Eleições
2026 – nada está garantido
Nove
semanas até o primeiro turno das eleições e nada está garantido. A ligeira
vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro nas mais recentes pesquisas de opiniões
não deve nos iludir. Quem decidiu profetizar uma vitória de Lula em primeiro
turno deveria ter mais autocontenção. O autoengano – uma forma de aquietar a
mente – é um erro fatal.
Não
podemos esquecer a lição mais importante das eleições de 2022, quatro anos
atrás: a subestimação da potência e capilaridade de influência da extrema
direita é imperdoável. A diferença foi tão estreita que, se a eleição tivesse
sido uma ou duas semanas depois, Jair Bolsonaro poderia ter sido eleito. Existe
uma margem de incerteza sobre o desfecho eleitoral, porque as pesquisas têm
dificuldades variadas em captar a votação do bolsonarismo.
Os
perigos que ameaçam a reeleição de Lula são múltiplos. O exemplo do dia é a
decisão monocrática de André Mendonça, ministro indicado por Jair Bolsonaro
para o Supremo Tribunal Federal (STF), de autorizar a Polícia Federal a abrir
um inquérito oficial para investigar Fábio Luís, o Lulinha, filho de Lula, por
suspeitas de corrupção e tráfico de influência. Muito mais virá. A
luta política será de máxima intensidade e devemos nos preparar para tudo.
O mapa
político da América Latina desenha um contexto. A extrema direita venceu as
eleições presidenciais em 2025 no Equador e na Bolívia, e parlamentares na
Argentina. Já em 2026 os aliados de Donald Trump, José Antonio Kast, Keiko
Fujimori e de Aberlardo de la Espriella venceram no Chile, Peru e Colômbia.
Este ano se iniciou com uma agressão militar fulminante contra a Venezuela, que
culminou com o sequestro de Nicolás Maduro e Cília Flores, algo sem
precedentes.
Impossível
diminuir o iminente perigo que ameaça Cuba. Os insultos de Javier Milei na
Convenção da candidatura de Flávio Bolsonaro sinalizam uma decisão de
protagonismo. Não fosse o bastante seria irrealista diminuir o impacto das
futuras intervenções de Donald Trump após o novo tarifaço. Os EUA poderão até
contestar a lisura do processo eleitoral se Lula vencer, o que não é um perigo
menor.
A
guerra cultural nas redes sociais se desenvolve ininterrupta e
vertiginosamente. Apostar na regulação das condições de disputa pela Justiça
Eleitoral desconsiderando a ameaça de manipulações pela inteligência artificial
seria irreparável.
Não
deveríamos nunca esquecer que serão eleições gerais. A eleição simultânea da
presidência e de governadores, deputados federais e senadores é um fator
inescapável na avaliação da conjuntura. Sem palanques regionais fortes a
eleição presidencial é muito mais incerta.
A
possibilidade de eleger governadores de esquerda é dramaticamente minoritária:
a previsão mais provável se reduz ao Piauí com Rafael Fonteles. Elmano de
Freitas no Ceará terá uma disputa duríssima com Ciro Gomes, que contará com o
apoio do bolsonarismo. Jerônimo Rodrigues ainda está em empate técnico contra
ACM Neto na Bahia. O PT terá candidatos próprios em somente dez dos vinte e
seis Estados além do Distrito Federal.
Esta
tática obedeceu ao cálculo de tentar neutralizar um alinhamento “nacional e
vertical” de alguns partidos do Centrão com o bolsonarismo, em especial, no
Nordeste, onde em média as pesquisas indicam uma votação em Lula entre 55% e
60% no primeiro turno. Mas a dura e cruel realidade é que, nas atuais condições
Lula não tem maioria no triângulo estratégico do Sudeste. A atual vantagem em
Minas Gerais não compensa a diferença a favor do bolsonarismo em São Paulo e no
Rio de Janeiro.
Eduardo
Paes está em primeiro lugar no Rio de Janeiro, mas a candidatura de Antonhy
Garotinho pode alavancar um segundo turno contra Douglas Ruas. A hipótese de
uma vitória de Tarcísio de Freitas em primeiro turno não é descartável. No Sul
Lula está atrás de Flávio Bolsonaro em quase todos os Estados. A boa notícia é
vantagem de Juliana Brizola sobre Luciano Zucco e de Manuela d’Ávila sobre
Marcel Van Hatten.
Não é
sequer razoável duvidar da vantagem que o bolsonarismo vai arrastar no
Centro-Oeste, o reduto da influência do agronegócio. Do Norte, a única
expectativa da candidatura Lula repousa na aliança com o MDB da família
Barbalho. Resumo da ópera: a batalha será duríssima e a indefinição do
desenlace não é pequena.
Mas o
mais preocupante quando desagregamos os dados das pesquisas é que Flávio
Bolsonaro mantém uma preferência, para além da margem de erro, da maioria
masculina e, sobretudo, da maioria entre os trinta milhões que ganham além de
dois salários mínimos. A extrema direita conquistou posições entre as camadas
médias da classe trabalhadora.
Em
outras palavras, o povo que vive do trabalho está fragmentado. É uma tragédia,
mas uma “divisão” aparta duas parcelas da classe trabalhadora: os remediados e
os pobres. Enquanto uma maioria dos mais pobres giraram à “esquerda” ao apoiar
o lulismo, pelo menos metade dos remediados giraram “à direita”.
Na raiz
deste processo encontramos transformações sociais profundas. A “crueldade”
histórica é que a desigualdade social entre os que vivem do trabalho
assalariado diminuiu, porque o piso da extrema pobreza subiu, mas a remuneração
das camadas médias de trabalhadores estagnou com viés de queda. A distribuição
funcional da renda entre capital e trabalho somente oscilou, sem sair do lugar.
O
bolsonarismo é majoritário entre os evangélicos, mas minoritário entre os mais
pobres. A percepção desta divisão fica mais enviesada quando integramos a
fratura racial na avaliação. A maioria dos remediados não é autodeclarada
negra, e a maioria dos mais pobres não é branca. Medo e preconceito envenenam a
compreensão deste paradoxo. O pentecostalismo da prosperidade continua
crescendo.
Mas a
ideia de que o reacionarismo religioso se concentra, essencialmente, na parcela
mais pobre do povo não corresponde à realidade. Lula mantém um apoio
majoritário entre a população que ganha até dois salários-mínimos, não só na
região Nordeste. Há uma correlação entre baixa escolaridade e influência das
grandes igrejas evangélicas, mas não há causalidade entre pobreza e
bolsonarismo.
O
núcleo duro da força social e eleitoral da extrema direita repousa nos
remediados, assalariados ou “empreendedores”, não entre os despojados. Assim
que a renda permite as famílias de trabalhadores contratam trabalho doméstico,
matriculam os filhos em escolas privadas, compram planos de saúde para seus
pais, alugam por uma semana uma casa na praia para férias, compram automóveis e
por aí vai: imitam o padrão de consumo da classe média proprietária ou de alta
escolaridade em funções executivas.
Não
assimilam somente um estilo de vida, mas as ideias de uma visão de mundo:
repudiam os impostos porque não usam a educação e saúde pública, odeiam o
Estado porque foram envenenados pela LavaJato de que tudo é corrupção, e
abraçam a perspectiva de que na vida social é o “cada um por si mesmo”. A
estagnação da mobilidade social e a pressão inflacionária nos serviços
empurraram uma parcela dos remediados para o bolsonarismo.
Mas,
infelizmente, é ainda mais complicado. A parcela dos remediados que apoia o
bolsonarismo tem ressentimento político contra a esquerda porque acredita que
são injustas as massivas transferências de renda para a pobreza extrema.
Abriu-se uma brecha entre remediados e muito pobres. A conclusão é que seria um
erro exagerar o legado do governo, porque a situação econômico-social não é tão
favorável. Desaprovação em empate técnico com aprovação indica que a defesa do
legado do mandato não será suficiente.
Fonte:
Por Valerio Arcary, em A Terra é Redonda

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