O
homoerotismo grego
Os
gregos antigos da época clássica eram homoeróticos? Estamos acostumados a
responder positivamente a essa pergunta. A razão é bem simples: a pederastia
não era um mero costume na Grécia antiga, mas uma instituição. Foi a maneira
que os gregos encontraram de criar um elo seguro entre a infância e a idade
adulta masculinas, que, como sabemos, é mediada pela adolescência, um período
da vida que demanda rituais de passagem.
Todas
as sociedades que viram seus rituais de passagem deteriorados, passaram a ter
dificuldades com a sua juventude. Algumas sociedades comprometeram seus futuros
ao perderem seus rituais, em especial os de articulação entre gerações.
A nossa
sociedade moderna tem uma dificuldade nítida com os chamados “jovens”. A
adolescência preocupa a todos. Os gregos antigos tiveram menos problemas que
nós com “os jovens”. O deus Eros os salvou.
Os
gregos se aproveitaram de seu interesse estético – ao mesmo tempo erótico, pois
Eros não aprecia o que não é belo – para estabelecer padrões de comportamento
úteis para se lidar com aquela fase da vida que nós, adultos modernos, ficamos
descabelados com os filhos.
Se uma
sociedade de guerreiros, e assim, com valores masculinos exacerbados – em
especial a honra, a coragem e a força – os homens tinham muitos olhos para os
garotos bonitos, por que não aproveitar esse interesse? Por que não usar dessa
atração dos mais velhos pelos mais jovens como uma maneira de estabelecer laços
entre gerações? A Grécia clássica não deixou passar essa oportunidade que lhe
foi dada no desdobramento de sua civilização.
Foi
assim que a pederastia se fez corriqueira. Nela imperavam as relações entre o
amante (erastes) e o amado (eromeno). Quem eram?
O
erastes era o mais velho que se interessava pelo eromeno, o mais jovem. Esse
interesse era sempre erótico, e podia ou não implicar em carícias físicas, como
beijos e toques. Isso podia ou não evoluir para relações sexuais que envolviam
penetração e gozo. O importante dessa relação é que o mais velho se via na
tarefa de impressionar com bons exemplos de vida o mais jovem e, assim, ter
condições de lhe fazer a corte, com autorização da família do menino.
As
famílias cuidavam para que os jovens não se fizessem de oferecidos. Mas essas
mesmas famílias sabiam que não podiam manter esses garotos em casa, sob a regra
dos pais. Então, a companhia de um adulto mais velho, em geral solteiro, seria
a garantia de bom encaminhamento daquele que logo estaria indo para o exército
para, só depois, voltar à condição de cidadão.
A
pederastia era, antes de tudo, um modo de não deixar os garotos se
prostituírem, e muito menos se tornarem desleixados em suas tarefas no ginásio
e na sua preparação para a cidadania. A exibição dos garotos no ginásio era
algo bem vindo para os mais velhos, que apreciavam os corpos dos meninos. Isso
motivava os adolescentes, que sentiam que a competição os destacava diante dos
olhos dos adultos, ou seja, da sociedade em geral.
Tudo
que eu disse até aqui é o comum do que ensinamos na universidade atualmente
sobre a vida na Grécia antiga. Todavia, às vezes, aqui e ali, surgem dúvidas
sobre a tranquilidade da prática da pederastia. Não havia alguma oposição à
pederastia?
Por
esses dias, recebi uma questão de um amigo sobre uma nota de rodapé referente à
fala de Aristófanes, em O banquete de Platão. A fala de Aristófanes nesse livro
nunca me pareceu desmerecedora em relação à atividade sexual entre homens. Mas
o tradutor José Cavalcante de Souza escreveu: “Aqui a sátira mordaz aos
homossexuais completa-se com sua identificação com os políticos”. O amigo que
me mandou a observação fez, segundo minha leitura, a correta afirmação: não há
nenhuma “sátira mordaz” sobre homossexuais nesse trecho. Talvez até o contrário
seja verdadeiro.
O que
parece que ocorreu é que José Cavalcante de Souza buscou dar mais informações
para o leitor que o necessário. Por dever de ofício, Aristófanes tratou,
obviamente em suas comédias, de personagens, inclusive homossexuais, utilizando
elementos jocosos. Por conta própria, José Cavalcante de Souza tirou daí
inferências pouco legítimas: em todo e qualquer lugar que houvesse um escrito
de Aristófanes contendo atividades homoeróticas, haveria, então, alguma forma
satírica ou coisa parecida.
Creio
que essa questão repõe a dúvida inicial. Até que ponto os gregos antigos da
época clássica aceitaram ou não o homoerotismo? Uma das melhores chaves
interpretativas que conheço a respeito dessa questão está em um parágrafo do
afamado livro de J. K. Dove, A homossexualidade na Grécia Antiga: “O leitor que
passa de Platão para a comédia fica chocado não só pela redução do eros
homossexual aos termos fisicos mais grosseiros, mas também pelo seu
deslocamento do centro para a periferia da vida sexual ateniense, já que a
comédia é fundamentalmente heterossexual”.
Esse
leitor apontado por J. K.Dover é, afinal, qualquer um de nós, os escolarizados
de hoje em dia. Em geral não temos uma educação de colégio, e de certo modo nem
mesmo na universidade, que faça a comparação do que há nas comédias e o que há
na filosofia. Tomamos como mundos separados. Assim eles foram, de fato, mas não
deveriam ser assim para nós, quando queremos compreender os gregos antigos.
Devemos lê-los segundo suas especificidades, mas certamente em comparação.
A
leitura que proponho não foge às tese de J. K. Dover.
Para
Platão e, enfim, para as classes ociosas, todo o tempo do mundo para fazer
filosofia também era o tempo para exercer as formas de amor sem os vínculos
familiares que, no mundo trabalho, implicavam em uma família como unidade
produtiva. Uma família como unidade produtiva põe saídas da mulher do âmbito da
casa. Ela vende utensílios na feira, vai buscar água etc.
As
mulheres dos trabalhadores eram, portanto, menos sujeitas ao rigor da
subalternidade, postas de modo mais rígido para outras mulheres. Mas, em
compensação, as formas de amor visavam desde cedo a reprodução desse tipo de
família, dando menos chance às aventuras eróticas, à filosofia e, claro, à
política.
Desse
modo, o amor vinculado à pederastia era mais próprio dos jovens filhos de
nobres, e de cidadãos já com alguma posse. Em toda a filosofia de Platão, o
amor se põe como as obras do deus Eros. Não se trata de um mero sentimento das
pessoas. Muito menos algo que se aproxima de qualquer dever ligado ao mundo do
trabalho.
Longe
de Platão e da filosofia, a comédia carrega outro objetivo e outro público. Ela
não fala do amor. Ela fala das desventuras, e é feita para os setores
populares. Os personagens usam de um vocabulário menos rebuscado, mais ligado
às práticas corporais, segundo expressões, digamos, mais chulas. Também o
público é preenchido pelas classes que possuem menos refinamento cultural.
O
vocabulário utilizado por Aristófanes para esse público não era diferente do
utilizado pelos que assistiam suas peças. Esses setores eram menores em número
que os escravos, mas eram existentes e tinham peso na economia do mundo antigo.
Não eram poucas pessoas. Nem todo mundo era nobre na polis grega! Assim, todo o
tipo de mágoa que esse setor pudesse ter em relação aos mandatários, em geral
homens da elite e do ócio completo, apareciam nos textos das comédias. Era uma
pequena vingança. Como isso era feito?
Acusar
um político de fazer amor com outro homem não era uma forma de diminuí-lo. A
questão não estava no homoerotismo, nesse caso. A questão estava na forma do
coito. Aquele que penetra, o ativo, nunca é o objeto de riso, mas o penetrado
sim. Desse modo, se a comédia era feita para os setores populares, ela não
titubeava em dar aos seus expectadores a chance de se vingar dos mandatários,
mostrando-os como quem podia mandar na arrecadação de impostos, mas que, em
compensação, sofriam na arrecadação de esperma.
Nesse
último caso, os verdadeiros mandatários eram os que podiam submeter os
governantes. Era interessante nos palcos fazer alguém da elite ser um “passivo”
no ato sexual, exatamente para destituí-lo da arrogância ou simplesmente
tirá-lo da condição de mando.
Fazemos
isso hoje em dia. Talvez menos em relação à homossexualidade. Mas não
diminuímos nem um pouco nossa ênfase em relação às condições do marido traído.
Um prefeito homossexual ou um governador homossexual pode ser aceito entre nós.
Mas se ele é alguém que fala contra gays, então, quando se descobre que é gay,
é retratado logo como passivo, e sobre ele todo tipo de piada com demérito é
traçada.
Agora,
quanto ao marido traído, aí não há perdão, seja lá como for. Em todo caso, o
coito permanece como símbolo em que há o que manda e o que obedece, e isso é
aplicado ao homem que quer mandar, mas carece de legitimidade. Afinal, o coito
cria o coitado!
Podemos
assim entender que a questão da chacota na Grécia antiga não vinha de qualquer
problema em relação ao amor entre homens. O que era motivo de apreciação
humorística era a posição corporal. O coito é levado adiante pelo penetrador.
Ele comanda e, em geral, comanda aquele que socialmente e politicamente diz que
governa. Toda a linguagem colhida por J. K. Dover em seu livro dá exemplos
claros a respeito dessa tese que, enfim, ele defende, e que endossamos aqui.
O sexo
é um elemento do poder. A libido é vista como energia que garante vitórias.
Donald Trump é um ridículo procurando ampliar testosterona de seus soldados.[
Mas nenhum governante é ridículo se notar que a população de seu país depende
de libido para funcionar. O desejo deve estar a caminho de seu destino.
Enquanto o mundo grego compreendeu e sustentou essa sabedoria, ele se manteve
altivo. Quando o deus Eros passou a perder seu brilho, e o amor virou antes
sentimento e menos uma figura divina, a vida grega perdeu seu trunfo.
A
Grécia abriu as portas para se tornar sucessivamente parte de vários impérios.
Vieram os macedônios e depois os romanos. Quando Eros se transformou no romano
Cupido e se popularizou, assim o fez já despojado de seus antigos e fecundos
poderes.
Fonte:
Por Paulo Ghiraldelli, em A Terra é Redonda

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