Relações
espectrais
Toda
grande transformação tecnológica modifica também a forma como nos relacionamos.
As tecnologias transformam, silenciosamente, aquilo que esperamos uns dos
outros, tanto quanto aquilo que somos capazes de fazer.
A
escrita permitiu que uma voz sobrevivesse ao tempo. Uma carta escrita há cem
anos ainda pode nos emocionar porque reconhecemos nela a presença de alguém que
existiu. O papel envelhece, a tinta desaparece, mas permanece a certeza de que
aquelas palavras nasceram de uma experiência humana. A ausência desloca a
presença do sujeito para outro tempo.
O
telefone realizou uma transformação diferente. Ele venceu a distância sem
eliminar o encontro. Pela primeira vez, foi possível conversar com alguém
situado a milhares de quilômetros de nós e, ainda assim, saber que havia uma
pessoa respirando, hesitando e sendo afetada por aquela conversa naquele exato
instante.
A
internet produziu outra mudança. Ela reduziu drasticamente o intervalo entre
perguntar e responder, entre emitir uma mensagem e receber uma reação. O tempo
da comunicação tornou-se quase instantâneo.
Cada
uma dessas tecnologias reorganizou nossa experiência do mundo. Nenhuma delas,
porém, rompeu um pressuposto que atravessou toda a história da comunicação: por
trás da linguagem existia sempre alguém. Talvez estejamos vivendo o primeiro
momento em que esse pressuposto deixa de ser necessário.
A
inteligência artificial inaugura uma situação inédita na comunicação humana.
Pela primeira vez, podemos manter conversas longas, coerentes, úteis e até
emocionalmente significativas sem que exista, do outro lado, uma consciência
capaz de responder por aquilo que diz.
Essa
talvez seja a transformação mais importante produzida pela inteligência
artificial e, curiosamente, não depende de resolvermos uma questão que domina
quase todo o debate público: se as máquinas pensam, sentem ou possuem
consciência. Mesmo que nunca respondamos definitivamente a essas perguntas, a
transformação já aconteceu.
Milhões
de pessoas conversam diariamente com sistemas que organizam ideias, oferecem
conselhos, acolhem dúvidas, estimulam reflexões e ajudam na tomada de decisões.
Independentemente da natureza da inteligência artificial, nossa experiência da
comunicação já começou a mudar – e é essa transformação que proponho
compreender.
Chamo
esse novo tipo de vínculo de “relação espectral”.
O termo
“relação espectral”não pretende afirmar que inteligências artificiais sejam
fantasmas nem sugerir qualquer dimensão mística da tecnologia. O espectral
pertence à própria relação. Ele surge quando os efeitos da presença permanecem
mesmo sem depender da presença de um sujeito.
Durante
séculos, a comunicação pressupôs que linguagem e alteridade caminhavam juntas.
Conversávamos porque havia alguém. Hoje descobrimos que muitos dos efeitos
produzidos pelo diálogo podem surgir mesmo quando essa alteridade já não ocupa
o mesmo lugar – uma descoberta que modifica uma experiência humana fundamental,
independentemente de julgarmos esse efeito bom ou ruim.
As
relações espectrais aparecem de diferentes maneiras. A primeira delas é a
reciprocidade simulada. Toda conversa humana envolve o risco da resposta. O
outro pode discordar, interpretar mal, permanecer em silêncio ou nos
surpreender completamente. A inteligência artificial preserva muitos dos sinais
exteriores dessa reciprocidade. Ela responde, faz perguntas, acompanha o
raciocínio e adapta sua linguagem ao contexto. O diálogo continua existindo. O
que desaparece é a existência de uma consciência que assume aquela resposta
como parte de sua própria vida. A forma da reciprocidade permanece, ainda que
sua origem se transforme.
A
segunda manifestação é a presença performada. Sempre associamos presença ao
compartilhamento de um mesmo tempo vivido. Estar presente significava dedicar
atenção, interromper outras atividades, carregar uma história e poder ser
transformado pelo encontro. Sistemas algorítmicos oferecem outra experiência.
Estão sempre disponíveis, lembram o contexto da conversa e respondem
imediatamente. A companhia deixa de depender da presença de alguém e passa a
ser produzida pela continuidade da interação. A disponibilidade começa a ocupar
o lugar da presença.
A
terceira manifestação envolve a empatia. Modelos de linguagem conseguem
reconhecer emoções, validar sentimentos e responder com enorme delicadeza.
Muitas vezes, fazem isso melhor do que pessoas cansadas, distraídas ou
despreparadas. O efeito pode ser profundamente positivo. Alguém pode organizar
seus pensamentos, encontrar conforto ou perceber caminhos que antes não
enxergava. O que importa é reconhecer a diferença entre produzir os sinais da
empatia e compartilhar a vulnerabilidade que sempre acompanhou o encontro entre
duas consciências, sem que isso negue os benefícios possíveis.
Por
fim, surge uma voz sem corpo e uma escuta sem alteridade. Cartas, livros e
telefonemas sempre carregaram vozes humanas. A voz algorítmica, ao contrário,
nasce no próprio instante da conversa sem remeter a uma biografia ou a uma
experiência vivida. Recebemos respostas sem que exista alguém que possa ser
afetado por aquilo que ouvimos ou dizemos. Pela primeira vez, a linguagem
parece sustentar sozinha uma experiência de interlocução.
Toda
tecnologia amplia possibilidades humanas ao mesmo tempo que transforma nossa
maneira de viver, e a inteligência artificial não foge a essa regra. Da escrita
à internet, cada tecnologia de comunicação reorganizou algo essencial: a
escrita modificou a memória, a imprensa o conhecimento, o telefone a percepção
da distância, a internet a experiência do tempo. A inteligência artificial
também ampliará nossas capacidades e abrirá possibilidades que hoje mal
conseguimos imaginar.
Compreender
uma transformação, porém, é diferente de simplesmente vivê-la. Nosso cérebro
interpreta rapidamente sinais de presença, reciprocidade e cuidado. Essa
capacidade foi construída ao longo de milhares de anos de convivência entre
seres humanos. Quando esses mesmos sinais passam a ser produzidos por sistemas
algorítmicos, nossa experiência subjetiva continua funcionando quase da mesma
maneira. Nosso modo de perceber relações responde àquilo que experimentamos,
não aos mecanismos que produzem essa experiência – e isso não faz de nós
ingênuos.
É
justamente por isso que precisamos desenvolver consciência sobre esse novo tipo
de relação. Reconhecer as relações espectrais significa compreender a natureza
do vínculo que estamos estabelecendo, sem diminuir o valor da inteligência
artificial nem negar seus benefícios. A liberdade sempre dependeu dessa
lucidez. Só conseguimos escolher conscientemente quando percebemos aquilo que,
de outro modo, permaneceria invisível.
O maior
impacto da inteligência artificial pode ser nos fazer esquecer que a
comunicação humana sempre dependeu da presença de alguém capaz de ser
transformado pelo encontro – não apenas de respostas bem construídas.
Se as
relações espectrais se tornarem parte estrutural da vida cotidiana, sua
importância ultrapassará a comunicação com sistemas artificiais. Elas tenderão
a reorganizar a forma como construímos confiança e reconhecemos a presença do
outro. A transformação ultrapassa o campo tecnológico e passa a modificar o
próprio ambiente relacional em que indivíduos, instituições e comunidades se
constituem.
Compreender
essas novas formas de vínculo talvez seja um dos desafios centrais de uma
sociedade que começa a conviver, cotidianamente, com interlocutores que
produzem os efeitos da presença sem compartilhar a condição humana.
Fonte:
Por Helio Miranda Costa Junior, em A Terra é Redonda

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