Por
que Nikolas Ferreira e outros bolsonaristas voltaram a explorar desinformação
sobre a pandemia de covid-19
A
audiência do ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas
(NIAID), Anthony Fauci, no Congresso americano foi usada por aliados do
ex-presidente Jair Bolsonaro para recolocar a pandemia de
covid-19 no centro do debate político.
Vídeos
publicados nos últimos dias voltaram a questionar vacinas, máscaras e medidas
adotadas durante a crise sanitária.
Do
ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro ao senador Magno Malta (PL-ES), a base
bolsonarista voltou a repetir alegações que não são sustentadas pelas
evidências científicas, segundo especialistas ouvidas pela BBC News Brasil.
Na
semana passada, em 29 de julho, Fauci, ex-principal assessor médico da Casa
Branca, compareceu perante um comitê do Senado dos Estados Unidos que investiga
sua atuação durante a pandemia.
Durante
o depoimento, ele invocou mais de 100 vezes a Quinta Emenda da Constituição
americana, que garante o direito de uma pessoa não produzir provas contra si
mesma — o que irritou parlamentares republicanos.
O
advogado de Fauci afirmou que seu cliente está "amparado pela lei" e
negou que a decisão represente qualquer admissão de culpa.
Invocar
a Quinta Emenda não constitui crime e é um instrumento amplamente utilizado no
sistema judicial americano. O próprio presidente Donald Trump recorreu ao
dispositivo durante um depoimento em um processo civil envolvendo a Trump
Organization, em 2022, antes de retornar à Casa Branca.
O fato
de Fauci ter optado por não responder às perguntas não altera, por si só, o
conhecimento científico acumulado sobre vacinas, máscaras ou tratamentos contra
a covid-19, afirmam especialistas ouvidas pela BBC News Brasil.
Para
elas, a audiência e, principalmente, a forma como ela vem sendo explorada por
aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro fazem parte de uma estratégia de
mobilização política em meio à aproximação das eleições legislativas de meio de
mandato (midterms) nos Estados Unidos e das eleições gerais no Brasil,
previstas para outubro.
Entenda
abaixo o que foi a audiência e como ela está sendo usada para espalhar
desinformação às vésperas do período eleitoral. No Brasil, a pandemia da
covid-19 matou mais de 700 mil brasileiros.
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Por que Fauci foi convocado?
A
audiência foi convocada pelo senador republicano Rand Paul, presidente do
Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado. Há anos, Paul
acusa Fauci de tentar encobrir a origem da covid-19 e de financiar pesquisas no
Instituto de Virologia de Wuhan, na China.
A
origem da pandemia, no entanto, continua sendo alvo de debate dentro do próprio
governo americano.
Segundo
um relatório desclassificado do Escritório do Diretor Nacional de Inteligência,
divulgado em 2023, o Conselho Nacional de Inteligência e outras quatro agências
concluíram que a primeira infecção humana ocorreu por exposição natural a um
animal infectado. Já o Departamento de Energia e o FBI avaliaram que a hipótese
de um incidente relacionado a laboratório era mais provável.
Em
2025, já durante o segundo mandato de Donald Trump, a CIA informou que passou a
considerar mais provável a hipótese de vazamento em laboratório, mas
classificou essa avaliação como de baixa confiança, ressaltando que as
evidências continuam limitadas.
A
Organização Mundial da Saúde (OMS), por sua vez, afirmou no ano passado que a
hipótese de transmissão natural de animais para humanos segue sendo a mais bem
sustentada pelas evidências disponíveis, embora a origem da pandemia permaneça
inconclusiva.
Durante
a audiência, parlamentares republicanos também questionaram Fauci sobre
mudanças nas recomendações de saúde pública ao longo da pandemia. As
orientações foram alteradas conforme novas evidências científicas surgiam, algo
que Fauci já havia defendido em outras ocasiões.
Diversos
senadores democratas saíram em sua defesa. A senadora Maggie Hassan afirmou que
a audiência foi "planejada para criar uma armadilha".
Fauci
nega qualquer irregularidade.
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Como a audiência repercutiu entre bolsonaristas
Após a
audiência, políticos do campo bolsonarista passaram a usar o episódio para
afirmar que decisões tomadas durante a pandemia teriam sido desmentidas.
Dos
Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro foi um dos primeiros a vir a público dizer
que pessoas deveriam "pedir desculpas" a seu pai. "Eu sei que
muita gente de bom coração culpou Jair Bolsonaro pela morte de um parente
querido, ou por alguma coisa, né. Caiu em uma fake news em relação à
vacina."
Além
dele, outros aliados do ex-presidente adotaram discurso semelhante de
"Bolsonaro tinha razão".
"Essas
últimas revelações do governo americano sobre o Dr. Anthony Fauci só provam que
nós e o presidente Bolsonaro estávamos certos desde o início", publicou
Magno Malta.
O
jornalista e influenciador Paulo Figueiredo escreveu no X: "Bolsonaro
tinha razão em basicamente TUDO durante a covid", afirmou, seguindo com
uma série de xingamentos à imprensa e aos defensores das políticas de
distanciamento.
Já a
médica Mayra Pinheiro, que ficou conhecida como "capitã Cloroquina"
quando atuou no Ministério da Saúde durante a gestão do ex-presidente, afirmou
que segue "cas mãos limpas" e que Fauci "mentiu e foi
desmascarado".
O vídeo
de maior alcance, no entanto, foi publicado pelo deputado federal Nikolas
Ferreira (PL-MG), candidato à reeleição para a Câmara dos Deputados. Com a
promessa de contar "a verdade" sobre a covid-19, a gravação
ultrapassou 37 milhões de visualizações no Instagram.
No
vídeo, Nikolas afirma, sem apresentar evidências, que diários pessoais de Fauci
revelariam contradições entre suas conversas privadas e suas decisões públicas
durante a pandemia.
O
deputado também afirma, sem provas, que Fauci teria sofrido um efeito adverso
pulmonar após ser vacinado e escondido essa informação do público.
Em
outro trecho, sustenta que Fauci abandonou a hidroxicloroquina após o então
presidente Donald Trump defender o medicamento e afirma que essa mudança teria
impedido um tratamento que "poderia ter salvado milhões de pessoas".
A
hipótese, porém, não é respaldada pelos grandes ensaios clínicos realizados
sobre hidroxicloroquina e ivermectina, segundo a infectologista Denise Garrett,
vice-presidente do Sabin Vaccine Institute.
Ao
final do vídeo, Nikolas conclui: "Ou seja, tinha alguém que tinha razão.
Jair Bolsonaro. Nada como o tempo".
O
ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello publicou um vídeo em que afirma, também
sem citar novas evidências científicas, que a narrativa construída durante a
pandemia "está sendo desmontada" cinco anos depois dos
acontecimentos.
No
vídeo, ele afirma que o ex-presidente e médicos que questionaram medidas
adotadas durante a pandemia foram injustamente rotulados como
"genocidas", "negacionistas" e "antivacina".
Segundo
ele, as recentes discussões envolvendo Anthony Fauci nos Estados Unidos
reforçariam críticas feitas à condução da pandemia.
Ele
defende que o governo buscou equilibrar o combate à covid-19 com a preservação
da atividade econômica, afirmando que Bolsonaro defendia "o direito de
trabalhar" e a "autonomia médica" para que médicos e pacientes
discutissem tratamentos. Segundo Pazuello, isso "nunca significou negar a
ciência", mas reconhecer as incertezas existentes no início da pandemia.
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Informações falsas e 'meias verdades'
As
alegações feitas por Nikolas Ferreira e por outros aliados do ex-presidente
Jair Bolsonaro entram em conflito com o conhecimento científico acumulado desde
o início da pandemia, segundo especialistas ouvidas pela BBC News Brasil.
Entre
as principais afirmações contestadas estão a de que máscaras seriam ineficazes,
que hidroxicloroquina e ivermectina poderiam ter salvado milhões de vidas e que
os efeitos adversos das vacinas teriam sido ocultados.
Segundo
a infectologista Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute,
essas conclusões não são sustentadas pelas evidências científicas.
"Não
ficou provado que as máscaras eram ineficazes. Os grandes ensaios clínicos não
demonstraram benefício da ivermectina ou da hidroxicloroquina. E os efeitos
adversos das vacinas foram monitorados, identificados e divulgados justamente
pelos sistemas de vigilância de segurança", afirma.
"No
início da pandemia era correto investigar esses medicamentos. Mas, quando foram
realizados ensaios clínicos maiores, randomizados e mais confiáveis, os
benefícios esperados não foram confirmados."
Garrett
também ressalta que o fato de Anthony Fauci ter invocado a Quinta Emenda
durante seu depoimento ao Senado americano não altera o consenso científico
sobre a pandemia.
"Invocar
um direito constitucional não comprova nenhuma alegação científica. Não
transforma um medicamento ineficaz em eficaz e não apaga os resultados de
milhares de estudos realizados em diferentes países."
Segundo
a especialista, a audiência pode investigar a atuação de autoridades públicas,
mas não modifica as evidências produzidas ao longo da pandemia.
"O
que sabemos hoje sobre vacinas, máscaras, medicamentos e transmissão não
depende do depoimento de Anthony Fauci, mas de milhares de estudos realizados
por pesquisadores em vários países."
Para a
infectologista, o aspecto mais perigoso do vídeo é combinar fatos verdadeiros
com conclusões que eles não sustentam. "A desinformação mais convincente
normalmente começa com alguma verdade, mas retira dela o contexto
necessário."
Ela
reconhece que houve falhas na condução da pandemia, como mudanças nas
recomendações à medida que novas evidências surgiam, problemas de comunicação
das autoridades e restrições que provocaram impactos sociais, econômicos e
educacionais.
Também
lembra que as vacinas podem provocar eventos adversos raros, como miocardite,
sobretudo em adolescentes e homens jovens após determinadas doses das vacinas
de RNA mensageiro.
"Mas
reconhecer que houve um risco raro de miocardite não significa que as vacinas
tenham sido mais perigosas do que a doença. Reconhecer que algumas restrições
foram excessivas não significa que todas as medidas de distanciamento foram
inúteis."
Para
Garrett, é legítimo discutir erros cometidos durante a pandemia, mas isso não
pode servir para reescrever o consenso científico. "Uma revisão honesta
não pode transformar falhas reais em argumentos para defender medicamentos
ineficazes ou negar que as vacinas reduziram doença grave e mortes."
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Qual o impacto nas eleições?
Para a
cientista política Carolina Botelho, doutora em Ciência Política e pesquisadora
do INCT/SANI/CNPq, a divulgação dos vídeos faz parte de uma estratégia
eleitoral baseada em um tema que continua mobilizando a polarização política.
"Ele
pega a questão da pandemia, que sabe que divide opiniões, e a recoloca na
agenda política. É a velha estratégia da extrema-direita para lidar com temas
controversos e mobilizar sua base", afirma.
Na
visão de Botelho, o objetivo não é reabrir o debate científico sobre a
pandemia, mas reforçar convicções já existentes entre apoiadores.
"O
que eles precisam é do efeito do viés de confirmação. Quando uma liderança como
Nikolas Ferreira ou Jair Bolsonaro fala sobre esse tema, eles sabem que haverá
um grande grupo de eleitores que vai repercutir esse conteúdo e se sentir
validado."
Na sua
avaliação, essa estratégia vem sendo utilizada desde a campanha presidencial de
2018 e ganhou força com a consolidação das redes sociais como principal arena
de disputa política.
"Você
pega uma informação falsa ou distorcida e uma liderança política a distribui
para milhões de pessoas porque sabe que ela será rapidamente
multiplicada."
Botelho
avalia que a retomada desse debate também pode ajudar a mobilizar a base
bolsonarista em um momento considerado delicado para o grupo político.
"Eles
movimentam a base eleitoral e trazem atenção para um momento em
que Flávio Bolsonaro enfrenta um cenário mais desfavorável. Faz
sentido que tentem recolocar na agenda um tema que mobiliza fortemente seus
apoiadores."
Mas ela
pondera que o tiro pode sair pela culatra, já que o alcance dessa estratégia
tende a ser limitado.
"A
maioria da população brasileira acredita nas vacinas e reconhece que elas
tiveram um papel importante para reduzir casos graves e mortes durante a
pandemia. Esse tipo de narrativa tende a fortalecer quem já concorda com ela,
mas dificilmente amplia muito esse público."
Segundo
a pesquisadora, os vídeos não apresentam elementos novos, apenas retomam
discursos que circulam desde a pandemia. "Parece uma novidade, mas não é.
O discurso é praticamente o mesmo, com ataques às vacinas, à ciência e aos
especialistas. O objetivo continua sendo mobilizar a própria militância."
Ela
afirma ainda que a escolha do tema também dialoga com a lógica das plataformas
digitais.
"Assuntos
controversos circulam mais rapidamente nas redes sociais. Nikolas Ferreira
domina essa dinâmica e sabe que esse tipo de conteúdo gera grande engajamento
entre seus apoiadores."
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'Desinformação sobre a pandemia nunca parou'
Para a
professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, Deisy Ventura, a circulação
dos vídeos não representa um episódio isolado, mas a continuidade de um
processo de desinformação que, segundo ela, persiste desde o auge da pandemia.
"Essa
desinformação jamais cessou. Mesmo depois do fim da emergência sanitária,
continuamos vendo perfis, organizações e cursos que sistematicamente divulgam
informações falsas sobre saúde pública e covid-19", afirma.
Na
avaliação da pesquisadora, a permanência dessas narrativas está ligada à falta
de responsabilização de quem difundiu desinformação durante a pandemia.
"Estamos
colhendo os frutos da impunidade. A desinformação continua rendendo dinheiro,
gerando engajamento e sendo usada politicamente. Não se trata apenas desse
vídeo, mas de um ecossistema de desinformação sobre saúde pública."
Ventura
afirma que o Estado brasileiro falhou ao não reagir de forma mais contundente à
disseminação de informações falsas.
"Na
primeira fake news divulgada por autoridades públicas, se houvesse
responsabilização, estaríamos em outro lugar hoje", afirma. Ela também
aponta a ausência de uma política de memória sobre a pandemia como um fator que
facilita a retomada dessas narrativas.
Sobre a
audiência de Anthony Fauci no Senado americano, a professora também afirma que
ela vem sendo utilizada politicamente, mas não altera o conhecimento científico
produzido desde o início da pandemia.
"Não
há nada de novo nos diários de Fauci que modifique o consenso científico. Eles
mostram discussões, hipóteses e dúvidas próprias de um momento em que
pesquisadores buscavam compreender uma doença desconhecida", diz.
"A
reiteração da ideia de que vacinas fazem mal ou de que a ciência ocultou a
verdade serve para alimentar narrativas políticas, não para produzir
conhecimento."
Fonte:
BBC News Brasil

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