Pessoas
com deficiência, uni-vos!
Quantas
pessoas com deficiência conhecemos? Com quantas convivemos diariamente? Quantas
são nossas amigas e amigos? Sabemos suas histórias ou conhecemos os movimentos
dos quais fazem parte? Esses questionamentos abrem a reflexão sobre a
trajetória das lutas das pessoas com deficiência, que são frequentemente
tratadas como problemas isolados e individuais.
Diversos
autores e autoras — entre eles Anahí Guedes de Mello, Marivete Gesser, Manoella
Back, Marcia Oliveira Moraes e Marco Antônio Gavério — defendem que a
deficiência deve ser tratada como categoria analítica nas ciências sociais, ao
lado de gênero, raça, classe e sexualidade. Essa perspectiva revela que os
direitos das populações marginalizadas vêm sendo atacados e que as pessoas com
deficiência são parte dessa população, e sofrem ofensivas capacitistas: a
deficiência continua a produzir estigmas e barreiras sociais.
Mesmo
em espaços progressistas que lutam por justiça social, a deficiência é muitas
vezes vista como experiência abjeta ou sinônimo de tragédia, reduzida a uma
condição individual e médica. Esse olhar patologizante transforma sujeitos em
objetos: pessoas com deficiência passam a ser percebidas como menos humanas,
menos capazes de tomar decisões e de participar plenamente da vida política e
social.
O
capacitismo opera atribuindo menor capacidade aos corpos e às vidas das pessoas
com deficiência — classificando-os como improdutivos, pouco atraentes ou
“incapazes” segundo os padrões do capitalismo. Por isso, como apontam os
autores citados, o capacitismo e o capitalismo se entrelaçam: a opressão das
pessoas com deficiência tem raízes nas mesmas instituições econômicas e
políticas que sustentam o patriarcado, o racismo e a LGBTIfobia. Assim, as
lutas das pessoas com deficiência são parte integrante da luta de classes.
Quando
alguém não enxerga com os olhos, não ouve com os ouvidos ou não se locomove
segundo a norma bípede, essa pessoa é culturalmente marcada como deficiente.
Essa marca social limita seu acesso à educação, ao mercado de trabalho, ao
lazer e às políticas públicas, porque a sociedade raramente pensa essas pessoas
como sujeitos que vivem além do espaço doméstico.
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Dados demográficos, desigualdades e interseccionalidade
De
acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD
Contínua) do IBGE, no Brasil há 18,6 milhões de pessoas com algum tipo de
deficiência, o que representa 8,9% da população nacional.
As
desigualdades dentro desse grupo são marcantes quando analisadas por gênero,
raça e região: mulheres representam 10% desse total, enquanto homens
representam 7,7%. Por raça, as pessoas negras (pretas) apresentam 9,5%,
seguidas por pardas com 8,9% e brancas com 8,7%.
Geograficamente,
a região Nordeste concentra a maior proporção de pessoas com deficiência, com
10,3% da população regional (aproximadamente 5,8 milhões de pessoas). As demais
regiões apresentam percentuais próximos: Sudeste 8,2%, Norte 8,4%, Centro-Oeste
8,6% e Sul 8,8%. O menor percentual é observado no estado do Amazonas, com
6,3%.
Esses
números evidenciam a necessidade de uma leitura interseccional das experiências
de opressão: raça, gênero e território moldam desigualdades específicas dentro
da população com deficiência.
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A ascensão da extrema direita e sua visão sobre a deficiência
Nas
últimas décadas, a ascensão de forças de extrema direita em diferentes países
tem influenciado discursos e políticas públicas. Esses setores frequentemente
promovem narrativas assistencialistas e medicalizantes sobre a deficiência, que
reforçam a ideia de que pessoas com deficiência são objetos de caridade,
vítimas passivas ou “casos” a serem geridos pelo Estado ou por instituições
privadas, em vez de sujeitos com direitos e autonomia. Em muitos contextos, a
extrema direita fragmenta movimentos sociais, favorece políticas neoliberais
que reduzem proteção social e instrumentaliza a linguagem da “eficiência” e da
“produtividade” para justificar cortes e exclusões.
Essa
visão tende a despolitizar a deficiência, transformando demandas por direitos
em pedidos por benevolência, e a minimizar a responsabilidade do Estado em
garantir acessibilidade, inclusão e participação plena. Além disso, discursos
conservadores podem estigmatizar ainda mais pessoas que vivem em interseções
vulneráveis — por exemplo, mulheres negras com deficiência — e atacar políticas
afirmativas que ampliam acesso à educação, trabalho e saúde.
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A importância dos coletivos no enfrentamento
Diante
desse cenário de retrocessos e narrativas excludentes, os coletivos de pessoas
com deficiência assumem papel estratégico e político. Eles reafirmam a
existência desses sujeitos, denunciam a falta de acesso às políticas públicas,
valorizam potencialidades artísticas e políticas e articulam demandas comuns. A
organização corrige a tendência ao isolamento: historicamente segregadas,
muitas pessoas com deficiência acabam adotando estratégias individualistas para
ocupar espaços; os coletivos transformam essas conquistas em ação coletiva e em
pressão política.
São
exemplos de iniciativas que têm se destacado:
• Parada do Orgulho PcD: ocupa as ruas
para visibilizar artistas com deficiência e afirmar orgulho e protagonismo.
• Vidas Negras com Deficiência Importam:
coletivo de militantes negros com deficiência que produz pesquisas, dados e
formação de lideranças.
• Helen Keller Coletivo Feminista: grupo
de mulheres com deficiência que articula pautas específicas, denunciando a
interseção entre machismo e capacitismo e promovendo materiais e campanhas de
formação.
Esses
coletivos não apenas reivindicam direitos, mas também produzem conhecimento,
formação política e cultura. Em campanhas e manifestações, têm denunciado
políticas públicas excludentes e tentativas de retrocesso. Ao mesmo tempo,
enfrentam narrativas assistencialistas e fragmentadoras promovidas por setores
conservadores que tratam a deficiência como objeto de pena e caridade, em vez
de reconhecer autonomia e direitos.
A
organização dos movimentos de pessoas com deficiência é, portanto, uma
prioridade política. A esquerda e os espaços progressistas precisam incorporar
essas discussões, respeitando os saberes, a autonomia e as vivências das
pessoas com deficiência, reconhecendo que sua luta é parte inseparável da luta
por justiça social e redistribuição de poder. Em um contexto global de avanço
de forças conservadoras e de ataques a direitos, os coletivos de pessoas com
deficiência são fundamentais para defender conquistas, produzir alternativas e
construir solidariedades que enfrentem tanto o capacitismo quanto as estruturas
econômicas e políticas que o sustentam.
Fonte:
Por Mayra Ribeiro de Oliveira, em Outras Palavras

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