Da
ostentação à dívida: a nova conversa dos jovens nas redes
Aos 23
anos, a empreendedora Camila Cordeiro acumulava uma dívida de mais de R$ 100
mil depois de um negócio que não deu certo. Em vez de manter o problema em
segredo, ela decidiu documentar nas redes sociais o processo de reorganizar as
finanças e voltar a ter o nome limpo.
"Eu
estou um pouco receosa de fazer esse vídeo e começar a postar a minha jornada
para pagar essas dívidas porque sei que tem família e amigos que vão ver, gente
que me conhece, mas é sobre isso. Eu comprei uma franquia, mas eu
quebrei", explica ela em um vídeo publicado no Tiktok que soma mais de 1,5
milhão de visualizações.
Nos
comentários, outros usuários relatam situações semelhantes ou de endividamento
ainda maior.
O
relato de Cordeiro é parte de um movimento mais amplo: depois de anos
associadas à ostentação financeira, redes como TikTok e Instagram vêm sendo
usadas por jovens para expor o oposto — estratégias de economia, relatos de
dívidas e o esforço para conquistar objetivos como a casa própria.
O
fenômeno não é exclusivo do Brasil: em vários países, movimentos semelhantes
ganham força, como a trend debt payoff journey ("jornada de quitação de
dívidas").
<><>
O que é o "loud budgeting"
Esse
compartilhamento de vulnerabilidades econômicas e metas financeiras ganhou até
um nome no meio acadêmico: loud budgeting, ou "orçamento em voz
alta". A tendência incentiva as pessoas a declararem abertamente seus
limites de gastos e suas prioridades financeiras seja nas redes sociais ou fora
delas.
David
Spohn, professor da Lynn University, nos Estados Unidos, e pesquisador do tema,
observa que os jovens de hoje rejeitam o consumo de luxo como aspiração e
comunicam abertamente suas restrições em relação ao dinheiro para evitar
pressões sociais. Em vez de sentir vergonha por não poder gastar ou ir a algum
lugar, ele diz que essa geração trata a limitação financeira como algo natural:
algo que simplesmente não está (ou não cabe) no orçamento.
"Muita
gente vê as redes sociais como o centro da questão, mas, nesse contexto
específico, elas não são o foco. O que importa é que a Geração Z as usa para
obter informação e tomar decisões mais acertadas", afirma Spohn.
Pesquisas
de que participou apontam que metade da educação financeira dos entrevistados
vinha da escola, e a outra metade, da família. Quando a família não aborda o
tema, Spohn diz que a Geração Z busca preencher essa lacuna na internet, onde
assuntos como salários, dívidas, desigualdade de gênero e investimentos são
discutidos abertamente.
<><>
A realidade financeira dos jovens
Para o
professor, isso também reflete o cenário econômico herdado pelos mais jovens:
"O mundo está muito caro. Para sobreviver e ganhar dinheiro, eles passaram
a se envolver nessa conversa entre si e com qualquer pessoa disposta a
conversar, de outras gerações inclusive, para aprender a navegar por essas
águas turbulentas".
É o que
também aponta a planejadora financeira Priscilla Mundim. Para ela, no país, a
migração da ostentação digital para conteúdos mais autênticos é motivada,
sobretudo, pelo cenário de endividamento das famílias brasileiras.
"A
superexposição, o luxo, carro, casas, viagens, não têm combinado com o padrão
de vida do brasileiro. Estamos no momento de maior endividamento de toda a
história, e isso é um fator real dentro das famílias. Mesmo quem está em dia
com todos os contratos tem um comprometimento elevado do orçamento mensal. Por
isso, aquele consumismo hoje gera menos identificação entre os jovens",
afirma Mundim.
"Quando
encontramos vozes reais e genuínas, a conexão e a empatia com quem está do
outro lado com certeza vai ser maior e isso acaba aproximando as pessoas",
acrescenta a planejadora.
<><>
Uma geração com menos perspectiva de ascensão social
Enquanto
os jovens usam as redes para desabafar sobre a própria situação financeira,
pesquisas apontam o peso da crise do custo de vida sobre as gerações mais novas
— e a percepção de que dificilmente atingirão o mesmo patamar social dos pais,
seja na compra da casa própria, do carro ou em outras conquistas.
Um
levantamento da consultoria Deloitte com mais de 22 mil pessoas da geração Z e
da geração millennial em 44 países mostrou que o custo de vida é a principal
preocupação de ambos os grupos, à frente de temas como criminalidade,
desempregoe geopolítica. Segundo a mesma pesquisa, 51% da geração Z e 40% dos
millennials afirmam não ter condições financeiras de comprar um imóvel.
Um
estudo de 2026 do Núcleo de Estudos Raciais do Insper, conduzido pelos
pesquisadores Daniel Duque, Michael França e Fillipi Nascimento, comparou as
condições econômicas e sociais da geração X (nascidos entre 1965 e 1980) e da
geração millennial (1981–1996) aos 30 anos de idade. O levantamento mostrou que
a geração millennial chega à vida adulta com renda maior e mais acesso à
educação do que a geração anterior teve na mesma idade, mas esse avanço não se
traduziu em melhoria real nas condições de vida. Os autores chamam esse
fenômeno de ausência de "mobilidade intergeracional plena", indicador
que mede a probabilidade de os filhos superarem a renda real dos pais.
<><>
O fim do tabu sobre o "fracasso financeiro"?
Para a
parcela dos jovens que escolhem compartilhar os relatos, mostrar
vulnerabilidades financeiras virou uma forma de trocar o sentimento de culpa
pelo endividamento por um caminho para a resolução e até para encontrar jovens
em situações similares. A ideia é mostrar "a vida real", que inclui
contratempos financeiros, e não mais a ideia de ostentação ou vida inatingível.
"Cheguei
a dever para agiota, bancos, tudo que vocês imaginarem. Juntando tudo, dava
mais de R$ 150 mil. Hoje eu não devo isso tudo, mas ainda devo uma quantidade
grande", diz outro vídeo do Tiktok de uma usuária chamada Jardielly.
Dados
do Mapa da Inadimplência da Serasa referentes a maio deste ano mostram que dos
83,5 milhões de brasileiros inadimplentes, 11% tinham entre 18 e 25 anos.
Embora
o percentual de jovens inadimplentes nessa faixa etária tenha oscilado pouco, o
valor médio das dívidas desse grupo aumentou de R$ 2 mil em maio de 2020 para
R$ 3,6 mil em maio de 2026, segundo a Serasa.
<><>
Riscos e benefícios de expor as finanças nas redes
Uma
pesquisa do Santander no Reino Unido com 2 mil jovens de 18 a 21 anos mostrou
que quase um terço deles (31%) recorre a influenciadores digitais em busca de
orientação financeira. Embora a conversa sobre dinheiro tenha migrado das
famílias para as plataformas digitais — e se ampliado para temas como
endividamento e planejamento orçamentário —, especialistas alertam para os
riscos de se informar sobre o tema nas redes sociais.
"Uma
das coisas que me preocupa como educador é: você está seguindo o conselho
correto? Algumas dessas postagens ou personalidades das redes sociais não
precisam necessariamente seguir restrições porque não estão atuando como
conselheiros pessoais de ninguém. Portanto, há muita informação disponível que
pode ser correta para algumas pessoas, mas não para todas", diz o
professor.
Para a
planejadora financeira, esse tipo de exposição tem dois efeitos. O primeiro é
positivo: ajuda o público a perceber que dificuldades financeiras são um
problema real. O segundo é o risco de normalizar o endividamento ou usá-lo como
justificativa para negligenciar as próprias finanças. "Já que todo mundo
está nessa situação, eu também posso estar e não vou me preocupar, porque o
problema é do mundo. Aí a pessoa passa a jogar a responsabilidade para todos os
lados e não assume a própria responsabilidade", explica.
Mundim
também chama atenção ainda para o risco de comparações com realidades
incompatíveis, já que cada pessoa tem uma situação financeira distinta, e
qualquer plano para sair das dívidas ou atingir metas precisa ser
individualizado.
Por
outro lado, ela destaca um benefício comportamental: assumir um compromisso
público — não necessariamente na internet, mas também com um amigo, um
planejador financeiro ou um terapeuta — tende a aumentar o engajamento da
pessoa com seu próprio plano financeiro, segundo estudos das finanças
comportamentais.
O
contraponto é a exposição excessiva, que pode incluir a divulgação de dados
privados sensíveis e sujeitar o criador de conteúdo ao julgamento público —
incluindo o chamado "cancelamento" nas redes sociais.
Fonte:
DW Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário