China
– as raízes agrárias do confucionismo
O
presente estudo consiste numa reflexão em torno do confucionismo e da sua
relação com a questão agrária, tendo como referência principal a obra de
Mêncio. Começamos por analisar o pensamento de Confúcio, para, de seguida, nos
centrarmos na obra de Mêncio, procurando perceber como as questões inerentes à
atividade agrícola e à propriedade da terra se cruzam com a sua perspetiva
filosófica.
Em
virtude da sua extensão, o trabalho encontra-se organizado em três partes a
serem publicadas sequencialmente. A primeira incide sobre o quadro histórico e
conceptual do confucionismo e a sua articulação com a estrutura agrária da
China Antiga; a segunda é consagrada ao estudo da filosofia moral e política de
Mêncio, sublinhando a teoria da bondade inata e as quatro virtudes, enquanto a
terceira analisa a aplicação do pensamento de Mêncio à questão agrária, ao
bem-estar do povo e à tensão com o poder imperial.
A China
Antiga era, antes de mais, uma civilização agrícola. A organização da terra, a
distribuição da água e a tributação dos camponeses constituíam os pilares sobre
os quais se erguia a estrutura social e política. Nesta primeira parte,
procuraremos demonstrar que o pensamento de Confúcio – e, por extensão, o de
Mêncio – não pode ser compreendido sem se atentar nas condições materiais da
época. A filosofia confucionista, embora centrada na moral e na virtude, emerge
de um contexto em que a sobrevivência das comunidades dependia do cultivo da
terra e da gestão dos recursos hídricos.
Analisaremos,
em suma, a relação entre a estrutura agrária, os sistemas de irrigação e a
visão confuciana da ordem social, bem como a divisão social do trabalho no
campo e as propostas económicas de Confúcio para garantir o bem-estar do povo e
a estabilidade do reino.
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Mêncio e os mestres confucionistas
Mêncio
(370 – 289 a.E.C.) é conhecido pela interpretação e sistematização dos
conceitos e do sistema de pensamento de Confúcio. Não foi, contudo, o único a
fazê-lo: Zeng Zi (505 – 435 a.E.C.), Zi Si (483 – 402 a.E.C.) e Xun Zi (aprox.
310 – 238 d.E.C.) foram, igualmente, Mestres confucionistas que procuraram
compreender e sistematizar o sistema filosófico de Confúcio. Zeng Zi foi um
discípulo direto de Confúcio, conhecido pela sua ênfase na piedade filial,
enquanto Zi Si foi neto de Confúcio e estudou com Zeng Zi, tendo sido uma
figura crucial na transmissão do confucionismo para a geração seguinte (segundo
a tradição, terá sido mestre de Mêncio).
Xun Zi
foi, por seu lado, um filósofo que também sistematizou o pensamento confuciano,
mas com uma visão distinta daquela defendida por Mêncio, especialmente sobre a
natureza humana, que considerava intrinsecamente má.
Sima
Qian (145–87 a.E.C.), historiador dos princípios da dinastia Han (206
a.E.C.–220 d.E.C.), no seu famoso Registos do historiador (Shiji),
dedicou um capítulo conjunto a Mêncio e Xunzi (Mengzi Xun Qing liezhuan).
Ao colocá-los na mesma biografia, Sima Qian estabelece, ainda que
indiretamente, um contraste entre ambos: embora reconheça que nenhum dos dois
se curvou ao poder – ao contrário de outros filósofos da época, que buscavam
agradar aos governantes, para obter favores –, a forma como a posteridade os
rececionou foi profundamente distinta.
Com
efeito, embora a obra de Xunzi fosse influente, nunca alcançou o estatuto da
obra de Mêncio, cuja proeminência cresceria, decisivamente, a partir da
dinastia Song (960–1279 d.E.C.). Foi neste período que os pensadores
neoconfucianos elevaram Mêncio ao estatuto de Segundo Sábio,
integrando as suas obras, juntamente com as de Confúcio, nos Quatro
Livros – a base do sistema de exames imperiais que perduraria durante
séculos. Paralelamente, a visão de Mêncio sobre a bondade inata da natureza
humana tornou-se na ortodoxia confuciana, enquanto Xunzi, com a sua visão da
maldade da natureza humana, foi, progressivamente, marginalizado e passou a ser
visto, por muitos, como um pensador menor – ou, até, herético.
Ao
longo da milenar história da China, encetaram-se diversas tentativas de
atribuir a Mêncio uma linhagem socialmente relevante – a qual, a ter existido,
o próprio não parece ter mencionado. Assinalando que Mêncio insiste demasiado
nos méritos intelectuais e morais, que transcendem os privilégios de
hereditariedade, alguns autores consideram que este sábio confucionista seria
oriundo do povo ou da pequena nobreza guerreira, pertencendo, portanto, a uma
classe inferior. Independentemente das origens de classe de Mêncio, uma
abordagem à sua obra, assim como à de Confúcio, implica que atentemos na
organização socioeconómica da China Antiga, o que nos conduz, inevitavelmente,
à compreensão da questão agrária.
Na
China Antiga, aquela questão não se dissocia da distribuição de água e,
portanto, da tecnologia envolvida no desenvolvimento de sistemas de irrigação –
então tecnologicamente bastante avançados. O sistema de poços (well-field
system), descrito por Mêncio, é um exemplo de como a organização da terra e
da água estava ligada à estrutura social e económica. Com efeito, a China era
uma civilização agrícola e, já na dinastia Zhou (1046 a.E.C. – 256 a.E.C.),
possuía um sofisticado sistema de irrigação.
O
período Zhou foi, de resto, uma era de importantes desenvolvimentos na
agricultura e na gestão da água, como atesta o trabalho de irrigação na região
de Guanzhong. Os sistemas de irrigação tornar-se-iam, no entanto, mais extensos
e sofisticados em períodos posteriores, mormente no período de transição da
China Antiga para a China Imperial, como durante a dinastia Han (206 a.E.C. –
220 d.E.C.), com o desenvolvimento de redes de irrigação em grande escala.
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A irrigação e a sobrevivência do povo
Embora
Confúcio (que viveu no Período da Primavera e Outono) tenha tido menos a dizer
sobre agricultura, a sua visão sobre a ordem social é indissociável da
estrutura agrária da época. Com efeito, a China Antiga era uma civilização
agrícola que dependia de sistemas de irrigação tecnologicamente avançados, cujo
funcionamento se baseava no desvio de cursos de água, muitas vezes de regiões
distantes, para abastecer diversas áreas de cultivo.
Projetos
famosos, como o Dujiangyan, iniciado no final do Período dos Reinos Combatentes
(256 a.E.C.), demonstram a engenharia avançada e a escala dos sistemas de
gestão de água, que frequentemente desviavam o fluxo de rios para irrigar
grandes extensões de terra. Contudo, um problema apresentava-se continuamente:
sempre que deflagrava um conflito armado, a distribuição de água era,
geralmente, interrompida, uma vez que esta constituía quer um recurso
estratégico quer um alvo militar.
Um
exemplo paradigmático é o cerco da cidade de Jinyang, no Período dos Reinos
Combatentes, onde o clã Zhi usou a água como arma, desviando um rio para
inundar a cidade inimiga. Ora, a guerra, nesta época, era, frequentemente,
descrita como causadora de destruição generalizada e fome, afetando os ciclos
agrícolas. Tendo em conta que a água é um elemento fundamental para o
crescimento das sementes e, portanto, para a sobrevivência dos cultivos, a
interrupção do seu fornecimento afetava a agricultura, pondo em causa a própria
sobrevivência humana, sucedendo-se períodos de fome e, por conseguinte, mortes
em massa.
A água
e a guerra encontravam-se, assim, no centro de uma problemática que punha em
perigo a sobrevivência dos membros das estirpes mais baixas, sobretudo em
períodos de guerras constantes, como o foi o Período dos Reinos Combatentes
(475 a.E.C. – 221 a.E.C.).
Partimos
deste facto para apresentarmos quer Confúcio quer Mêncio como filósofos cuja
obra não se poderá dissociar da questão agrária. Ambos procuraram que o sistema
de pensamento que advogavam fosse adotado pelas classes dirigentes suas
contemporâneas, pelo que a filosofia confucionista se apresenta como
interdependente da infraestrutura económica: as questões que se interligam com
a exploração e a posse da terra, assim como com as taxas subsequentes que os
camponeses e trabalhadores agrícolas deveriam pagar, vão estar na base de
preceitos e propostas do sistema de pensamento que Confúcio apresentará e que
Mêncio aprofundará.
Podemos,
deste modo, afirmar que as questões ligadas à terra e ao seu cultivo
condicionam a cosmovisão de ambos os Mestres. Porém, é importante ressaltar
que, embora ambos se preocupassem com as questões ligadas à agricultura e à
terra, a filosofia que defendiam abarcava elementos mais vastos, já que o
objetivo principal de Confúcio e de Mêncio era a ordem social e a governação
moral. Mêncio, aliás, refuta ativamente a ideia de que o governante ou o sábio
se deveria dedicar à agricultura. No seu debate com os seguidores da escola
agrícola (农家 – nóngjiā), Mêncio
defende a divisão do trabalho entre aqueles que trabalham com a mente
(governantes e sábios) e aqueles que trabalham com a força (trabalhadores
agrícolas e camponeses), citando os sábios-reis Yao (尧
– Yáo), Shun (舜 – Shùn)
e Yu (禹 – Yǔ), que, em vez de cultivar, se dedicaram a
controlar inundações e a governar, provando que o trabalho de governação é
fundamental e não pode ser equiparado ao trabalho agrícola.
Não
obstante, ambos os filósofos demonstraram uma preocupação significativa com as
bases econômicas do Estado, incluindo a terra, a tributação e a produção
agrícola, defendendo uma tributação justa e criticando a imposição de taxas
excessivas que empobrecessem o povo (民 – mín).
Mêncio defendia, em particular, que o governo não deveria interferir nas
estações de cultivo e que a tributação deveria ser leve para que o povo
prosperasse, pelo que a sua filosofia se centrava no bem-estar do povo (民
– mín) e na garantia de meios de subsistência (恒产 – héngchǎn), através do acesso à terra e da
redução de impostos.
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Conservadorismo e reforma
Confúcio
refere, com alguma frequência, que é um conservador, olhando, constantemente,
para o passado, e manifestando, por diversas vezes, uma certa nostalgia dos
tempos de ouro de outrora. Confúcio via num passado idealizado, como o da
dinastia Zhou, um modelo de ordem e prosperidade a ser recuperado, pelo que a
sua nostalgia não era relativa a um qualquer passado, mas a uma Era Dourada que
acreditava ter existido.
Partindo
do estudo dos Cinco Clássicos chineses – vistos por Confúcio
como depositários da sabedoria dos antigos sábios-reis cujo estudo era
fundamental para compreender os princípios da boa governação e da ordem social
que procurava restaurar –, o olhar confuciano para o passado abarca, contudo,
um elemento de suma importância: a necessária ordem que uma sociedade deverá
ter para que possa prosperar.
A
atitude de Confúcio não se cingia, no entanto, a uma mera defesa do status
quo em decadência, sendo antes a de um reformador que olhava para o
passado para encontrar soluções para o presente. A nostalgia, neste sentido,
não era um fim em si mesma, mas uma ferramenta para criticar o presente e
promover mudanças. O investigador Tongdong Bai[i] argumenta que os primeiros
confucianos eram “revolucionários com uma fachada conservadora”, uma vez que
procuravam resolver os problemas da modernidade, não a rejeitando, mas antes
abraçando-a, através do recurso a um passado glorioso.
Mêncio
teve a habilidade de sistematizar e de expandir o sistema de pensamento
confucionista, mantendo aquele olhar passadista e procurando uma solução para
os combates e guerras permanentes que punham em causa a sobrevivência da
milenar civilização chinesa. Para que esta não perecesse, tornava-se
fundamental que os governantes fossem bons governantes.
A
filosofia confuciana baseava-se na crença de que o estudo do passado e dos seus
exemplos de boa governação era essencial para restaurar a ordem no presente,
pelo que tanto Confúcio como Mêncio acreditavam que a paz e a prosperidade
dependiam de governantes virtuosos que liderassem pelo exemplo moral: um
governante deveria ser um “pai benevolente” para o seu povo, liderando pela
virtude, e não pelo simples exercício da força bruta.
A
legitimidade do governante dependia, portanto, do seu comportamento ético e da
sua capacidade de garantir o bem-estar do povo: neste sentido, Confúcio,
primeiro, Mêncio, depois, abraça(m) uma ordem social que repousa,
fundamentalmente, no exemplo que um bom governante deveria oferecer a todos os
restantes membros de uma dada comunidade. Ora, tendo em conta que a economia
repousava na agricultura, um bom governante teria, portanto, de agir e de
solucionar os problemas com que pequenos camponeses e trabalhadores agrícolas
se deparavam.
Em
suma, a presente secção permitiu estabelecer que o confucionismo, tal como
formulado por Confúcio, não se limita a um sistema de princípios morais
abstractos, antes se enraíza nas condições económicas e sociais da China
Antiga.
A
questão agrária – entendida como a distribuição da terra, a gestão da água, a
tributação e a divisão do trabalho – constitui um elemento estruturante da
visão confuciana da ordem social. Confúcio, ao mesmo tempo que propunha um
ideal de governante virtuoso, formulava políticas concretas para proteger os
camponeses e atrair trabalhadores para os territórios sob o domínio daquele. O
seu conservadorismo nostálgico, focado na recuperação de uma Era Dourada
passada, revela-se, assim, uma estratégia reformista para responder à
desintegração do sistema feudal.
A
tensão entre o progressismo social e a defesa da hierarquia – que Mêncio
herdará e aprofundará – constitui o fio condutor para as partes seguintes do
nosso estudo.
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China une universidades, startups e Estado para dominar
robótica e IA até 2030
Segundo
o The Hindu, a China está
derrubando a tese de que inovação exige Estado mínimo.
Em
Pequim, um modelo híbrido que combina universidades de ponta, startups
dinâmicas e capital público tem acelerado avanços em robótica e inteligência
artificial.
O
resultado é um ecossistema onde pesquisa acadêmica, empreendedorismo e política
industrial operam em conjunto.
Universidades
como a Peking e a Tsinghua formam o núcleo científico do sistema, enquanto
empresas fundadas por ex-alunos exploram aplicações comerciais. A startup
Moonshot ganhou projeção internacional com seu modelo de código aberto Kimi K2.
Yang
Xiuling, diretora da Comissão Municipal de Desenvolvimento e Reforma de Pequim,
descreve o processo como "um ciclo fechado, da descoberta do projeto à
incubação". Para ela, o principal ativo da cidade é a concentração de
talento em suas instituições de pesquisa.
O maior
obstáculo do modelo é transformar conhecimento acadêmico em produto viável,
superando o chamado "vale da morte" da inovação. É nesse ponto que o
Estado entra como agente ativo, não apenas como regulador.
Uma
plataforma estatal de comercialização conecta pesquisadores a demandas do
mercado por meio de gestores especializados. Em 2025, essa plataforma executou
mais de 100 mil contratos tecnológicos.
O
governo também atua como investidor direto, fornecendo infraestrutura e capital
para reduzir o risco das startups em estágios iniciais. Essa lógica de longo
prazo aceita ineficiências pontuais em troca de velocidade e escala.
No polo
industrial de Yizhuang, o foco é produção em massa. O Centro de Inovação de
Robôs Humanoide do Estado coordena o desenvolvimento de uma cadeia de
suprimentos completa para o setor.
A
empresa Lingyi iTech já fabrica robôs humanoides e projeta redução de custos
pela metade até 2030. A meta declarada é figurar entre as três maiores
companhias globais do setor.
Fonte:
Por Ana Maria Saldanha, em A Terra é Redonda/O Cafezinho

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