Doutrina
Donroe: a próxima etapa
Um
olhar rápido sobre o mapa político da América Latina mostra que a maioria dos
países da região, sobretudo os andinos, deu um giro recentemente à
extrema-direita, precedendo ou em seguida a eleição de Donald Trump nos Estados
Unidos. Desde a América Central até a Terra do Fogo, praticamente todos os
países atravessados pela cordilheira dos Andes – que somam uma área conjunta de
oito milhões de quilômetros quadrados, equivalente à do Brasil – passaram a ter
governos com acentuado viés direitista e, em quase todos os casos,
decididamente ultradireitista. O processo começou com a eleição de Javier Milei
na Argentina, mas acelerou-se nos últimos meses com as eleições da Bolívia,
Chile, Peru e Colômbia. Na América do Sul, apenas Brasil e Uruguai resistem a
submeter-se às políticas de segurança coercitivas dos novos profetas do
populismo ultraconservador. Depois de consolidar o poder de seus aliados de
extrema-direita no continente, influenciando as eleições nacionais por meio de
fraudes ou da promoção e financiamento de seus candidatos, os Estados Unidos
convidam seus aliados a adotar um preocupante arsenal jurídico baseado em sua
nova legislação antiterrorista, para que esses governos possam perseguir,
reprimir e, se for o caso, exterminar abertamente os opositores.
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Resurgimento do terrorismo político?
No dia
16 de julho passado, os Estados Unidos convocaram mais de 60 países para uma
cúpula de alto nível em Washington, a fim de coordenar com eles – a lista
completa permanece em segredo – sua nova estratégia antiterrorista. Referida
cúpula, denominada Reunião Ministerial sobre o Ressurgimento do Terrorismo
Político, contou com uma representação de nível inferior do governo espanhol, o
que sugere que nem todos os participantes compartilhariam, a priori, os planos
da Casa Branca. A convocatória institucional pretende legitimar
internacionalmente a cruzada ideológica anticomunista lançada por Marco Rubio e
pelo presidente Donald Trump.
O
discurso inaugural foi proferido pelo Secretário de Estado, Marco Rubio,
alimentando fantasmas do passado como as Brigadas Vermelhas ou os Tupamaros,
organizações extintas há mais de meio século, e confundindo-as com entidades
fantasmagóricas inventadas pela Administração Trump, como uma suposta rede
transnacional interconectada de “militantes da Antifa”, que, assim como o
fantasmagórico “Cartel dos Sóis”, nunca existiu. Uma cruzada ideológica contra
o conhecimento científico, a consciência social e a insubmissão; contra
qualquer forma de organização coletiva que coloque em risco os privilégios das
elites políticas e econômicas por meio da crítica. Batalha cultural contra
noções e conquistas há muito assentadas na civilização ocidental, tanto
europeia quanto latino-americana: justiça social, liberdade de expressão,
respeito pelas diferenças, debate político sereno; todas substituídas por seus
opostos: desigualdade extrema, censura, homofobia e perseguição às minorias,
disputa política exacerbada. Cruzada religiosa (puritana) contra a ordem social
e os valores historicamente propugnados pela Igreja Católica com sua doutrina
social, adotada por movimentos políticos latino-americanos como o peronismo,
para substituí-la pela ética reacionária do judaísmo sionista (Milei) ou das
igrejas pentecostais (De la Espriella).
O
escritor estadunidense Quinn Slobodian define a “direita alternativa” ou
extrema-direita como “uma tentativa de desarmar a obra do humanismo liberal
igualitário dos últimos 200 anos e restaurar uma ordem hierárquica”. O programa
político dessa extrema-direita ultrarreligiosa que vai tomando corpo
globalmente nos Estados Unidos inclui, entre outras regressões
antidemocráticas, retirar o direito ao voto das mulheres. Essa mística obscura
conecta-se diretamente com a nova classe dirigente dos Estados Unidos, a dos
tecnooligarcas. Entre eles, Peter Thiel, fundador do PayPal e presidente da
Palantir, que afirmou em uma conferência que a ativista climática Greta
Thunberg é uma “legionária do anticristo”, assim como aqueles que se opõem ao
desenvolvimento irrestrito da IA. Thiel, que financiou a campanha eleitoral do
vice-presidente JD Vance, ministrou em outubro de 2025 várias conferências nas
quais combinou seu investimento tecnológico em IA para uso militar com sua
busca pessoal de alcançar a imortalidade e suas reacionárias ideias religiosas.
Não nos enganemos. A batalha cultural que os ultradireitistas travam consiste
em construir a trama simbólica de uma nova forma de dominação, a dos senhores
tecnooligarcas que conseguiram cooptar muitos governos. Incluídos os de muitos
países da UE, que já lhes permitem controlar o conteúdo de nossas comunicações:
dados, mensagens, fotos, vídeos e conversas. E isso é feito com o consentimento
explícito do poder político à mercantilização de nossos dados, sob o argumento
de proteger os menores nas redes sociais. A polícia do pensamento tomou forma,
seja interceptando nossas comunicações, seja restringindo nossa liberdade de
expressão ao nos forçar a internalizar as restrições impostas para não sermos
catalogados como “terroristas de extrema-esquerda”.
O
presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, anunciou a nomeação de
uma ex-senadora uribista, Paola Holguín, como ministra da Cultura de seu
governo. Holguín possui mestrado em Segurança e Defesa Nacional, e realizou
estudos especializados em Política e Estratégia de Segurança e em Terrorismo e
Contrainsurgência no Centro de Estudos Hemisféricos de Segurança e Defesa
(CHDS) da Universidade de Defesa em Washington. Com tais credenciais, além de
sua formação como “comunicadora social”, Holguín levará adiante a batalha
cultural no terreno específico da criação e da arte. Seus detratores já
antecipam que ela imporá uma férrea censura e comandará um dispositivo de
perseguição política aos criadores dissidentes. Seu trabalho complementará o de
uma nova ministra da Educação, Viviane Morales, cujo objetivo manifesto é a
evangelização do país, inspirada na ideia reacionária de “reconstrução moral da
pátria” formulada por De la Espriella e que propugna um retorno aos valores
tradicionais nas salas de aula. A extrema-direita, encorajada pelos resultados
eleitorais, empreendeu na Colômbia a caça às bruxas antes mesmo de chegar ao
governo. Professores da Universidade Tecnológica de Pereira receberam e-mails
intimidatórios, em suas contas de correio institucionais, enviados pelo
Movimento Defensores da Pátria. Em um comunicado intitulado “Acabou a alegria,
comunistas”, o selo político de extrema-direita que apoiou De la Espriella
ameaçou os professores assim: “EXTERMINAR O COMUNISMO É UMA MISSÃO SAGRADA.
Vamos limpar todas as universidades deste país, vamos eliminar o Ministério da
Educação e não vamos permitir que os guerrilheiros terroristas continuem se
formando nesses centros-lixo”. No parágrafo anterior, que também não tem
desperdício, afirmam que seu objetivo é “erradicar todo aquele que pense a
partir do marxismo e faça apologia a ideologias-lixo que não servem à Pátria
Milagre. (…) O TERRORISMO NA COLÔMBIA NÃO TEM MAIS VEZ COM O TIGRE”.
Este
panfleto descontrolado resume com perfeição a proximidade ideológica desta nova
extrema-direita com o pensamento imperial de Donald Trump e Marco Rubio. A
ideia de “missão sagrada” e a menção à programática Patria Milagro fornecem
o enquadramento do fanatismo ideológico que justifica as ameaças. A menção ao
marxismo é uma precisão crucial para identificar o que estes exterminadores
entendem como o núcleo mais perigoso da esquerda internacional: uma filosofia
da história e a sua economia política, não movimentos ou organizações desta ou
daquela cor. E a associação desta ideologia com o terrorismo remete diretamente
para a Estratégia de Contraterrorismo dos Estados Unidos divulgada em maio de
2026, que identifica e diz enfrentar os “três maiores tipos de grupos
terroristas”: narcoterroristas e gangues transnacionais, terroristas
islâmicos reciclados e extremistas de esquerda violentos,
incluindo anarquistas e antifascistas. Ao explicar esta estratégia, Marco Rubio
diz: “Podem chamar-se anticapitalistas, anti-imperialistas, comunistas,
anarquistas ou marxistas. Mas a sua natureza fundamental é sempre a mesma: um
ressentimento peçonhento, disfarçado com a linguagem da igualdade, da justiça e
da libertação”.
Embora
esta exceção possa ser precária e apenas temporária, como comprova a
perseguição obstinada dos ultras (a começar pelo próprio Donald Trump) contra o
presidente espanhol Pedro Sánchez. Como na Alemanha de Bismarck, quando o
crescimento do Partido Social-Democrata, temido por liberais e conservadores,
ameaçava a estabilidade nacionalista burguesa e se chamou de “espectro
vermelho”. A invocação do vermelho como cor do inimigo de classe faz-se sentir
um século após a ascensão do nazismo como argumento dos carrascos da
extrema-direita para espancar os seus adversários. Um exemplo recente é a
agressão física que sofreu em Cádis o jornalista e militante antifascista Fonsi
Loaiza, autor de livros de denúncia sobre as práticas mafiosas das classes
dominantes, tais como Oligarcas: Los dueños de España (Akal,
2024) e muitos outros sobre as máfias do futebol, a quem gritaram “vermelho”
como insulto antes de o espancarem de forma selvagem e o deixarem inconsciente.
Após a agressão, que denunciou como “violência de extrema-direita”, declarou
nas suas redes sociais: “Aos que usam o terror e o ódio fascista: não me vão
calar”. Cabe assinalar que uma de suas publicações mais recentes celebrava a
vitória eleitoral da prefeita comunista da segunda maior cidade da Áustria: “A
prefeita comunista Elke Kahr varreu as eleições municipais de Graz, na Áustria.
Suas medidas: habitação social e proibir a privatização do solo. Doa 75% de seu
salário”. Essa exaltação do “comunismo” em um país democrático é absolutamente
inaceitável para a polícia do pensamento que pretende impor a ditadura do
neoliberalismo a sangue e fogo. A narrativa desdobrada por Marco Rubio acusando
a esquerda de agir por ressentimento “disfarçado com a linguagem da igualdade,
da justiça e da libertação” expande o plano de atuação dessa estratégia
antiterrorista a qualquer forma de crítica ao poder. Levanta-se a proibição da
perseguição de “inimigos” políticos, concebidos segundo os parâmetros do
neoimperialismo extrativista e suas exigências de controle territorial e
dominação social.
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Polícia internacional de criminosos e narcotraficantes
Embora
Donald Trump tenha feito campanha prometendo concentrar-se nos assuntos
nacionais dos Estados Unidos, seu governo desperdiça tempo e recursos fazendo
guerras inúteis e intervindo nos assuntos internos de quase todo o mundo. A
ingerência dos Estados Unidos em países latino-americanos sob o argumento de
perseguir terroristas teve outro momento de destaque no final de maio de 2026,
quando o Departamento de Estado se envolveu em questões de política interna do
Brasil, designando como organizações terroristas estrangeiras o Comando
Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC), as duas maiores organizações
criminosas do país, uma com base no Rio de Janeiro e a outra em São Paulo, que
se financiam por meio do narcotráfico, sequestros, assaltos, extorsões e
pistoleiros. Ambas contam com dezenas de milhares de integrantes, muitos dos
quais atuam desde as prisões. Nenhuma das atividades dessas gangues, apesar de
sua extrema violência, pode ser considerada terrorista. Associar o tráfico de
drogas ao terrorismo jihadista como causas do terrorismo é, sem dúvida, um
enorme absurdo. Mas vincular ambas as condutas puníveis às convicções de
anarquistas e antifascistas que se expressam por meio do protesto pacífico, ou
de uma legítima reivindicação anti-imperialista, equivale à imposição de um
regime de perseguição cidadã em escala global. Um sistema de vigilância
panóptico com epicentro nos Estados Unidos, mas com ramificações europeias que
se manifestam, por exemplo, no aval dado às grandes empresas de tecnologia norte-americanas
para “supervisionar” as nossas comunicações. O investimento em publicidade
política no exterior tornou-se prioridade da Administração Trump. Após o
escândalo provocado pelas indiscrições do ex-presidente de Honduras, Juan
Orlando Hernández, narcotraficante condenado nos Estados Unidos a 45 anos de prisão
e perdoado por Donald Trump, o Departamento de Estado decidiu subsidiar
diretamente os propagandistas da nova ordem imperial. Uma “bolsa” de até três
milhões de dólares permitirá comprar talentos (jornalistas, influenciadores)
para promover a simpatia pelo MAGA na Europa.
Neste
ponto, convém recordar a noção de narcoestado de que os Estados Unidos se têm
valido para violar a soberania de outros países, principalmente na América
Latina. Um país define-se ou não como narcoestado dependendo dos interesses
geopolíticos de Washington. O Panamá foi um suposto narcoestado quando os
interesses de Noriega entraram em conflito com os do centro de comando
imperial. Nem antes nem depois do violento golpe esse país foi uma ameaça
vinculada ao narcotráfico. O Afeganistão, por outro lado, tornou-se, durante
mais de duas décadas de ocupação da OTAN liderada pelos Estados Unidos, o maior
“narcoestado” não reconhecido do mundo, e deixou de o ser quando os talibãs os
expulsaram do poder. Por sua vez, a Colômbia não foi considerada um narcoestado
sob os governos de Álvaro Uribe, quando a prioridade de Washington era a luta
contra as guerrilhas, embora disfarçada nos documentos do Plano Colômbia como
guerra contra as drogas.
Os
Estados Unidos sempre se consideraram a “nação escolhida”, “a Nova Israel”. Na
mística fundacional, desde as primeiras colônias puritanas, os recém-chegados
converteram esta região do mundo em “a terra prometida para o povo escolhido
por Deus”, como afirma Jim Cullen em seu livro O sonho americano.
Os passos seguintes foram atribuir a si mesmos o nome de América, tomando a
parte pelo todo, e desenvolver a doutrina Monroe e atribuir a si mesmos o papel
de salvadores dos demais países do hemisfério. E agora, as mesmas formas de
fundamentalismo religioso que têm um papel relevante na cultura política
doméstica dos Estados Unidos projetam-se como uma nova cultura de massas por
meio da política externa.
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As batalhas judiciais
A
batalha cultural da extrema-direita internacional é também uma guerra judicial
que não se vale apenas do lawfare para encurralar as figuras políticas mais
proeminentes do progressismo internacional. Há também outro objetivo de caráter
sistêmico: desmantelar as instituições internacionais que historicamente
representaram alguma forma de contenção às ambições desmedidas dos estados
“bandidos”, aqueles que se dedicam impunemente ao saqueio de terras e recursos
naturais invadindo e bombardeando países soberanos. Uma dessas instituições é o
Tribunal Penal Internacional (TPI). Em um artigo publicado por Marco Rubio
no The Wall Street Journal, o Secretário de Estado afirmou que os
Estados Unidos nunca aceitaram a existência de um tribunal mundial com
competências que pudessem “prevalecer sobre nossos próprios tribunais e a
Constituição”. Mas não fica numa posição defensiva. Aqui, como em outras
ordens, os Estados Unidos se sentem chamados a desbaratar os sistemas de
acordos internacionais: “Queremos destruir o Tribunal, tijolo por tijolo”. Dado
que os Estados Unidos não reconhecem a jurisdição do TPI para seus cidadãos,
essa ofensiva é outra forma de ingerência direta nos assuntos das demais
nações. Marco Rubio convidou os países aliados de Washington a também se
desvincularem do TPI. Por outro lado, o governo estadunidense sancionou os sete
juízes do Tribunal e os três procuradores por terem participado da aprovação de
uma ordem de captura contra Benjamin Netanyahu por crimes contra a humanidade.
Todos eles foram incluídos na lista de “metecos” financeiros em fevereiro de
2025, conhecida como lista Clinton, e desde então não podem acessar serviços
(bancários) estadunidenses, nem cartões de crédito (os mais usados na Europa
são estadunidenses), nem aplicativos de reserva de hotéis ou voos, entre muitas
outras restrições. Este é o mesmo tratamento que o presidente dos Estados
Unidos dispensa à relatora especial da ONU para a Palestina, Francesca
Albanese, ou ao presidente colombiano Gustavo Petro e vários de seus próximos.
O castigo aos seus contraditores inclui sempre duríssimas sanções para que não
possam gozar de nenhuma liberdade econômica. Além disso, não contente com essas
restrições, os Estados Unidos empreenderam uma perseguição velada ao
procurador-chefe Karim Khan, até conseguir que 82 dos 125 países que compõem o
TPI votassem a favor de sua destituição em uma recente Assembleia dos Estados
Partes. O desconhecimento e o boicote às instituições jurídicas multilaterais
estendem-se aos aliados dos Estados Unidos. O extremista de direita
colombo-americano Abelardo de la Espriella, que segue em tudo os passos de
Donald Trump, sugeriu na sua campanha que a Colômbia poderia abandonar a Corte
Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH), uma instituição respeitada na
América Latina como tribunal de última instância, que revisa as arbitrariedades
da justiça estatal de cada país.
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Desafios à democracia no mundo
A
professora estadunidense Shoshana Zuboff, que desenvolveu o conceito de
“capitalismo de vigilância” para retratar o momento atual da humanidade,
caracterizado pelo domínio universal dos tecnooligarcas digitais que atentam
contra a democracia pela própria natureza de seu negócio, publicou um livro
intitulado Capitalismo da vigilância ou democracia? no qual dá
conta dessa contradição, em sua opinião irresolúvel. A informação “corrupta”
que recebemos por meio dos gigantes tecnológicos gerou, nas últimas duas
décadas, um “totalitarismo com fins lucrativos”. Ao mesmo tempo, produz-se uma
concentração ilícita de dados que depois deriva em concentração ilícita do
conhecimento nas mãos das elites tecnooligárquicas. “O que o economista vê como
um domínio oligopolista do mercado revela-se, do ponto de vista sociológico,
como uma oligarquia do conhecimento que institucionaliza os privilégios da
governança privada sobre a divisão da aprendizagem na sociedade”.
A
propaganda política da extrema-direita se espalha pelas redes por motivos
econômicos: o algoritmo se alimenta mais e mais rápido com informação corrupta,
tendenciosa e polarizadora. Shoshana Zuboff documentou essa tendência do
oligopólio tecnológico de inclinar a balança para a direita: “como a maior
parte da desinformação é produzida por representantes da extrema-direita, seu
valor econômico superior significa que a desinformação de extrema-direita tem
um privilégio consistente com cada otimização algorítmica” do sistema. O
economista grego Yanis Varoufakis refere-se como “tecnofeudalismo” à mutação
atual do sistema capitalista, um capitalismo de plataformas no qual desaparecem
a concorrência e o mercado tal como os conhecemos. No topo do sistema estão os
donos da “nuvem” (Amazon, Google, Facebook-Meta, Apple e Microsoft) e as
grandes empresas de IA (Open AI, Anthropic, Palantir), e no estrato inferior, a
maior parte da humanidade, que alimenta o sistema com a servidão de gerar dados
apenas pelo uso dessas plataformas. Há quem sugira que o termo
“tecnofeudalismo” é mais uma metáfora do poder hiperconcentrado das companhias
tecnológicas do que uma categoria analítica útil. Shoshana Zuboff afirma que o
capitalismo de vigilância é a forma que adquire esta nova fase do capitalismo
de caráter antidemocrático. O neoimperialismo estadunidense está desenvolvendo
uma nova forma de dominação política que habilita o presidente dos Estados
Unidos a intervir nas eleições de outros países e pender a balança em favor de
“seus” candidatos. Já o fez de maneira ostensiva nas eleições da Argentina,
Honduras e Colômbia, e presumivelmente também no Peru. Como enfrentam os
progressistas e democratas de todo o mundo este enorme desafio que se abate
sobre as democracias?
Em uma
conferência proferida por Varoufakis no final do primeiro governo Trump, em
2020, o economista e político grego perguntava-se como dinamizar o
funcionamento da Internacional Progressista, fundada para contrapor o
ressurgimento do “nacionalismo autoritário”, e sugeria “planificar e realizar
ações coletivas” como forma de enfrentar a internacional reacionária
(nacionalista ou fascista) que os partidos de extrema-direita articulam. “Os
progressistas também precisam de um programa comum”, assegurava. A necessidade
de estabelecer uma agenda comum e um plano de ação coletivo “implica que a
Internacional Progressista deve incluir uma organização internacional”. Por
outro lado, em uma conferência que o ativista estadunidense Mark Bray ministrou
no dia 23 de maio passado em Barcelona, o autor do livro Antifa: o
manual antifascista, perseguido por Donald Trump e exilado de seu país,
afirmou: “Precisamos criar alternativas. A história das vitórias da
extrema-direita é também a dos fracassos da esquerda”.
A
extrema-direita estadunidense de matriz ultraconservadora que se expande por
toda a América Latina e Espanha pelas mãos das igrejas evangélicas aspira a
consolidar um movimento doutrinário que propugna a regressão a valores
tradicionais em todos os âmbitos de convivência, desde as relações trabalhistas
até as relações de gênero e identitárias. Suas políticas contra a esquerda woke
(um termo escorregadio como poucos) baseiam-se em uma matriz ideológica que
apela à renúncia de direitos adquiridos pela civilização ao longo de quase um
século. Assim como um setor ultraconservador hoje apela à renúncia das mulheres
ao direito ao voto e a outros direitos conquistados pelo movimento feminista,
impondo um renovado patriarcado, é imaginável que queiram retroceder o mundo
aos tempos tenebrosos da escravidão ou de qualquer outra forma de dominação do
ser humano já superada pela evolução de nossas sociedades.
O
principal recurso propagandístico da extrema-direita são seus agitadores e
publicitários que atuam no universo das redes sociais. Redes essas, por sua
vez, controladas pelas grandes plataformas tecnológicas estadunidenses. Mas
essas narrativas de ódio que miram a esquerda também se difundem nos meios de
comunicação tradicionais, incluindo a imprensa menos direitizada. Demarcar o
território que separa o aceitável do inaceitável tornou-se um exercício
jornalístico espúrio cada vez mais frequente que denigre a esquerda e prepara o
terreno para sua perseguição política ao rotulá-la como “extrema”. Por exemplo,
em uma entrevista ao dirigente e fundador da França Insubmissa, Jean-Luc
Mélenchon (El País, 11 de junho de 2026), o entrevistado é qualificado
como “líder do partido de extrema esquerda França Insubmissa”, e essa
qualificação se repete pelo menos três vezes nesse mesmo dia, inclusive na
capa. Cabe esclarecer que o Ministério do Interior francês adotou em fevereiro
de 2026 a decisão de considerar o partido de Mélenchon como de “extrema
esquerda”, decisão confirmada mais tarde pelo Conselho de Estado, poucos dias
antes das eleições municipais e a um ano de eleições presidenciais que poderiam
dar o poder à extrema-direita de Marine Le Pen. E dado que Mélenchon é, até
agora, seu principal adversário, equiparar o qualificativo de “extremista” para
uma e outra força política não é uma decisão gratuita. Pelo contrário, acarreta
um estigma para o partido esquerdista, tanto quando aplicado por políticos e
juízes como quando amplificado pela imprensa. Além dos meios de comunicação, as
organizações patronais frequentemente qualificam de extremistas de esquerda
determinados governos — nacionais ou regionais — que aplicam políticas
contrárias aos seus interesses. Por exemplo, quando o governo da Generalitat da
Catalunha, dirigido pelo socialista Salvador Illa, pactuou com os Comunes algumas
iniciativas para travar a especulação com o preço da habitação, a patronal
catalã qualificou essas medidas (criticadas pelo Sindicato dos Inquilinos como
insuficientes) como “filocomunistas”. Será preciso recordar que a terminologia
macartista não é gratuita? Tal como ocorreu em outros momentos da história,
hoje o uso de uma linguagem depreciativa e desqualificadora na esfera pública
aplicada a medidas progressistas opera como uma porta facilitadora para a caça
às bruxas.
Fonte: Por
Eduardo Giordano, no El Salto – tradução Rôney Rodrigues em Outras Palavras

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