Violência
de gênero virou pauta eleitoral. Mas ainda falta coragem
No
título do seu último livro, a filósofa Judith Butler lança uma pergunta: “Quem
tem medo de gênero?”. Butler, que é uma das maiores referências nos estudos de
gênero, no feminismo contemporâneo e na teoria queer, fala sobre como o
“gênero” se tornou peça central para os discursos conservadores e reacionários,
um fantasma com o objetivo de criar pânico moral e conseguir apoio popular a
projetos políticos fascistas, autoritários e excludentes. É um livro muito bom
que eu indico fortemente, sobretudo para quem não tem familiaridade com o
assunto ou nunca leu Butler; é seu primeiro livro não acadêmico.
Diante
desta pergunta, a pesquisadora brasileira Sônia Corrêa, coordenadora do
Observatório de Sexualidade e Política, costuma responder com uma provocação:
“Quem tem medo de gênero é a esquerda, a extrema direita odeia gênero”.
Sim,
temos evidências disso ao longo da história do país. Do ódio, acho que nem
preciso falar aqui. E para provar o medo, temos de cartas assinadas por
candidatos se comprometendo a não descriminalizar o aborto a declarações dúbias
e escorregadias em debates televisionados e mudanças de planos de governo
feitas de última hora para agradar pastores evangélicos. Sobretudo o aborto,
mas também questões relacionadas a proteção e avanço nos direitos da comunidade
LGBTQ+, são temas que as campanhas eleitorais presidenciais de esquerda e
centro esquerda tendem a evitar. Ou, pior, um tema para se “rifar” facilmente.
Esse
ano, no entanto, a pauta da violência de gênero se tornou difícil de ser
evitada pelos candidatos. O ano começou com feminicídios, tentativas de
feminicídios, mutilações, crimes cometidos contra crianças e bebês estampando
os jornais – coisas da ordem do horror absoluto. Os números do Anuário
Brasileiro de Segurança Pública, divulgados recentemente, também são
assombrosos. Enquanto as mortes violentas seguem em queda contínua há cinco
anos, os feminicídios no Brasil bateram recorde em 2025. Foram 1.571
feminicídios ao longo do ano passado. Isso significa 4 mulheres mortas por dia.
Também aumentaram os números de tentativas de feminicídio, violência
psicológica, descumprimento de medida protetiva, ameaças, stalking, posse ou
distribuição de conteúdos de abuso sexual infantil e violência doméstica. Os
dados mais recentes do Atlas da Violência também indicam que os registros de
violência contra pessoas LGBTQ+ no Brasil seguem crescendo e, apesar de não
haver uma pesquisa oficial sobre isso, organizações brasileiras e
internacionais apontam o Brasil como o país que mais mata pessoas trans no
mundo.
Ao
mesmo tempo em que essa violência cresce, pesquisas têm mostrado que no Brasil
e no mundo as mulheres tendem a votar mais em partidos de esquerda e
centro-esquerda. Mas tem um detalhe importante: segundo dados do TSE desse ano,
as mulheres são 52% do eleitorado brasileiro. Ou seja, nem precisa ser bom em
matemática para entender que esses votos são cada vez mais importantes.
Michelle Bolsonaro entendeu e fez Flávio entender. O PL entendeu. Lula
certamente tem entendido, como mostram ações de governo e falas recentes.
Entre
os candidatos (quase todos homens) propostas para “acabar com a violência
contra a mulher” já estão pipocando e devem ter um lugar importante nos debates
e planos de governo em 2026. Já não era sem tempo.
Mas…
A
maioria das propostas até agora têm ido na direção do endurecimento da
repressão.
Flávio
Bolsonaro (PL) fala em castração química para estupradores e em defender as
mulheres “com força”. Como se o estupro viesse de um desejo incontrolável e
biológico e não de uma relação de poder e a subjugação de corpos que são vistos
como inferiores, mais fracos, propriedade privada. O candidato fala a partir da
visão do macho salvador que protege “com força”.
Romeu
Zema, defendendo que a política precisa de mais mulheres, associou a atuação
política feminina a uma característica biológica. “A mulher, por natureza, por
uma questão biológica, ela pensa no futuro. Porque quando ela engravida, ela
vai ter um projeto ali de, no mínimo, 15 anos. E o homem não tem essa visão.”
Ao mesmo tempo, o candidato à presidência pelo Novo se posicionou contra o PL
da Misoginia, projeto de lei que altera a Lei Antirracismo para incluir os
chamados atos de misoginia, definidos como “a prática, a indução ou a incitação
de menosprezo ou discriminação contra a mulher, que promova violência, negue
sua igualdade de direitos ou ofenda sua dignidade, em razão da condição de
mulher”.
Assim
como os demais, Lula também tem defendido o aumento da pena para o crime de
feminicídio. Recentemente declarou em um evento: “Nós estamos fazendo o Pacto
contra o Feminicídio. E vamos endurecer. O cidadão que bater na mulher vai ter
que ser punido, vai ter que utilizar tornozeleira e, se a mulher quiser, não
vai nem encostar mais nela. E aumentar a pena para quem mata mulher. Não é
possível o cidadão trancar a mulher e o filho em casa e tocar fogo, o cidadão
dar 66 socos na cara da mulher”. Com relação à pauta do aborto o presidente é
ambíguo. Já declarou ser pessoalmente contra a prática, e indicou ao STF Jorge
Messias, que se declara “totalmente contra o aborto”. Mas diz que o tema
precisa ser tratado como questão de saúde pública pelo Estado e criticou
propostas para endurecer penas de mulheres que abortam. O presidente também
sancionou a lei de igualdade salarial entre homens e mulheres e iniciou o
governo com número recorde de 11 ministras, além de ter criado o Bolsa Família,
que é indubitavelmente uma porta de saída para mulheres em situação de
violência doméstica.
Mas a
gente precisa de mais.
As
principais propostas até agora têm focado em medidas de punição e não de
prevenção. Quando um homem é punido, a violência já aconteceu. Enquanto isso,
nas escolas, as discussões sobre machismo, LGBTfobia, masculinidades, seguem
sendo censuradas. Os influencers redpill e as comunidades incel seguem sendo
menosprezadas. Os crimes virtuais seguem num limbo. A pauta do aborto segue
chegando à população apenas pela lente do crime ou do pecado. E as discussões
sobre questões de gênero seguem “delicadas”, não atravessadas pela pauta
antirracista como deveriam e não sendo enfrentadas pelas esquerdas que estão no
poder.
Você
consegue imaginar um candidato dizendo em um debate na TV que o Brasil tem que
parar de matar pessoas trans? Ou defender que a descriminalização do aborto é
uma questão de saúde pública?
Não
basta encarar “as pautas de mulheres” como aquele chefe que no dia 08 de março
dá um bombom sonho de valsa com um papel rosa grampeado dizendo “mulher, você é
especial”, mas segue pagando menos às funcionárias. É fácil dizer que é contra
a violência doméstica. A gente precisa de mais. Falta coragem aos candidatos
homens para tratar desta séria discussão.
• Após pressão por uma vice mulher, PL
fecha chapa apenas com homens. Por Maira Escardovelli
“As
mulheres conservadoras estão prontas para ocupar o lugar de poder”. A
declaração foi dada a jornalistas pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF)
nesta quarta-feira, 5 de agosto, após o anúncio de que o senador e candidato à
Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), escolheu um homem para
compor a chapa presidencial do PL – o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL).
Ao menos na chapa que disputa a presidência pelo bolsonarismo, apesar de
estarem prontas, as mulheres conservadoras não têm ganhado o protagonismo
político que esperam.
Elas
estão ao lado, mas não no centro do principal arranjo da sigla. É isso o que
mostra, inclusive, a própria composição da mesa do evento que anunciou o nome
do vice: entre Flávio, Gaspar e o coordenador da campanha, Rogério Marinho,
estavam seis figuras femininas: a ex-ministra da Mulher, da Família e dos
Direitos Humanos no governo de Jair Bolsonaro, Cristiane Britto; a senadora
Damares Alves (Republicanos-DF), que também ocupou o cargo de Britto; a
deputada federal Bia Kicis (PL-DF); a esposa de Flávio, Fernanda Bolsonaro; a
senadora Tereza Cristina; e Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica
Federal. Entre elas, três foram cotadas anteriormente para o cargo de vice: Bia
Kicis, Tereza Cristina e Daniella Marques.
Apesar
de o evento ter sido dedicado ao anúncio de uma figura masculina como vice de
Flávio, as mulheres foram lembradas ao longo dos discursos proferidos pelos
dois candidatos. Gaspar agradeceu à mãe, de 84 anos, e a esposa, com quem tem
um casamento de 36 anos. Flávio, como fez na convenção do partido que
oficializou a sua candidatura à presidência, também saudou a esposa, Fernanda,
as duas filhas e a “seleção de mulheres” que estão ao seu lado, citando
nominalmente as senadores Tereza Cristina e Damares, as deputadas federais
Clarissa Tércio (PP-PE) e Simone Marquetto (PP-SP), além de duas parlamentares
do PL, Julia Zanatta (SC) e Bia Kicis, e a presidente do Podemos, Renata Abreu.
POR QUE
ISSO IMPORTA?
As
mulheres são mais da metade da população, mas a representatividade política é
muito menor. No Senado, são menos de 20% do total. Na Câmara, cerca de 15%.
Entre presidentes desde a redemocratização, só houve uma.
Flávio
dedicou, ainda, parte do seu discurso para fazer mais acenos ao eleitorado
feminino, que responde hoje por 53% dos votos no pleito — e é um dos principais
entraves para a popularidade da candidatura bolsonarista, já que a vantagem de
Lula na intenção de votos no eleitorado feminino é maior. O filho 01 do
ex-presidente Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado, mencionou
a “economia do cuidado” (conceito ligado a atividades que são majoritariamente
exercidas por mulheres) e uma das suas promessas de campanha, uma política
voltada à “inserção e garantia de autonomia financeira” para as mulheres.
“Isso
[economia do cuidado] nunca foi reconhecido e o nosso governo, sob o comando
aqui da Dani Martins, junto com a Fernanda, a Damares, a Tereza, a Cris, as
mulheres que estão aqui conosco, elas é que vão comandar essa política voltada
para as mulheres e que vai ser a coisa mais fantástica que vocês já viram na
face da Terra”, afirmou Flávio.
À
Agência Pública, o senador Carlos Portinho (PL), justificou que, por
determinação dos próprios partidos, nenhuma das mulheres cotadas para vice pode
assumir a composição da chapa. Siglas do chamado centrão, União Brasil, PP,
Republicanos, Podemos e MDB já anunciaram neutralidade na disputa presidencial.
A
Pública questionou ao parlamentar se, diante do cenário, a saída não deveria
ser pela formação de uma chapa puro sangue, com a indicação de Júlia Zanatta,
que havia se colocado à disposição.
Em
resposta, Portinho apontou que a deputada não traria os votos necessários para
Flávio, já que o seu estado, Santa Catarina, já é dominado pela influência
bolsonarista. A solução, portanto, ficou a cargo de um candidato do Nordeste,
região onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem o maior eleitorado.
A
pressão por uma figura feminina na chapa do PL começou após a madrasta de
Flávio, Michelle Bolsonaro, publicar um vídeo contando que ele a havia
desrespeitado durante a formação dos arranjos partidários nos estados. Na
conta, estava a rejeição da sigla ao nome indicado por Michelle ao Senado pelo
Ceará, o da deputada federal Priscila Costa (PL-CE).
A
parlamentar também foi cotada para ser vice de Flávio, no entanto, segundo
Damares disse a jornalistas, Priscila priorizou a relação com os filhos. “Eu
quero que vocês [imprensa] entendam que não seria fácil a Priscila Costa, com
quatro crianças, abandonar tudo e se lançar no Brasil numa campanha. Então, ela
também ponderou: sou mãe, primeiro, antes de ser candidata a uma pré-candidata,
eu sou mãe e eu vou pesar a maternidade”, declarou Damares.
Ausente
na convenção do PL, onde gravou apenas um vídeo apoiando a candidatura de
Flávio, a ex-primeira-dama também não participou do evento de anúncio do vice.
Michelle é considerada como peça fundamental para uma maior adesão do
eleitorado feminino à candidatura de Flávio. Ela ganhou espaço na sigla após
criar e liderar o PL Mulher, ala de mulheres conservadoras do partido.
Questionada
por jornalistas sobre a ausência de Michelle, Damares se limitou a responder:
“Ela está fazendo comida, gente. A Michele está fazendo comida para o marido”.
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Denúncia por estupro
Em
março deste ano, o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) e a senadora
Soraya Thronicke (Podemos-MS) protocolaram na Polícia Federal (PF) uma
representação pedindo a investigação de Alfredo Gaspar por estupro de
vulnerável. O caso foi revelado pelo jornal Folha de S. Paulo.
De
acordo com o documento enviado à PF, os parlamentares receberam registros e
conversas que indicam o crime cometido contra uma menina que, à época, tinha 13
anos. A violência teria resultado em uma gravidez.
Segundo
apurou a Pública, a representação foi enviada ao Supremo Tribunal Federal
(STF), que a encaminhou para a Procuradoria Geral da República (PGR). Na
sequência, o órgão pediu diligências para a PF, que segue com o caso para
cumprimento do pedido. Não há inquérito aberto na Corte.
Fonte:
Por Andrea DIP, a Agencia Pública

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