sábado, 8 de agosto de 2026

China – as raízes agrárias do confucionismo

O presente estudo consiste numa reflexão em torno do confucionismo e da sua relação com a questão agrária, tendo como referência principal a obra de Mêncio. Começamos por analisar o pensamento de Confúcio, para, de seguida, nos centrarmos na obra de Mêncio, procurando perceber como as questões inerentes à atividade agrícola e à propriedade da terra se cruzam com a sua perspetiva filosófica.

Em virtude da sua extensão, o trabalho encontra-se organizado em três partes a serem publicadas sequencialmente. A primeira incide sobre o quadro histórico e conceptual do confucionismo e a sua articulação com a estrutura agrária da China Antiga; a segunda é consagrada ao estudo da filosofia moral e política de Mêncio, sublinhando a teoria da bondade inata e as quatro virtudes, enquanto a terceira analisa a aplicação do pensamento de Mêncio à questão agrária, ao bem-estar do povo e à tensão com o poder imperial.

A China Antiga era, antes de mais, uma civilização agrícola. A organização da terra, a distribuição da água e a tributação dos camponeses constituíam os pilares sobre os quais se erguia a estrutura social e política. Nesta primeira parte, procuraremos demonstrar que o pensamento de Confúcio – e, por extensão, o de Mêncio – não pode ser compreendido sem se atentar nas condições materiais da época. A filosofia confucionista, embora centrada na moral e na virtude, emerge de um contexto em que a sobrevivência das comunidades dependia do cultivo da terra e da gestão dos recursos hídricos.

Analisaremos, em suma, a relação entre a estrutura agrária, os sistemas de irrigação e a visão confuciana da ordem social, bem como a divisão social do trabalho no campo e as propostas económicas de Confúcio para garantir o bem-estar do povo e a estabilidade do reino.

<><> Mêncio e os mestres confucionistas

Mêncio (370 – 289 a.E.C.) é conhecido pela interpretação e sistematização dos conceitos e do sistema de pensamento de Confúcio. Não foi, contudo, o único a fazê-lo: Zeng Zi (505 – 435 a.E.C.), Zi Si (483 – 402 a.E.C.) e Xun Zi (aprox. 310 – 238 d.E.C.) foram, igualmente, Mestres confucionistas que procuraram compreender e sistematizar o sistema filosófico de Confúcio. Zeng Zi foi um discípulo direto de Confúcio, conhecido pela sua ênfase na piedade filial, enquanto Zi Si foi neto de Confúcio e estudou com Zeng Zi, tendo sido uma figura crucial na transmissão do confucionismo para a geração seguinte (segundo a tradição, terá sido mestre de Mêncio).

Xun Zi foi, por seu lado, um filósofo que também sistematizou o pensamento confuciano, mas com uma visão distinta daquela defendida por Mêncio, especialmente sobre a natureza humana, que considerava intrinsecamente má.

Sima Qian (145–87 a.E.C.), historiador dos princípios da dinastia Han (206 a.E.C.–220 d.E.C.), no seu famoso Registos do historiador (Shiji), dedicou um capítulo conjunto a Mêncio e Xunzi (Mengzi Xun Qing liezhuan). Ao colocá-los na mesma biografia, Sima Qian estabelece, ainda que indiretamente, um contraste entre ambos: embora reconheça que nenhum dos dois se curvou ao poder – ao contrário de outros filósofos da época, que buscavam agradar aos governantes, para obter favores –, a forma como a posteridade os rececionou foi profundamente distinta.

Com efeito, embora a obra de Xunzi fosse influente, nunca alcançou o estatuto da obra de Mêncio, cuja proeminência cresceria, decisivamente, a partir da dinastia Song (960–1279 d.E.C.). Foi neste período que os pensadores neoconfucianos elevaram Mêncio ao estatuto de Segundo Sábio, integrando as suas obras, juntamente com as de Confúcio, nos Quatro Livros – a base do sistema de exames imperiais que perduraria durante séculos. Paralelamente, a visão de Mêncio sobre a bondade inata da natureza humana tornou-se na ortodoxia confuciana, enquanto Xunzi, com a sua visão da maldade da natureza humana, foi, progressivamente, marginalizado e passou a ser visto, por muitos, como um pensador menor – ou, até, herético.

Ao longo da milenar história da China, encetaram-se diversas tentativas de atribuir a Mêncio uma linhagem socialmente relevante – a qual, a ter existido, o próprio não parece ter mencionado. Assinalando que Mêncio insiste demasiado nos méritos intelectuais e morais, que transcendem os privilégios de hereditariedade, alguns autores consideram que este sábio confucionista seria oriundo do povo ou da pequena nobreza guerreira, pertencendo, portanto, a uma classe inferior. Independentemente das origens de classe de Mêncio, uma abordagem à sua obra, assim como à de Confúcio, implica que atentemos na organização socioeconómica da China Antiga, o que nos conduz, inevitavelmente, à compreensão da questão agrária.

Na China Antiga, aquela questão não se dissocia da distribuição de água e, portanto, da tecnologia envolvida no desenvolvimento de sistemas de irrigação – então tecnologicamente bastante avançados. O sistema de poços (well-field system), descrito por Mêncio, é um exemplo de como a organização da terra e da água estava ligada à estrutura social e económica. Com efeito, a China era uma civilização agrícola e, já na dinastia Zhou (1046 a.E.C. – 256 a.E.C.), possuía um sofisticado sistema de irrigação.

O período Zhou foi, de resto, uma era de importantes desenvolvimentos na agricultura e na gestão da água, como atesta o trabalho de irrigação na região de Guanzhong. Os sistemas de irrigação tornar-se-iam, no entanto, mais extensos e sofisticados em períodos posteriores, mormente no período de transição da China Antiga para a China Imperial, como durante a dinastia Han (206 a.E.C. – 220 d.E.C.), com o desenvolvimento de redes de irrigação em grande escala.

<><> A irrigação e a sobrevivência do povo

Embora Confúcio (que viveu no Período da Primavera e Outono) tenha tido menos a dizer sobre agricultura, a sua visão sobre a ordem social é indissociável da estrutura agrária da época. Com efeito, a China Antiga era uma civilização agrícola que dependia de sistemas de irrigação tecnologicamente avançados, cujo funcionamento se baseava no desvio de cursos de água, muitas vezes de regiões distantes, para abastecer diversas áreas de cultivo.

Projetos famosos, como o Dujiangyan, iniciado no final do Período dos Reinos Combatentes (256 a.E.C.), demonstram a engenharia avançada e a escala dos sistemas de gestão de água, que frequentemente desviavam o fluxo de rios para irrigar grandes extensões de terra. Contudo, um problema apresentava-se continuamente: sempre que deflagrava um conflito armado, a distribuição de água era, geralmente, interrompida, uma vez que esta constituía quer um recurso estratégico quer um alvo militar.

Um exemplo paradigmático é o cerco da cidade de Jinyang, no Período dos Reinos Combatentes, onde o clã Zhi usou a água como arma, desviando um rio para inundar a cidade inimiga. Ora, a guerra, nesta época, era, frequentemente, descrita como causadora de destruição generalizada e fome, afetando os ciclos agrícolas. Tendo em conta que a água é um elemento fundamental para o crescimento das sementes e, portanto, para a sobrevivência dos cultivos, a interrupção do seu fornecimento afetava a agricultura, pondo em causa a própria sobrevivência humana, sucedendo-se períodos de fome e, por conseguinte, mortes em massa.

A água e a guerra encontravam-se, assim, no centro de uma problemática que punha em perigo a sobrevivência dos membros das estirpes mais baixas, sobretudo em períodos de guerras constantes, como o foi o Período dos Reinos Combatentes (475 a.E.C. – 221 a.E.C.).

Partimos deste facto para apresentarmos quer Confúcio quer Mêncio como filósofos cuja obra não se poderá dissociar da questão agrária. Ambos procuraram que o sistema de pensamento que advogavam fosse adotado pelas classes dirigentes suas contemporâneas, pelo que a filosofia confucionista se apresenta como interdependente da infraestrutura económica: as questões que se interligam com a exploração e a posse da terra, assim como com as taxas subsequentes que os camponeses e trabalhadores agrícolas deveriam pagar, vão estar na base de preceitos e propostas do sistema de pensamento que Confúcio apresentará e que Mêncio aprofundará.

Podemos, deste modo, afirmar que as questões ligadas à terra e ao seu cultivo condicionam a cosmovisão de ambos os Mestres. Porém, é importante ressaltar que, embora ambos se preocupassem com as questões ligadas à agricultura e à terra, a filosofia que defendiam abarcava elementos mais vastos, já que o objetivo principal de Confúcio e de Mêncio era a ordem social e a governação moral. Mêncio, aliás, refuta ativamente a ideia de que o governante ou o sábio se deveria dedicar à agricultura. No seu debate com os seguidores da escola agrícola (农家nóngjiā), Mêncio defende a divisão do trabalho entre aqueles que trabalham com a mente (governantes e sábios) e aqueles que trabalham com a força (trabalhadores agrícolas e camponeses), citando os sábios-reis Yao (Yáo), Shun (Shùn) e Yu (Yǔ), que, em vez de cultivar, se dedicaram a controlar inundações e a governar, provando que o trabalho de governação é fundamental e não pode ser equiparado ao trabalho agrícola.

Não obstante, ambos os filósofos demonstraram uma preocupação significativa com as bases econômicas do Estado, incluindo a terra, a tributação e a produção agrícola, defendendo uma tributação justa e criticando a imposição de taxas excessivas que empobrecessem o povo (mín). Mêncio defendia, em particular, que o governo não deveria interferir nas estações de cultivo e que a tributação deveria ser leve para que o povo prosperasse, pelo que a sua filosofia se centrava no bem-estar do povo (mín) e na garantia de meios de subsistência (héngchǎn), através do acesso à terra e da redução de impostos.

<><> Conservadorismo e reforma

Confúcio refere, com alguma frequência, que é um conservador, olhando, constantemente, para o passado, e manifestando, por diversas vezes, uma certa nostalgia dos tempos de ouro de outrora. Confúcio via num passado idealizado, como o da dinastia Zhou, um modelo de ordem e prosperidade a ser recuperado, pelo que a sua nostalgia não era relativa a um qualquer passado, mas a uma Era Dourada que acreditava ter existido.

Partindo do estudo dos Cinco Clássicos chineses – vistos por Confúcio como depositários da sabedoria dos antigos sábios-reis cujo estudo era fundamental para compreender os princípios da boa governação e da ordem social que procurava restaurar –, o olhar confuciano para o passado abarca, contudo, um elemento de suma importância: a necessária ordem que uma sociedade deverá ter para que possa prosperar.

A atitude de Confúcio não se cingia, no entanto, a uma mera defesa do status quo em decadência, sendo antes a de um reformador que olhava para o passado para encontrar soluções para o presente. A nostalgia, neste sentido, não era um fim em si mesma, mas uma ferramenta para criticar o presente e promover mudanças. O investigador Tongdong Bai[i] argumenta que os primeiros confucianos eram “revolucionários com uma fachada conservadora”, uma vez que procuravam resolver os problemas da modernidade, não a rejeitando, mas antes abraçando-a, através do recurso a um passado glorioso.

Mêncio teve a habilidade de sistematizar e de expandir o sistema de pensamento confucionista, mantendo aquele olhar passadista e procurando uma solução para os combates e guerras permanentes que punham em causa a sobrevivência da milenar civilização chinesa. Para que esta não perecesse, tornava-se fundamental que os governantes fossem bons governantes.

A filosofia confuciana baseava-se na crença de que o estudo do passado e dos seus exemplos de boa governação era essencial para restaurar a ordem no presente, pelo que tanto Confúcio como Mêncio acreditavam que a paz e a prosperidade dependiam de governantes virtuosos que liderassem pelo exemplo moral: um governante deveria ser um “pai benevolente” para o seu povo, liderando pela virtude, e não pelo simples exercício da força bruta.

A legitimidade do governante dependia, portanto, do seu comportamento ético e da sua capacidade de garantir o bem-estar do povo: neste sentido, Confúcio, primeiro, Mêncio, depois, abraça(m) uma ordem social que repousa, fundamentalmente, no exemplo que um bom governante deveria oferecer a todos os restantes membros de uma dada comunidade. Ora, tendo em conta que a economia repousava na agricultura, um bom governante teria, portanto, de agir e de solucionar os problemas com que pequenos camponeses e trabalhadores agrícolas se deparavam.

Em suma, a presente secção permitiu estabelecer que o confucionismo, tal como formulado por Confúcio, não se limita a um sistema de princípios morais abstractos, antes se enraíza nas condições económicas e sociais da China Antiga.

A questão agrária – entendida como a distribuição da terra, a gestão da água, a tributação e a divisão do trabalho – constitui um elemento estruturante da visão confuciana da ordem social. Confúcio, ao mesmo tempo que propunha um ideal de governante virtuoso, formulava políticas concretas para proteger os camponeses e atrair trabalhadores para os territórios sob o domínio daquele. O seu conservadorismo nostálgico, focado na recuperação de uma Era Dourada passada, revela-se, assim, uma estratégia reformista para responder à desintegração do sistema feudal.

A tensão entre o progressismo social e a defesa da hierarquia – que Mêncio herdará e aprofundará – constitui o fio condutor para as partes seguintes do nosso estudo.

¨      China une universidades, startups e Estado para dominar robótica e IA até 2030

Segundo o The Hindu, a China está derrubando a tese de que inovação exige Estado mínimo.

Em Pequim, um modelo híbrido que combina universidades de ponta, startups dinâmicas e capital público tem acelerado avanços em robótica e inteligência artificial.

O resultado é um ecossistema onde pesquisa acadêmica, empreendedorismo e política industrial operam em conjunto.

Universidades como a Peking e a Tsinghua formam o núcleo científico do sistema, enquanto empresas fundadas por ex-alunos exploram aplicações comerciais. A startup Moonshot ganhou projeção internacional com seu modelo de código aberto Kimi K2.

Yang Xiuling, diretora da Comissão Municipal de Desenvolvimento e Reforma de Pequim, descreve o processo como "um ciclo fechado, da descoberta do projeto à incubação". Para ela, o principal ativo da cidade é a concentração de talento em suas instituições de pesquisa.

O maior obstáculo do modelo é transformar conhecimento acadêmico em produto viável, superando o chamado "vale da morte" da inovação. É nesse ponto que o Estado entra como agente ativo, não apenas como regulador.

Uma plataforma estatal de comercialização conecta pesquisadores a demandas do mercado por meio de gestores especializados. Em 2025, essa plataforma executou mais de 100 mil contratos tecnológicos.

O governo também atua como investidor direto, fornecendo infraestrutura e capital para reduzir o risco das startups em estágios iniciais. Essa lógica de longo prazo aceita ineficiências pontuais em troca de velocidade e escala.

No polo industrial de Yizhuang, o foco é produção em massa. O Centro de Inovação de Robôs Humanoide do Estado coordena o desenvolvimento de uma cadeia de suprimentos completa para o setor.

A empresa Lingyi iTech já fabrica robôs humanoides e projeta redução de custos pela metade até 2030. A meta declarada é figurar entre as três maiores companhias globais do setor.

 

Fonte: Por Ana Maria Saldanha, em A Terra é Redonda/O Cafezinho

 

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