto do confronto se baseia na decisão do Imã Hussein de não se curvar perante a liderança do califa Yazid I, que herdou o poder do califado Omíada de forma hereditária, violando a regra de sucessão que, até então, era baseada em mérito, consulta pública e eleição entre os membros mais influentes da comunidade. Os princípios de Hussein são invocados na busca do povo adepto ao xiismo por resiliência, que em face da ofensiva estadunidense, recai nos mesmos princípios refletidos pelo imã: a justiça e responsabilidade perante o poder.

<><> Maior peregrinação do mundo

A peregrinação ocorre da cidade de Najaf até Karbala, onde os fiéis percorrem, a pé, aproximadamente 88 quilômetros por um período estimado de três dias. A caminhada pode partir de cidades mais distantes, como Basra, no sul do país, e durar uma ou duas semanas a mais, mas sempre passando pelo ponto de início oficial, que é Najaf.

A escolha do ponto de partida não é coincidência: Najaf é o lugar onde o Imã Ali, genro do profeta Maomé, descansa no santuário que leva seu nome. O percurso simboliza, portanto, a trajetória de um pai que vai até o filho para pagar tributo à sua vida póstuma.

A reportagem de Opera Mundi se deslocou de Bagdá até Najaf no intuito de acompanhar a peregrinação, que reúne entre 20 e 25 milhões de pessoas, sendo assim, a maior peregrinação anual do mundo. O evento é marcado pela convergência entre tradição e comunidade, representada pela ação conjunta de fiéis que, pela estrada que conecta ambas as cidades, distribuem água, preparam refeições e abrigam os peregrinos em seus lares para passar a noite – tudo gratuitamente. O esforço conjunto ocorre para que todos os envolvidos assegurem a capacidade de cumprir com a missão de pagar tributo a Imã Hussein.

Grande parte dos xiitas presentes vêm do Irã, país no qual a população majoritariamente integra esta vertente da religião. A comemoração ocorre em paralelo à escalada da guerra com os Estados Unidos, que se iniciou oficialmente em 28 de fevereiro deste ano. Na data, o governo de Donald Trump, junto a Israel, bombardeou diversas partes do território iraniano com o pretexto de interromper a continuidade do programa nuclear do país.

<><> Iraque atacado

Ainda na quarta-feira (29/07), em decorrência da retomada dos ataques dos Estados Unidos ao Irã, e a resposta contra bases militares norte-americanas na região, que a coalizão estadunidense-saudita bombardeou instalações das Forças de Mobilização Popular (PMF) em diversas áreas do Iraque, incluindo Bagdá, Basra e Karbala, onde se concentra a peregrinação do Arbaeen.

Os bombardeios mataram 20 membros do grupo paramilitar e deixaram ao menos 32 feridos. O ataque foi reivindicado pelos Estados Unidos como uma resposta às supostas ofensivas com drones do PMF, grupo apoiado pela República Islâmica do Irã, contra tropas norte-americanas no Oriente Médio e estruturas energéticas sauditas. As Forças de Mobilização Popular iraquianas negam qualquer envolvimento nos ataques e classificam a resposta como infundada e passível de retaliação severa.

No dia seguinte, na quinta (30/07), Opera Mundi acompanhou a cerimônia fúnebre que homenageou os mártires das Forças de Mobilização Popular mortos no ataque A homenagem ocorreu em conjunto com o Arbaeen: fiéis se reuniram no santuário Imã Ali, em Najaf, para carregar os caixões dos mártires, em procissão, até o interior da mesquita. Na ocasião, os xiitas ali presentes clamaram em uníssono por justiça e pelo fim das agressões americanas e sionistas na região.

¨      Israel vendeu armas aos Emirados Árabes Unidos após ataque houthi em 2022, apontam documentos

Em janeiro de 2022, os houthis do Iêmen atacaram os Emirados Árabes Unidos com mísseis e drones, atingindo instalações petrolíferas e o Aeroporto de Abu Dhabi, matando três pessoas. Dois meses depois, a empresa israelense Elbit Systems respondeu a um pedido urgente dos Emirados com uma proposta para fornecer seus drones mais avançados.

Segundo o jornal israelense Haaretz, documentos vazados da Elbit revelam discussões sobre a venda de sistemas de armas avançados para os Emirados, evidenciando os laços de segurança forjados após os Acordos de Abraão. Esses laços se intensificaram com a guerra conjunta contra o Irã, incluindo a instalação de baterias do Domo de Ferro em solo emiradense e a visita secreta de Netanyahu ao país.

Os documentos, obtidos por hackers ligados ao Irã, mostram práticas negligentes de segurança, com executivos usando e-mails pessoais para trocar informações sensíveis. Em 2021, a Elbit discutiu com o Ministério da Defesa israelense a venda de drones Hermes 900 e munições SkyStriker para os Emirados, entre outros sistemas.

Após o ataque houthi, os Emirados solicitaram seis drones Hermes 900. A Elbit propôs dois sistemas, cada um com três aeronaves e diversos equipamentos de vigilância, incluindo câmeras, sistemas de interceptação e guerra eletrônica. Cada sistema foi orçado em cerca de US 90 milhões, mas os Emirados queriam expandir para 15 sistemas, um acordo de cerca de US 1,3 bilhão.

Outros documentos revelam uma “lista de desejos” para aeronaves de inteligência e a munição SkyStriker, além de uma proposta para o drone Hermes 650, oferecido antes de seu lançamento oficial. Em 2022, a Elbit anunciou publicamente apenas um contrato de US$ 50 milhões com os Emirados.

Os laços de segurança se fortaleceram após o ataque de Israel e EUA ao Irã, em fevereiro de 2026. O Irã respondeu com mais de 3.000 mísseis e drones contra os Emirados. Israel enviou baterias do Domo de Ferro, um sistema a laser e estabeleceu uma ponte aérea para auxílio militar, enquanto os Emirados também adquiriram sistemas de defesa aérea israelenses.

Um funcionário americano elogiou a relação entre Israel e os Emirados Árabes Unidos, destacando que os Emirados conseguem realizar projetos humanitários em Gaza, como um duto para água dessalinizada, que outros países ou agências da ONU não conseguiriam realizar. A Elbit afirmou que não comenta assuntos comerciais com clientes e que os dados vazados não refletem sua realidade comercial.

 

Fonte: Brasil 247/Opera Mundi

 

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