Menos
desemprego, mais salários e mais tempo para viver
O
Brasil encerrou o segundo trimestre de 2026 com uma notícia que merece ser
exaltada. A taxa de desemprego caiu para 5,4%, o menor resultado para esse
período desde o início da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios Contínua (Pnad), em 2012.
O país
alcançou 103,1 milhões de pessoas ocupadas, mais de um milhão acima do
registrado no primeiro trimestre. O número de pessoas procurando trabalho caiu
para 5,9 milhões e o rendimento médio chegou a R$ 3.738, o maior valor já
registrado para um segundo trimestre. Em relação ao mesmo período de 2025, o
ganho real foi de 2,8%.
Não são
apenas números em uma planilha. Cada vaga representa um trabalhador ou uma
trabalhadora com maior possibilidade de colocar comida na mesa, pagar as contas
e planejar o futuro. Cada aumento real no rendimento significa alguma
recuperação do poder de compra corroído durante anos. Cada carteira assinada
representa acesso a férias, décimo terceiro, FGTS, Previdência Social e
proteção contra o desemprego.
É uma
mudança concreta na vida da população. E, justamente por isso, precisamos
comparar e mostrar a diferença entre dois projetos de país.
No
segundo trimestre de 2019, primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro e antes da
pandemia, o desemprego estava em 12% (agora está em 5,4%,). A taxa de
subutilização da força de trabalho chegava a 24,8%. Em outras palavras, quase
um em cada quatro trabalhadores e trabalhadoras estava desempregado,
trabalhando menos horas do que gostaria ou disponível para trabalhar sem
conseguir procurar emprego naquele momento.
A média
anual do desemprego em 2019 ficou em 11,9%, com cerca de 12,6 milhões de
pessoas procurando trabalho. A informalidade avançou e alcançou seu maior
patamar em quatro anos.
Esses
dados são importantes porque desmontam uma tentativa recorrente de atribuir
todos os resultados ruins do governo Bolsonaro exclusivamente à pandemia. A
covid-19 agravou brutalmente a situação, mas o desemprego elevado, a
precarização e a informalidade já estavam presentes antes da crise sanitária
mundial.
O
projeto político daquele período apostava no enfraquecimento da legislação
trabalhista, no ataque às organizações sindicais e na velha promessa de que
retirar direitos criaria empregos. O trabalhador e a trabalhadora deveriam
aceitar menos proteção, salários menores e contratos mais precários porque,
supostamente, assim as empresas contratariam mais.
Mas
onde estavam os milhões de empregos prometidos?
Ao
final do governo Bolsonaro, no segundo trimestre de 2022, a taxa de desemprego
ainda estava em 9,3%, com subutilização de 21,2% e informalidade de 40%. O
rendimento real havia caído 5,1% em relação ao ano anterior.
Em
2022, após a pandemia, a informalidade atingia quatro em cada dez pessoas
ocupadas e o rendimento dos trabalhadores e trabalhadoras havia perdido valor.
Em
2026, o cenário é bem diferente. A diferença não é apenas estatística. E o
retrato contrastante entre um país que tratava salário e direitos como prejuízo
e outro que reconhece renda, emprego e proteção social como engrenagens que
movimentam a economia.
Os
dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados também apontam avanço.
Somente em junho de 2026, foram criados 145.161 postos formais de trabalho. No
primeiro semestre, o saldo chegou a 921.645 novas vagas com carteira assinada,
elevando o estoque nacional para mais de 48 milhões de vínculos formais.
O
resultado mensal foi positivo nos cinco grandes setores da economia. Serviços
criaram 74.514 vagas, a agropecuária abriu 22.898 postos, o comércio gerou
19.177, a indústria criou 14.438 e a construção somou 14.136 empregos. No
acumulado do primeiro semestre, serviços foram responsáveis por 571.926 postos
formais, enquanto a construção criou 168.962 e a indústria, 143.442.
Isso
importa porque emprego com carteira assinada não é igual a qualquer ocupação.
O
discurso empresarial costuma apresentar todos os vínculos como se fossem
equivalentes. Não são. Há uma enorme diferença entre ter contrato regular,
salário definido, férias, décimo terceiro e proteção previdenciária e viver de
trabalhos ocasionais, sem saber quanto receberá no mês seguinte.
Quando
cresce o emprego formal, cresce também a cobertura social. A economia ganha
maior estabilidade, a Previdência arrecada mais e o trabalhador ou a
trabalhadora pode planejar sua vida com menos insegurança.
Ainda
assim, o Brasil tinha 37,4% de informalidade no segundo trimestre de 2026. São
milhões de pessoas trabalhando sem proteção suficiente. Portanto, comemorar o
avanço não significa declarar que a missão foi cumprida. Significa reconhecer
que o caminho está correto e exigir que ele seja aprofundado.
Outro
aspecto positivo é o crescimento do rendimento médio, que alcançou R$ 3.738.
Mas a média nacional não revela toda a realidade.
No
mercado formal, o salário médio real de admissão em junho foi de R$ 2.404,34.
Para os vínculos considerados não típicos, que incluem temporários,
intermitentes, aprendizes e contratos com jornadas reduzidas, a média ficou em
R$ 2.101,51, valor 12,6% inferior à média geral.
Além
disso, a maior parte do saldo formal de junho concentrou-se na faixa entre um e
um salário mínimo e meio. Isso mostra que a geração de empregos precisa ser
acompanhada de uma política permanente de valorização salarial. Não basta abrir
vagas que mantenham trabalhadores e trabalhadoras presos à pobreza.
Trabalhar
oito, dez ou 12 horas por dia e continuar escolhendo qual conta deixará de
pagar não é prosperidade. Ter emprego, mas depender de crédito para comprar
comida, não é desenvolvimento. Receber salário e ainda precisar fazer uma
segunda jornada para sobreviver não pode ser tratado como normal.
A
melhora do mercado de trabalho fortalece uma bandeira histórica do movimento
sindical. A riqueza produzida precisa ser distribuída também por meio de
salários melhores, negociações coletivas fortes e proteção contra formas
fraudulentas de contratação.
Os
números do emprego também ajudam a enfrentar outra mentira repetida pelos
defensores da exploração sem limites. A ideia de que qualquer ampliação de
direitos provocaria desemprego em massa.
Durante
anos disseram que aumentar o salário mínimo destruiria empresas. Disseram que
garantir direitos às trabalhadoras domésticas acabaria com o emprego doméstico.
Disseram que combater a terceirização abusiva impediria contratações. Agora
afirmam que reduzir a jornada e acabar com a escala 6×1 levará o país ao caos.
O
roteiro é sempre o mesmo. Toda vez que trabalhadores e trabalhadoras
reivindicam uma parcela maior da riqueza ou algum tempo para viver, aparece
alguém anunciando o fim do mundo.
Mas que
tipo de economia depende de pessoas exaustas para funcionar?
Com o
desemprego em um dos menores níveis da história, o Brasil tem melhores
condições para avançar no debate do fim da escala 6X1. O bom desempenho da
economia não pode servir apenas para aumentar lucros e dividendos. Precisa ser
transformado em direitos.
A
redução da jornada sem redução salarial deve ser entendida como parte de um
novo ciclo de desenvolvimento. Ao distribuir melhor o tempo de trabalho,
abre-se espaço para novas contratações, melhora-se a produtividade e reduz-se o
afastamento causado pelo adoecimento. Acima de tudo, devolve-se às pessoas uma
parte da vida que lhes foi tomada por jornadas exaustivas.
Os
resultados de 2026 demonstram que políticas de emprego, investimentos, aumento
real da renda e fortalecimento do mercado interno podem produzir efeitos
concretos.
Isso
não significa que todos os problemas estejam resolvidos. A informalidade
continua elevada, os baixos salários ainda predominam em muitas categorias e
milhões de trabalhadores e trabalhadoras enfrentam terceirização abusiva,
pejotização, assédio, metas impossíveis e jornadas que adoecem.
Também
não significa que um governo deva receber um cheque em branco. O movimento
sindical não existe para aplaudir governos. Existe para defender os interesses
de quem vive do próprio trabalho, cobrar avanços e enfrentar retrocessos,
independentemente de quem esteja no poder.
Por
isso, os bons números devem ser comemorados, mas também transformados em novas
reivindicações.
Se a
economia está crescendo, é hora de aumentar os salários.
Se o
emprego formal está avançando, é hora de intensificar o combate à informalidade
e à pejotização fraudulenta.
Se o
desemprego caiu, é hora de fortalecer a negociação coletiva e garantir que
trabalhadores e trabalhadoras recebam uma parcela maior da riqueza que ajudam a
produzir.
Se a
produtividade aumentou, é hora de reduzir a jornada.
Se o
país pode gerar lucros recordes, também pode garantir descanso, dignidade e
tempo para viver.
O menor
desemprego para um segundo trimestre desde 2012 é uma conquista importante. Mas
a verdadeira vitória será transformar esse avanço em empregos protegidos,
salários dignos e jornadas humanas.
O
Brasil já provou que pode reduzir o desemprego. Agora precisa provar que também
pode acabar com a escala 6×1 e garantir que ninguém tenha de viver apenas para
trabalhar.
Fonte:
Por Julimar Roberto, em Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário