quinta-feira, 6 de agosto de 2026

"O povo despreza o político", diz membro da Academia Brasileira de Letras

Para o jurista e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), Joaquim Falcão, as autoridades públicas se tornaram uma oligarquia, usando o próprio aparelho estatal para se beneficiar, se proteger e se perpetuar no poder. Essa é a tese do livro A Oligarquia dos Poderes e a Crise da Democracia, que lançou no início de julho o livro. Ex-integrante do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Falcão adverte que "a normalidade que está se construindo é antidemocrática". Ele considera que há uma espécie de pacto entre os Três Poderes, resultado de uma independência e discordância seletiva, que desencadeou em uma ruptura na democracia. Falcão observa que o escândalo do Banco Master pode ser considerado o ápice de um sintoma: de que as instituições brasileiras não funcionam. Leia a seguir a entrevista concedida ao Correio.

LEIA A ENTREVISTA: .

•        Uma população omissa, que não fiscaliza e não cobra as autoridades, é responsável por esse cenário?

Não existe, basicamente, uma educação cívica, igualitária e conscientizadora. Isso tudo mexe na mobilização dos eleitores. Os eleitores acreditam na Constituição, que seria uma espécie de sonho, de desejo. E quando não recebe o que a Constituição promete, o povo fica com um certo desprezo. Ou seja: os políticos desprezam o povo e o povo despreza o político. Essa é uma das consequências dessa captura da democracia pelos Três Poderes.

•        O senhor afirma que a ameaça à democracia vem de um "conluio" entre os Três poderes.

O que nós estamos vendo hoje é essa disputa. O Judiciário, Legislativo e o Executivo fizeram um conluio, uma amálgama, em que eles querem se impor, permanecer e ampliar este poder sobre os eleitores. Tem vários pedidos de impeachment contra ministros do Supremo no Congresso, que não julga. O Supremo também não julga e nem condena vários políticos. Pode ser uma coincidência, mas é uma coincidência muito grande. A omissão em exercer os poderes de freios e contrapesos é um dos problemas mais graves que a gente tem. A função principal de um Supremo é preencher esse vácuo das relações sociais com a paz. O Supremo é aquele que resolve conflitos, mas o que está ocorrendo é que o Supremo está aumentando os conflitos, a insegurança jurídica, a imprevisibilidade econômica e a instabilidade social.

•        Como, então, romper esse "conluio"?

Fiscalizado por quem? Quem fiscaliza o fiscal? Esse é o problema. O que nós vemos hoje é um Brasil instigado por mais conflitos, o conflito da impunidade. Não julgar é criar conflitos. Deixar pessoas impunes é criar e estimular conflitos. É não cumprir com a missão básica da democracia e do Supremo, que é a paz. O que é o mais importante é o (ministro) Alexandre de Moraes terminar com essa investigação de fake news, que dá a ele o que erradamente foi dado pelo (ministro Dias) Toffoli — poderes que ninguém tem. Esses poderes, mesmo revestidos pela ideia de proteger a democracia, são excessivos. O Supremo não é um ministro, são 11.

•        Um Código de Ética ou impeachment de ministros do Supremo é uma solução?

O importante do Código de Ética é quem vai fazer cumprir. Esse é o problema. O Supremo, em geral, acha que encerra a sua missão ao fazer uma interpretação constitucional. Não deveria ser assim. Eu começaria esse código — que é uma tarefa boa do (ministro Edson) Fachin, porque ao menos coloca em pauta esse problema — sob o seguinte (aspecto): quem vai julgar o código?

•        O escândalo do Banco Master é o ápice dessa crise da democracia?

É o ápice, mas logo vão ter outros ápices se você não fizer uma reforma estrutural. Há mais de dois anos que isso está nas páginas dos jornais. A mídia está cumprindo seu papel, mas as instituições não funcionaram. É como um vírus que foi se espalhando. Se perguntar hoje à população o que vai ocorrer com o Banco Master — apesar de todos os esforços do (ministro André) Mendonça, que são grandes e positivos —, a população acha que vai ter um acordão. É o desprezo de uns diante do desprezo de outros.

•        Os deputados da extrema direita que trabalham 3 dias e querem seu voto para manter a 6x1. Por Vitória Busato

Eleitos com voto popular, deputados de partidos de extrema direita como PL, Novo e Missão, visam se reeleger em seus mandatos para seguir atacando o direito dos trabalhadores e da população em geral, que luta a cada dia por dignidade sob um sistema que precariza e limita a vida apenas à sobrevivência.

Além de Kim Kataguiri e Nikolas Ferreira, somam-se à lista de deputados bossais que baseiam seu projeto político em atacar a classe trabalhadora, lucrando às custas da miséria do povo ao passo que trabalham cada vez menos, enquanto defendem a continuidade da escala 6x1, os parlamentares Caroline de Toni (PL-SC), que se posiciona a favor da meritocracia e contra o direito à igualdade salarial entre homens e mulheres, Ricardo Salles (Novo-SP), ex ministro de Bolsonaro e defensor de “passar a boiada” e Marcel Van Hattem (Novo-RS) que afirma que o fim da 6x1 seria prejudicial aos empresários.

Em breve pesquisa, porém, sobre os dias trabalhados por estes parlamentares em 2025, se comprova que a ideia de que se trabalhe até morrer se restringe à vida do trabalhador e da trabalhadora. Abaixo, os dias trabalhados por cada parlamentar citado:

Nikolas Ferreira (PL-MG) - 120 dias

Kim Kataguiri (Missão-SP) - 115 dias

Caroline de Toni (PL-SC) - 102 dias

Ricardo Salles (Novo-SP) - 56 dias

Marcel Van Hattem (Novo-RS) - sem registros disponíveis

A extrema direita, enquanto trabalha 3 dias ou menos por semana, quer que a população não tenha acesso à lazer, tempo com a família e de fato viva para trabalhar. . Não aceitaremos sem luta os ataques contra o direito do povo trabalhador de viver com dignidade. Pelo fim da escala 6x1 e os ataques contra o classe trabalhadora!

<><> Nikolas Ferreira (PL-MG) - “A escala 6x1 não é escravidão”

Fale isso para quem trabalha 6 dias por semana, enfrenta horas de transporte e chega em casa sem tempo para viver.

Nikolas atacou e fez campanha contra a proposta de redução da jornada 6x1, repetiu argumentos patronais e tentou apresentar a defesa de mais descanso como ameaça à economia.

Nikolas, como mais uma marionete do bolsonarismo, não abandona por nada sua defesa dos interesses empresariais capitalistas, afinal de contas, entre seus financiadores, estão influenciadores que promovem “jogo do tigrinho” e golpes financeiros, empresários indicados por financiar atos antidemocráticos e até um ex-sócio de Donald Trump.

<><> Kim Kataguiri (Missão-SP) - “Flexibilizar leis trabalhistas é necessário”

O deputado que chama precarização de “flexibilização”. Para ele, o problema não é a exploração, a jornada pesada ou a falta de tempo para viver.

Por trás da palavra “flexibilização” existe uma velha ideia: retirar limites para que os grandes capitalistas tenham mais liberdade sobre a exploração dos trabalhadores.

Na prática, essa liberdade tem um lado só. É a liberdade do patrão para fazer você morrer de trabalhar para ele. É a liberdade da empresa para cometer assédios. Mas nunca a liberdade do trabalhador para viver melhor.

<><> Caroline de Toni (PL-SC) - “Eu sou a favor da meritocracia”

Disse a deputada ao votar contra um projeto de defesa de igualdade salarial entre homens e mulheres. Ela também votou contra o fim da escala 6x1.

Para a extrema direita, a meritocracia é usada para transformar desigualdade em culpa individual: se o trabalhador está cansado, ganhando pouco ou sem tempo para a própria vida, então é porque “faltou esforço”.

O descanso é um privilégio daqueles que exploram. Caroline foi financiada, entre outros, por mineradoras que usam trabalho escravo para avançar no desmatamento brutal de nosso país.

<><> Ricardo Salles (Novo-SP) - “Passar a boiada”

Aquele mesmo que disse, enquanto Ministro do Meio Ambiente (!) de Bolsonaro, que iria aproveitar a pandemia para “passar a boiada”.

Esse aqui não faltam escândalos: pregou assassinato de sem-terras, é condenado por fraude ambiental, quebrou o recorde de incêndios no Pantanal, recorde de desmatamento na Amazônia, retrevogou a proteção de restingas e manguezais e por aí vai…

E, como não podia ser diferente, Ricardo Salles votou contra o fim da escala 6x1.

<><> Marcel Van Hattem (Novo-RS) - “Vai aumentar o custo das empresas”

Esse é o argumento usado toda vez que trabalhadores conquistam um novo direito. Foi usado contra férias, contra a redução da jornada e contra diversas conquistas históricas. A lógica é sempre a mesma: o tempo de vida do trabalhador aparece como gasto, enquanto o lucro aparece como prioridade.

Marcel Van Hattem votou contra o fim da escala 6x1 e foi financiado pela tosca figura figura de José Salim Mattar Jr., dono do Monopólio Localiza, que, ironicamente e sem surpresas, foi erguido em base a isenções fiscais promovidas pelo Estado. Nos perguntemos, de que lado o Estado capitalista está?

•        Reeleição em 2026: 87,32% dos deputados tentam ficar e a Câmara muda pouco, aponta estudo. Por Jorge Mizael

Em 2026, 448 dos 513 deputados federais decidiram disputar a renovação própria cadeira. É o maior índice de recandidatura à Câmara desde 1990, acima dos 446 registrados em 2022. Uma disputa presidencial acirrada e regras que garantem vantagem a quem já tem mandato ajudam a explicar por que tantos preferem ficar. No Senado, o movimento se repete: a maioria dos 54 senadores em fim de mandato quer continuar. O levantamento preliminar do DIAP projeta: renovação baixa na Câmara, renovação alta no Senado.

<><> O que cada número mede?

A confusão começa quando três taxas são tratadas como se fossem uma. Recandidatura é a proporção de parlamentares que tentam de novo. Reeleição é a fração dos que tentam e vencem. Renovação é a parcela de cadeiras que passam a nomes novos. As três medem coisas distintas. Recorde na primeira não garante recorde na segunda e diz pouco, sozinho, sobre a terceira.

Os números dão a dimensão. Desde 1990, a Câmara renovou, em média, 49% das cadeiras. Em 2022, a renovação ficou em 46,33% e mais de 65% dos deputados que tentaram a reeleição venceram. Recandidatura recorde somada a essa taxa de sucesso empurra a renovação para baixo.

<><> Na Câmara, o partido decide a vaga

Na Câmara, o eleitor vota no candidato, mas a cadeira é distribuída pelo partido. O sistema é proporcional: cada legenda precisa alcançar o quociente eleitoral, o piso de votos exigido para conquistar assento no estado. Um deputado que busca a reeleição perde a vaga em uma única hipótese: se o partido ou a federação não atingir 80% desse quociente. A segunda exigência, votação individual igual ou superior a 20% do quociente, costuma ser cumprida com facilidade por quem já ocupa o mandato. O desempenho coletivo da legenda pesa mais na sobrevivência do deputado do que o tamanho de sua votação pessoal.

<><> A máquina que o desafiante não tem

Quem já está na Câmara disputa com recursos que o novato não alcança. As emendas parlamentares individuais superam R$ 26,6 bilhões previstos para 2026, dinheiro que o mandatário direciona e o concorrente não tem como oferecer. Some-se a verba de gabinete, de R$ 30 mil a R$ 44.320,46 mensais, a cota de R$ 111.675,59 por mês para contratar de 5 a 25 secretários parlamentares, a prioridade no rateio do Fundo Eleitoral e o acesso constante aos meios de comunicação.

<><> As novas regras estreitam o campo

As mudanças de 2026 reduzem os concorrentes antes da largada. Para manter acesso aos fundos partidário e eleitoral e ao tempo de rádio e televisão, um partido precisa reunir 2,5% do eleitorado nacional em pelo menos nove estados, com no mínimo 1% dos votos válidos em cada um, ou eleger 13 deputados federais em pelo menos nove unidades da federação. O limite de candidatos por legenda também caiu. Com menos nomes em disputa, cai também a chance de surpresa. Numa simulação do DIAP que repete em 2026 o desempenho de 2022, apenas seis partidos, em média, atingiriam o quociente em cada estado.

<><> No Senado, tentar não basta

No Senado, a mesma vontade de permanecer encontra outro filtro. A disputa é majoritária: vence quem recebe mais votos, sem quociente de partido a repartir cadeiras. Aqui a recandidatura alta conviveu, nas últimas eleições, com reeleição baixa. Em 2018, apenas 25% dos senadores se reelegeram. Em 2022, o índice caiu para 18,51%. Por isso o estudo projeta renovação alta na Casa, ainda que muitos senadores concorram.

<><> O desenho escolhe antes do voto do eleitor

O que separa os desfechos não é a decisão dos parlamentares, idêntica nas duas, mas a forma como cada sistema converte votos em cadeiras. Na Câmara, a proporcionalidade protege o coletivo partidário e, com ele, quem já tem o mandato. No Senado, a lógica majoritária expõe cada nome ao voto direto e desfaz essa proteção. A regra escolhe o tipo de resultado antes de a urna abrir.

O efeito prático é uma assimetria. As novas exigências de desempenho, somadas ao orçamento que sustenta o mandato, favorecem quem está dentro e os partidos maiores. Pequenos e médios perdem terreno pela cláusula de barreira. Nomes tradicionais tendem a voltar, numa circulação das elites que troca poucas cadeiras entre atores já conhecidos. Renovação, na Câmara, deixa de ser abertura ao novo e passa a ser o que a estrutura permite que reste.

Tudo isso é projeção. As convenções partidárias ainda podem mexer no quadro e o voto decide no fim. Mas a projeção mostra onde a decisão começa. É o conjunto de regras que define, antes da eleição, quem tem maiores chances de permanecer. O ponto não é a ambição de quem se candidata à reeleição, mas o fato de a regra favorecer quem já está no cargo em um ambiente que clama por renovação na política.

 

Fonte: Correio Braziliense/ICL Notícias

 

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