quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Uso de IA por jovens para saúde mental pode levar a dependência e solidão

Cada vez mais presentes no nosso dia a dia, as ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa — aquelas capazes de gerar conteúdos novos em texto, vídeo ou imagem — têm sido utilizadas para uma infinidade de propósitos, desde agilizar leituras acadêmicas até criar ilustrações. Contudo, o avanço dessa tecnologia também trouxe uma nova configuração para um problema de saúde pública global: a solidão. E isso é especialmente preocupante quando se trata de adolescentes.

Um estudo publicado no final de 2025 no periódico BMJ aponta que plataformas de IA como ChatGPT, Claude e Gemini têm sido cada vez mais usadas como confidentes, funcionando como um “porto seguro” emocional para muitos usuários, especialmente os jovens. Segundo a pesquisa, um terço dos adolescentes usa IA para interação social, e um em cada dez relatou que as conversas com o chatbot são mais satisfatórias do que as com humanos.

Existe a preocupação de que eles desenvolvam uma dependência emocional e passem a ver a IA como um “amigo”. Contudo, embora pareçam conscientes, esses sistemas carecem de capacidade real de empatia, cuidado e sintonia relacional humana. Portanto, se de um lado há uma certa democratização do cuidado em saúde mental por pessoas com dificuldade de acesso a serviços de saúde, do outro existe o potencial de agravamento do isolamento social. “Estamos o tempo todo com a possibilidade de nos conectar, só que essas conexões, inclusive com outros seres humanos via digital, muitas vezes são mais superficiais”, observa o médico psiquiatra Daniel de Paula Oliva, do Espaço Einstein Bem-estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita.

No Brasil, essa realidade pode ser ainda mais preocupante diante da falta de acesso a serviços de saúde mental. De acordo com uma pesquisa realizada pela Cisco, líder mundial em redes de segurança, em parceria com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil é o segundo país que mais usa IA generativa (51,6%), atrás apenas da Índia (66,4%). O levantamento ouviu mais de 14 mil pessoas de 14 países, sendo mais de mil brasileiros.

<><> De ponte a barreira

O artigo do BMJ aponta que, embora a IA possa ajudar a reduzir sintomas de ansiedade e depressão em contextos controlados, seu uso pode levar a “relacionamentos quase-pessoais”, conforme escrevem os autores Susan C. Shelmerdine e Matthew M. Nour, médicos vinculados a instituições de saúde e pesquisa no Reino Unido. Isso ocorre porque a fluência da tecnologia induz o cérebro a humanizá-la.

O impacto em longo prazo no desenvolvimento dos jovens ainda é desconhecido, mas a publicação também alerta para um perigo específico: as IAs oferecem paciência infinita e dificilmente apresentam narrativas contrárias e desafiadoras, o que pode criar uma geração que não sabe lidar com conflitos naturais de interações humanas reais. “Com a inteligência artificial, muitas vezes, nem encontramos frustração. Ela vai alimentando os nossos desejos e tirando nossa capacidade de entender o outro, de se entender, de buscar algo em consonância ou de se afastar da pessoa, de construir outros laços, de ceder, exigir e aprender que esse é um ritmo da vida”, avalia o psiquiatra do Einstein.

A IA pode ser positiva se funcionar como um caminho para o cuidado real. “Ela tem o potencial de identificar sinais de que o indivíduo está em sofrimento psíquico e de ser uma ponte, como até o próprio artigo traz, para um cuidado efetivo, um convite para a pessoa repensar o tipo de relação com a máquina e com os seres humanos em volta dela, e buscar um cuidado de saúde mental”, analisa Oliva.

Daí por que debates sobre regulação e fortalecimento de redes de apoio presenciais são tão necessários. “Ofertar mais cuidados em saúde mental e grupos de troca dentro das comunidades pode ser um passo que ajude a trabalhar essa questão da solidão”, sugere o médico. A recomendação para familiares e profissionais de saúde é observar se o uso da tecnologia está gerando alienação, ou seja, se a interação com a máquina está substituindo o contato humano a ponto de o indivíduo perder as ferramentas de convívio social. Essa pode ser a hora de buscar ajuda profissional.

<><> Sinais de alerta e dependência

A transição do uso recreativo das inteligências artificiais para um padrão problemático pode ser marcada por sintomas semelhantes aos de outras dependências químicas ou comportamentais. Confira alguns dos principais sinais de alerta:

•        Abstinência digital: sentir ansiedade ao ficar longe de conexões de internet ou do chatbot;

•        Abandono da rotina: deixar de praticar atividades físicas, trabalhar ou estudar para manter a interação virtual;

•        Perda de funcionalidade social: dificuldade em lidar com as frustrações do dia a dia e com as complexidades de um relacionamento humano real, em que há divergências e necessidade de ceder;

•        Dificuldade para dormir ou “trocar o dia pela noite”;

•        Sentimentos como tristeza profunda ou isolamento total.

>>>>>> Jovens estão entre os mais desconfiados com IA, diz pesquisa global

Pesquisa global realizada pela Ipsos revelou que jovens são o grupo mais receoso com relação ao uso de IA (Inteligência Artificial). De acordo com dados do Monitor de Inteligência Artificial de 2026, 52% das pessoas com menos de 35 anos entrevistadas em 32 países se sentem nervosas com a tecnologia.

No Brasil, 44% dos entrevistados na mesma faixa etária afirmam que produtos e serviços que utilizam a IA os deixam nervosos, e 60% acreditam que, entre 3 e 5 anos, eles mudarão profundamente o seu dia a dia (69% na média dos países pesquisados).

Além dos receios com a introdução no cotidiano, muitos temem também a introdução das novas tecnologias no ambiente de trabalho e o crescimento da desinformação. Cerca de 42% dos brasileiros jovens acreditam que a quantidade de desinformação na internet aumentará, mesma porcentagem da média global. Os mais jovens também são mais propensos a dizer que a IA substituirá seus empregos nos próximos cinco anos.

"Identificamos que essas faixas etárias são as mais apreensivas, menos entusiasmadas e mais propensas a concordar que a tecnologia está destruindo o mundo", explica Luciana Obniski, Líder de Curadoria e Tendências na Ipsos no Brasil. "Como os jovens são tipicamente os primeiros a adotar novas tecnologias, essa mudança pode representar dificuldades no longo prazo para as empresas do setor", avalia ela.

Com relação à proteção de dados pessoais, os entrevistados brasileiros com menos de 35 anos são os que menos confiam, entre todas as faixas etárias analisadas, de que as empresas respeitarão a privacidade dos seus dados. O número de pessoas, de acordo com essa percepção, é de 50% do total, contra 42% da média global.

A pesquisa foi realizada de forma online, por meio da plataforma da Global Advisor, entre março e abril de 2026. Foram entrevistados um total de 23.532 adultos com 18 anos ou mais na Índia, de 18 a 74 anos no Canadá, República da Irlanda, Malásia, África do Sul, Turquia e Estados Unidos, de 20 a 74 anos na Tailândia, de 21 a 74 anos na Indonésia e Singapura, e de 16 a 74 anos em todos os outros países. No Brasil, a amostra de entrevistados foi de cerca de mil pessoas.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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