Obesidade
não é só questão de índice de massa corporal
Atualmente
há mais de 1 bilhão de indivíduos bem acima do peso ideal, segundo a
Organização Mundial da Saúde (OMS). A entidade das Nações Unidas já fala em
"epidemia de obesidade", pois esse número cresce vertiginosamente,
afetando também crianças e adolescentes.
Há
décadas, a diretriz para diagnóstico de obesidade é o índice de massa corporal
(IMC). Ele é calculado dividindo-se o peso em quilos pelo quadrado da altura em
metros. Por exemplo: quem mede 1,75 metro e pesa 70 quilos tem um IMC de 22,86.
Quem
apresenta um índice de 30 ou mais é considerado obeso, o que é o caso de um
quarto dos alemães e, segundo dados da associação Abeso, quase um quinto dos
brasileiros.
Contudo,
há consenso entre os pesquisadores de que só o IMC não é um indicador
suficiente de sobrepeso, pois não distingue entre gordura e massa muscular, nem
informa sobre o estado de saúde individual.
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Para além do IMC
Uma
comissão internacional de mais de 50 especialistas elaborou diretrizes
diagnósticas alternativas para obesidade, considerando também dados sobre a
gordura e medidas físicas. Em artigo na revista The Lancet Diabetes &
Endocrinology, eles propõem três fatores, além do IMC:
• pelo menos uma medida da massa corporal
(circunferência da cintura, relação cintura-quadril ou relação cintura-altura);
• pelo menos duas medidas da massa
corporal, independente do IMC;
• medição direta da gordura corporal.
Além
disso, deve-se atentar para sinais ou sintomas objetivos de um mau estado de
saúde. Se o IMC está acima de 40, pode-se partir do princípio de que há um
nível de gordura excessivo.
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Sobrepeso infantil é especialmente perigoso
Crianças
com sobrepeso têm risco mais elevado de diabetes do tipo 2, hipertensão
arterial e dislipidemia (distúrbio do nível de gordura no sangue). Podem
ocorrer também danos aos órgãos internos, como esteatose hepática (fígado
gordo), cálculos na vesícula biliar, doenças circulatórias e acidentes
vasculares cerebrais (AVC).
O
excesso de peso sobrecarrega ossos e articulações, resultando em artrose e
problemas na coluna vertebral. Crianças com adiposidade excessiva estão também
mais expostas a ter falta de ar, apneia noturna e asma, e a metade delas
sofrerá de obesidade por toda a vida. Quanto maior o IMC, maior o risco de
enfermidades graves e potencialmente fatais.
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Quando o excesso de peso é doença?
As
novas diretrizes também visam esclarecer quando o excesso de peso deve ser
classificado como enfermidade. Para tal, os membros da comissão médica propõem
a definição de duas formas de obesidade, as quais exigem estratégias
terapêuticas distintas:
• Obesidade pré-clínica: adiposidade com
funções orgânicas normais. Os afetados não são considerados doentes crônicos,
mas apresentam risco acentuado de desenvolver diversas outras enfermidades. Com
a devida assistência, essa condição pode ser minorada.
• Obesidade clínica: há sintomas de função
orgânica restrita e/ou considerável limitação das atividades cotidianas.
Portadores de obesidade clínica são considerados doentes crônicos, necessitando
de tratamento urgente.
Com
essa proposta, os cientistas esperam amenizar a longa controvérsia sobre a
classificação da obesidade como doença, possibilitando abordagens terapêuticas
mais específicas e eficazes. Isso resultaria também numa distribuição mais
racional de recursos e na priorização justa das opções de tratamento
disponíveis.
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Pró: tratamento mais adequado para casos perigosos
As
propostas da comissão divulgadas na The Lancet dividem a comunidade médica. De
um lado, estão os que saúdam que se questione a definição de obesidade e se
amplie o conceito de enfermidade.
"Considerando
exclusivamente o IMC, também atletas com grande massa muscular apresentam um
índice alto", lembra Susanna Wiegand, diretora do ambulatório pediátrico
de obesidade e adiposidade da renomada Clínica Charité de Berlim.
"Por
outro lado, há já alguns anos existe o conceito de healthy obesity [obesidade
saudável], ou seja: indivíduos que têm excesso de peso, mas não são doentes.
Assim, uma definição de obesidade exclusivamente com base no IMC pode ser muito
inexata, incluindo também quem não sofre de obesidade."
Martin
Wabitsch, diretor do departamento de endocrinologia e diabetologia pediátrica
da Clínica Universitária de Ulm, concorda: aplicada na prática, a nova proposta
de definição poderia constituir "um grande marco para um melhor
atendimento dos pacientes atingidos", já que "até agora tínhamos
dificuldade de definir como doença a obesidade entre crianças e
adolescentes".
"Muitos
afirmavam que é algo que passa com o crescimento, o que é cientificamente
errado. Com essa nova abordagem, a obesidade só será classificada como doença
se houver distúrbios objetivos de uma função orgânica, ou uma limitação clara
nas atividades cotidianas. Isso vai ajudar a oferecer uma terapia adequada,
pelo menos para esse grupo infanto-juvenil", espera Wabitsch.
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Contra: planos de saúde podem se recusar a custear terapias
Para o
médico Thomas Reinehr, por sua vez, a nova terminologia é igualmente vaga
demais, com valor agregado restrito, e não se estabelecerá, até porque a
medição do IMC é exata e bastante reproduzível.
"Esse
não é o caso, por exemplo, da medição da cintura ou da gordura corporal:
examinadores diferentes chegam a circunferências distintas; e a taxa de gordura
depende do consumo de líquidos e da hora do dia. Os métodos de mensuração mais
exatos, como a calorimetria, são complicados demais para o dia-a-dia",
afirma o pediatra da Clínica Infanto-Juvenil de Datteln, em Recklinghausen, no
oeste da Alemanha.
A seu
ver, a definição proposta resultaria em menos indivíduos serem classificados
como obesos, dando a falsa impressão de que o problema diminuiu. Além disso,
menos pacientes teriam sua terapia para redução de peso custeada pelos planos
de saúde.
Reinehr
considera a discussão sobre o IMC "na maior parte, de natureza
acadêmica", pois hoje em dia os estudos clínicos e, acima de tudo, a
classificação individual dos pacientes leva também em consideração eventuais
comorbidades e a distribuição da gordura corporal.
Fonte:
DW Brasil

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