Soberania
e autonomia tecnológica
O
Brasil, entre 1930 e 1980, viveu um período de crescimento econômico bastante
acelerado. Durante 50 anos o PIB cresceu à taxa média de 6,7% ao ano. Sem
dúvida um ritmo chinês. No entanto, o estágio de desenvolvimento alcançado foi
muito limitado. O crescimento não foi acompanhado por uma distribuição de renda
minimamente civilizada, nem uma efetiva proteção ao meio ambiente. Além disso,
uma herança escravocrata e patriarcal formou uma sociedade racista e misógina,
onde a maioria da população – composta por negros e mulheres – é cotidianamente
violentada e relegada a um plano secundário.
Como se
isso não bastasse, o país adotou um desenvolvimento econômico restrito do ponto
de vista tecnológico. Com poucas variantes, as empresas aqui estabelecidas,
mesmo as de capital nacional, dependem de importação de tecnologia com
sistemáticos pagamentos de royalties. Nos últimos 20 anos esses pagamentos
aumentaram mais de quatro vezes, impulsionados por licenças industriais e de
infraestrutura digital.
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Soberania
Soberania
não é um conceito simples. Controle do território, um governo único com
legislação própria e uma população relativamente estável caracterizam uma nação
formalmente soberana.
No
entanto, a capacidade de um país controlar seu próprio destino vai muito além
dos aspectos formais. Soberania é um objetivo a ser conquistado. Não cai do
céu, nem lhe será oferecida de bandeja por outros países. Muito pelo contrário,
soberania é o resultado de um longo processo de conquista de autonomia em todos
as suas vertentes.
Susan
Strange (1923/1998), catedrática da London School of Economics, em seu livro
States and markets, desenvolveu um modelo abrangente em que relaciona soberania
de um país com quatro estruturas de poder bem definidas. Susan Strange
argumentou que a soberania de um país é função direta de sua autonomia nas
áreas de finanças, produção, segurança e conhecimento. Sob sua ótica, a
soberania é um arranjo sistêmico que depende de cada uma dessas estruturas,
mas, também, da interrelação entre elas.
A
autonomia financeira garante que as políticas fiscal, monetária e cambial não
ficarão reféns de credores externos; a produtiva quebra a dependência de
insumos e produtos vitais; a autonomia militar (segurança) dá o poder de
dissuasão e autodefesa para sustentar o domínio do território e a integridade
de sua população.
Por
fim, a autonomia tecnológica (conhecimento) é a mãe de todas elas. A maioria
dos aspectos que definem a soberania dependem do grau de desenvolvimento
tecnológico alcançado. Contar com patentes, licenças e sistemas importados são
conhecidas formas de dependência. Além disso, no século XXI, um país soberano
deve ser capaz de garantir minimamente a segurança cibernética de suas
instituições.
Certamente,
no mundo atual, altamente interligado, não é possível imaginar um país
totalmente autônomo. No entanto, a dependência em determinados setores pode ser
catastrófica para o bem-estar da população quando uma crise se instala. Mesmo
que o epicentro esteja localizado bem longe de suas fronteiras. Os recentes
aumentos dos preços do petróleo, gás e fertilizantes, provocados pelas guerras
da Ucrânia e Irã, mostram quanto isso é verdade. A inflação acelerou em quase
todas as partes do mundo.
No
Brasil, a autonomia tecnológica, herdada do período desenvolvimentista, é
bastante limitada. Apesar disso, alguns setores atingiram maturidade
tecnológica, mostrando que existem caminhos próprios, conhecidos e testados.
Nesse sentido, formulações teóricas consagradas merecem ser revisitadas.
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O triângulo de Sábato
Em
1968, o Instituto para a Integração da América Latina e do Caribe (INTAL)
publicou o artigo “La ciencia y la tecnología en el desarrollo futuro de
América Latina“, de autoria do físico argentino Jorge Sábato e do cientista
político Natalio Botana.
Para os
autores o desenvolvimento econômico autônomo e soberano deriva diretamente de
uma forte interação entre três atores principais: governo, estruturas
produtivas e infraestrutura científico-tecnológica. Esses três agentes se
relacionam formando o que ficou conhecido como o Triângulo de Sábato.
No
vértice superior os autores destacaram o papel do Governo como estrategista,
planejador, financiador e responsável pela implantação das instituições
necessárias ao desenvolvimento autônomo. Um planejamento de longo prazo
acompanha o modelo.
A
estrutura produtiva, formada por empresas estatais e privadas, ocupa o vértice
esquerdo. É o elo que reúne os fatores de produção para levar ao mercado bens e
serviços que atendem às necessidades da população. Interage com o governo e os
centros de pesquisa, propondo alternativas e incorporando novas tecnologias.
Completando
o triângulo, a infraestrutura científico-tecnológica ocupa o vértice direito.
Tem estreita conexão com a base educacional. Este é um ponto crítico. Baixo
nível educacional dificulta muito a atividade na área tecnológica.
Universidades, Laboratórios e Institutos de Pesquisa, estruturados em rede,
desenvolvem os projetos e programas acertados com os demais atores. Como
escreveram Jorge Sábato e Natalio Botana no já citado artigo: “A pesquisa
científica e tecnológica é uma ferramenta poderosa para transformar a
sociedade. A ciência e a tecnologia são componentes dinâmicos do próprio tecido
do desenvolvimento; são tanto efeito quanto causa; impulsionam-no e também são
por ele reforçadas”.
O
Triângulo de Sábato é um diagrama de forte impacto visual que sintetiza as
relações necessárias entre as instituições que interferem na formação das
políticas setoriais. Adicionalmente, deve-se levar em conta que Pesquisa e
Desenvolvimento (P&D) tem diferenças na forma como é gerada e difundida, o
que altera bastante a abordagem adequada a cada setor.
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Geração e difusão de Pesquisa e Desenvolvimento
Quando
o setor é constituído por grandes produtores, líderes em suas áreas, a Pesquisa
e Desenvolvimento normalmente é realizada pela própria empresa que mantém o
segredo tecnológico protegido por patentes ou barreiras à difusão. Nesses casos
o apoio governamental é mais restrito, geralmente limitado ao financiamento da
atividade.
Em
outras áreas, os setores são pulverizados, quando uma grande quantidade de
produtores divide o mercado. Nesses casos a contribuição governamental tem
muita importância. Os centros de pesquisa estatais são essenciais. Muitos ramos
industriais, principalmente os que atuam em concorrência monopolista, adotam
modelos híbridos onde Pesquisa e Desenvolvimento próprio convivem com busca de
autonomia liderada pelo Estado.
Richard
Nelson, professor da Universidade Colúmbia, analisando a diversidade de geração
e difusão da tecnologia, em seu livro As fontes do crescimento econômico,
escreveu: “O sistema que gera e espalha novas tecnologias na agricultura difere
do sistema vigente na indústria farmacêutica. A indústria aeronáutica não tem
semelhança com a dos bombeiros. Para alguns ramos, a concorrência
schumpeteriana pode parecer um bom modelo; em outros prevalece a cooperação.
(…) Os ramos dinâmicos são todos caracterizados por uma significativa atividade
de P&D, seja pelas empresas do próprio ramo, seja por empresas fornecedoras
ou por programas financiados pelo governo. Nos ramos tecnicamente progressistas
caracterizados pela concorrência oligopolista, as empresas geralmente são as
principais fontes de inovação. Nos ramos tecnicamente progressistas e
atomizados, o progresso tecnológico depende da atuação de agentes que estão
fora dela”.
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A experiência brasileira
Na
indústria aeronáutica o triângulo de Sábato foi inteiramente definido pelo
Governo com a criação do Centro Tecnológico da Aeronáutica (atual DCTA) em
1949, do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) em 1950 e da Embraer em
1969. Como resultado dessa ação, cerca de uma centena de empresas compõe o
atual polo industrial-exportador da região de São José dos Campos, em São
Paulo.
Com a
fundação da Petrobrás em 1953, o Triângulo de Sábato foi igualmente atendido na
área de petróleo e gás. Ao criar a Petrobrás, o governo colocou sob sua guarda
a produção e a geração de tecnologia, bem como, a formação de quadros técnicos
para o setor. Com isso, a Petrobrás foi muito além da autonomia na área,
tornando-se exportadora. Não custa lembrar que a extração de petróleo em águas
profundas é uma atividade com alto conteúdo tecnológico.
Na
agricultura e pecuária o modelo foi diferente. Em 1973, na fundação da Embrapa,
já existia no Brasil um número elevado de produtores rurais, ou seja, as
estruturas produtivas estavam dadas. Nessas condições, o governo criou a
Embrapa para buscar tecnologias adequadas a cada um dos subsetores da
agropecuária e coordenar a formação de força de trabalho especializada. Foi
também um longo processo de desenvolvimento e consolidação.
Outros
modelos, com forte participação estatal, foram o Proálcool e o Sistema Elétrico
Interligado que até hoje são destaques na economia brasileira. A recente
proposta de aumento da adição de etanol na gasolina de 30 para 32%, em resposta
ao fechamento do estreito de Ormuz, mostra a importância do Proálcool.
Mas não
é só isso. Modelos que priorizam o capital privado não são incomuns. Empresas
nacionais nas áreas de papel e celulose (Suzano e Klabin), cosméticos (Natura e
Boticário), proteína animal (BRF, MBRF, Minerva e Aurora), equipamentos
elétricos (Weg) e medicamentos genéricos (EMS, Prati e Eurofarma) adquiriram
autonomia tecnológica nos seus processos básicos. Mas não foram só estas.
Muitas
outras empresas de capital nacional, como a Tupy, Iochpe, Marcopolo, Randon,
Tramontina e Alpargatas percorreram o mesmo caminho. Neste caso, o capital
privado assumiu as estruturas produtivas e a geração de tecnologia. A
participação estatal esteve presente, principalmente pelo apoio financeiro do
BNDES e da FINEP, fechando o Triângulo de Sábato.
Alguns
programas por falta de continuidade ou por defeito de concepção sofreram
interrupções, mostrando resultados medíocres ou simplesmente foram abandonados.
São exemplos o Programa Nuclear, a Industria de Informática e Telecomunicações
e a Construção Naval. No entanto, esses casos não devem ser tomados como padrão
para descartar a busca pela autonomia. Em Pesquisa & Desenvolvimento as
dificuldades fazem parte da rotina.
Os
exemplos citados mostram que existe uma grande diversidade de modelos à
disposição do planejamento central.
Uma das
características mais marcantes de todo esse processo tem sido a predominância
do capital nacional, estatal ou privado. Com empresas estrangeiras dificilmente
se obterá autonomia tecnológica. Suas decisões serão sempre condicionadas pelo
interesse de suas matrizes, buscando melhores oportunidades no mercado global.
Isto sem considerar que o pagamento de royalties é uma forma de remunerar os
investimentos aqui realizados.
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Um programa para o desenvolvimento
Quando
se discute a reindustrialização e a política de terras raras e minerais
estratégicos deve-se olhar para a experiência adquirida e, acima de tudo,
perceber que a autonomia tecnológica, induzida ou implementada diretamente pelo
governo, é uma parte vital da verdadeira soberania. Não à toa, a disputa pela
hegemonia mundial entre os EUA e a China tem se transformado em uma verdadeira
corrida tecnológica.
O
governo tem ferramentas poderosas para desenvolver os setores incluídos no
planejamento estratégico. Investimento direto, compras públicas, proteção
alfandegária, transferência tecnológica obrigatória, proibição ou cotas de
importação ou exportação e proteção ao capital nacional são os instrumentos
mais comuns adotados ao redor do mundo. Para utilizá-los com eficiência, é
preciso ter capacidade política para construir acordos programáticos, no
legislativo ou fora dele, com esse objetivo.
Numa
democracia, programas de governo, especialmente os de longo prazo, precisam ser
sustentados por grupos sociais que tem interesse no desenvolvimento econômico,
social e ambiental. Uma análise cuidadosa dos estudos existentes sobre classes,
segmentos de classe e seus interesses pode fornecer uma base mais realista para
uma política de alianças em busca da soberania.
Em
outras palavras, as alianças políticas deveriam ser construídas em torno de um
programa de desenvolvimento que coloque a soberania como um dos principais fios
condutores. Em todos as suas vertentes: financeira, produtiva, militar e
tecnológica.
Fonte:
Por Sergio Gonzaga de Oliveira, em A Terra é Redonda

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