Deterioradas
a níveis sem precedentes, relações com EUA e Argentina inauguraram a diplomacia
brasileira
Deterioradas
a níveis sem precedentes, as relações diplomáticas desenvolvidas entre o Brasil e
seus dois principais aliados históricos, os Estados
Unidos e a Argentina,
são consideradas inaugurais da diplomacia do então império brasileiro
recém-independente de Portugal,
nos anos 1820.
A
revogação de visto à pessoa que comanda a embaixada brasileira, por parte dos
Estados Unidos, e o rebaixamento diplomático das relações bilaterais com a
Argentina são episódios sem precedentes desses diálogos internacionais.
Mas não
se trata de uma história sem atritos, é verdade — embora, no morde e assopra do
xadrez das relações internacionais, a história demonstra que predomina o clima
amistoso tanto com Washington quanto com Buenos Aires.
"Embora
o atual desgaste nas relações com Washington e Buenos Aires traga prejuízos
graves para o pragmatismo da política externa brasileira, o cenário de atrito e
rebaixamento funcional de missões não é inédito na história do país",
comenta o cientista político Márcio Coimbra, presidente da empresa de
consultoria Casa Política e ex-diretor da Agência Brasileira de Promoção de
Exportações e Investimentos (Apex).
Coimbra
explica que, no jargão das relações
internacionais, "rebaixar o nível diplomático" significa
"substituir a liderança de uma missão oficial, historicamente chefiada por
um embaixador extraordinário e plenipotenciário, que detém a representação
direta e máxima de um chefe de Estado, por diplomata de menor hierarquia, como
um encarregado de negócios ad interim".
"Esse
movimento sinaliza grave descontentamento político e um congelamento
institucional, sem atingir o extremo de um rompimento formal de relações",
afirma Coimbra. Ele ressalta, contudo, que até o momento tal rebaixamento não
ocorreu via ato normativo com nenhum desses dois países. Na prática, ambos os
distanciamentos acabaram reduzindo a interlocução ao nível de encarregados.
De
acordo com o jurista e cientista político Enrique Natalino, pesquisador do
Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), a escalada de tensões nas
relações do Brasil com esses dois países ocorre em virtude "das
desinteligências entre os presidentes e as ações de política exterior dos
respectivos governos".
"Episódios
recentes mostram agravamento diplomático", avalia.
Ele
explica que chamar de volta um embaixador, como o Brasil fez com o diplomata
designado para a missão em Buenos Aires,
significa "um ato de desaprovação à política, atitude ou ato do país
anfitrião", uma "moção de censura".
Já o
gesto norte-americano, ao revogar o visto da embaixadora brasileira, é mais
grave. "Equivale à expulsão de um diplomata", diz Natalino. "É
até um ato de agressão, muito mais do que descortesia. Trata-se de hostilidade
franca no campo diplomático."
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Duzentos anos de relações
A
diplomacia com Buenos Aires e Washington teve início quando o Brasil nascia
como nação independente. A prioridade, naquele momento, era buscar o
reconhecimento do novo país junto a Estados já estabelecidos, como forma de
garantir, no cenário internacional, a consolidação do desvínculo de Portugal.
O
artífice dessa empreitada foi o estadista José Bonifácio de Andrada e Silva
(1763-1838), que seria conhecido pelo epíteto de "patriarca da
Independência". Ele acumulava os comandos dos ministérios dos Negócios e
das Relações Exteriores no processo de transição entre o Brasil parte do então
Reino de Portugal e o império que nasceria com a independência. Entendeu que
era preciso trabalhar pelo reconhecimento estrangeiro para que a ideia de um
novo país se viabilizasse.
Em maio
de 1822, já entendendo o processo de independência que se desenhava, Bonifácio
nomeou o diplomata Antônio Manuel Correia da Câmara (1783-1848) para atuar como
agente comercial e político junto ao governo de Buenos Aires. Aquela região
havia se tornado independente da Espanha desde 1816, mas não era ainda
Argentina — eram as Províncias Unidas do Rio da Prata.
Entre
suas missões estava pleitear o posicionamento de Buenos Aires favorável aos
emancipacionistas brasileiros.
O
iminente conflito que depois seria conhecido como Guerra da Cisplatina — e
daria origem ao Uruguai — se tornou ponto central da primeira crise diplomática
entre Brasil e a futura Argentina. Homólogo de Câmara, o diplomata e padre
portenho Valentín Gómez (1774-1839) foi destacado para missão ao Rio de Janeiro
em 1823. Nesse trabalho, reconheceu a independência brasileira, mas buscou que
o governo imperial aceitasse a "devolução pacífica" da chamada Banda
Oriental — mais ou menos o atual Uruguai —, o que não aconteceu.
Valentín
Gómez é considerado o primeiro diplomata estrangeiro a atuar no Brasil
independente.
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Atritos
Oficialmente,
as Províncias Unidas do Rio da Prata reconheceram o Brasil livre e monárquico
em 25 de junho de 1823 — em carta trazida por Gómez, enviada pelo governo de
Buenos Aires a Bonifácio. Esta é considerada, portanto, a primeira vitória da
diplomacia brasileira.
Contudo,
as relações com o país vizinho já começaram estremecidas pela questão
cisplatina. De 1825 a 1828, ambos digladiaram-se. Foi preciso uma guerra,
portanto, para resolver a questão que não havia sido azeitada diplomaticamente.
Em
paralelo, o governo imperial brasileiro entendia ser importante ter nos Estados
Unidos da América, pioneiro do processo de independências do continente, nação
desde 1776, um aliado.
Dessa
relação está um marco importante para a história da diplomacia nacional: entre
1824 e 1829, o diplomata José Silvestre Rebello (1776 ou 1777-1844) foi o
primeiro agente nomeado de forma permanente para representar o país
independente em terras estrangeiras. Como encarregado de Negócios do império,
Rebello é considerado, portanto, o primeiro "embaixador" do Brasil.
Sua
missão principal era buscar o reconhecimento dos Estados Unidos à existência do
Brasil como um país livre de Portugal. Ele foi bem-sucedido. Antecipando-se a
potências europeias, o presidente americano James Monroe (1758-1831) recebeu o
encarregado brasileiro e, em 26 de maio de 1824, avalizou a independência do
Brasil. O pano de fundo era na busca dos Estados Unidos em exercer uma
influência política e econômica sobre o continente — o que ficou conhecido como
"doutrina Monroe", com o lema "a América para os
americanos".
"Esse
ato de reconhecimento mútuo foi precisamente o marco jurídico que permitiu a
inauguração de relações diplomáticas regulares entre as nações, resultando no
envio recíproco de representantes e na instalação de agentes e encarregados de
negócios tanto na capital do Império, o Rio de Janeiro, quanto em Washington e
Buenos Aires", pontua Coimbra.
Em
capítulo do livro Uma Parceria Bicentenária: Passado, Presente e Futuro das
Relações Brasil-Estados Unidos, lançado há dois anos, o diplomata Rubens
Barbosa, ex-embaixador brasileiro em Washington, pontua que embora o governo
imperial tenha celebrado esse evento como um reconhecimento à independência, a
presidência norte-americana na ocasião "não emitiu "nenhuma
declaração nesse sentido".
Barbosa
aponta que os Estados Unidos mantiveram inicialmente uma postura mais ambígua
porque não queriam alimentar atritos com Portugal nem com outras potências
europeias. Assim, o acordo diplomático entre Brasil e Estados Unidos só seria
firmado, de papel passado, em outubro de 1825.
O
diplomata lembra que nas primeiras décadas a relação entre as duas nações não
era exatamente amigável, pois desconfianças mútuas pairavam principalmente
porque os regimes políticos de cada um eram distintos: a monarquia brasileira
frente aos valores republicanos desde o início caros aos Estados Unidos.
Ele
escreve que os norte-americanos "consideravam o Brasil o representante da
Europa na América e viam com preocupação o surgimento no sul do continente de
um país independente que poderia rivalizar com Washington".
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Primeira 'embaixada'
Fato é
que em 1824 o Brasil estabeleceu então uma legação em Washington, a primeira
unidade diplomática permanente do país. Foi a "primeira missão diplomática
estruturada pelo Brasil no exterior", enfatiza Coimbra. Legações eram
instituições de representação diplomática chefiadas por um ministro
plenipotenciário — na prática, atuavam como embaixadas, mas com menos poderes.
Esse
tipo de instituição era a praxe na maior parte das organizações diplomáticas
antes "da universalização do conceito contemporâneo de embaixada, após a
Segunda Guerra e a Convenção de Viena de 1961", explica Coimbra. "A
diferença fundamental em relação às embaixadas residia no estatuto do
representante: o embaixador era uma figura raríssima, reservada a negociações
entre grandes potências ou monarquias de primeira ordem, investido da
prerrogativa de representar pessoalmente o próprio monarca ou chefe de Estado",
afirma ele. "Já os chefes de legação representavam apenas o governo de
seus países."
"Embaixadas
eram muito raras. Normalmente o nome e o conceito designavam representantes
pessoais e costumavam estar reservados a grandes potências, a monarquias
europeias", explica Natalino.
Como
instrumento institucional, as legações funcionavam como representações dos
governos, das chancelarias de cada nação. "Eram as representações
diplomáticas", diz Natalino. "Gradualmente, [a terminologia] foi
sendo extinta no século 20."
Do lado
inverso, os Estados Unidos já demonstravam interesse em se aproximar do Brasil.
Em 1815, quando a então colônia portuguesa na América foi elevada a parte do
Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, os norte-americanos instalaram um
consulado no Recife.
A
primeira embaixada propriamente dita do Brasil seria inaugurada muito tempo
depois, já sob o regime republicano e no início do século 20. Novamente em
Washington. Durante a gestão de José da Silva Paranhos Júnior (1845-1912), o
Barão de Rio Branco, no ministério das Relações Exteriores, ele criou a
instituição, em 1905, e designou como primeiro embaixador brasileiro nos
Estados Unidos o diplomata, historiador e jurista Joaquim Nabuco (1849-1910). A
escolha de Washington para a primeira embaixada — e não de Lisboa ou outra
capital europeia — tinha um simbolismo: Rio Branco queria mostrar ao mundo que,
no eixo geopolítico que se apresentava, era mais interessante ao Brasil se
aliar a uma potência do mesmo continente do que olhar para o Velho Mundo.
"Fruto
da reformulação estratégica promovida pelo Barão do Rio Branco, que deslocou o
eixo prioritário da diplomacia brasileira da Europa para as Américas",
frisa Coimbra, acrescentando que este posto inaugurou "a era moderna da
representação diplomática de alto nível do país."
"Foi
um cálculo político e diplomático do Barão de Rio Branco. Aproximar o Brasil de
Washington significava fazer um contraponto com a histórica dependência da
Europa, criando uma equidistância pragmática da Europa e buscando
fortalecimento das relações hemisféricas", analisa Natalino. Na conta,
acredita o pesquisador, Rio Branco já previa os Estados Unidos emergindo como
grande polo do poder mundial.
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Problemas com os americanos
Mas a
relação entre os dois países já colecionava alguns atritos. Ao longo do século
19, foram pelo menos três ocasiões em que as relações diplomáticas acabaram
suspensas entre os países. Em 1827, durante a Guerra da Cisplatina, forças
brasileiras retiveram navios norte-americanos, acusando-os de atuar como
corsários a favor das Províncias Unidas do Rio da Prata. Dado o incidente, o
governo dos Estados Unidos interrompeu diálogos com o Brasil.
"O
Brasil expulsou o representante americano por conta da ingerência nas relações
com a Argentina", diz Natalino. Ele comenta que os norte-americanos
estavam furando o bloqueio imposto pelo Brasil em portos platinos.
Vinte
anos mais tarde, novo estremecimento. O então representante norte-americano no
Brasil, o diplomata Henry Alexander Wise (1806-1876) foi declarado persona non
grata pelo governo imperial porque teria se recusado a comparecer a audiência
para discutir o caso de um oficial de corveta americana que, de espada em
punho, desafiou a prisão de três de seus marinheiros que haviam provocado um
tumulto em 31 de outubro do ano anterior. Seguiu-se uma troca de farpas entre o
diplomata e o governo imperial, com a recusa do gabinete brasileiro de tratar
quaisquer questões com Wise — que acabaria substituído por Washington.
No fim
dos anos 1860, mais um caso — a chamada Questão Webb, quando o embaixador dos
Estados Unidos no Brasil, James Watson Webb (1802-1884) comprou uma briga com o
governo brasileiro, exigindo indenização por causa de um navio norte-americano
que teria sido saqueado na costa do Brasil. O governo imperial se recusou a
pagar e pressionou os Estados Unidos até conseguir a remoção do embaixador.
No
texto publicado em livro, Barbosa lembra que dessa passagem de Webb ainda ficou
um outro atrito: uma ideia levantada pelo governo norte-americano de transferir
parte da população negra dos Estados Unidos para a Amazônia. O governo
brasileiro entendeu a proposta como uma tentativa dos norte-americanos de, por
ocupação, conquistar essa região do território nacional.
Mais
recentemente, Coimbra lembra que a ditadura também teve entreveros diplomáticos
com os Estados Unidos. Em 1977, sob o presidente Ernesto Geisel (1907-1996), as
relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos ficaram congeladas depois que
o governo brasileiro decidiu romper o Acordo de Assistência Militar assinado
com os norte-americanos em 1952. Era uma resposta à administração de Jimmy
Carter (1924-2024), que havia divulgado um relatório sobre direitos humanos que
vinham sendo feridos pela ditadura brasileira.
"A
lição de todos esses precedentes demonstra que crises alimentadas por fricções
ideológicas custam caro ao interesse nacional e que o reestabelecimento da
estabilidade sempre exigiu a retomada da sobriedade e do profissionalismo de
Estado", pontua Coimbra.
Fonte:
BBC News Brasil

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