Brasil
em crise com EUA e Argentina: os ônus e bônus eleitorais para Flávio Bolsonaro
e Lula
A dois
meses da eleição de outubro, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
(PT) enfrenta duas frentes de crise diplomática que podem atrapalhar o petista
no objetivo de avançar sobre eleitores indecisos, segundo analistas ouvidos
pela BBC News Brasil.
De um
lado, está mais um capítulo da crise com os Estados Unidos de Donald Trump, que
revogou o visto da embaixadora do Brasil no país; do outro, menos influente,
está a piora na relação com a Argentina de Javier Milei, que tem feito críticas
ao presidente brasileiro, levando o Itamaraty a rebaixar o nível das relações
diplomáticas com Buenos Aires.
Para o
cientista político Hilton Fernandes, do Laboratório de Opinião Pública e Mídias
Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), ao
criar uma série de situações negativas na relação Brasil-EUA, seja com as
tarifas, a classificação de organizações criminosas como terroristas e, agora,
com a retirada do visto da embaixadora, Trump provoca um peso sobre o governo
Lula.
"O
governo terá de se defender e, como consequência, pode alimentar o discurso da
oposição de ser um governo radical, antiamericano, comunista", avalia.
A
também cientista política Mayra Goulart, coordenadora do Laboratório de
Partidos, Eleições e Política Comparada da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ), ressalta, porém, que a proximidade das novas crises ao período
de campanha, que tem início em 16 de agosto, oferece menos possibilidades de se
conquistar o pequeno grupo de eleitores que flutuam entre os dois candidatos.
"A
proximidade de qualquer crise que ocorra perto das eleições não aumenta a
magnitude do seu efeito sobre os votos, na medida em que a maioria já está
decidida. Mas ela aumenta sua decisividade, pois sobra menos tempo para
reversão do pequeno grupo de eleitores voláteis", avalia Goulart.
Segundo
a última pesquisa Nexus/BTG, divulgada nesta semana, entre os eleitores de
Lula, 83% dizem ter o voto definido; entre os de Flávio Bolsonaro, 80%.
A
pesquisadora ressalta que as rusgas internacionais "não convertem
ninguém" nesse grupo, já decidido com Lula ou Flávio. Mas elas podem
aparecer com força na propaganda eleitoral a partir de 16 de agosto, tendo
algum papel nos poucos votos em disputa.
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'Soberania' ainda cola?
Segundo
os analistas, o momento dessa crise é diferente de outras envolvendo
especialmente os EUA. Em 2025, no primeiro tarifaço de Trump, a esquerda e Lula
tentaram uma união em torno da bandeira da "soberania nacional". Nas
pesquisas que se seguiram, o governo melhorou sua avaliação.
Mas
Goulart explica que o discurso de "soberania" não mudou o fato de que
o país seguiu polarizado sobre tema tarifaço, que voltou à tona em junho com
uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.
De
acordo com a última pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, de agosto, 49,2% dos
eleitores não veem ameaça à soberania na tarifas, 47,7% veem.
Também
segundo a última pesquisa da Genial/Quaest, divulgada nesta quarta-feira (5/8),
diminuiu o número de brasileiros que consideram a resposta de Lula à guerra
comercial de Trump positiva.
Em
maio, 39% avaliavam bem a resposta do governo petista à ação de Trump; agora,
em agosto, foi para 38%, dentro da margem de erro. Entre os que avaliam mal a
resposta do presidente, o índice saiu de 36% em maio para 43% agora. Ou seja, o
saldo era positivo de +3 para o governo, mas passou para o negativo de -5
pontos percentuais.
A
professora avalia que o discurso de soberania acabou, como tantos outros,
polarizado, com pouco efeito sobre eleitores que não se enxergam fiéis a um dos
lados. Porém, diz Goulart, há alguma chance de o governo surfar no conflito
envolvendo a retirada do visto embaixadora brasileira nos EUA, Maria Luiza
Ribeiro Viotti, na terça-feira (4/8)
Como o
caso não envolve uma repercussão econômica, pode se sobressair a ideia de
"humilhação simbólica do Estado".
"Para
disputar o pouco de voto que ainda está em jogo, o canal produtivo hoje é o da
dignidade diplomática, não o comercial", diz.
A
medida contra Viotti, segundo apurou a BBC, foi um retaliação pelo fato de o
governo brasileiro ainda não ter aprovado a indicação do nome do deputado
estadual da Flórida Daniel Perez ao cargo de embaixador no Brasil, solicitada
em junho.
Integrante
do Partido Republicano, ele é aliado de Trump e, no ano passado, chegou a ser
citado como possível candidato ao cargo de procurador-geral do estado.
O
Itamaraty disse que Washington rompeu a praxe diplomática ao anunciar o
indicado publicamente para a embaixada em Brasília antes de solicitar
formalmente o chamado agrément entre os países e disse não haver prazo para a
aprovação do nome de Perez.
O
governo também acusou os EUA de adotar medidas hostis contra o Brasil e de
tentar interferir nas eleições do país.
Além de
adiar a aprovação de Perez, o Itamaraty recusou, no mês passado, pedidos de
visto de Riley Barnes e Samuel Samson, funcionários do Departamento de Estado
dos Estados Unidos, após o jornal The Washington Post ter publicado uma
reportagem afirmando que a visita ao Brasil poderia ser utilizada para levantar
suspeitas sobre a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.
Com a
medida atual, a embaixadora terá que solicitar um novo visto para entrar no
país, caso saia dos EUA.
Nesta
quarta, Lula classificou como "irresponsável" decisão dos EUA de
revogar visto da embaixadora.
"Essa
atitude é que eu acho uma atitude irresponsável, impensada para um país que tem
203 anos de diplomacia, de relação diplomática", afirmou Lula ao podcast
Meteoro Brasil.
O
presidente também defendeu o processo eleitoral do Brasil, dizendo que o país
vai "enfrentar qualquer pessoa de fora que queira interferir".
O
professor Hilton Fernandes avalia que, a essa altura de proximidade da campanha
eleitoral, retomar o discurso da soberania não vai ser mais tão simples para o
presidente.
"Para
funcionar, é preciso que o eleitor tenha a percepção de uma ameaça real e
injusta. Neste momento, o conjunto de ações do governo americano e as
provocações de Milei podem criar uma sensação de que o problema é o próprio
Lula", opina.
"Mas
há caminhos para transformar a adversidade em oportunidade, que são possíveis
de identificar em pesquisas de opinião. Por outro lado, se a campanha petista
reagir com um discurso mais ideológico, pode levar o jogo para uma arena que
favorece o bolsonarismo", completa Fernandes.
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Os aliados não populares de Flávio
A
última pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, de 31 de julho, mostra que maioria dos
brasileiros avalia negativamente a imagem de Donald Trump: 57,4% dos
entrevistados o avaliam negativamente, enquanto 35,3% manifestam opinião
positiva. Outros 7,5% afirmaram não saber como avaliá-lo.
Já
Javier Milei, que veio ao lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro, vive uma
maré negativa dentro da Argentina.
No
evento bolsonarista, o presidente argentino criticou Lula e suas políticas
sociais e chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de
Moraes de "lixo careca".
Logo
após as declarações, o Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador
da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para "transmitir a repulsa"
do governo brasileiro. O embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli,
também foi chamado para prestar esclarecimentos ao Itamaraty sobre a relação
entre os dois países.
Na
semana seguinte, Milei voltou a fazer duras críticas a Lula, chamando o
brasileiro de "ladrão" e "corrupto" durante um programa de
televisão argentino no domingo (02/08).
A
resposta brasileira veio nesta terça, com o rebaixamento das relações. Segundo
o jornal Folha de S.Paulo, Raimondi teria sido convocado ao Itamaraty, onde
recebeu a informação de que poderia voltar para casa.
Já o
jornal argentino Clarín reportou que Bitelli, que está em Brasília desde 26 de
julho, não voltaria a Buenos Aires, pois o governo decidiu manter apenas um
encarregado de negócios enquanto persistirem os ataques de Milei.
À BBC
News Brasil, Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), avaliou que a vinda e o
envolvimento com o Brasil foi uma busca de Milei para aumentar sua própria
popularidade internacionalmente.
"Ele
não tem poder para mobilizar tantos votos [no Brasil], mas busca consolidar-se
como uma liderança intelectual e política da direita ocidental."
Segundo
pesquisa realizada pela AtlasIntel para a Bloomberg Linea, publicada no início
de julho, 58% dos argentinos desaprovam o governo Milei. O percentual é
ligeiramente mais baixo que o registrado em abril, quando a desaprovação estava
em 63%, auge do chamado "escândalo Adorni".
O
ex-chefe de Gabinete de Milei, Manuel Adorni, foi acusado de envolvimento em um
escândalo por suposto enriquecimento ilícito e ocultação de patrimônio no valor
de R$ 500 mil (cerca de R$ 2,6 milhões).
Para
Hilton Fernandes, a baixa popularidade de Trump e Milei pode acabar tendo
alguma repercussão negativa na campanha de Flávio Bolsonaro, que ficaria
dependente de como essas lideranças internacionais são percebidas pelos
eleitores. Mas isso não quer dizer que Lula poderia surfar em uma
impopularidade dos dois.
"O
eleitor forma sua percepção do quadro político com informações diversas, muitas
vezes, parciais. O fato de Lula estar envolvido em situações negativas com
essas lideranças contrasta com as imagens positivas divulgadas por Flávio
Bolsonaro. Isso pode ter efeito, ainda que inconsciente, independentemente dos
motivos que levam ao estremecimento da relação diplomática", conta.
Mas
tanto Fernandes quando Goulart concordam que, apesar de um noticiário agitado
sobre as relações internacionais, esse seguirá um tema não decisivo no debate
eleitoral.
"A
política externa não vai deslocar as prioridades: a violência lidera as
preocupações e 96,2% dos brasileiros relatam algum medo relacionado à
criminalidade. Ela não entra como agenda própria, entra pegando carona em
clivagens que já existiam — no bolso dos setores expostos, no vocabulário da
soberania e, mais recentemente, na questão da integridade do pleito, que
reconecta interferência externa ao tema do golpismo e reativa 2022",
avalia Mayra Goulart.
Fonte:
BBC News Brasil

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