Brasil
"definha" em saúde mental e recorre à IA para tratamento, diz estudo
Um
estudo internacional revelou que brasileiros estão com a saúde mental cada
vez pior e, agora, recorrendo à inteligência artificial como
alternativa de tratamento.
O
resultado aparece no Mind Health Report 2026, uma pesquisa anual da seguradora
AXA que mapeia o estado da saúde mental e do bem-estar psicológico globalmente.
O Brasil foi incluído em um cenário complexo inédito: ao mesmo tempo em que a
população demonstra grande abertura para inovações tecnológicas no
autocuidado, reflete índices severos de esgotamento profissional e
vulnerabilidade emocional.
O
coração do estudo é o Mind Health Index (MHI), uma métrica da empresa que varia
de 0 a 100 e divide a população em quatro níveis emocionais: flourishing (saúde
mental positiva), getting by (mantendo equilíbrio), languishing (desanimado) e struggling (sofrimento
psicológico).
- Saúde mental
positiva: Acima de 74 pontos
- Mantendo
equilíbrio: Entre 61 e 74 pontos
- Desanimado:
Entre 46 e 61 pontos
- Sofrimento
psicológico: Abaixo de 46 pontos
Enquanto
a média global do índice ficou em 61,8 pontos, indicando bem-estar,
o Brasil registrou 59,8 pontos. Essa pontuação coloca o país na
categoria “definhando emocionalmente”, que significa que as pessoas
não estão vivendo em sua capacidade máxima.
Segundo
o estudo, pessoas que estão nesse estado têm um risco maior de desenvolver
doenças mentais. Com isso, o país ficou atrás de países como Tailândia
(66,5), México (63,5) e Estados Unidos (63,0), mas superando o Reino Unido
(59,5), Coreia do Sul (58,5) e Japão (58,1).
Apenas 19% dos
entrevistados brasileiros se encontram no estado ideal, empatados com a
parcela que está na situação mais crítica (19%). A maior parte dos
brasileiros está dividida entre os que estão apenas mantendo equilíbrio
(30%) ou já sofrendo com a falta de vitalidade (32%).
O
relatório também revela que 80% dos entrevistados afirmam que sua saúde mental
é negativamente afetada por múltiplos fatores. Entre os principais apontados
estão instabilidade
financeira e
insegurança no emprego (56%) e a incerteza sobre o futuro em um
mundo em rápida transformação (56%).
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Barreiras e IA
Outro
dado que chama atenção é que 40% dos brasileiros autoafirmam sofrer
atualmente de alguma condição de saúde mental, sendo os mais prevalentes os
distúrbios de ansiedade, fobias ou TEPT (23%), e a depressão (16%). Porém,
apenas 27% possuem um diagnóstico médico formal.
Quando
questionados sobre os motivos para não buscarem ajuda de profissionais de
saúde, o bolso pesa mais e é apontado como o principal entrave por
conta do custo das consultas médicas e tratamentos (39%). Em segundo lugar
aparece o acesso limitado a profissionais da saúde (23%), seguido por
restrições de tempo e rotina de trabalho (18%).
Como
resposta, muitos brasileiros têm buscado suporte psicológico por meio de novas
tecnologias. O país é um dos líderes globais no uso de IA para a saúde
mental. Nada menos que 70% dos brasileiros declaram já utilizar
ferramentas de inteligência artificial para gerenciar questões
psicossociais,
um índice significativamente superior à média mundial, de 63%.
O país
fica atrás de mercados como China (88%) e Turquia (83%), mas supera
amplamente nações como Estados Unidos (48%), França (47%) e Japão (44%).
De
acordo com o relatório, cerca de 27% da população brasileira utiliza
alguma ferramenta de IA regularmente para múltiplas tarefas de saúde mental:
busca de informações, orientação de comunicação ou até mesmo como um confidente
virtual. No entanto, há um alerta: 40% dos usuários brasileiros de inteligência
artificial confiam mais nas
plataformas tecnológicas do que em profissionais para receber conselhos.
Para
Alexandre Campos, vice-presidente da AXA no Brasil, a saúde mental passou a
fazer parte das principais discussões sobre qualidade de vida e
desenvolvimento econômico. "O Mind Health Report nasce justamente desse
compromisso de antecipar tendências, compreender os riscos emergentes e
transformar esse conhecimento em soluções concretas de prevenção, cuidado e
proteção para clientes, empresas e sociedade", afirmou.
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Saúde mental e o trabalho
O
estudo aponta um paradoxo entre a necessidade de apoio e o receio de
exposição. Entre a população economicamente ativa, 59% relatam ter
enfrentado estresse de moderado a severo na vida profissional nos últimos
12 meses (com 36% classificando o estresse em níveis máximos, de 8 a 10).
Esse
estresse gerou impactos práticos na rotina de 77% dos
trabalhadores, manifestando-se em irritabilidade e mudanças de humor
(32%), sintomas físicos como dores de cabeça (29%) e insônia (28%).
Diante
de desafios psicológicos, 46% dos profissionais brasileiros afirmaram que
não discutiriam seus problemas de saúde mental no ambiente corporativo. Embora
o índice seja melhor que a média global de silêncio (48%), os motivos para se
calar são profundos: 40% consideram a saúde um assunto estritamente privado e
16% temem repercussões diretas na carreira ou na segurança do emprego.
Apesar
do alto nível de respondentes que afirmam que não trazem o tema para o horário
comercial, 88% dos trabalhadores brasileiros afirmam que participariam de
programas de saúde mental se oferecidos pelos empregadores (84% é a média
global), embora 42% das empresas no Brasil não oferecem nenhuma política de
bem-estar.
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Metodologia
Os
resultados do Mind Health Report 2026 são fruto da participação de 19 mil
pessoas em 18 países (sendo 1.000 entrevistas no Brasil), com amostras
representativas da população adulta na faixa etária de 18 a 75 anos. As
entrevistas foram realizadas no início deste ano por meio de método de cotas
(gênero, idade, ocupação e região) e ponderações estatísticas para refletir com
precisão o perfil demográfico de cada nação.
Desde
2020, o levantamento é uma importante ferramenta para a compreensão das
dinâmicas emocionais modernas para auxílio a empresas, governos e indivíduos na
criação de soluções de suporte mais eficazes.
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IA x saúde mental: algoritmos dificultam a desconexão
digital?
A
internet ultrapassou a marca de 6 bilhões de usuários em todo o mundo, enquanto
as redes sociais já reúnem cerca de 5,8 bilhões de perfis ativos. O avanço da
conectividade ocorre em paralelo à expansão de sistemas cada vez mais baseados
em algoritmos e inteligência artificial, que organizam conteúdos, personalizam
experiências e influenciam a forma como as pessoas consomem informação
diariamente. Dados do relatório Digital 2026, da DataReportal, também apontam
que mais de 2,4 bilhões de pessoas já utilizam ferramentas de inteligência
artificial generativa regularmente.
No
Brasil, o cenário ajuda a dimensionar o tamanho dessa transformação. O país
encerrou o último ano com cerca de 185 milhões de usuários de internet, o
equivalente a 86,9% da população, além de 150 milhões de identidades ativas em
redes sociais. O número representa mais de 70% dos brasileiros e coloca
o país entre
os mercados digitais mais relevantes do mundo.
Ao
mesmo tempo em que a tecnologia amplia o acesso à informação, comunicação e
serviços, pesquisadores observam o crescimento de sinais associados à
hiperconectividade.
A
dificuldade de ficar longe do celular, a necessidade constante de verificar
notificações e a sensação de desconforto ao se desconectar de aplicativos e
redes sociais estão entre os comportamentos que passaram a chamar atenção de
especialistas em saúde mental e tecnologia. O fenômeno tem sido associado ao
que pesquisadores descrevem como ansiedade de desconexão.
Para
Celso Camilo, professor e pesquisador da Universidade Federal de Goiás (UFG) e
doutor em Inteligência Artificial, a discussão não deve se limitar ao tempo de
tela. Segundo ele, é preciso observar como as plataformas digitais utilizam
recursos tecnológicos cada vez mais sofisticados para ampliar engajamento e
retenção de atenção.
"Hoje
existe uma assimetria muito grande entre o poder tecnológico de engajamento e a
capacidade das pessoas de compreenderem o processo e os impactos desse uso
equivocado", afirma.
Segundo
ele, a discussão sobre dependência digital deixou de ser um tema ligado apenas
ao comportamento individual e passou a envolver questões relacionadas à saúde
pública, educação e desenvolvimento tecnológico.
Essa
avaliação ocorre em um cenário de crescimento das preocupações com sintomas
como dificuldade de concentração, redução da produtividade, alterações de
humor, piora da qualidade do sono e impactos nos relacionamentos pessoais.
Embora esses efeitos possam ter múltiplas causas, pesquisadores observam que o
excesso de estímulos digitais aparece com frequência entre os fatores
associados ao problema.
Parte
desse debate envolve justamente o papel dos algoritmos e dos
sistemas de
inteligência artificial que organizam conteúdos, recomendam vídeos, selecionam
publicações e personalizam experiências digitais. O objetivo dessas tecnologias
é tornar plataformas mais relevantes para os usuários, mas o resultado também
pode ser um ambiente de estímulo constante e difícil de abandonar.
"Vivemos
em um mundo Figital, a integração do físico com o digital, e isso cria desafios
importantes para as pessoas. Não existe mais uma separação clara entre esses
mundos, a nossa vida acontece nas duas dimensões ao mesmo tempo", diz
Camilo.
A
partir dessa percepção, pesquisadores das áreas de inteligência artificial,
psiquiatria, educação e comportamento humano criaram o projeto Mente Figital. A
iniciativa pretende discutir os impactos da hiperconectividade por meio de
conteúdos voltados ao público geral e traduzir descobertas científicas para uma
linguagem acessível.
"O
principal objetivo é prevenção e conscientização, mas o projeto também busca
acolhimento e apoio. Muitas pessoas ainda não percebem que estão entrando em um
quadro de dependência digital ou desgaste psicológico associado ao uso
excessivo de tecnologia", afirma o pesquisador.
A
proposta inicial abrange um podcast com participação de especialistas de
diferentes áreas para discutir os efeitos da tecnologia sobre atenção,
bem-estar e saúde mental. Em uma segunda etapa, o grupo avalia a criação de
ferramentas de autoavaliação que possam ajudar usuários a identificar sinais de
risco relacionados ao uso excessivo de ambientes digitais.
Entre
os comportamentos observados pelos pesquisadores estão perda de controle do
tempo online, alteração de humor associada ao uso digital, prejuízo no sono,
queda de produtividade, ansiedade de desconexão e impactos nas relações
pessoais.
Para os
especialistas envolvidos no projeto, o avanço da inteligência
artificial torna essa discussão ainda mais necessária. O objetivo,
porém, não é tratar a tecnologia como ameaça, mas compreender como ela
influencia comportamentos e como pode ser utilizada de forma mais consciente em
uma sociedade cada vez mais conectada.
Fonte:
CNN Brasil

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