quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Ex-aliado diz que Eduardo Bolsonaro tinha cofre com R$ 250 mil na Câmara dos Deputados

Alexandre Junqueira, conhecido como “Carioca de Suzano” e ex-aliado do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), revelou em entrevista exclusiva ao ICL Notícias que o filho “03” do ex-presidente Jair Bolsonaro manteve R$ 250 mil dentro de um cofre que ficava em seu antigo gabinete na Câmara dos Deputados. Junqueira informou ainda que a maior parte desse dinheiro foi usada pelo ex-deputado para pagar um apartamento no Rio de Janeiro. Os valores do cofre seriam oriundos de um esquema de entrega ilegal de salários de ex-funcionários do gabinete, a prática conhecida como rachadinha.

A existência do cofre foi revelada por Junqueira em entrevista a esta colunista, em outubro de 2025, no projeto “Quem matou a política?”. Original da Audible que estreou nesta terça-feira (dia 4), a série documental em áudio foi realizada em parceria com a Rádio Escafandro e a Rádio Guarda-Chuva. A série investiga por que a política parece não dar conta de responder a problemas e anseios contemporâneos.

Em junho deste ano, meses depois da primeira entrevista, Junqueira decidiu revelar mais detalhes do caso à coluna. Essa é a primeira reportagem do novo núcleo de investigação do ICL Notícias.

Junqueira contou que conheceu Eduardo Bolsonaro, no ano de 2017, por meio de um contato via redes sociais, depois passou a gravar vídeos de apoio ao “03” e sua família. Ele foi convidado por Eduardo para trabalhar como seu motorista durante a campanha eleitoral do ano seguinte, em que disputava o segundo mandato à Câmara de Deputados. A proximidade entre eles foi tão grande que Junqueira foi convidado para a posse de Jair Bolsonaro e participou da festa fechada que a família Bolsonaro organizou para o réveillon de 2019.

Após a vitória, Eduardo pediu a Gil Diniz (PL), recém-eleito deputado estadual na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), que nomeasse Junqueira entre seus funcionários. Conhecido como “Carteiro Reaça”, Gil Diniz foi assessor do gabinete de Eduardo Bolsonaro na Câmara, entre os anos de 2015 e 2018,

Em novembro de 2018, nas reuniões de preparação para a formulação do gabinete de Gil, Junqueira diz que participou de uma conversa entre Gil Diniz e Sonaira Fernandes. Sonaira era funcionária do gabinete de Eduardo e atualmente é vereadora da capital paulista e disputa uma vaga na Alesp. Também foi secretária da Mulher no governo de Tarcísio de Freitas.

Na conversa, que se iniciou no carro dele e terminou na casa da sogra de Sonaira, na capital paulista, Junqueira diz que Sonaira contou do cofre e do esquema no gabinete.

“Duda [Eduardo Bolsonaro] tinha dois [funcionários] (sic) no gabinete que ganhavam cheio e devolviam a metade [do salário]. E nós tínhamos um cofre no gabinete e pegávamos essa metade e colocava no cofre e juntou R$ 250 mil. Um belo dia, o Duda [Eduardo Bolsonaro] chegou lá, passou a mão nesses R$ 250 mil para dar de entrada no apartamento e chegou na campanha nós não tínhamos R$ 5 mil pra pagar uma nota de campanha”, relembrou ele.

Segundo Junqueira, o dinheiro ilegal do suposto esquema no gabinete de Eduado Bolsonaro era administrado por um assessor chamado Eric de Castro Roma, que também é agente administrativo da Polícia Federal. A reportagem não conseguiu localizá-lo.

O ex-aliado de Eduardo Bolsonaro diz que chegou a entregar dinheiro ao agora deputado estadual Gil Diniz.

“Eu tava com o Eduardo e no outro dia eu ia pegar o Gil e ele me deu o dinheiro na minha mão pra passar pro Gil e eu entreguei pro Gil. Eram R$ 3 mil R$. Me deu dinheiro na minha mão. Ou seja. O Gil foi exonerado, porém ele não deixou de receber salário. Ele continuou recebendo no rateio do gabinete”.

>>>> Veja trechos da entrevista de Alexandre Junqueira:

<><> Eduardo Bolsonaro usou R$ 150 mil em dinheiro vivo

Em 2020, reportagem desta colunista e Chico Otavio, no jornal O Globo, já tinha revelado que Eduardo utilizou R$ 150 mil em espécie na compra de dois apartamentos.

Um deles foi adquirido justamente antes da campanha de 2018. No dia 29 de dezembro de 2016, o deputado esteve no cartório do 17º Ofício de Notas, no Centro do Rio, para registrar a escritura de um apartamento comprado em Botafogo no valor de R$ 1 milhão, corrigido pelo IPCA (o índice oficial da inflação no Brasil),  esse valor chega a R$ 1,3 milhão. No documento ficou registrado que ele já tinha dado um sinal de R$ 81 mil pelo imóvel e que estava pagando “R$ 100 mil neste ato em moeda corrente do país, contada e achada certa”. Essa descrição é o modo como se registrava o pagamento em dinheiro vivo.

Na escritura ficou anotado ainda que ele iria pagar outros R$ 18,9 mil seis dias depois. Já o restante, a maior parte, R$ 800 mil foi quitado com financiamento junto à Caixa Econômica Federal.

O outro imóvel foi comprado por Eduardo Bolsonaro no bairro de Copacabana, no dia 3 de fevereiro de 2011. A aquisição foi registrada no 24º Ofício de Notas do Rio. O apartamento foi vendido por R$ 160 mil, o que corrigido pelo IPCA equivale, hoje, a R$ 320,5 mil.

Na escritura ficou anotado que o pagamento feito por Eduardo ocorreu por meio de um cheque administrativo de R$ 110 mil. O valor restante foi descrito pelo escrivão como: “R$ 50 mil através de moeda corrente do país, tudo conferido, contado e achado certo, perante mim do que dou fé”.

A escritura desse imóvel de Copacabana também deixou registrado que ele foi vendido por um valor inferior ao que a prefeitura avaliava à época. No documento, está descrito que a “Secretaria Municipal de Fazenda, para efeitos fiscais, avaliou o imóvel em R$ 228.223,64”. O valor pago por Eduardo representou um desconto de 30% no imóvel.

Em 23 de setembro de 2022, Eduardo admitiu em um vídeo publicado em seu canal no YouTube que fez pagamentos parciais em dinheiro vivo durante a compra de um apartamento em Copacabana no ano de 2011.

“O apartamento custou R$ 160 mil e nem um terço dele foi pago com dinheiro vivo. Tudo totalmente condizente com o meu salário, e a Folha/UOL só sabe disso por que? Primeiro, porque nós não usamos laranjas, e, segundo, eu detalhei a forma de pagamento na escritura”, afirmou Eduardo, no vídeo.

Em 2020, a PGR (Procuradoria-Geral da República) chegou a abrir uma apuração preliminar sobre a compra desses imóveis, mas arquivou o procedimento sem fazer nenhuma diligência. O deputado nunca explicou a origem do dinheiro para os pagamentos desses imóveis.

O ICL Notícias tentou contato com Eduardo Bolsonaro e Sonaira Fernandes, mas não teve retorno. O deputado Gil Diniz informou que não sabia de nenhum cofre no gabinete. No entanto, não respondeu sobre ter recebido valores em dinheiro vivo no período da campanha de 2018.

Eduardo Bolsonaro mora com a família nos Estados Unidos desde o começo de 2025. Ele teve mandato de deputado federal cassado por acúmulo de faltas em decorrência de sua permanência no exterior.

Em junho passado, ele foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 4 anos e 2 meses de reclusão por coação no curso do processo, o que o tornou inelegível por 8 anos.

<><> Briga de Junqueira com bolsonaristas

Em 2019, Junqueira acusou Gil Diniz de coagir funcionários de seu gabinete na Alesp a devolver parte dos salários. Junqueira foi exonerado em 31 de julho de 2019, mas antes disso teria sido proibido de frequentar o gabinete por três meses, de acordo com seu relato. Ele levou o caso ao Ministério Público de São Paulo (MP-SP) junto com uma série de documentos. No entanto, o procedimento foi arquivado, em setembro de 2020.

Responsável pela investigação, o promotor de Justiça Ricardo Manuel Castro reconheceu que havia indícios de saques em espécie feitos por assessores em datas próximas ao recebimento dos vencimentos, mas concluiu que não havia indícios suficientes de que esse dinheiro ingressasse nas contas do deputado estadual Gil Diniz.

Diniz chegou a processar Junqueira pedindo compensação financeira, mas perdeu a ação na Justiça.

•        Nikolas e Eduardo levam Covid ao comitê de Flávio Bolsonaro. Por Xico Sá

A convocação ao Senado dos EUA do médico Anthony Fauci, imunologista que travou duelos com Donald Trump sobre a Covid-19, assanhou a extrema direita brasileira a retomar o mesmo negacionismo praticado durante a pandemia.

O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) injetou ignorância no debate ao soltar um vídeo contra os imunizantes no mesmo dia em que o governo federal iniciava a campanha nacional de vacinação contra o sarampo.

Dos EUA, o filho 03 do ex-presidente, Eduardo, sugeriu que Lula e a esquerda pedissem perdão ao pai Jair – o político estaria certo ao recomendar o uso de cloroquina em vez de cuidar da compra de vacinas para a população.

Temente ao eterno retorno do debate sobre Covid, Flávio Bolsonaro cuidou de dizer que era maior e vacinado. O candidato do PL teme mais prejuízos eleitorais, mas seu comitê está rachado sobre o assunto.

O governo de Jair Bolsonaro teria sido apenas cômico e folclórico se as suas bizarrices não representassem consequências desastrosas, muitas vezes até mortais, na vida dos brasileiros. Durante a pandemia de Covid-19, o presidente disse que a doença não passava de uma “gripezinha”, desaconselhou o uso de máscaras, promoveu aglomerações e atrasou a compra de vacinas. Em nenhum outro lugar do planeta, o Coronavírus contou com um aliado político tão conveniente.

Em depoimento à CPI da Covid, o epidemiologista Pedro Hallal revelou, baseado em estudos e pesquisas, que pelo menos 400 mil mortes poderiam ter sido evitadas caso o Brasil tivesse adotado medidas mais rígidas de controle da pandemia e imunização mais rápida, ao contrário das orientações espalhadas por Bolsonaro e sua equipe. Até 2022, o país registrava 700 mil óbitos por causa da doença.

Ao desempenhar o papel de garoto propaganda de hidroxicloroquina e ivermectina — medicamentos comprovadamente ineficazes no tratamento de Covid —, o presidente teria cometido o crime de charlatanismo, uma das principais acusações da CPI do Senado. Nas suas “lives” do Facebook e cerimônias oficiais, Bolsonaro exibia as caixas dos remédios e receitava o uso aos brasileiros. Uma cena, em especial, marcou essa obsessão presidencial: ele mostrou as embalagens dos medicamentos para duas emas no gramado do Palácio da Alvorada — as aves saíram correndo, em desespero.

Ao longo de 2020, Bolsonaro sabotou, de forma metódica, as tentativas dos governos estaduais e municipais de combaterem a pandemia, sempre se escorando em uma suposta “imunidade de rebanho” que seria alcançada graças à infecção generalizada da população. Quando começou a ser cobrado pelo número de mortes, ainda no segundo mês depois da chegada do coronavírus ao Brasil, respondeu: “Eu não sou coveiro, tá certo?”. Àquela altura, 20 de abril, o número de vítimas era de 2.575.

O festival de falas bizarras seguiu no rastro das mortes. Em novembro, Bolsonaro associou o medo dos brasileiros diante da pandemia à sexualidade: “Não adianta fugir disso, fugir da realidade. Tem que deixar de ser um país de maricas. Olha que prato cheio para a imprensa. Prato cheio para a urubuzada que está ali atrás. Temos que enfrentar de peito aberto, lutar. Que geração é essa nossa?”

No mês seguinte, em Porto Seguro, no sul da Bahia, o presidente seguiu na sua cruzada negacionista contra as vacinas. “Eu não vou tomar. Alguns falam que eu estou dando um mau exemplo. Ô, imbecil, ô idiota. Eu já tive o vírus. Eu já tive anticorpos, para que tomar a vacina de novo? E outra coisa que tem que ficar bem clara aqui: lá na Pfizer tá bem claro no contrato ‘nós não nos responsabilizamos por qualquer efeito colateral’, se você virar um jacaré o problema é de você, pô”, disse, em ritmo de desaforo. A frase levou inúmeros brasileiros a se fantasiar do réptil no momento de tomar a vacina nos postos de saúde.

A tentativa de desacreditar as vacinas seria atrelada a uma série de denúncias de corrupção. Segundo a CPI da Covid, o Ministério da Saúde teria postergado a decisão de comprar os imunizantes ao negociar propina com intermediários nos contratos.

Nesse período, o governo ignorou uma série de ofertas da Pfizer para vender sua vacina para o Brasil. A empresa farmacêutica havia encaminhado 56 e-mails às autoridades, perguntando sobre o interesse nas negociações. A administração federal demorou 47 e-mails para dar a primeira resposta, em 9 de novembro de 2020.

Ao mesmo tempo em que ignorava a Pfizer, assessores do governo andavam metidos em uma negociata paralela com um grupo comandado pelo pastor evangélico Amilton Gomes. A empreitada era um golpe por parte de Gomes, que não tinha qualquer contato com a Johnson e a Astrazeneca, farmacêuticas citadas na trama.

Como se não bastasse o rolo na compra dos imunizantes, conforme mostrou a CPI, Bolsonaro associou as vacinas à transmissão do vírus HIV. “Vacinados contra a Covid estão desenvolvendo a síndrome da imunodeficiência adquirida [Aids]”, alardeou na sua live do dia 21 de outubro de 2021, amparado por notícias falsas. “Posso ter problema com a minha live. Não quero que caia a live aqui, quero dar informações”, disse o presidente. Três dias depois, o Facebook e o Instagram retiraram os vídeos mentirosos do ar.

O negacionismo virou uma marca presidencial. Quando a maioria dos brasileiros já havia tomado, mesmo com atraso, as duas doses do imunizante, Bolsonaro ainda esperneava, em março de 2022, em um evento no Palácio do Planalto: “O problema é meu, a vida é minha. ‘Ah, ele não tomou vacina’. Pô, tem gente que quer que eu morra e fica me enchendo o saco para eu tomar vacina. Deixa eu morrer…”.

Um levantamento da agência de checagem “Aos fatos” concluiu que o presidente deu uma média de 6,9 declarações falsas ou distorcidas por cada dia de 2021, o segundo ano da pandemia. O “normal”, desde o início da sua gestão, era um número de 4,3 mentiras ou inverdades a cada 24 horas.

 

Fonte: Por Juliana Dal Piva, no ICL Notícias

 

Nenhum comentário: