sábado, 8 de agosto de 2026

O Rio nunca prendeu tanta gente de terno e gravata

Nos últimos meses, a Polícia Federal prendeu ou colocou na mira de inquéritos um desembargador federal, um delegado da própria corporação, o presidente da Assembleia Legislativa, um deputado estadual, um ex-secretário estadual, um ex-secretário de Polícia Civil, um ex-prefeito da Baixada Fluminense que se preparava para disputar o Senado, além de bicheiros, um pastor, empresários e policiais militares.

Quem acompanha segurança pública no Rio sabe que essa lista é uma raridade.

O ciclo conhecido, e que costuma ser a regra, era uma operação policial de madrugada, troca de tiros, escola fechada, foto dos fuzis sobre a mesa, entrevista do secretário e, poucos dias depois, a mesma esquina funcionando normalmente com outro gerente.

Ninguém precisava explicar quem tinha despachado aquelas armas do Paraguai, quem lavava o dinheiro daquele ponto de venda de drogas ou quem avisava, de dentro do estado, que a viatura estava subindo.

Em abril de 2025, ao julgar a ADPF 635, que ficou conhecida como ADPF das Favelas, o Supremo Tribunal Federal mexeu nessa engrenagem por um caminho que quase ninguém previu.

Além de tratar das regras para operações policiais, a decisão determinou que a Polícia Federal abrisse um inquérito permanente para mapear as organizações criminosas que atuam no estado, respondendo às perguntas que a política de segurança fluminense nunca teve interesse em responder: quem manda, quem financia, quem protege e por onde circula o dinheiro.

O tribunal também determinou prioridade máxima ao compartilhamento de informações do Coaf, da Receita Federal e da Fazenda estadual, o que significa, em bom português, que o alvo deixou de ser o rapaz armado na laje e passou a ser a contabilidade, o que mantém a engrenagem funcionando.

Efeito dominó

A Operação Zargun foi atrás de lideranças do Comando Vermelho e de suas conexões dentro do estado. Segundo a Polícia Federal, o esquema  ia do vazamento de informações sigilosas à importação de armas do Paraguai e de equipamentos da China. Caíram um delegado da PF, policiais militares, um ex-secretário estadual e o deputado estadual TH Joias.

Depois veio a Operação Unha e Carne, que nasceu de uma pergunta que deveria ser óbvia: quem avisou os investigados que a Zargun estava a caminho?

A resposta foi Rodrigo Bacellar, então presidente da Alerj, preso pelos vazamentos. Quando o celular dele chegou às mãos da Polícia Federal, abriu-se uma avenida. Foi por ali que caiu o desembargador federal Macário Júdice Neto, apontado como informante de Bacellar e que era o relator original do caso Zargun no Tribunal Regional Federal da 2ª Região (sim, o mesmo caso).

A investigação seguiu e desembocou na máfia dos cigarros, com a prisão do bicheiro Adilsinho e do pastor Márcio Poncio, pai da influenciadora e deputada estadual Sarah Poncio.

Em março, a mesma força-tarefa deflagrou a Operação Anomalia e foi atrás do núcleo policial do esquema, prendendo outro delegado federal, Fabrízio Romano, que segundo a investigação agiu para beneficiar um traficante internacional.

A segunda etapa mirou uma delegacia inteira, a 44ª, no bairro  Inhaúma, onde caíram o delegado titular, o irmão dele, que era comissário, e um agente.

Mapa da investigação

<><> Uma decisão do STF, cinco operações, uma engrenagem só

Em abril de 2025, ao julgar a ADPF 635, o Supremo determinou que a Polícia Federal abrisse um inquérito permanente sobre o crime organizado no Rio e deu prioridade máxima aos dados do Coaf, da Receita Federal e da Fazenda estadual. O que veio depois foi uma cadeia de operações que parecem separadas no noticiário e não são. Cada nome abaixo caiu por causa do anterior.

<><> ADPF 635 · ADPF das Favelas

O STF homologou parcialmente o plano de redução da letalidade policial do Rio e determinou o que ninguém previu: um inquérito permanente da Polícia Federal sobre organizações criminosas com repercussão interestadual e internacional, com ênfase em milícias, tráfico de armas e lavagem de dinheiro.

Ação ajuizada pelo PSB em 2019Decisão unânimeCoaf, Receita e Fazenda com prioridade máxima

<><> Operação Zargun

Primeira ação grande do novo desenho. A PF foi atrás do braço político e financeiro do Comando Vermelho no Complexo do Alemão, em conjunto com MPF, MPRJ e Polícia Civil.

18 prisões preventivas

22 buscas

R$ 40 milhões sequestrados e

15 presos no balanço final

# TH Joias - Deputado estadual (Thiego Raimundo dos Santos Silva) Preso

# Gustavo Stteel - Delegado da Polícia Federal Preso

Alessandro Carracena - Ex-secretário estadual de Esportes Preso

# Índio do Lixão - Tesoureiro do Comando Vermelho (Gabriel Dias de Oliveira) Preso

& Policiais militares - Sem identificação individual no material público Presos

>>>> A operação vazou. Quem avisou os alvos da Zargun?

<< Dezembro de 2025

<><> Operação Unha e Carne

1ª fase

A pergunta sobre o vazamento abriu uma investigação própria e chegou ao topo do Legislativo fluminense.

Prisão autorizada pelo STF

# Rodrigo Bacellar - Então presidente da Alerj Preso solto pela Alerj preso de novo

>>> O celular de Bacellar mostrou de onde vinha a informação sigilosa.

<< 16 de dezembro de 2025

<><> Operação Unha e Carne

2ª fase

A investigação sobre o vazamento subiu do Legislativo para o Judiciário e alcançou o próprio relator do caso Zargun.

10 buscas no Rio e no Espírito Santo

Relatoria transferida no TRF-2

PGR denunciou em março de 2026

# Macário Ramos Júdice Neto - Desembargador do TRF-2, relator do caso Zargun Preso e afastado

>>> A mesma força-tarefa passa a mapear a rede de proteção dentro das polícias.

<< 9 de março de 2026

<><> Operação Anomalia

Desdobramento da Zargun voltado ao núcleo policial do esquema, dentro da força-tarefa Missão Redentor II.

4 prisões preventivas na 1ª etapa

2ª etapa mirou a 44ª DP, em Inhaúma

# Fabrízio Romano - Delegado da Polícia Federal Preso

Policiais civis da 44ª DP - Um delegado, um comissário e um agente Presos

>>> Com o Coaf e a Receita no circuito, a investigação vai atrás do dinheiro.

<< 15 de maio de 2026

<><> Operação Sem Refino

Sonegação bilionária, ocultação de patrimônio e envio de recursos ao exterior em um conglomerado do setor de combustíveis. A ação corre no âmbito da ADPF 635.

R$ 52 bilhões em ativos bloqueados

17 buscas

7 afastamentos de função pública

# Cláudio Castro - Ex-governador do Rio de Janeiro Busca e apreensão

# Ricardo Magro Dono da Refit, a antiga Refinaria de Manguinhos Prisão preventiva e difusão vermelha

>>> Listas apreendidas com o bicheiro Adilsinho registram pagamentos e doações eleitorais.

<< 2 de julho de 2026

Operação Unha e Carne

5ª fase

A investigação alcança a lavagem de dinheiro da nova cúpula do jogo do bicho e da chamada Máfia do Cigarro, e suas ramificações no Executivo e no Legislativo estaduais.

3 prisões

14 buscas

Até R$ 22 milhões bloqueados

# Adilsinho Contraventor (Adilson Oliveira Coutinho Filho) Preso

# Márcio Poncio Pastor e empresário Preso

# Marco Antônio Cabral - Ex-deputado federal, filho de Sérgio Cabral Busca e apreensão

>>> Do bicho e do cigarro para o combustível: o Coaf mapeia R$ 7,6 bilhões.

<< 7 de julho de 2026

<><> Operação Unha e Carne

6ª fase

Uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio usada, segundo a PF, para dar aparência de legalidade a dinheiro de origem ilícita, com participação de agentes públicos.

R$ 7,6 bilhões em seis anos, segundo o Coaf

19 buscas em cinco cidades

Empresas com atividade suspensa

# Márcio Canella - Ex-prefeito de Belford Roxo, presidente estadual do União Brasil, pré-candidato ao Senado Preso em flagrante com fuzil

# Marcus Vinícius Amim - Delegado, ex-secretário estadual de Polícia Civi lBusca e apreensão, bens sequestrados

# Juracy Alves Prudêncio, o Jura Ex-policial militar Alvo da operação

- Braço armado: facções e milícias

- Braço econômico: combustíveis, cigarro, bicho, lavagem

- Braço institucional: agentes públicos e políticos

>>> Situação processual: todos os citados são investigados ou réus. Ninguém foi condenado nos casos listados. As defesas negam as acusações; onde houve manifestação pública, ela está registrada no cartão.

>>> Fontes: Polícia Federal, Supremo Tribunal Federal, Ministério Público Federal, Agência Brasil, Correio Braziliense, Metrópoles, Congresso em Foco, Diário do Rio e InfoMoney. Levantamento e checagem: Cecília Olliveira. Atualizado em 3 de agosto de 2026.

<><> Revolução

A fase mais recente foi deflagrada no início de julho, depois de um relatório do Coaf apontar R$ 7,6 bilhões em movimentações suspeitas de lavagem de dinheiro por meio de uma rede de postos de combustíveis.

Entre os alvos estavam Márcio Canella, do União Brasil, ex-prefeito de Belford Roxo, ex-deputado estadual e que deve concorrer como deputado estadual nestas eleições, e o delegado Marcus Amim, ex-secretário de Polícia Civil de Cláudio Castro.

Seis semanas antes de ser preso com um fuzil na porta de casa, Canella era aplaudido na aula inaugural de um MBA em Segurança Pública promovido pela Fundação Índigo, ligada ao  partido União Brasil, em parceria com a Fundação Getulio Vargas. Difícil imaginar aula mais bem informada.

Há ainda a Operação Sem Refino, voltada a quem estaria lucrando com os esquemas; entre os investigados aparecem o ex-governador Cláudio Castro e Ricardo Magro, dono da Refit, antiga Refinaria de Manguinhos.

Chamo isso de revolução com alguma consciência do peso da palavra. É a primeira vez em muito tempo que as investigações alcançam as  engrenagens que sustentam o crime organizado no estado.

A primeira é o braço armado, o das facções e milícias, a única que costuma aparecer no noticiário.

A segunda é o braço econômico, que passa pelo posto onde você abastece o carro, pelo cigarro vendido no bar da esquina, pelo botijão de gás entregue na porta de casa e pelo ponto de bicho que funciona há trinta anos ao lado da padaria.

A terceira, mais difícil de investigar, é o braço institucional que envolve agentes públicos, autoridades e políticos que, segundo as investigações, garantiriam proteção, acesso privilegiado a informações e influência dentro dos órgãos que deveriam enfrentá-los.

<><> O problema ainda não está resolvido

O debate público insiste em tratar essas dimensões como assuntos separados. Facção é caso de polícia, corrupção é caso de política, lavagem é caso de banco e milícia é caso de eleição.

A ironia é que essa mudança de método nasceu justamente da decisão mais atacada por políticos como Flávio Bolsonaro, Cláudio Castro, ambos do PL, e Eduardo Paes, do PSD. Eles  criticaram a ADPF das Favelas e, durante anos, repetiram que o Supremo estava “interferindo” indevidamente na segurança pública do estado.

Nada disso significa que o problema esteja resolvido. Boa parte desses casos vai levar anos para chegar a um tribunal e pode terminar em nada, a depender de quem estiver no poder nos próximos anos e de quanta pressão as instituições estiverem dispostas a suportar. Já vi investigação promissora morrer por muito menos.

Vale insistir em onde isso começou, porque essa parte tende a desaparecer da história assim que aparece um delegado dando entrevista.

A ADPF das Favelas nasceu no contexto da pandemia, em 2020, graças  à mobilização de mães, familiares e moradores de favelas que perderam filhos, irmãos e parentes para a violência do crime organizado e para as operações policiais.

Gente que enterrou o próprio filho morto pela polícia, ouviu do estado a versão de que ele era traficante, juntou laudo, fotografia, testemunha e advogado, e decidiu mudar a regra em vez de esperar que ela fosse cumprida.

Toda vez que você ligar a televisão e vir uma investigação de verdade contra facções e milícias no Rio, vale lembrar quem abriu essa porta. E fica a pergunta para quem passou cinco anos dizendo que o Supremo não deveria se meter na segurança pública do Rio: e se ninguém tivesse se metido?

 

Fonte: Por Cecília Oliveira, em The Intercept

 

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