quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Brasil "definha" em saúde mental e recorre à IA para tratamento, diz estudo

Um estudo internacional revelou que brasileiros estão com a saúde mental cada vez pior e, agora, recorrendo à inteligência artificial como alternativa de tratamento.

O resultado aparece no Mind Health Report 2026, uma pesquisa anual da seguradora AXA que mapeia o estado da saúde mental e do bem-estar psicológico globalmente. O Brasil foi incluído em um cenário complexo inédito: ao mesmo tempo em que a população demonstra grande abertura para inovações tecnológicas no autocuidado, reflete índices severos de esgotamento profissional e vulnerabilidade emocional. 

O coração do estudo é o Mind Health Index (MHI), uma métrica da empresa que varia de 0 a 100 e divide a população em quatro níveis emocionais: flourishing (saúde mental positiva), getting by (mantendo equilíbrio), languishing (desanimado) e struggling (sofrimento psicológico).

  • Saúde mental positiva: Acima de 74 pontos
  • Mantendo equilíbrio: Entre 61 e 74 pontos
  • Desanimado: Entre 46 e 61 pontos
  • Sofrimento psicológico: Abaixo de 46 pontos

Enquanto a média global do índice ficou em 61,8 pontos, indicando bem-estar, o Brasil registrou 59,8 pontos. Essa pontuação coloca o país na categoria “definhando emocionalmente”, que significa que as pessoas não estão vivendo em sua capacidade máxima.

Segundo o estudo, pessoas que estão nesse estado têm um risco maior de desenvolver doenças mentais. Com isso, o país ficou atrás de países como Tailândia (66,5), México (63,5) e Estados Unidos (63,0), mas superando o Reino Unido (59,5), Coreia do Sul (58,5) e Japão (58,1).

Apenas 19% dos entrevistados brasileiros se encontram no estado ideal, empatados com a parcela que está na situação mais crítica (19%). A maior parte dos brasileiros está dividida entre os que estão apenas mantendo equilíbrio (30%) ou já sofrendo com a falta de vitalidade (32%).

O relatório também revela que 80% dos entrevistados afirmam que sua saúde mental é negativamente afetada por múltiplos fatores. Entre os principais apontados estão instabilidade financeira e insegurança no emprego (56%) e a incerteza sobre o futuro em um mundo em rápida transformação (56%).

<><> Barreiras e IA

Outro dado que chama atenção é que 40% dos brasileiros autoafirmam sofrer atualmente de alguma condição de saúde mental, sendo os mais prevalentes os distúrbios de ansiedade, fobias ou TEPT (23%), e a depressão (16%). Porém, apenas 27% possuem um diagnóstico médico formal.

Quando questionados sobre os motivos para não buscarem ajuda de profissionais de saúde, o bolso pesa mais e é apontado como o principal entrave por conta do custo das consultas médicas e tratamentos (39%). Em segundo lugar aparece o acesso limitado a profissionais da saúde (23%), seguido por restrições de tempo e rotina de trabalho (18%).

Como resposta, muitos brasileiros têm buscado suporte psicológico por meio de novas tecnologias. O país é um dos líderes globais no uso de IA para a saúde mental. Nada menos que 70% dos brasileiros declaram já utilizar ferramentas de inteligência artificial para gerenciar questões psicossociais, um índice significativamente superior à média mundial, de 63%.

O país fica atrás de mercados como China (88%) e Turquia (83%), mas supera amplamente nações como Estados Unidos (48%), França (47%) e Japão (44%).

De acordo com o relatório, cerca de 27% da população brasileira utiliza alguma ferramenta de IA regularmente para múltiplas tarefas de saúde mental: busca de informações, orientação de comunicação ou até mesmo como um confidente virtual. No entanto, há um alerta: 40% dos usuários brasileiros de inteligência artificial confiam mais nas plataformas tecnológicas do que em profissionais para receber conselhos.

Para Alexandre Campos, vice-presidente da AXA no Brasil, a saúde mental passou a fazer parte das principais discussões sobre qualidade de vida e desenvolvimento econômico. "O Mind Health Report nasce justamente desse compromisso de antecipar tendências, compreender os riscos emergentes e transformar esse conhecimento em soluções concretas de prevenção, cuidado e proteção para clientes, empresas e sociedade", afirmou.

<><> Saúde mental e o trabalho

O estudo aponta um paradoxo entre a necessidade de apoio e o receio de exposição. Entre a população economicamente ativa, 59% relatam ter enfrentado estresse de moderado a severo na vida profissional nos últimos 12 meses (com 36% classificando o estresse em níveis máximos, de 8 a 10).

Esse estresse gerou impactos práticos na rotina de 77% dos trabalhadores, manifestando-se em irritabilidade e mudanças de humor (32%), sintomas físicos como dores de cabeça (29%) e insônia (28%).

Diante de desafios psicológicos, 46% dos profissionais brasileiros afirmaram que não discutiriam seus problemas de saúde mental no ambiente corporativo. Embora o índice seja melhor que a média global de silêncio (48%), os motivos para se calar são profundos: 40% consideram a saúde um assunto estritamente privado e 16% temem repercussões diretas na carreira ou na segurança do emprego.

Apesar do alto nível de respondentes que afirmam que não trazem o tema para o horário comercial, 88% dos trabalhadores brasileiros afirmam que participariam de programas de saúde mental se oferecidos pelos empregadores (84% é a média global), embora 42% das empresas no Brasil não oferecem nenhuma política de bem-estar.

<><> Metodologia

Os resultados do Mind Health Report 2026 são fruto da participação de 19 mil pessoas em 18 países (sendo 1.000 entrevistas no Brasil), com amostras representativas da população adulta na faixa etária de 18 a 75 anos. As entrevistas foram realizadas no início deste ano por meio de método de cotas (gênero, idade, ocupação e região) e ponderações estatísticas para refletir com precisão o perfil demográfico de cada nação.

Desde 2020, o levantamento é uma importante ferramenta para a compreensão das dinâmicas emocionais modernas para auxílio a empresas, governos e indivíduos na criação de soluções de suporte mais eficazes.

¨      IA x saúde mental: algoritmos dificultam a desconexão digital?

A internet ultrapassou a marca de 6 bilhões de usuários em todo o mundo, enquanto as redes sociais já reúnem cerca de 5,8 bilhões de perfis ativos. O avanço da conectividade ocorre em paralelo à expansão de sistemas cada vez mais baseados em algoritmos e inteligência artificial, que organizam conteúdos, personalizam experiências e influenciam a forma como as pessoas consomem informação diariamente. Dados do relatório Digital 2026, da DataReportal, também apontam que mais de 2,4 bilhões de pessoas já utilizam ferramentas de inteligência artificial generativa regularmente.

No Brasil, o cenário ajuda a dimensionar o tamanho dessa transformação. O país encerrou o último ano com cerca de 185 milhões de usuários de internet, o equivalente a 86,9% da população, além de 150 milhões de identidades ativas em redes sociais. O número representa mais de 70% dos brasileiros e coloca o país entre os mercados digitais mais relevantes do mundo.

Ao mesmo tempo em que a tecnologia amplia o acesso à informação, comunicação e serviços, pesquisadores observam o crescimento de sinais associados à hiperconectividade.

A dificuldade de ficar longe do celular, a necessidade constante de verificar notificações e a sensação de desconforto ao se desconectar de aplicativos e redes sociais estão entre os comportamentos que passaram a chamar atenção de especialistas em saúde mental e tecnologia. O fenômeno tem sido associado ao que pesquisadores descrevem como ansiedade de desconexão.

Para Celso Camilo, professor e pesquisador da Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutor em Inteligência Artificial, a discussão não deve se limitar ao tempo de tela. Segundo ele, é preciso observar como as plataformas digitais utilizam recursos tecnológicos cada vez mais sofisticados para ampliar engajamento e retenção de atenção.

"Hoje existe uma assimetria muito grande entre o poder tecnológico de engajamento e a capacidade das pessoas de compreenderem o processo e os impactos desse uso equivocado", afirma.

Segundo ele, a discussão sobre dependência digital deixou de ser um tema ligado apenas ao comportamento individual e passou a envolver questões relacionadas à saúde pública, educação e desenvolvimento tecnológico.

Essa avaliação ocorre em um cenário de crescimento das preocupações com sintomas como dificuldade de concentração, redução da produtividade, alterações de humor, piora da qualidade do sono e impactos nos relacionamentos pessoais. Embora esses efeitos possam ter múltiplas causas, pesquisadores observam que o excesso de estímulos digitais aparece com frequência entre os fatores associados ao problema.

Parte desse debate envolve justamente o papel dos algoritmos e dos sistemas de inteligência artificial que organizam conteúdos, recomendam vídeos, selecionam publicações e personalizam experiências digitais. O objetivo dessas tecnologias é tornar plataformas mais relevantes para os usuários, mas o resultado também pode ser um ambiente de estímulo constante e difícil de abandonar.

"Vivemos em um mundo Figital, a integração do físico com o digital, e isso cria desafios importantes para as pessoas. Não existe mais uma separação clara entre esses mundos, a nossa vida acontece nas duas dimensões ao mesmo tempo", diz Camilo.

A partir dessa percepção, pesquisadores das áreas de inteligência artificial, psiquiatria, educação e comportamento humano criaram o projeto Mente Figital. A iniciativa pretende discutir os impactos da hiperconectividade por meio de conteúdos voltados ao público geral e traduzir descobertas científicas para uma linguagem acessível.

"O principal objetivo é prevenção e conscientização, mas o projeto também busca acolhimento e apoio. Muitas pessoas ainda não percebem que estão entrando em um quadro de dependência digital ou desgaste psicológico associado ao uso excessivo de tecnologia", afirma o pesquisador.

A proposta inicial abrange um podcast com participação de especialistas de diferentes áreas para discutir os efeitos da tecnologia sobre atenção, bem-estar e saúde mental. Em uma segunda etapa, o grupo avalia a criação de ferramentas de autoavaliação que possam ajudar usuários a identificar sinais de risco relacionados ao uso excessivo de ambientes digitais.

Entre os comportamentos observados pelos pesquisadores estão perda de controle do tempo online, alteração de humor associada ao uso digital, prejuízo no sono, queda de produtividade, ansiedade de desconexão e impactos nas relações pessoais.

Para os especialistas envolvidos no projeto, o avanço da inteligência artificial torna essa discussão ainda mais necessária. O objetivo, porém, não é tratar a tecnologia como ameaça, mas compreender como ela influencia comportamentos e como pode ser utilizada de forma mais consciente em uma sociedade cada vez mais conectada.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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