A
sociedade do excesso
A
pretensão desse texto é discorrer sobre a sociedade do excesso e refinar meu
postulado anterior, presente no ensaio “O sujeito neoalienado” – postado no
site A Terra é Redonda] – e explicitar como a máxima aristotélica de que o
homem é um animal racional perdeu força e deve ser reformulada, visto que fomos
do animal racional ao rato skinneriano.
A
contemporaneidade nos condiciona à neoalienação e nos faz gozar com nossa
imagem de trabalhador-engrenagem-eficiente. Há uso do behaviorismo radical
skinneriano, que aqui é principalmente imagem ilustrativa, com uma apropriação
deliberada de alguns termos caros a Skinner sem que por isso haja uma aceitação
de todos seus pressupostos teóricos. Somado a psicanálise lacaniana, serão os
pilares do que chamo “condicionamento-alienante”, termo que engloba os
mecanismos e discursos que culminam na neoalienação.
O
objetivo é fazer um diagnóstico da contemporaneidade e nada mais. Não há
prognóstico estrutural. Tal qual o médico quando afirma simplesmente que o
paciente tem câncer e se cala em seguida. Não só para deixar o paciente digerir
a notícia, mas também por não saber quais caminhos trilhar a partir daí.
Seguindo a linha filosófica mestra da Escola de Frankfurt, o presente escrito
defende a tese de que nossas plataformas e recursos digitais e tecnológicos,
que supostamente são prova do quanto a humanidade avançou e de nossa
sofisticação, na verdade resultam em nossa alienação e mal-estar.
Byung-Chul
Han foi perspicaz ao dizer que vivemos em uma sociedade do cansaço. De acordo
com o autor, não estamos mais em uma sociedade disciplinar composta por
prisões, hospitais, asilos, presídios etc. descrita por Michel Foucault, mas em
uma sociedade do desempenho. O sujeito contemporâneo é o sujeito do desempenho
e empresário de si mesmo. Nessa dinâmica o indivíduo não adoece pela
negatividade, mas pelo excesso de positividade e produtividade.
Visando
produzir o máximo possível, ele se autoexplora para performar mais e olha para
seu ócio e descanso com repulsa, cujo resultado é uma epidemia de burnout e um
cansaço generalizado.
Mas
Byung-Chul Han não foi longe o suficiente no que tange à alienação
contemporânea. Seu recorte cansativo, embora coerente e coeso, não basta. Pois
a sociedade do cansaço descrita por ele na verdade é uma sociedade do excesso,
na qual o indivíduo não apenas adoece física e mentalmente pelo excesso de
positividade e produtividade. Ele também é condicionado à neoalienação pelo
excesso de informações, estímulos e consumismo. Além de ser um
ser-de-e-para-produção, também é rebaixado à categoria de rato skinneriano.
O
sujeito contemporâneo, portanto, pode ser chamado de “sujeito neoalienado”, que
é aquele que se aliena por se identificar excessivamente com seu trabalho e com
o ato de produzir, somado ao gozar com a própria imagem de
trabalhador-engrenagem-eficiente que é empresário de si. A engrenagem metálica
não tem capacidade de pensar. A engrenagem humana abdica do pensar para gozar
com a sua própria imagem de eficiência. O que não leva em conta é que ela não é
feita de metal ou metal empresarial, mas de carne e ossos. Seu CPF não é CNPJ.
Mais
cedo ou mais tarde, o trabalhador-engrenagem vai ceder e ser esmagado pela
pressão do sistema que ele mesmo ajuda com espírito tão devoto a funcionar. Não
raras vezes, dadas as suas condições socioeconômicas e materiais, reais ou
almejadas, tal sujeito se julga imune a uma perda de si. O que apenas
intensifica esse processo de tornar-se estranho a si mesmo.
Não se
trata apenas de alguém cuja identidade se dissolve e se resume ao trabalho. O
sujeito vai além e goza com a sua própria imagem de ser-de-e-para-produção. Não
raras vezes faz questão de postar seu gozo produtivo e performático nas redes.
Nesses casos, seu modo existencial transcende a esfera da produção e seu
eu-que-produzo se converte no eu-que-posto. Trabalho, produzo, logo existo.
O
cogito cartesiano foi destronado. No centro de todas as coisas não há mais o
sujeito pensante. Sequer há sujeito. Nesse centro colocamos o próprio trabalho.
É necessário repensar a máxima cartesiana. Pois atualmente não é possível
pensar em um eu que não seja o eu-que-produzo. Pois produzo, logo existo.
A
contemporaneidade e sua dinâmica econômico-social inauguram uma nova categoria
ontológica na qual o ser humano não é meramente ser-no-mundo. Mas
ser-para-o-trabalho. Em alguns casos é ser-para-postar.
O
cansaço contemporâneo é sintoma da saturação de positividade e produtividade,
resultando em ansiedade, burnout afins. Porém há outros excessos, os quais
culminam em nossa alienação. Não se trata apenas do conceito de alienação
clássico marxista, mas de uma neoalienação.
Nos
tempos de Marx a forma de organização e produção das sociedades capitalistas
faziam com que o sujeito se tornasse estranho a si mesmo. Não conseguia se
reconhecer no seu trabalho e nem no produto final, pois ele próprio era
mercadoria e as relações sociais não eram relações entre pessoas. Mas entre
coisas. No século XXI, no entanto, a alienação ocorre justamente por tentarmos
tanto nos reconhecermos no que produzimos e em nosso trabalho.
O
discurso neoliberal corrobora a noção de meritocracia, e, somado aos recursos
digitais de nossa era, surge uma neoalienação. Que se diferencia do conceito de
alienação marxista por nos levar a crer que a hiperidentificação com o trabalho
é algo desejável e passível de post. Na medida em que a neoalienação é
consequência da pressão pela produtividade e desempenho na contemporaneidade,
ela se traveste de símbolo e prova de sucesso. Se identificar excessivamente
com o trabalho é selo de civilidade e valor como ser humano.
Em
outros termos, tal identificação é a essência humana nos nossos dias. A
neoalienação é a patologia contemporânea desejada e almejada. Não raras vezes,
postada e compartilhada.
Outros
fatores, como a abundância de estímulos e delegação de nosso pensamento para as
inteligências artificiais contribuem para isso. Há uma nova configuração de
mal-estar que deve ser analisada cuidadosamente.
O
mal-estar em nossa civilização atual não advém tanto da repressão psicológica e
social como era na época de Freud, mas pelo excesso de excessos. Devido a
concepções morais rígidas influenciadas pelo Cristianismo e posições
conservadoras, as massas na época de Freud eram levadas a reprimir seus desejos
e vontades, sobretudo no caso das mulheres. Por não dar vazão suficiente às
suas inclinações mais íntimas, incompatíveis com o moralismo vigente, estas se
convertiam em sintomas físicos.
O
nascimento da Psicanálise se deve essencialmente ao tratamento dos casos de
histeria, patologia cuja gênese é a repressão psíquica. Nos nossos dias, com a
morte de Deus e a crescente liberação sexual, a repressão não desapareceu. Mas
perdeu intensidade e não se pode afirmar que ela é a principal causadora dos
males psicológicos.
É
necessário destacar que nem tudo é excesso. Apenas fatores “abundantes” na
contemporaneidade que, sob o aspecto de avanço cultural, na verdade são
patológicos para uma quantidade expressiva de sujeitos. Na medida em que um
número significativo dos indivíduos contemporâneos não consegue lidar de forma
funcional com um fator que aparentemente é evidência da civilização e
sofisticação, pode-se chamar tal elemento de excesso.
Comecemos
pela saturação de informações. Na Idade Média, mesmo o mais poderoso e rico
monarca não tinha tanto acesso a informações quanto uma criança com um
smartfone qualquer possui hoje em dia. Com alguns toques em seu aparelho
consegue saber das principais notícias e tendências do planeta, além de se
comunicar com pessoas do outro lado do mundo. Tudo isso em meros segundos.
Não são
apenas nossas relações sociais que são líquidas, o que já é muita coisa. Nossa
capacidade de atenção diante de tantas avalanches de informações já se tornou,
ela mesma, líquida. Pode-se chamar esse fenômeno de atenção líquida. Um modo de
atenção fragmentada, decorrente de prestar atenção em várias notícias e dados
no menor espaço de tempo possível, na ânsia de querer estar bem informado e
antenado. A ânsia é tanta que não há margem para se aprofundar em nada. Para
usar um termo que se popularizou graças à disseminação das neurociências,
liquidez cognitiva. É irônico, não?
Quando
se presta atenção em tudo, não se consegue prestar atenção em nada. Se não há
um mínimo de atenção, como pode haver um mínimo de pensamento crítico diante
desse excesso de informações? Os mesmos dados e estímulos que nos dão a
sensação de estar bem informados e engajados no que acontece ao redor do mundo
são os mesmos que nos levam a ter nossa atenção líquida. A mesma atenção
líquida que tende a inviabilizar nosso filtro crítico diante dessas mesmas
informações.
O
indivíduo contemporâneo, diferentemente dos demais ao longo da história, não
sofre tanto uma overdose de álcool ou de outras substâncias, mas uma overdose
digital. Todos os nossos meios de comunicação, somados aos influencers,
streamers etc., produzem mais conteúdo do que somos capazes de consumir e nunca
julgamos que consumimos e assistimos o bastante. Sempre há mais conteúdo sendo
produzido e temos o sentimento que devemos acompanhar esse ritmo. O sujeito do
excesso, tão conectado como se encontra, mal consegue assimilar as novas
tendências, modas e polêmicas que estão em voga, pois elas mudam, renovam e se
transformam mais rápido do que consegue dar conta.
Não se
trata apenas de querer estar engajado, bem informado e nem de um mero
entretenimento. Mas do paliativo digital. As classes mais baixas, especialmente
aquelas que têm pouco poder de consumo e alta carga de trabalho, são as mais
propensas a sofrer essa overdose digital. O ato de rolar o feed do Instagram,
Facebook e TikTok sem sentir o tempo passar é uma forma de lidarem com as
angústias de seu trabalho árduo e pouco recompensador, uma fuga do real.
Se na
época de Marx o ópio do povo era a religião que conseguia aliviar e confortar
as massas com suas doces promessas de vida e recompensa eternas, no século XXI
o TikTok é o ópio do povo. A afirmação não se restringe apenas a esse
aplicativo em específico, mas engloba as mídias e plataformas digitais em
geral. O TikTok, ao contrário da religião, não promete nada tão substancial
quanto as doutrinas religiosas, mas sua dinâmica tem o mesmo efeito: faz com
que o indivíduo não precise e nem queira pensar. Indo além: inviabiliza o
pensamento ao causar uma atrofia intelectual.
Justamente
pelo formato dos vídeos curtos que não dão ao indivíduo a chance de se
aprofundar em assunto algum, o modelo supostamente sintético desses vídeos
rápidos não é o bastante para se inteirar substancialmente de algo. Mas são o
suficiente para potencialmente fomentar o efeito Dunning-Kruger, na qual o
indivíduo, munido de poucas informações acerca de um tema, se julga o
especialista no tópico. Síntese demais pode ser conhecimento de menos.
Em
relação ao fenômeno da atenção líquida e suas consequências, deve-se explicitar
e discorrer sobre a ascensão das inteligências artificiais. O efeito colateral
dessa nova forma de liquidez é o uso disfuncional e nocivo das Inteligências
artificiais, pois é mais cômodo, rápido e produtivo delegarmos nosso esforço e
responsabilidade de pensar para elas.
Aqui, o
pensamento kantiano se faz necessário. Immanuel Kant dizia que para sairmos da
menoridade intelectual é necessário pensar com nossas próprias cabeças e termos
a coragem e ousadia de nos servirmos de nosso próprio entendimento. Ousar fazer
um “uso público da razão”, de nossa própria razão. A responsabilidade de pensar
não deve ser delegada a terceiros. É neste ponto que meus contemporâneos pecam.
Não por falta de entendimento, mas por falta de coragem de se servir de sua
própria razão em detrimento da razão digital.
Ansiosos
por produzir mais em menos tempo, se limitam a dizer ao ChatGPT que faça essa
ou aquela tarefa por ele. Das mais simples e banais até as mais complexas. Em
alguns casos, mal pode-se dizer que há algum intelecto sobrando para ser
exercitado, como o fenômeno brain rot explicita. A automação e delegação
excessiva à Inteligências artificiais fazem com que o sujeito evite tarefas
tediosas ou repetitivas. Por outro lado, ele corre o risco de não exercitar seu
pensamento tanto quanto deveria. Pensar implica lidar com o tedioso.
Uma das
características mais latentes do indivíduo contemporâneo é sua capacidade de
desafiar a máxima de que o homem é um ser racional.
No
artigo “O sujeito neoalienado” apresentei a expressão Dialética-GPT. Em termos
gerais, é um modo específico de usar a inteligência artificial. Invés de
delegarmos passivamente nosso pensamento, usaríamos a Inteligência artificial
como ferramenta para refinar e aprimorar nossas ideias, usando-a para criticar
o que dizemos, apresentar contrapontos e auxiliar a chegar a sínteses mais
sofisticadas. No entanto, talvez isso tenha sido em vão. A empreitada se
converteria em um post acerca da produtividade que o indivíduo obteve ao usar
da dialética.
Além
disso, não é que o sujeito neoalienado goza em não pensar. É que para gozar
tanto, abdica do pensamento.
Poderíamos
dizer que há uma saturação de prazer ou da busca pelo por ele. O prazer é uma
forma de catarse, um paliativo recompensador que desejamos para lidar com a
pressão por produtividade e performance. O rato tem que receber alguma
recompensa para continuar correndo na gaiola. Mesmo que essa recompensa seja,
eventualmente, sua própria ratoeira que pode ser traduzida por burnout.
A
urgência por prazer é um mecanismo de defesa automático do sujeito do excesso.
Nesse cenário, pode-se englobar todas as plataformas de streaming, de delivery
e afins. Assim como o ato de rolar o feed de suas redes sociais.
De
outro lado, na sociedade do excesso, há a disseminação do imperativo do gozo
que caracteriza o sistema capitalista e o mantém funcionando. O sentido do
termo gozo, aqui, é o mesmo empregado pelo psicanalista Jacques Lacan. Não se
trata apenas de prazer, mas do prazer que excede, ultrapassa, machuca. Tal
imperativo diz respeito a uma disposição do superego freudiano que ordena ao
indivíduo que goze.
O
polêmico psicanalista Jacques Lacan detectou um discurso hedonista um tanto
quanto sofisticado, no qual a busca pelo prazer ficava implícita, camuflada. O
que se pregava era a busca por experiências, felicidade. O superego não
internalizava somente negatividade e proibições, mas também a afirmação e
mandamento do gozo.
Podemos
detectar tal imperativo vivo e latente nos nossos dias pela ascensão do
discurso coach, que é entendido aqui como conjunto de todos os discursos
motivacionais dos coaches acerca da produtividade e da positividade do ser. Não
se trata tão somente de ‘você pode fazer ou ter aquilo’. Mas de você merece
aquilo, portanto pode e deve fazer.
O
sujeito saturado, no auge dos males psíquicos que sofre pela pressão interna e
externa de produzir, se sente confortado ao saber que ao menos merece o gozo da
experiência. Não internaliza apenas a pressão interna de se policiar
religiosamente para produzir, mas o paliativo da experiência. Tal recurso o
ajuda a lidar com sua condição existencial de ser-para-o-trabalho.
Afirmar
que a urgência por prazer se trata apenas da viciante busca pela dopamina é uma
ingenuidade errônea que devemos evitar. Não apenas pelo fato de que existem
outros neurotransmissores e hormônios relacionados ao prazer além da dopamina,
mas principalmente pelo fato de que reduzir um fenômeno social complexo a uma
dinâmica fisiológica seria um mal-uso das ciências psicológicas.
O
relativo sucesso de uma narrativa que reduz problemas sociais a mecanismos
neurológicos não está tão longe da “dopamina barata” que tais cientistas
criticam. É um fast food intelectual, rápido, fácil, mas danoso.
O
imperativo do gozo está em consonância e relação direta com outro excesso que
permeia a todos nós: o consumismo. Vamos nos deter em Jacques Lacan por
enquanto, pois ele nos concedeu as ferramentas intelectuais que usaremos para
analisar o fenômeno do consumismo.
Jacques
Lacan destacava que o sujeito é faltante. Ao nascermos, dizia ele,
experimentamos o mundo de uma forma única e peculiar. Mas quando aprendemos uma
língua, quando somos constituídos e atravessados pela linguagem, nossas
sensações e experiências se dão por intermédio das palavras. Da perda de nosso
contato direto com o mundo sem esse intermédio linguístico, advém uma falta
constituinte do ser humano. Falta essa que nunca pode ser superada.
E é
aqui o ponto em que o sistema capitalista é cruelmente brilhante. Com todas as
suas propagandas, imagens, discursos e fetichismos, o capitalismo explora essa
falta humana nos vendendo o objeto a. Que é aquilo que promete nos satisfazer,
promete nos deixar felizes e satisfeitos. Completos, pode-se dizer. Mas que
nunca o faz. A exemplo do indivíduo que acha que só vai ser feliz quando tiver
o aparelho eletrônico de última geração ou o carro do ano. Não é correto dizer
que o sujeito do consumo não sabe como a dinâmica das propagandas funciona. Ele
sabe, sabe, mas prefere ignorar, que sempre há algo mais. Afinal, pensar mata o
gozo. E gozar é seu sentido na vida. Sempre mais uma atualização da versão do
aparelho, sempre algo a mais a ser comprado.
Um dos
méritos do capitalismo é nos convencer de que o consumismo e o sentido da vida
são um só.
Na
medida em que o discurso dessas propagandas nos impulsiona constantemente a
buscar algo fora de nós mesmos, o consumismo contribui para o estranhamento de
si próprio. O que somos não basta. O que temos no momento presente também não.
Valioso mesmo é o que podemos ter. Na medida em que seu valor está sempre em
algo que não tem, algo externo ao sujeito, o voltar-se para si mesmo é
improdutivo.
Todos
sabemos que a improdutividade na Sociedade do desempenho é um crime de
lesa-pátria.
B. F.
Skinner fez uma série de experimentos com ratos em laboratório. Grosso modo, o
cientista percebeu que poderia modificar o comportamento dos roedores ao
adicionar recompensas e punições. Skinner conseguiu condicionar seus ratos a
determinados comportamentos e condutas ao manipular quando e como eles eram
recompensados. Chamou isso de reforço. O famoso experimento ficou conhecido
como “A caixa dos ratos de Skinner”.
De
forma semelhante, nossas sociedades capitalistas contemporâneas são grandes
caixas de Skinner. Todos os excessos e mecanismos digitais descritos acima
estão presentes nessas sociedades, em maior ou menor grau. E eles nos
condicionam ao estranhamento de nós mesmos devido à hiperidentificação com o
trabalho, delegação do pensamento, atenção líquida e consumismo exacerbado. O
reforço que recebemos que nos condiciona a neoalienação pode ser tanto o gozo
paliativo quanto a culpa que sentimos por não estarmos produzindo de forma
performática.
A culpa
vem de trair o mindset de sucesso que o discurso coach tanto prega. Tal mindset
adquiriu o status de décimo primeiro mandamento na contemporaneidade e as
Tábuas da lei não são mais escritas em pedra. Mas em postagens.
Existe
um fator principal que faz com que esses mecanismos – que podem ser todos
agrupados sob o nome de “condicionamento-alienante” – sejam tão eficazes. Tais
mecanismos e elementos são, ao menos supostamente, provas de nosso refinamento
e evolução como civilização. Não que todos esses fatores sejam explicados
exclusivamente pelo sistema capitalista, mas o fato é que todos eles estão
presentes nesse sistema.
A
hiperidentificação com o trabalho é evidência do valor como ser humano. A
terceirização do pensamento para a Inteligência artificial é necessária para
maximizar a produtividade do trabalhador-engrenagem-eficiente. A atenção
líquida é sinônimo de estar bem informado ao consumir o maior número de
informações tão rápido quanto possível. O consumismo é interpretado como
garantia de felicidade, a tecnologia e as redes sociais que propagam o discurso
coach são avanços da ciência. O sujeito do excesso está condenado ao burnout.
Fonte:
Por Thiago Ferreira dos Santos Freitas, em Outras Palavras

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