quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Brasil se une à China em IA e desafia domínio tecnológico dos EUA

Segundo o UOL, o Brasil aderiu à WAICO, organização de cooperação em inteligência artificial sediada em Xangai e liderada pela China.

O movimento marca uma escolha geopolítica explícita no campo tecnológico.

A adesão contrasta diretamente com o projeto americano chamado Pax Silica, que busca consolidar o controle das cadeias de semicondutores, minerais críticos e energia sob a tutela de aliados de Washington.

A WAICO propõe governança global para a IA por meio de modelos de código aberto, com o objetivo declarado de democratizar o acesso à tecnologia fora do eixo das grandes corporações americanas. Especialistas consultados pela Agência Brasil veem na iniciativa uma oportunidade real para o fortalecimento da soberania digital brasileira.

Eles alertam, porém, que o potencial só se concretiza com investimento em infraestrutura crítica e controle efetivo sobre os dados gerados no país. Sem isso, a adesão permanece simbólica.

Sérgio Amadeu da Silveira, professor da Universidade Federal do ABC, afirma que o Brasil tem dimensão e centros de pesquisa capazes de trilhar um caminho autônomo em IA. Ele defende a aliança com a China, mas sublinha que o país precisa de uma estratégia própria para absorver e expandir esse conhecimento.

O especialista em governança de IA Ettore Arpini, fundador da Plures, aponta que o Brasil pode se posicionar como ator central na disputa geopolítica pelo controle da tecnologia. Sua capacidade de dialogar com iniciativas chinesas e ocidentais ao mesmo tempo o coloca em posição rara de mediação.

O governo Lula tem reiterado que o Brasil não pretende se tornar dependente de nenhum modelo tecnológico específico. Em fóruns multilaterais, Lula tem defendido que a IA seja um benefício compartilhado, e não um privilégio concentrado em poucos países ou corporações.

A postura dos Estados Unidos aponta na direção oposta. O subsecretário de Estado Jacob Helberg deixou claro que Washington prefere que outras nações utilizem as infraestruturas já estabelecidas pelas grandes empresas americanas, em vez de investir em desenvolvimento e controle próprios.

¨      Brasil deve aproveitar aliança com China para fortalecer soberania digital em IA, afirmam especialistas

O Brasil está entre os 29 países que assinaram o documento de criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), anunciada em julho deste ano, com sede em Xangai, na China. O objetivo da iniciativa é desenvolver uma governança global de IA por meio de modelos com código aberto, que permitem a apropriação da tecnologia por qualquer empresa ou organização.

A iniciativa liderada pela China contrasta com o projeto dos Estados Unidos para o futuro da IA, chamada de Pax Silica, e que reúne “aliados confiáveis” da Casa Branca para controlar cadeias de suprimento de semicondutores, minerais críticos e energia.

Especialistas em Inteligência Artificial consultadas pela Agência Brasil apontam que a Waico é uma oportunidade para o Brasil desenvolver a própria soberania digital. Porém, para isso, será necessário “fazer o dever de casa”, como explicou o professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), Sérgio Amadeu da Silveira.

O sociólogo sustenta que o Brasil é um país suficientemente grande, com importantes centros de pesquisas em universidades que poucas nações têm no mundo, o que nos coloca em posição privilegiada para o desenvolvimento da IA.

“O Brasil pode encontrar um caminho de desenvolvimento que seja mais autônomo, mais independente. Sem dúvida nenhuma, o Brasil deve ter uma aliança maior com a China, mas temos que desenvolver nossa própria estratégia”, avaliou.

Sérgio Amadeu acrescentou que, caso o Brasil não desenvolva sua infraestrutura crítica em IA, com soberania também sobre os dados produzidos no país, não será possível aproveitar a cooperação com a China para absorver esse conhecimento.

Em um exemplo, o professor da UFABC disse que, caso recebesse R$ 10 milhões para desenvolver projetos de IA na universidade, teria que gastar R$ 5 milhões apenas com contratos de armazenamento em nuvens fornecidos por big techs como a Amazon, ou até mesmo pela chinesa Huawei.

“Eu não tenho infraestrutura disponível aqui que me permita que os pesquisadores, as universidades e o próprio governo, em vez de sustentar big tech estrangeira, gaste recursos criando expertise e infraestrutura no nosso país para processamento e armazenamento de dados, que nos dê um poder computacional grande”, comentou.

O especialista em governança de IA Ettore Arpini, fundador da organização Plures, que apoia a formação de profissionais para atuação em IA, destacou que o Brasil tem condições de ser um ator chave na geopolítica da IA por ter capacidade de transitar entre as iniciativas chinesas e ocidentais.

“O mais importante é o Brasil não entender a IA como algo setorial, não basta uma política de IA, ou apenas regular esse mercado. É preciso entender como uma vantagem geopolítica, econômica, mas também como uma potencial alavanca de prosperidade para o nosso povo, que surge poucas vezes na história de um país”, concluiu.

<><> O Brasil na geopolítica de IA

O governo brasileiro tem defendido que o país não pode ficar dependente de nenhum modelo, seja chinês ou ocidental, argumentando que mantém diálogo com todas as iniciativas que possibilitem alcançar uma soberania digital para o Brasil.

Nos fóruns multilaterais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido que a IA não pode “se tornar privilégio de poucos países ou instrumento de manipulação na mão de bilionários”. Ainda segundo o presidente, “necessitamos de uma governança intergovernamental da IA, em que todos os Estados tenham assento”.

Os especialistas tem reforçado que a IA é uma tecnologia que vai atravessar todos os setores da vida econômica, assim como foi a eletricidade ou a internet.

Presente no lançamento da Waico, em Xangai, o secretário-geral das Nações Unidas (ONU), António Guterres, afirmou que a IA pode ser a “maior oportunidade da humanidade no século 21I”, mas também “pode se tornar um dos seus maiores riscos”.

“A tecnologia que moldará o futuro da humanidade deve ser moldada por toda a humanidade. Não pode ser governado por um punhado de países ou por um punhado de empresas. Todas as nações precisam de um lugar à mesa”, disse o chefe da ONU.

<><> Pax Silica

O projeto de uma IA governada por todos os países contraria o projeto dos EUA para o futuro da tecnologia, vista por Washington como um dos pilares da estrutura de Poder global. Por isso, a Casa Branca tenta controlar, por meio da Pax Silica, as cadeias de suprimento de minerais críticos, dados e energia que permite a IA funcionar.

A visão do governo de Donald Trump sobre o tema foi exposta em artigo publicado pelo subsecretário de Estado dos EUA para Assuntos Econômicos, Jacob Helberg.

Ele atacou o conceito de “soberania digital” defendido pela ONU e diversos países, incluindo o Brasil.

“[A ONU] avança rumo a um mundo em que cada país possua um mínimo irredutível de IA — seus próprios computadores, seus próprios dados, seus próprios modelos, desenvolvidos e controlados internamente”, escreveu.

Helberg acrescenta que a ideia é sedutora, mas contraproducente. Para ele, os demais países e governos terão maiores benefícios se aproveitarem as infraestruturas já construídas pelas gigantes da tecnologia, as big techs.

“[Se forem pelo caminho traçado pela ONU, os países] terão alcançado não a chamada ‘soberania digital’, mas uma espécie de mediocridade sincronizada — um planeta de clones em escala reduzida, cada um reconstruindo heroicamente a inovação do ano passado, enquanto a própria inovação avança sem eles. Enquanto outros reconstroem o presente, as empresas americanas estarão inventando o futuro”, diz o subsecretário de Estado dos EUA.

¨      Zarattini: “Lula mostrou a Trump que a China é uma alternativa”

O deputado federal Carlos Zarattini (PT-SP) afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acertou ao intensificar o diálogo com a China em meio às novas pressões comerciais e políticas promovidas pelo governo dos Estados Unidos. Para o parlamentar, a aproximação com Pequim transmite a mensagem de que o Brasil dispõe de alternativas econômicas e diplomáticas diante das medidas adotadas pelo presidente norte-americano, Donald Trump.

Em entrevista à TV 247, Zarattini avaliou que a decisão de Lula de conversar com o presidente chinês, Xi Jinping, foi uma resposta à tentativa de Washington de pressionar o Brasil. A conversa entre os dois chefes de Estado ocorreu no domingo (26) e durou mais de uma hora, com discussões sobre comércio, integração econômica e a possibilidade de avanço nas negociações entre China e Mercosul.

“Eu acho que ele fez uma coisa muito acertada, que foi a ligação para Xi Jinping. Foi uma ligação importantíssima porque sinalizou também que nós temos alternativa, nós temos outros caminhos e outras possibilidades”, declarou Zarattini.

Segundo o deputado, o aumento das relações comerciais com a China reduz a vulnerabilidade brasileira diante de eventuais retaliações impostas pelos Estados Unidos. Ele ponderou, no entanto, que a diversificação de mercados precisa alcançar também os produtos industrializados, segmento que enfrenta mais dificuldades para ampliar sua presença na China e na Europa.

“De fato, o que está acontecendo é que o Brasil vem aumentando o seu comércio com a China e reduzindo com os Estados Unidos. O problema maior são os produtos industriais, que precisam encontrar mercado não só na China, como na própria Europa. Essa é a luta que a gente tem que ter para manter os produtos industriais competitivos”, afirmou.

Zarattini analisou ainda a manutenção, por Trump, dos argumentos usados para justificar as sobretaxas aplicadas contra produtos brasileiros. A ordem executiva norte-americana de 2025 havia imposto uma tarifa adicional de 40% sob alegações de perseguição política, restrições à liberdade de expressão e ameaças a cidadãos e empresas dos Estados Unidos. 

Na avaliação do parlamentar, ao reafirmar os fundamentos da medida, Trump procura demonstrar que continua considerando legítimas as acusações feitas contra o Brasil e deixa aberta a possibilidade de novas ações.

“Ele sinalizou: ‘Continua tudo igual. Nós continuamos entendendo que os problemas no Brasil permanecem’. É isso que ele quis dizer, no meu modo de enxergar a questão”, disse.

O deputado considera que as tarifas não podem ser analisadas apenas como instrumentos comerciais. Segundo ele, existe uma dimensão política diretamente relacionada às eleições brasileiras de outubro e ao apoio da extrema direita internacional à candidatura de Flávio Bolsonaro.

“É evidente que há uma ação provocativa por conta das eleições. Toda a ação norte-americana é pensada em função das eleições”, afirmou.

Zarattini disse acreditar que Trump poderá adotar outras formas de pressão até o pleito, com o objetivo de produzir insegurança entre empresários, consumidores e setores do eleitorado brasileiro. Na sua avaliação, a manutenção das acusações contra o Brasil serve também para reforçar a narrativa de que Jair Bolsonaro e seus familiares seriam vítimas de perseguição política.

“Eles se colocam claramente ao lado de Bolsonaro e da família Bolsonaro. Pode ser que tenham outras medidas de retaliação contra o Brasil, porque eles vão continuar provocando”, alertou.

Diante desse cenário, o deputado defendeu que o governo brasileiro mantenha “cabeça fria” e avalie cuidadosamente o momento de qualquer resposta. Para Zarattini, uma medida precipitada poderia ser utilizada pela oposição para aumentar o temor de prejuízos econômicos ou de uma escalada nas tensões com Washington.

O parlamentar ressaltou, entretanto, que cautela não deve ser confundida com passividade. Ele mencionou como alternativa a possibilidade de o Brasil criar impostos de exportação sobre mercadorias das quais o mercado norte-americano depende e que foram poupadas das sobretaxas impostas por Trump.

Entre os produtos citados estão café, suco de laranja, carne e aeronaves. A lógica seria elevar o custo dessas mercadorias para compradores dos Estados Unidos, atingindo diretamente setores sensíveis da economia norte-americana e ampliando a pressão inflacionária interna.

“Por que os Estados Unidos excepcionalizaram esses produtos? Porque, se colocassem imposto de importação, eles ficariam mais caros para o consumidor americano e acabariam elevando a inflação. É uma proposta que precisaria ser estudada com mais detalhe. Eu acho que não é uma coisa que deve ser abandonada”, afirmou.

Zarattini avaliou que o governo Lula precisa combinar a defesa da soberania com medidas que não prejudiquem a posição eleitoral do campo governista. Segundo ele, a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro enfrenta dificuldades para ampliar alianças, definir um candidato a vice e conquistar apoio fora do núcleo mais fiel do bolsonarismo.

O deputado também apontou contradições enfrentadas pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Em sua visão, Tarcísio precisa manter o apoio da base bolsonarista, mas, ao mesmo tempo, sofre com a rejeição associada ao ex-presidente e com problemas de sua própria administração.

“O Tarcísio vive uma contradição. De um lado, precisa se agarrar ao bolsonarismo para manter sua força. De outro, sabe que o bolsonarismo o puxa para baixo”, disse.

Zarattini citou as privatizações da Sabesp e dos serviços ferroviários, além dos problemas na segurança pública, como pontos vulneráveis do governo paulista. Para ele, essas questões ajudam a explicar por que o campo governista chega ao período eleitoral em uma situação mais organizada do que a extrema direita.

Ao falar sobre a presença do presidente argentino Javier Milei em atividades favoráveis à candidatura de Flávio Bolsonaro, o parlamentar disse que o governo brasileiro não deveria transformar o argentino no centro da campanha. A prioridade, segundo ele, deve ser apresentar o programa de Lula, discutir a condição de vida da população e denunciar a subordinação de setores da direita brasileira a interesses externos.

“O Milei quer ser o centro do debate. O Flávio Bolsonaro quer trazer Milei e Trump para o debate. Eu acho que nós temos que colocar o nosso programa no centro, as nossas propostas e a nossa forma de enxergar a soberania”, declarou.

Para Zarattini, a política externa de Milei demonstra os riscos de uma adesão irrestrita aos interesses de Washington. Ele afirmou que o presidente argentino conduz seu país a uma posição de dependência, enquanto a população enfrenta deterioração social.

“O Milei é um exemplo de como ele está transformando a Argentina em um país subalterno aos Estados Unidos, com uma crise permanente e uma miséria cada vez maior. Trump, por sua vez, faz uma demonstração internacional de abuso do poder militar e econômico norte-americano”, afirmou.

O deputado também manifestou preocupação com possíveis interferências estrangeiras nas eleições brasileiras por meio das redes sociais. Segundo ele, conteúdos produzidos ou impulsionados fora do país poderiam ser enviados de forma segmentada a grupos específicos de eleitores, especialmente na reta final da campanha, quando haveria pouco tempo para reação das instituições.

“Podem chegar ao Brasil mensagens disparadas por outros países, principalmente pelos Estados Unidos, para os eleitores brasileiros. Esse é o grande perigo: uma interferência absolutamente indevida que pode acontecer nas vésperas da eleição, sem nenhuma capacidade ou condição de reação”, advertiu.

Zarattini destacou que o uso de dados permite direcionar mensagens a segmentos definidos por religião, renda, posição política ou visão sobre a propriedade. O método, observou, poderia ser usado para disseminar informações falsas ou tentar afastar determinados grupos da candidatura de Lula.

O TSE já aprovou regras específicas para o emprego de inteligência artificial na campanha de 2026. As normas exigem a identificação explícita de conteúdos produzidos ou modificados por IA e proíbem deepfakes que alterem imagens, vozes ou declarações de pessoas reais com finalidade eleitoral.

Zarattini defendeu que a legislação proíba a utilização da tecnologia para atribuir declarações falsas a candidatos ou para fabricar versões artificiais de figuras públicas. Ele ponderou, porém, que uma proibição absoluta de qualquer ferramenta de inteligência artificial poderia ser excessiva.

“Deveria ser proibida a utilização da inteligência artificial para simular falas de pessoas reais. Se alguém pegar a minha voz e o meu rosto e fizer uma frase que eu nunca diria, isso seria uma falsificação do meu pensamento. Agora, proibir toda a utilização da inteligência artificial, eu tenho dúvida”, explicou.

Na avaliação do parlamentar, uma interferência digital poderia ser usada para tentar alterar não apenas o resultado das eleições, mas também o alinhamento geopolítico do Brasil. Zarattini afirmou que setores da extrema direita norte-americana desejam um governo brasileiro disposto a acompanhar Washington na disputa contra a China.

“Os Estados Unidos querem um governo de direita, mas querem também um governo submisso aos seus interesses e que cerre fileiras contra a China”, disse.

O deputado ressaltou que um rompimento econômico entre Brasil e China provocaria perdas de grandes proporções, inclusive para o agronegócio, um dos setores mais integrados ao mercado chinês.

“Hoje, a economia brasileira está muito interligada à China. Por ironia, o próprio agronegócio é o setor mais interligado. Desligar essa conexão econômica e comercial pode ser fundamental para os Estados Unidos, mas, para o Brasil, seria um sacrifício e um desmonte absoluto da economia nacional”, afirmou.

Zarattini também relacionou a discussão sobre as eleições ao tema da soberania digital. Para ele, o Brasil ainda depende excessivamente de empresas estrangeiras para armazenar e processar informações estratégicas do governo, das empresas públicas e da população.

O parlamentar defendeu investimentos em centros de dados sob controle nacional, capazes de proteger informações da Previdência Social, do Sistema Único de Saúde, da Receita Federal, dos bancos públicos e de empresas como a Petrobras.

“Quando a gente fala de soberania, não é só fazer discurso. Nós precisamos efetivamente tomar medidas para proteger o nosso país, e a proteção inclui a questão cibernética. Ela é central hoje, talvez mais importante do que determinados armamentos”, declarou.

Zarattini citou a experiência do Serpro e da Dataprev como demonstração de que o Brasil possui conhecimento técnico para ampliar sua infraestrutura pública de processamento de dados. Segundo ele, o desafio é exercer essa capacidade e definir uma política que trate informações e sistemas digitais como recursos estratégicos nacionais.

“Capacidade nós temos. Precisamos investir nisso e ter uma política de controle sobre os setores e as informações estratégicas. Essa é uma questão central para o Brasil”, concluiu.

 

Fonte: O Cafezinho/Opera Mundi/Brasil 247

 

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