quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Amizade, jatinhos e STF: a rede que liga alvo de operação do INSS a Flávio Bolsonaro

A relação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o advogado Willer Tomaz de Souza vai além dos encontros sociais comuns em Brasília. Ao longo dos últimos anos, a proximidade entre os dois se estendeu à vida familiar do parlamentar, a viagens em aeronaves privadas, a articulações no meio jurídico e a episódios envolvendo o escritório de advocacia de Flávio.

O vínculo ganhou novo peso após Willer se tornar alvo de uma operação da Polícia Federal que investiga um esquema de descontos ilegais em aposentadorias e pensões do INSS. Na apuração, o advogado é apontado como parte de uma estrutura financeira e patrimonial sob suspeita.

Até o momento, não há indícios públicos de que Flávio tenha participado das fraudes ou se beneficiado da estrutura investigada. Ainda assim, a presença de Willer em seu círculo mais próximo ajuda a dimensionar o alcance político do advogado e vai além da simples definição de “amigo”, usada desde o início do caso.

Registros mostram que Willer não era apenas um conhecido de eventos em Brasília. Ele viajou com o senador e sua família, frequentou ambientes privados, apareceu ligado à administração do escritório de Flávio e participou de articulações envolvendo tribunais superiores.

Em 2021, a proximidade entre os dois já era conhecida nos bastidores a ponto de Flávio, Willer e o advogado Frederick Wassef serem apelidados de “WWF”. O trio negava qualquer sociedade profissional. Wassef já atuava como advogado da família Bolsonaro, inclusive na defesa de Flávio no caso das rachadinhas.

Naquele período, Willer consolidava sua atuação como advogado com trânsito entre políticos, empresários e integrantes do Judiciário. Reportagens da época apontaram que ele havia conquistado acesso direto ao senador, reduzindo a intermediação de Wassef.

Durante a CPI da Covid, Flávio reconheceu a amizade com ambos, mas negou qualquer relação empresarial ou atuação conjunta em negócios.

A partir daí, os episódios conhecidos mostram que a relação ultrapassou o campo pessoal e alcançou espaços políticos, profissionais e institucionais.

<><> Viagens em jatinhos e convivência familiar

Em maio de 2025, Flávio viajou com a esposa e Willer em um avião executivo para a Flórida, nos Estados Unidos. A aeronave pertencia a uma empresa ligada a empresários do setor farmacêutico que já haviam mantido relações profissionais com o advogado.

Em outra ocasião, o senador, a esposa e as filhas viajaram em um jatinho associado a Willer.

Flávio e o advogado afirmam que se tratavam de viagens pessoais, sem contrapartida financeira ou relação comercial. Ainda assim, o uso de aeronaves privadas por um parlamentar levanta questionamentos sobre custos, finalidade e eventuais interesses envolvidos.

O próprio senador já reconheceu que a relação com Willer incluía convivência entre famílias, indicando um nível de proximidade restrito a poucos aliados.

<><> A indicação de Kassio Nunes Marques ao STF

A relação também aparece em um dos momentos mais relevantes do governo Bolsonaro: a escolha do ministro Kassio Nunes Marques para o Supremo Tribunal Federal.

Em 2020, Flávio sugeriu o nome ao pai, então presidente da República. Segundo relatos de aliados, Willer e Frederick Wassef também apoiaram a indicação.

Kassio, então desembargador do TRF-1, acabou nomeado ao STF após articulações políticas e aprovação do Senado.

O episódio evidencia a combinação entre acesso político e articulação jurídica: Flávio com trânsito direto no Executivo e Willer com conexões no meio judicial e empresarial.

<><> O escritório de Flávio e a indicação de funcionária

A influência de Willer também chegou ao escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro.

Segundo reportagem da Agência Pública, Letícia Caetano dos Reis, administradora do escritório Flavio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia, afirmou ter sido indicada por Willer. O advogado nega a versão e diz não conhecer a profissional.

A divergência nunca foi esclarecida. O escritório, criado enquanto Flávio exercia mandato no Senado, passou a ser alvo de questionamentos sobre sua estrutura e clientes.

Embora não haja prova de que Willer tenha levado contratos à banca, o episódio reforça a proximidade entre os dois no ambiente profissional.

Mais tarde, o irmão de Letícia, Alexandre Caetano dos Reis, foi apontado como operador financeiro e sócio de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como o “Careca do INSS”, investigado por fraudes e descontos indevidos em benefícios previdenciários

<><> Atuação conjunta em processo no STJ

Flávio e Willer também atuaram no mesmo caso no Superior Tribunal de Justiça envolvendo a empresa Simas Industrial.

Willer já representava a companhia quando Flávio recebeu procuração para atuar no processo.

Não há evidência de sociedade entre os dois ou divisão de honorários, mas a coincidência de atuação reforça a proximidade no campo profissional.

O caso ocorreu enquanto Flávio já era senador e advogado, situação que frequentemente levanta discussões sobre possíveis conflitos de interesse, embora não haja prova de irregularidade.

<><> A disputa por uma mansão em Angra

A relação pessoal também apareceu em uma disputa judicial envolvendo uma mansão em Angra dos Reis, avaliada em cerca de R$ 10 milhões.

O imóvel, com estrutura de luxo e área privativa à beira-mar, passou a ser disputado por Willer e uma empresa ligada ao jogador Richarlison.

Flávio foi citado como testemunha por ter visitado o local com o advogado antes do início do conflito.

Enquanto uma das versões aponta que ambos demonstraram interesse na compra, Willer nega participação do senador no negócio. Flávio afirma que sua relação com o caso é apenas testemunhal.

A visita conjunta, no entanto, reforça o grau de convivência entre os dois fora do ambiente político.

<><> Festas e circulação entre Poderes

Willer também se tornou conhecido por promover eventos que reuniam políticos, empresários e integrantes do Judiciário.

Em uma dessas festas em Brasília, estiveram presentes Flávio Bolsonaro, o então presidente da Câmara Arthur Lira e outras autoridades.

O ambiente reforça a capacidade de articulação do advogado, que circula entre diferentes grupos políticos sem se vincular exclusivamente a uma corrente ideológica.

Antes de se aproximar de Flávio, Willer chegou a atuar em ações que poderiam atingir Jair Bolsonaro, mas posteriormente passou a integrar o círculo mais próximo do senador.

<><> O alvo da Polícia Federal

A nova fase da Operação Sem Desconto colocou Willer no centro de uma investigação sobre fraudes em descontos aplicados a benefícios do INSS.

A Polícia Federal apura a existência de uma estrutura financeira envolvendo empresas, imóveis e aeronaves. O advogado é apontado como possível articulador dessa rede.

Willer nega qualquer participação no esquema. Não há condenação nem acusação formal contra Flávio no caso.

Ainda assim, a relação entre os dois impede que o episódio seja tratado como algo distante do senador.

Willer esteve presente em viagens familiares, participou de articulações políticas, circulou no ambiente do escritório de Flávio e manteve atuação próxima no meio jurídico.

<><> Uma rede de convivência e influência

Os episódios conhecidos ao longo dos últimos anos mostram uma relação que atravessa diferentes esferas: pessoal, profissional e institucional.

Flávio e Willer compartilham convivência familiar, viagens, ambientes jurídicos e articulações políticas. Ao mesmo tempo, não há até agora prova pública de envolvimento do senador nas investigações que atingem o advogado.

O avanço das apurações deverá esclarecer o alcance da estrutura investigada pela Polícia Federal e o papel de cada um dos envolvidos.

Por ora, o que se documenta é uma relação de proximidade contínua, que se estende dos bastidores do poder às agendas privadas — e que agora passa a ser examinada sob a luz de uma investigação criminal de grande impacto político.

•        Caso Master: os elos entre Vorcaro e o contador que pagou R$ 500 mil a Flávio Bolsonaro

A família Borlenghi é o elo entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o contador Rogério Lourenço Novo, sócio da Contábil Corrêa, empresa que pagou R$ 500 mil ao escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Os Borlenghi controlam a Ambipar, multinacional de gestão ambiental que está em recuperação judicial e é investigada pela Polícia Federal (PF) por suspeita de envolvimento nas fraudes financeiras do Banco Master, no âmbito da Operação Compliance Zero.

As conexões societárias ligam a Contábil Corrêa à rede de negócios associada a Daniel Vorcaro.

Rogério Lourenço Novo é conselheiro fiscal da Ambipar desde abril deste ano. Ele assumiu a cadeira nove meses depois de substituir dois diretores da gestora de fundos Trustee DTVM na administração da Copenhagen e Assessoria e Consultoria, empresa que recebeu um total de R$ 57,9 milhões do Banco Master.

Há registro de vínculo entre Rogério Novo e a família Borlenghi ao menos desde 2009. Naquele ano, o contador abriu uma transportadora em sociedade com Tércio Patini Borlenghi, filho do presidente da Ambipar. A parceria foi encerrada em 2016, conforme informações da Junta Comercial de São Paulo.

O presidente da Ambipar, Tércio Borlenghi Júnior, já foi acusado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) de atuar em conluio com Vorcaro.

Uma investigação da CVM, anterior à Operação Compliance Zero, apontou a existência de uma “relação comercial estreita” entre Tércio Borlenghi Júnior, a Trustee DTVM, o empresário Nelson Tanure, e o banco de Daniel Vorcaro. Nos autos, a diretora do órgão, Marina Copola, afirmou que os envolvidos “obviamente se mostram bastante confortáveis em fazerem negócios apoiando-se mutuamente”.

E é justamente essa rede de relações que conecta as empresas Contábil Corrêa e a Copenhagen e Assessoria e Consultoria, para as quais o escritório de Flávio Bolsonaro emitiu notas fiscais que totalizam R$ 1,5 milhão, conforme revelou o portal Metrópoles.

As duas notas destinadas à Copenhagen, no valor total de R$ 1 milhão, no entanto, foram canceladas. O senador afirmou que optou por não prestar os serviços à empresa. Já à Contábil Corrêa, Flávio Bolsonaro teria prestado serviço de “assessoria jurídica”, conforme descrição da nota fiscal.

“Fiz um trabalho para uma empresa. Fui contratado para isso e prestei serviços advocatícios. Relação completamente legal e privada. Em outra oportunidade, eu não aceitei trabalhar para essa empresa chamada Copenhagen, que supostamente foi usada por [Daniel] Vorcaro para fazer pagamentos a algumas pessoas. Não foi o meu caso. Estou tendo que explicar porque eu não recebi o dinheiro dessa empresa. Cancelei duas notas fiscais”, justificou Flávio Bolsonaro em publicação nas redes sociais.

O ICL Notícias procurou a assessoria de imprensa do senador, que não respondeu às perguntas enviadas. Também entramos em contato com a Ambipar, com o Banco Master e com Rogério Novo, que também não deram retorno. A funcionária da empresa Contábil Corrêa que atendeu a ligação da reportagem informou que Novo está de férias e que a empresa não está comentando o caso.

<><> As conexões da Copenhagen e Assessoria e Consultoria

Em menos de um mês após ser aberta, a Copenhagen e Assessoria e Consultoria passou por mudanças na diretoria, alterou o endereço e recebeu aporte milionário do Banco Master.

A empresa foi registrada pelo advogado Luis Guilherme de Souza Silva em novembro de 2024 com capital social de R$ 40. No mês seguinte, teve o comando alterado e recebeu R$ 11,2 milhões do banco de Daniel Vorcaro – que em 2025 transferiu outros R$ 46,6 milhões, conforme mostrou o portal Metrópoles.

Luis Guilherme informou ao ICL Notícias que seu escritório de advocacia constitui previamente algumas empresas, denominadas shelf companies, que posteriormente são vendidas a terceiros, responsáveis por assumir seu controle e sua operação.

Ainda em dezembro de 2024, dois executivos da Trustee DTVM assumiram a direção da consultoria: Artur Martins de Figueiredo e Luis Fernando de Almeida. Ambos mantêm participação em empresas e fundos de investimento ligados à rede de negócios de Daniel Vorcaro sob investigação, entre elas, a Banvox Holding Financeira.

A Copenhagen tem como acionista o fundo Estonia Multiestratégia, que é administrado pela Trustee DTVM. Segundo apuração da Folha de S.Paulo, o fundo pertence ao presidente da Ambipar, Tércio Borlenghi Júnior.

A gestora Trustee DTVM, que prestava serviços ao Banco Master, também foi alvo da Compliance Zero, assim como Artur Martins de Figueiredo e Luis Fernando de Almeida. Além disso, a corretora e Artur Figueiredo foram alvos de operações do Ministério Público de São Paulo e da PF, respectivamente,  deflagrada em agosto de 2025, que investigam um suposto esquema de lavagem de dinheiro atribuído ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

Procurada, a Trustee DTVM informou por meio de nota que como  administradora do fundo Estônia Multiestratégia, que investe em ações da Copenhagen e Assessoria e Consultoria , “não tinha ingerência sobre as relações comerciais da empresa nem da definição de qualquer pagamento ou  negociação entre a companhia e o Banco Master para ocultar patrimônio de quem quer que seja”.

“Importante esclarecer que Artur Figueiredo exerceu o cargo de administração na empresa Copenhagen, representando o fundo Estônia — prática de governança amplamente  consolidada no mercado quando estruturas societárias recebem investimentos de fundos de participações”, destacou a corretora.

Ainda de acordo com a Trustee DTVM, “durante todo o período em que exerceu a função  na companhia, a atuação de Artur Figueiredo observou rigorosamente a legislação aplicável, os procedimentos de governança, controles internos e compliance então vigentes”.

O ICL Notícias entrou em contato por email com Artur Figueiredo e com Luis Fernando de Almeida, mas não obteve retorno.

Em 7 de abril de 2025, o escritório de Flávio Bolsonaro emitiu duas notas fiscais de R$ 500 mil cada para a Copenhagen e as cancelou no mesmo dia. Dois dias depois, emitiu uma nova nota, no mesmo valor, em nome da Contábil Corrêa.

Naquele mesmo mês, uma empresa ligada a Daniel Vorcaro fez duas transferências no valor de 1,66 milhão de dólares cada para bancar o filme Dark Horse a pedido de Flávio Bolsonaro, segundo planilha publicada pelo Intercept Brasil. Também em abril, o Ministério Público do Distrito Federal instaurou um inquérito para apurar a compra do Banco Master pelo BRB.

Três meses depois, Copenhagen e Contábil Corrêa voltaram a se cruzar. Em julho de 2025, Artur Martins de Figueiredo e Luis Fernando de Almeida deixaram a diretoria da Copenhagen. No lugar deles, assumiu Rogério Lourenço Novo, que à época já era sócio da Contábil Corrêa.

No mês seguinte, Novo também assumiu a diretoria da MN Participações S/A. Assim como a Copenhagen, a empresa foi registrada na Junta Comercial de São Paulo com capital social de R$ 40 e teve como responsável pela abertura o advogado Luis Guilherme de Souza Silva.

Conforme mostrou o jornal O Globo, Rogério já foi acusado pela PF, em 2020, de usar notas fiscais falsas. O caso foi arquivado pela Justiça Federal de Sorocaba (SP) em 2021, a pedido do Ministério Público Federal (MPF), depois que foram realizados os pagamentos dos débitos gerados pelas empresas de fachada.

 

Fonte: ICL Notícias

 

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