Da
ficção do “Estado falido” à solidão histórica do Haiti na América Latina
O
conceito de “Estado falido” é, assim, uma noção ideológica disfarçado de
neutralidade. Ela despolitiza a miséria, naturaliza a falência do Estado e
desloca a responsabilidade para o próprio país.
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Introdução: o problema da nomeação
O Haiti
é constantemente retratado como um “Estado falido”. Essa designação circula sem
grandes questionamentos em análises jornalísticas, relatórios internacionais e
na retórica de estadistas, como se fosse a constatação de um fato óbvio. No
entanto, essa linguagem, que domina o discurso, faz mais do que classificar uma
situação de crise, pois a estrutura de maneira a neutralizar suas causas
históricas e políticas. Ao simplificar a crise do Haiti como uma simples falha
de gestão estatal, esse conceito desloca a atenção das causas para os efeitos,
da história para o sintoma, transformando uma violência estrutural em uma
questão puramente gerencial.
O
conceito de “Estado falido” é, assim, uma noção ideológica disfarçado de
neutralidade. Ela despolitiza a miséria, naturaliza a falência do Estado e
desloca a responsabilidade para o próprio país. Ao mesmo tempo que legítima a
intervenção estrangeira como resposta técnica e indispensável. O que fica de
fora nesse movimento é a pergunta crucial pelas condições históricas que
criaram a crise.
A tese
deste texto é direta. O Haiti não fracassou. Foi historicamente castigado,
isolado e negligenciado por ter sido, desde que se libertou, 1° de janeiro de
1804, uma ameaça radical à ordem colonial. Sua condição atual não pode ser lida
como exceção inexplicável, mas sim como resultado previsível de uma longa
sequência de sanções, apagamento histórico e controle estrangeiro.
A fim
de sustentar essa interpretação, o texto opera em dois movimentos
complementares: primeiro, descontrói o termo “Estado falido” e revela sua carga
política; depois, reconta a crise haitiana a partir de uma leitura
histórico-política situada na América Latina, interrogando também sobre o
próprio silêncio da região frente ao seu levante mais radical.
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“Estado falido: linguagem de gestão e tutela
O termo
“Estado falido” se popularizou no vocabulário internacional após o fim da
Guerra Fria, momento em que a política passa a ser pensada em termos de
segurança, governança e gestão de riscos. Apresentada como ferramenta analítica
neutra, ela se oferece como um dispositivo para identificar Estados que não
conseguem cumprir funções básicas. Contudo, seu poder não está na descrição,
mas no enquadramento que produz. O ato de classificar determinados países como
falidos converte a soberania como problema de gestão, fornecendo assim licença
discursiva para sua interrupção arbitrária e desigual.
Quando
aplicada ao Haiti, essa noção opera por meio de três deslocamentos decisivos.
O
primeiro é o apagamento histórico. A sucessão de sanções, ocupações e embargos
que definiram a trajetória haitiana, dá lugar a uma narrativa de colapso
interno, onde a crise é apresentada como consequência de uma patologia local. O
segundo movimento é a naturalização da miséria. A pobreza extrema da população
deixa de ser interpretada como resultado de decisões políticas para ser
encarada como uma fatalidade de um estado disfuncional. Por fim, inverte a
culpa. A responsabilidade pelo fracasso é atribuída aos haitianos, enquanto os
atores internacionais surgem como gestores racionais de uma crise que eles
próprios ajudaram a produzir.
Desse
modo, “Estado falido” funciona como linguagem de gestão. Contradições
históricas são convertidas em métricas, decisões políticas são substituídas por
manuais de procedimento, e a ocupação pelos estrangeiros surge como a única
solução lógica. A política cede lugar à administração. O resultado é a
autorização para uma tutela permanente, sempre apresentada como provisória, mas
eternamente atualizada.
Sendo
assim, o argumento decisivo revela uma inversão, pois o colapso haitiano não
decorre de uma ausência de poder. Muito pelo contrário, vem do excesso de poder
externo que condiciona, cerceia e reconfigura a autonomia decisória do país. A
ficção do “Estado falido” oculta essa assimetria radical e transforma uma
história de dominação em problema administrativo. Ao fazê-lo, prepara o terreno
para que a intervenção prossiga sob a bandeira da assistência humanitária.
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Haiti: punição histórica e governança sem soberania
A
verdadeira compreensão da crise no Haiti exige que a inscrevamos em uma
temporalidade histórica de longa duração. Ela não começou agora de uma
decadência súbita, mas de uma punição, instaurada no exato momento de sua
fundação como nação soberana. A Revolução Haitiana representou uma fratura
insuportável para o sistema colonial moderno, uma vez que um Estado fundado por
escravizados libertos, que proclamava soberania, igualdade e abolição da
escravidão, desestabilizava os alicerces raciais e econômicos do mundo
atlântico. A resposta a esse evento disruptivo não foi a integração, mas a
punição.
A
infame dívida da independência consagrou o mecanismo inaugural da punição. Para
obter reconhecimento diplomático, o Haiti foi obrigado a pagar indenizações aos
próprios algozes – os ex-donos de escravos – comprometendo por décadas suas
finanças e estabelecendo uma relação de subordinação estrutural desde o seu
primeiro dia de vida. Esse ato fundador não foi um desvio, mas sim o
estabelecimento de uma lógica que se perpetuaria pelos séculos posteriores por
meio de bloqueios, intervenções militares, controle externo das finanças e
imposição de modelos institucionais. A soberania do Haiti passou a ser só no
papel, sempre limitada por decisões tomadas em capitais estrangeiras.
No
cenário atual, essa dinâmica se atualiza sob uma aparência distinta. A retórica
do castigo dá espaço ao léxico da assistência humanitária, da estabilidade e da
boa governança. Missões de paz da ONU, ONGS e aparatos securitários são
mostrados como apoio técnico, enquanto as decisões importantes sobre o Haiti
seguem sendo tomadas em Washigton, Paris ou na sede da ONU. A política vira
gestão; a história vira protocolo. O resultado é um governo sem soberania, onde
o Haiti é continuamente gerenciado por outros, mas raramente escutado como
sujeito político.
Essa
situação exige uma virada ética. O problema da Haiti, não se resolve com mais
gestão. É um drama histórico e político que envolve vida negada, dos haitianos,
e soberania suspensa. Encará-lo como pane administrativa é reproduzir o crime
que o criou. O Haiti não é um caso a parte no mundo, mas o efeito de uma ordem
que nunca aceitou plenamente a liberdade que ele inaugurou.
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A solidão do primeiro: Haiti e América Latina
O Haiti
tem um lugar ímpar e incomodo na história da América Latina. Foi o primeiro
país do continente a conquistar uma independência substantiva, não apenas no
plano jurídico, mas no plano social e político. Ao romper com a metrópole veio
o fim da escravidão e o poder para a população negra. Em outras palavras, o
Haiti inaugurou a liberdade na América Latina. Mas foi justamente esse gesto
inaugural que o condenou à solidão.
Por
conseguinte, as independências que vieram depois no continente, conduzidas
majoritariamente por elites brancas, seguiram uma dinâmica distinta. Elas
romperam com o domínio formal europeu, mas mantiveram intactas as hierarquias
coloniais fundamentais, tais como a concentração de poder, a exclusão racial e
a perpetuação das estruturas oligárquicas. A Revolução Haitiana, por outro
lado, não constituiu uma emancipação negociada, mas uma ruptura radical que
desarticulava o “pacto colonial” em sua totalidade. Não mudou só o governo;
mudou a regra de quem podia governar.
Essa
diferença explica a exclusão do Haiti da narrativa latino-americana. O
continente preferiu construir sua memória emancipatória a partir de processos
mais moderados, palatáveis à ordem racial global vigente. O Haiti em sua
radicalidade, tornou-se um antecedente incômodo – admitido como fato histórico,
porém mantido à margem do imaginário político regional. Esse silenciamento foi
intencional. Ele corresponde ao temor da radicalidade social que a Revolução
Haitiana encarnava, do racismo contra a soberania negra e da conveniência das
elites latino-americanas em delimitar a liberdade dentro dos limites seguros
para sua própria reprodução.
De tal
forma que, ao ser excluído do “nós” continental, o Haiti ficou mais suscetível,
fácil de ser abandonado e controlado por tutela estrangeira. Sua crise pôde ser
enquadrada como um problema distante, de caráter quase caribenho, e não como
questão estrutural da história latino-americana. À vista disso é preciso dizer
com todas as letras: O Haiti não foi marginalizado por haver falhado, mas
porque foi longe demais. Seu isolamento histórico é o custo de uma revolução
que passou dos limites que o continente traçou para a própria liberdade.
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Colonialidade regional e responsabilidade latino-americana
Limitar-se
a pensar a crise haitiana focando apenas na dominação imperial externa é
insuficiente. A América Latina, ainda que marcada pela colonialidade do poder
global, não é uma espectadora inocente nessa história. O continente igualmente
perpetua hierarquias internas, opera a racialização das diferenças e estabelece
fronteiras simbólicas que decidem quem é “um de nós” de verdade e quem fica do
lado de fora. Nesse cenário, o Haiti sempre foi tratado como “outro”, perto
suficiente para receber discurso de pena, mas suficientemente distante para
nunca ser visto como parte da nossa própria história. Essa marginalização
simbólica contribuiu para elucidar o silêncio político e a ausência de projetos
regionais consistentes voltados ao Haiti. Ao longo do tempo, o país foi
sistematicamente visto mais como um caso para intervenção humanitária ou de
segurança, do que um parceiro, sendo tratado sempre como um problema a ser
consertado. De tal modo que a carência de iniciativas consistentes, a
naturalização das sanções históricas e a concordância passiva com a
interferência internacional revelam a existência de um modelo colonial que
funciona não pela dominação explicita, mas pela omissão cúmplice e pelo cálculo
político de conveniência.
O
Brasil é o exemplo perfeito dessa ambiguidade. Ao mesmo tempo em que construía
uma narrativa de liderança solidária e defensor do multilateralismo Sul-Sul,
sua atuação concreta no Haiti, via participação em missões de paz, seguia o
roteiro hegemônico da estabilização e do gerenciamento de riscos, muito
distante de um compromisso efetivo com o resgate da soberania haitiana. A
contradição não é moral, mas política. Enquanto o discurso proclamava apoio e
irmandade, as ações ajudavam a consolidar um protótipo de administração que
nega a soberania, fazendo com que o controle de fora sobre o Haiti parecesse
normal e até necessário.
É aqui
que a reflexão vira um questionamento ético para nós, latino-americanos.
Reconhecer nossa responsabilidade não é ficar procurando culpados, mas admitir
que o Haiti mostra nosso limite, ou seja, a resistência em abraçar como
legítimo um caminho de libertação que mexe com nossas estruturas históricas e
nossas zonas de conforto geopolítico.
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Conclusão: O Haiti como início silenciado
Chegamos,
assim ao ponto de partida, mas com nova compreensão. O Haiti não é um “Estado
falido”. Esse rótulo, apresentado como diagnóstico neutro, esconde uma história
consistente e prolongada de penalização, ostracismo e abandono. A tragédia
haitiana não tem sua origem em uma suposta falha interna em se governar. Ela é
o resultado da soma de castigos, bloqueios e interferências que converteram a
liberdade alcançada nos primórdios do século XIX em uma causa permanente de
suspeita e punição.
Essa
responsabilidade é compartilhada. As potências imperiais foram decisivas ao
castigar com rigor a Revolução Haitiana e, depois, a manter o país sob seu
controle, usando diferentes formas de tutela ao longo do tempo. Contudo, a
América Latina também participa desse processo, seja por ter ficado calada
frente a essas sanções, seja por sua recusa em incorporar o Haiti à narrativa
continental. O ato de relegá-lo à categoria de “caso caribenho” ou “emergência
humanitária” foi uma forma de reforçar seu abandono histórico.
Assim é
ilusório buscar uma solução técnica. Nenhum arranjo administrativo, missão
multilateral ou protocolo de governança será capaz de responder adequadamente a
um problema que é em sua essência, histórico e ético. Enquanto a pergunta for
“como gerenciar a crise?” e não “como reparar a injustiça?”, vamos continuar
intervindo e falhando sempre.
O Haiti
segue sendo, portanto, uma memória incômoda. Ele recorda a América Latina que
seu início mais revolucionário foi silenciado. Colocar hoje o Haiti em foco é
confrontar esse apagamento – e reconhecer que não há projeto de libertação
consistente que possa seguir negligenciando sua existência.
¨ Trump: obscenidade e
crime. Por Nilo Meza
Sem
dúvida, a guerra contra o Irã é uma guerra de agressão criminosa que expõe o
que há de mais vil na condição humana, personificada em Donald Trump.
Assassinar líderes políticos e a população civil parece ser seu passatempo
favorito. Mentir e enganar dão sentido à sua política externa. Ameaçar e
insultar parecem ser uma terapia para sua fúria. É difícil encontrar na
história tal concentração de “virtudes” em uma única pessoa
Com uma
violência à altura do belicismo de Trump, está em andamento a “guerra mental”,
na qual a desinformação é usada como uma virtual bomba atômica para destruir a
verdade. Nessa guerra, fazer com que uma mentira seja aceita como verdade
torna-se seu principal “objetivo legítimo”. Nessa linha,
divulgar na mídia a falácia de que Trump está vencendo a guerra torna-se um
objetivo de sobrevivência política e estratégica. Se não fosse assim, veríamos
um Trump desesperado. Na mesma linha, afirmar que os mísseis iranianos não
atingiram seus alvos nas bases militares americanas é tão falso quanto dizer
que Netanyahu quer a paz. Se isso fosse verdade, não estaríamos vendo a
retirada em massa das tropas americanas do Golfo.
Apesar
do esforço da população para combater essa guerra feroz contra a verdade, em
muitos casos, a desinformação “pega”, ou seja, algumas pessoas acreditam
nela.
A
obscenidade moral que Trump exala com a linguagem que usa é assustadora e
envergonha os próprios americanos. Aqui está um exemplo: referindo-se aos
iranianos, ele disse que eram uns “loucos desgraçados”, “escória”
e “doentes” que ele mandaria de volta à “idade da pedra”,
revelando impotência por não poder fazer isso ele mesmo, dizendo-lhes “abram
o maldito estreito, loucos desgraçados” ou “vão viver no inferno”, “vamos
dar uma surra do diabo neles” e, com a ironia de um assassino de aluguel, “Louvado
seja Alá”. “Estamos aniquilando todos eles”, “vou explodir pontes
e usinas hidrelétricas” e “vou explodir a montanha de granito para
enterrar para sempre os iranianos e seu urânio enriquecido”. Esse é o
presidente dos EUA.
Essa
fanfarronice não consegue intimidar o Irã, que decidiu prolongar a guerra pelo
tempo que for necessário em nome da “defesa da soberania”. Para isso,
conta — para o pavor de Trump — com o claro apoio da China, da Rússia e da
Coreia do Norte em armas e munições, mas, acima de tudo, com informações de
inteligência que lhe permitem atingir seus objetivos bélicos na região do
Golfo, especialmente bases militares americanas.
A
linguagem grosseira de Trump, acompanhada de ações bélicas qualificadas como
“crimes de guerra”, não alcançou seu objetivo principal: controlar diretamente
o Estreito de Ormuz. Além disso, irritou ainda mais o povo iraniano e está
custando-lhe o fechamento do Estreito de Bab El-Mandeb, sob
controle dos houthis. Com os dois estreitos fechados, a economia mundial
caminha para uma depressão comparável à de 1929. Nem mesmo a manipulação dos
preços do petróleo ou do mercado de ações poderá evitar isso.
Fonte:
Por Willames Frank, no Le Monde/Opera Mundi

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