sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Terra: algum dia haverá paz?

A reflexão aqui proposta acompanha a humanidade desde que os primeiros agrupamentos humanos abandonaram o nomadismo e passaram a produzir excedentes agrícolas. Enquanto a sobrevivência dependia exclusivamente da caça e da coleta, pouco havia a conquistar além do necessário à própria subsistência. Mas, quando surgiram as primeiras cidades na Mesopotâmia, no vale do Nilo, no Indo e na China, nasceu também uma nova realidade histórica: o excedente econômico. A partir daquele momento, tornou-se possível acumular riqueza, controlar estoques de alimentos, apropriar-se da terra, organizar exércitos permanentes e estabelecer hierarquias políticas cada vez mais complexas. A guerra deixou de ser apenas uma disputa pela sobrevivência imediata para converter-se em instrumento de conquista de riqueza e de poder.

A violência, entretanto, não surgiu do nada, tampouco se tornou autonomamente o motor da história. Antes dela esteve o desejo de apropriação; antes da guerra, a vontade de acumular. Os exércitos não foram organizados porque os homens simplesmente desejavam combater, mas porque havia terras, alimentos, metais, escravos, rotas comerciais e riquezas a conquistar, proteger ou ampliar. A acumulação constituiu o impulso; a força militar tornou-se o instrumento histórico empregado para realizá-la.

Desde então, a história parece mover-se segundo um padrão recorrente. Povos conquistam outros povos, incorporam suas riquezas, submetem sua mão de obra, controlam suas terras e organizam sistemas de dominação capazes de concentrar, em um centro político, os frutos do trabalho produzido nas periferias conquistadas. Egípcios, assírios, persas, macedônios, romanos, árabes, mongóis e tantos outros impérios construíram sua prosperidade sobre essa mesma lógica. Mudavam os idiomas, as religiões e os governantes; permanecia praticamente inalterado o desejo de acumular riqueza, encontrando na força militar o instrumento mais eficaz para realizar esse objetivo.

Ao longo dos séculos, não se modificou a finalidade dessa dominação; apenas se sofisticaram os meios colocados a seu serviço. A espada foi sucedida pelos canhões; os canhões pelos encouraçados; estes pelos porta-aviões, pelos mísseis, pelas armas nucleares e pela supremacia tecnológica aplicada à guerra. Mudaram as armas, ampliou-se sua capacidade destrutiva e aperfeiçoou-se a organização dos exércitos, mas o propósito permaneceu extraordinariamente semelhante: assegurar àqueles que detinham maior poder militar a apropriação e a concentração das riquezas produzidas em escala cada vez mais ampla.

O advento do capitalismo não eliminou essa lógica histórica. Ao contrário, conferiu-lhe uma dinâmica inédita. A riqueza deixou de depender predominantemente da posse da terra para organizar-se em torno da acumulação do capital. A expansão dos mercados tornou-se condição permanente para a continuidade dessa acumulação. A concorrência passou a exigir crescimento ininterrupto, ampliação comercial, apropriação de matérias-primas, energia, territórios estratégicos, força de trabalho e mercados consumidores.

O capitalismo não substituiu as guerras de conquista. Universalizou sua lógica e ampliou sua escala. Se os impérios antigos conquistavam terras para arrecadar tributos, incorporar escravos e saquear riquezas, os impérios capitalistas passaram a disputar continentes inteiros, fontes de energia, recursos minerais, populações consumidoras e espaços de investimento. A acumulação deixou de ser uma consequência eventual da conquista e transformou-se no princípio permanente de organização do sistema econômico.

A economia adquiriu dimensão global, mas a força das armas continuou acompanhando e garantindo sua expansão. O colonialismo europeu, a constituição dos grandes impérios ultramarinos, a escravização de povos africanos, a expropriação das riquezas das Américas, as guerras mundiais e a permanente disputa pela supremacia militar representam momentos distintos de uma mesma trajetória histórica: a busca incessante pela concentração de riqueza e pela preservação do poder daqueles que a acumulam.

É sob essa perspectiva histórica que se deve compreender a sucessão dos grandes impérios.

A história da humanidade pode ser lida como uma longa sucessão de ciclos de hegemonia. Em cada época, uma potência econômica e militar organizou em torno de si a ordem política e comercial do mundo conhecido, impondo suas regras, seus interesses e sua concepção de estabilidade. Os impérios nunca foram apenas organizações territoriais. Constituíram sistemas de concentração de riqueza, de apropriação do trabalho e de transferência dos recursos dos povos submetidos para o centro do poder.

Foi assim com Roma. Sua extraordinária expansão militar não apenas ampliou suas fronteiras, mas construiu uma economia imperial sustentada pela cobrança de tributos, pela escravidão, pela apropriação de terras e pela incorporação das riquezas produzidas nas províncias conquistadas. A chamada Pax Romana simbolizou uma paz garantida pela supremacia das legiões, na qual a estabilidade significava, antes de tudo, a preservação dos interesses do centro imperial. Durante séculos, Roma transformou sua superioridade bélica em superioridade econômica, demonstrando que o desejo de acumulação encontrava no poder militar sua garantia decisiva.

A paz romana não era a paz entre povos livres e iguais. Era a ordem imposta pelos vencedores aos vencidos. As províncias podiam conservar parte de seus costumes, de suas tradições e de suas autoridades locais, desde que reconhecessem a soberania de Roma, pagassem seus tributos e não ameaçassem o fluxo de riquezas destinado ao centro imperial. Quando esse fluxo era contestado, as legiões restabeleciam a ordem.

Entretanto, nenhum império permanece hegemônico para sempre. À medida que os custos da manutenção militar cresceram, que a burocracia se expandiu, que a arrecadação se tornou insuficiente e que disputas internas corroeram a unidade política, Roma entrou em declínio. Não foi destruída por um único inimigo. Sucumbiu quando já não conseguiu sustentar economicamente o custo de sua própria hegemonia. As invasões dos povos germânicos apenas aceleraram um processo de desgaste que já se encontrava em curso.

Roma havia construído sua riqueza mediante a expansão militar e a incorporação contínua de novas fontes de tributos, terras, mão de obra e recursos. Quando a expansão encontrou limites e a manutenção do domínio passou a consumir parcela crescente das riquezas arrecadadas, a engrenagem imperial começou a perder sua capacidade de reprodução. O mesmo instrumento que havia produzido sua grandeza — o poder militar — tornou-se excessivamente oneroso para uma economia que já não conseguia ampliar continuamente sua base de exploração.

O desaparecimento de Roma, porém, não significou o desaparecimento da lógica imperial. Apenas mudou o protagonista. O Império Bizantino preservou parte da estrutura política romana no Oriente; os califados islâmicos reorganizaram vastas regiões do Mediterrâneo, da Ásia e do Oriente Médio; Portugal e Espanha deslocaram o centro da riqueza mundial para o Atlântico mediante as grandes navegações, a colonização, o saque das Américas e a escravização de milhões de africanos; a Holanda combinou força naval e expansão mercantil; e o Império Britânico elevou essa lógica ao auge da Revolução Industrial, convertendo sua extraordinária capacidade produtiva em domínio militar, colonial e econômico sobre vastas regiões do planeta.

A superioridade econômica britânica não se sustentou independentemente de sua supremacia naval. A indústria produzia mercadorias, mas eram os navios de guerra que protegiam as rotas, impunham a abertura de mercados, defendiam as colônias e reprimiam aqueles que resistiam à ordem imperial. A prosperidade da metrópole correspondia à exploração intensiva dos territórios submetidos, de seus recursos naturais e de suas populações.

O século XX marcou apenas uma nova transferência dessa hegemonia. As duas guerras mundiais destruíram a capacidade econômica das potências europeias e abriram espaço para a ascensão dos Estados Unidos. A capacidade industrial norte-americana abasteceu os exércitos aliados e, posteriormente, a reconstrução da Europa e do Japão. O dólar substituiu a libra esterlina como principal moeda internacional, enquanto a superioridade militar dos Estados Unidos passou a garantir a nova ordem geopolítica.

A nova hegemonia não nasceu apenas da eficiência produtiva norte-americana. Nasceu, sobretudo, da vitória militar, da devastação dos concorrentes europeus e da capacidade dos Estados Unidos de projetar sua força sobre praticamente todas as regiões do planeta. Sua liderança financeira, tecnológica, cultural e monetária foi construída e permanece protegida pela maior estrutura militar já organizada por uma potência na história contemporânea.

As bases militares espalhadas pelo mundo, as frotas navais, os arsenais nucleares, as alianças militares e a capacidade de intervenção em diferentes continentes não constituem elementos separados da hegemonia econômica estadunidense. São sua garantia última. A moeda, os contratos, as instituições internacionais e a própria ordem econômica somente conservam sua eficácia porque estão inseridos em uma estrutura de poder cuja sustentação final reside na capacidade de coerção armada.

Entretanto, a história parece novamente movimentar-se. O crescimento econômico da China, a reorganização produtiva da Ásia, o fortalecimento dos BRICS e as dificuldades fiscais enfrentadas pelos Estados Unidos sugerem que o mundo ingressa em mais um período de transição histórica. Não significa, necessariamente, a substituição imediata de uma potência por outra, mas revela o enfraquecimento progressivo da ordem unipolar consolidada após o desaparecimento da União Soviética.

E toda transição de hegemonia registrada pela história foi acompanhada por crises e guerras, porque nenhum império renunciou espontaneamente aos privilégios proporcionados pela posição dominante. A potência em declínio procura preservar o espaço conquistado; a potência emergente busca ampliar sua participação nas riquezas e no poder mundial. Entre ambas instala-se uma disputa que, cedo ou tarde, ultrapassa o terreno econômico e encontra na força militar seu meio decisivo de resolução.

É justamente dessa leitura histórica que emerge a reflexão proposta neste artigo.

A humanidade jamais conheceu um grande processo de acumulação de riqueza que não estivesse sustentado, em última instância, pela força das armas. Da expansão romana aos impérios ultramarinos, da hegemonia britânica à supremacia estadunidense, a prosperidade das potências não decorreu apenas de sua capacidade produtiva. Resultou também da conquista de territórios, da apropriação de recursos, da exploração do trabalho e da imposição de uma ordem destinada a fazer com que a riqueza fluísse das periferias submetidas para o centro dominante.

Mas a violência não é o ponto de partida desse processo. Antes da guerra existe o desejo de acumular; antes dos exércitos, a ambição de possuir aquilo que pertence a outros. A força militar é organizada quando a apropriação encontra resistência. Não são as armas que inventam a cobiça: é a cobiça que fabrica as armas, mobiliza os soldados e transforma a destruição em instrumento de poder.

O capitalismo levou essa lógica à sua expressão mais abrangente. Ao contrário de sistemas anteriores, nos quais a riqueza podia estar associada à posse estável da terra, ao tributo ou ao domínio territorial, o capital somente existe plenamente quando se expande. Precisa crescer, reproduzir-se e converter cada nova riqueza em ponto de partida para uma acumulação ainda maior. Sua permanência depende de um movimento que não admite repouso.

Essa exigência confronta-se, porém, com os limites concretos do mundo. A terra, os recursos naturais, as fontes de energia, a força de trabalho e os mercados não são infinitos. Quando diferentes centros de poder pretendem expandir-se sobre os mesmos espaços, a concorrência econômica transforma-se em disputa política e, no momento decisivo, é a superioridade militar que define quem conservará o domínio e quem suportará a submissão.

Por isso, a guerra não pode ser compreendida como uma perturbação ocasional de uma ordem capitalista essencialmente pacífica. Ela nasce da contradição entre a necessidade ilimitada de expansão do capital e a existência de um planeta limitado, já dividido entre povos, territórios e interesses concorrentes. Quando a acumulação não consegue avançar sem enfrentar oposição, a violência é convocada para remover o obstáculo.

Roma empregou suas legiões para garantir tributos, terras e escravos. O Império Britânico sustentou sua expansão econômica por meio da supremacia naval e do domínio colonial. Os Estados Unidos edificaram sua hegemonia sobre uma capacidade industrial extraordinária, mas a preservaram mediante uma estrutura militar de alcance planetário. Em cada caso, as armas não foram um elemento periférico da prosperidade: constituíram a garantia de que a riqueza conquistada continuasse submetida ao poder dominante.

A paz oferecida pelos impérios sempre foi, portanto, uma paz condicionada. Ela durava enquanto os povos submetidos aceitassem a ordem estabelecida e enquanto nenhuma potência concorrente ameaçasse a distribuição vigente da riqueza mundial. Quando essa ordem era contestada, a guerra reaparecia para restaurá-la ou substituí-la por outra, igualmente fundada na vitória de uns e na subordinação de outros.

O capitalismo aprofundou essa relação ao transformar a acumulação em finalidade permanente da vida econômica. A produção deixou de estar orientada prioritariamente para satisfazer necessidades humanas e passou a ser organizada pela exigência de valorização do capital. O ser humano tornou-se trabalhador explorável, consumidor a ser disputado ou obstáculo a ser removido. Povos inteiros passaram a ser avaliados pela utilidade de seus territórios, de seus recursos e de sua força de trabalho.

É daí que nasce a violência contra a humanidade. Ela não se limita à morte produzida nos campos de batalha. Manifesta-se na destruição de cidades, no deslocamento de populações, na fome provocada pela disputa de recursos, na exploração do trabalho e na redução da vida humana a instrumento de enriquecimento. A guerra é sua expressão mais brutal, mas sua origem está na organização de uma sociedade que coloca a acumulação acima da existência.

A questão ontológica, aqui colocada: “Terra: haverá paz?”, não pode, ser respondida apenas pela esperança de que governantes se tornem mais prudentes ou de que os povos aprendam a negociar suas diferenças. A guerra não resulta apenas de erros diplomáticos, intolerâncias culturais ou personalidades belicosas. Esses fatores podem precipitá-la, mas não explicam a sua recorrência histórica. Sua causa mais profunda está em uma ordem que exige crescimento contínuo, concentração de riqueza e expansão permanente do poder.

Enquanto esse princípio permanecer intocado, a paz será apenas o intervalo no qual os impérios reorganizam suas forças. Novas potências substituirão as antigas, novos centros disputarão os recursos do planeta e novas justificativas serão formuladas para legitimar a violência. Mudarão as bandeiras, as armas e os discursos; permanecerá a mesma engrenagem: acumular, expandir, dominar.

A conclusão que decorre dessa leitura é inequívoca. O capitalismo não apenas convive com a guerra nem se limita a aproveitá-la quando ela acontece. Ao fazer da acumulação ilimitada sua condição de existência, produz as disputas que tornam a guerra recorrente e organiza a força necessária para vencê-las. É o capitalismo que transforma a riqueza em poder, o poder em dominação e a resistência à dominação em motivo para a violência.

A Terra somente conhecerá uma paz verdadeira quando a humanidade deixar de organizar sua existência em torno da acumulação sem limites. Enquanto o enriquecimento de poucos depender da apropriação do trabalho, dos recursos e da vida de muitos, a guerra continuará sendo o desfecho extremo de uma violência já inscrita no funcionamento ordinário do sistema. O capitalismo, porque necessita expandir-se para sobreviver, continuará gerando a guerra e produzindo violência contra a humanidade.

 

Fonte: Por João Lister, em Brasil 247

 

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