Por
que o deus grego Kairós segue importante em momentos chave da vida moderna
"Agora
ou nunca." Poucas expressões resumem melhor uma experiência humana
universal: a sensação de que existe um instante preciso para agir e que, se o
deixarmos escapar, talvez não volte.
Muitas
vezes, só compreendemos a importância desses momentos quando eles já passaram.
E então
vêm os lamentos: "Se eu tivesse dito alguma coisa naquele momento!".
Ou as recriminações: "Quando vou aprender a não abrir a boca?". Mas
também as comemorações: "Ainda bem que tive coragem". Ou a satisfação
de descobrir, depois, que uma decisão tomada no último minuto foi mesmo a
correta.
Os
gregos antigos fizeram mais do que apenas perceber o valor desses sopros
fugazes: eles deram a isso uma palavra, kairós (καιρός), e criaram um conceito.
Ao
contrário de cronos (χρόνος), o tempo que avança, o do calendário e do relógio,
kairós era algo mais fugidio: a ocasião oportuna que se abre e se fecha, o
instante em que algo, uma palavra, uma decisão, uma ação, pode acontecer com
toda a sua força ou se perder para sempre.
Assim,
enquanto cronos expressava a concepção quantitativa do tempo, a duração, a
idade, a velocidade, observou o filósofo John E. Smith, da Universidade Yale,
kairós apontava para seu caráter qualitativo: a posição especial que um
acontecimento ocupa em uma sequência, o momento que marca uma oportunidade que
talvez não volte.
Em
essência, nem todo instante é igual: alguns têm peso, e esse peso não é medido
em horas.
Para o
mundo grego, esse peso era tão importante que merecia mais do que uma palavra.
Por isso, foi personificada em um deus.
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A imagem do instante oportuno
Kairós
era uma divindade menor do panteão grego, filho de Zeus segundo algumas fontes,
irmão do Destino segundo outras.
Além de
sua genealogia divina, vale a pena observar sua aparência, pois, quando se
tratava de imaginar seus deuses, os gregos deixavam pouco ao acaso: cada
detalhe tinha um significado.
Por
volta do século 4 a.C., o escultor Lisipo, um dos três grandes escultores da
Grécia clássica, criou uma estátua de Kairós que se tornou famosa.
A obra
em si se perdeu, mas permaneceu na memória graças a textos como os do poeta
Posídipo de Pela (c. 310-240 a.C.), que compôs um diálogo imaginário com a
estátua.
Por
meio dele sabemos que esse Kairós corria na ponta dos pés, pois estava sempre
em movimento, com asas nos pés, como se fosse levado pelo vento.
Na mão,
tinha uma navalha. Seu fio, segundo a interpretação mais difundida,
representava a natureza escorregadia do kairós: aquele instante crítico em que
uma ação pode mudar tudo. Um segundo antes pode ser cedo demais; um segundo
depois, tarde demais.
E há um
detalhe inesquecível: Kairós tinha cabelos longos e abundantes na parte da
frente, caindo sobre o rosto. Mas, na parte de trás, era completamente calvo.
O poeta
pergunta: "Por que seus cabelos caem para a frente?".
"Para
que quem me encontrar de frente possa me segurar", responde a estátua.
"Por
Zeus!", exclama o poeta, antes de perguntar: "E por que a parte de
trás da cabeça é calva?".
"Para
que ninguém, depois que eu tiver passado correndo com meus pés alados, possa me
agarrar por trás".
O fato
de ser calvo atrás não era um capricho estético, mas um aviso.
É
possível agarrar o momento oportuno quando ele vem em sua direção, quando ainda
está de frente. Depois que passa, não há como segurá-lo.
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A sabedoria de saber quando agir
Mais do
que adorar Kairós, os filósofos e oradores gregos se interessaram pelo kairós
como ideia, convencidos de que ele não dependia da magia nem da sorte, mas de
uma habilidade que podia ser cultivada.
Para
Isócrates, o célebre educador ateniense, a verdadeira cultura não consistia em
acumular conhecimento abstrato; ela residia na capacidade de se orientar em um
mundo onde nada se repete exatamente e não existem fórmulas infalíveis.
Embora
não estivesse falando explicitamente sobre o kairós, muitos estudiosos viram em
suas palavras uma das expressões mais claras do pensamento kairológico: a ideia
de que a sabedoria consiste, em grande medida, em saber interpretar as
circunstâncias.
Aristóteles,
em sua Retórica, transformou o kairós, o momento e o contexto em que um
argumento é apresentado, em um dos elementos essenciais da persuasão.
Você
pode ter toda a razão do mundo, mas, se expressá-la no momento errado, ela será
ignorada.
Na
tradição sofística, o kairós era ainda mais central.
Górgias
de Leontinos, um dos grandes mestres da retórica, compreendia a persuasão como
uma arte que exige captar, nos momentos oportunos, aquilo que é apropriado e
sugerir aquilo que é possível.
Ele e
vários outros pensadores ao longo da história compartilharam essa mesma
intuição: a importância de estar atento à ocasião.
Não é
por acaso que essa palavra tem uma história tão sugestiva. Ela vem do latim
occasio, nome da deusa romana que personificava a mesma ideia representada pelo
grego Kairós. Sua raiz remete a algo que se apresenta de repente. A ocasião não
era uma abstração, mas uma conjuntura favorável que surgia diante de alguém e
podia desaparecer com a mesma rapidez.
Por
isso, a deusa Occasio herdou a mesma iconografia de Kairós: a mecha de cabelo
sobre a testa e a nuca descoberta. Se você a deixasse passar, já não haveria
por onde segurá-la.
Isso
até gerou ditados em algumas línguas, como o italiano, que são falados até
hoje: "L'occasione va presa por il ciuffo" ("É preciso agarrar a
oportunidade pelo topete") ou "La fortuna è calva" ("A
fortuna é careca."). Em português, essas expressões têm um sentido
parecido com "Cavalo encilhado não passa duas vezes".
Talvez,
mais de dois mil anos depois, continuamos enfrentando o mesmo desafio:
reconhecer o momento certo antes que seja tarde demais.
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Tempo
Vivemos
na era de cronos por excelência. Temos calendários sincronizados em vários
dispositivos, notificações que nos avisam quando devemos sair de casa,
aplicativos que transformam as horas em blocos de cores.
Somos,
em termos quantitativos, os seres mais conscientes do tempo que já existiram na
história da humanidade.
E, no
entanto, ou talvez precisamente por isso, às vezes somos tomados por uma
estranha sensação de ter deixado passar coisas importantes.
Talvez
o problema não seja tanto a falta de tempo cronológico, mas o fato de que, ao
nos preocuparmos tanto em administrar o tempo quantitativo, às vezes nos
tornamos menos sensíveis ao tempo qualitativo.
Sem
perceber, podemos estar tão atentos ao próximo item da lista que não notamos
que o que está acontecendo neste exato momento é algo que não vai se repetir.
Estamos tão ocupados olhando para o relógio que deixamos de interpretar a
situação — e o kairós passa diante de nós.
Você se
lembra de alguma conversa que adiou até que deixasse de fazer sentido tê-la? Ou
talvez se arrependa de uma oportunidade de trabalho que deixou passar. Talvez
alguma vez tenha querido dizer a alguém "obrigado",
"desculpe", "eu te amo" ou "sinto sua falta", e o
momento foi passando, até se tornar impossível.
Mas
talvez também, em alguma ocasião, você o tenha agarrado: contrariando seu
instinto de permanecer em silêncio, disse o que pensava, e algo mudou. Ou, ao
contrário, em vez de falar, ouviu alguém e aliviou sua dor. De repente, fez
algo sem muita vontade, mas impulsionado pelo "agora ou nunca", e
aquilo acabou sendo exatamente o que você precisava.
Isso é
kairós: não uma teoria sobre o tempo, mas algo que você já conhece por
experiência própria e que pode aproveitar. Algo fugaz trazido por um deus ou,
se preferir, por uma deusa, com cabelo na frente, mas não atrás.
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No limiar
Kairós
não exige que você faça menos coisas. Ele pede que esteja presente quando as
faz.
Não se
trata de ficar ansioso e tentar transformar cada segundo em uma oportunidade
épica. Isso seria distorcer o conceito — e, além disso, seria exaustivo.
Os
gregos não pregavam uma urgência permanente: estavam descrevendo uma textura do
tempo que inclui tanto os longos períodos do cronos comum quanto os instantes
de kairós que o pontuam.
Isócrates
não dizia que seus alunos deveriam criar os momentos oportunos. Dizia que
deveriam reconhecê-los quando surgissem.
E
reconhecê-los é, em parte, uma questão de atenção: uma escuta um pouco mais
apurada, uma presença um pouco mais completa, que permite perceber, por
exemplo, quando uma pessoa querida precisa ouvir "Vamos, eu sei que você
consegue sozinho!" e quando precisa ouvir "Não se preocupe, eu ajudo
você".
Também
não significa viver esperando que as condições sejam perfeitas porque,
paradoxalmente, essa seria outra forma de perder o momento. A arte está em
reconhecer quando algo está pronto para ser dito, feito, iniciado ou concluído.
Na
última estrofe do poema de Posídipo de Pela, a que encerra o diálogo com a
estátua de Kairós, o interlocutor pergunta para quem ela foi criada.
A
resposta é: "Para você, viajante. Para você fui feito. Aqui, no limiar,
sou um ensinamento".
Um
ensinamento no limiar. Não no templo, não na praça pública, mas no limiar: esse
lugar entre o dentro e o fora, entre o que está por vir e o que já passou.
É
difícil imaginar um lugar mais adequado para Kairós.
Fonte:
BBC News Mundo

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