sábado, 8 de agosto de 2026

Enquanto os EUA impõem um genocídio contra Cuba, países socorridos pela ilha lhe viram as costas

Fazer um balanço da enorme ajuda humanitária, sem qualquer remuneração, que Cuba prestou a mais de uma centena de países do mundo, apenas na área da saúde, seria muito difícil de realizar em poucas linhas.

A prática da Revolução Cubana desde 1959 tem sido a de que, se em qualquer lugar do mundo ocorre um desastre natural de grande magnitude, o governo e o povo cubanos estejam dispostos a prestar auxílio urgente, sem levar em consideração o regime social ou o sistema vigente no território afetado.

Os exemplos são numerosos: brigadas médicas foram prestar ajuda ao povo chileno quando este sofreu os terremotos de 1960 e 1971; no Peru, em 1970, Cuba enviou não apenas assistência médica, mas também o sangue doado por 100 mil cubanos e, posteriormente, brigadas de construtores cubanos ergueram 15 centros hospitalares.

Em 1963, uma brigada médica da Ilha chegou à Argélia para prestar apoio ao país recém-libertado, do qual havia partido quase todo o pessoal estrangeiro que antes atendia precariamente sua população.

Após o terremoto de 1972, e apesar de a ditadura nicaraguense de Anastasio Somoza, apoiada pelos Estados Unidos, governar aquele país, Cuba enviou imediatamente sangue, profissionais da saúde e medicamentos.

A ajuda humanitária cubana estendeu-se a muitas outras nações, como o Vietnã; à América Central durante as inundações da década de 1980; e ao Paquistão, quando ocorreu o terremoto de 1996, ocasião em que Cuba enviou profissionais de saúde, medicamentos, materiais e equipamentos ortopédicos.

Também receberam colaboração na área da saúde a República Popular da China e a maioria dos países africanos. Na Venezuela, no Brasil e na Nicarágua, para citar outras nações, trabalharam dezenas de milhares de profissionais da saúde.

A Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM) abriu suas portas em 15 de novembro de 1999 e formou 32.290 médicos até 2026, provenientes de 124 países de todo o mundo.

É inegável a contribuição decisiva do governo e do povo cubanos para a libertação de vários países africanos e para a consequente eliminação do apartheid naquele continente, causa pela qual mais de 2 mil de seus filhos deram a vida.

Vinte e seis mil crianças da Rússia, Belarus e Ucrânia, após o acidente nuclear de Chernobyl, o maior da história, receberam tratamento médico integral e gratuito em Cuba.

O governo cubano reabilitou a região de Tarará para acolher os milhares de pacientes que participaram do programa “Crianças de Chernobyl” durante mais de 21 anos: de 29 de março de 1990 a 24 de novembro de 2011.

Diante de toda essa política humanitária e solidária que Cuba realizou com numerosos países do mundo, sem pedir nada em troca, poderíamos perguntar: permitirão os governos do mundo que se cometa um genocídio contra Cuba, como o que vem sendo levado a cabo pela política agressiva e desumana implementada pelo império norte-americano contra a Ilha?

Os Estados Unidos, sob o comando de seu presidente condenado Donald Trump e do mitômano secretário de Estado Marco Rubio, continuarão pressionando diversos países para que não enviem petróleo a Cuba?

Até quando potências e países amigos, como Rússia, China, Brasil, México, Argélia, Angola e outros, continuarão obedecendo às ações genocidas e injustas de Washington?

Não seria possível que todos chegassem a um acordo para enviar o precioso petróleo a Cuba, que está sofrendo uma das guerras mais impiedosas promovidas por um império em decadência, mas extremamente agressivo?

Em um discurso recente durante as comemorações do 26 de Julho, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel Bermúdez declarou:

“Os funcionários do Departamento de Estado, especialistas em redigir sanções, elaborar listas e inventar pretextos, são uma versão moderna dos redatores de éditos e bandos militares que tanto inspiraram temor e ódio nos obscuros tempos medievais ou durante as ocupações nazistas na Segunda Guerra Mundial.

Como se o restante do mundo fosse sua colônia, ordenam como as coisas devem ser feitas sob ameaças de punição ou agressão.

‘Denunciamos que aqueles que conceberam essa política de asfixia, que a implementam e a sustentam, são responsáveis pelo sofrimento do povo cubano.

Denunciamos também aqueles que se calam e toleram os desmandos da ultradireita fascista norte-americana, que mente, rouba, mata e pretende se erguer como o Deus de todos os destinos.'”

Em seguida, Díaz-Canel enfatizou:

“O bloqueio dos Estados Unidos só funciona pela cumplicidade daqueles que temem mais o poder de Washington do que o julgamento da história. Este é um novo chamado à consciência do mundo: não se tornem cúmplices de outro genocídio.”

E concluiu de forma contundente:

“Cada vez que uma parte do mundo se cala diante da agressão contra Cuba, o direito internacional se enfraquece. Cada vez que um governo aceita as sanções ilegítimas dos Estados Unidos, o princípio da não intervenção é corroído. Cada vez que uma empresa é pressionada a abandonar seus investimentos em Cuba e outras deixam de investir por medo de represálias, fortalece-se a ditadura econômica de uma única potência. Antes foram Gaza, Líbano, Irã; hoje é Cuba. Amanhã pode ser qualquer outra nação.”

E este comentarista pergunta, em conclusão: algumas nações do mundo decidirão libertar-se do medo, unir-se e desafiar a guerra genocida dos Estados Unidos contra Cuba?

¨      Trump e o Contraponto de Huxley. Por Hugo Albuquerque

Um dos mais interessantes e complexos romances do escritor inglês Aldous Huxley, imortalizado por seu Admirável mundo novo, é o nem sempre lembrado ContrapontoPoint Counter Point, no original – que possui esse nome por, a exemplo do contraponto musical, não ter uma trama central, mas sim múltiplas narrativas interligadas e temas recorrentes, escrito na agonia do período do entreguerras. Algo assim parece ocorrer agora.

A Copa do Mundo de 2026, apesar de ser supostamente compartilhada entre Estados Unidos, México e Canadá, foi do começo ao fim um espetáculo da megalomania tosca de Donald Trump – com direito à bem-sucedida pressão para que um cartão vermelho de um atleta americano fosse revertido. Passado o torneio, estamos aturdidos com inúmeras narrativas simultâneas, as quais se ligam pelo espírito do tempo.

Neste exato instante, o banco central americano intervém no mercado japonês para que este, seu mais importante financiador da dívida, mantenha sua moeda artificialmente valorizada, não há sinal de fim do conflito contra o Irã, nem na Ucrânia, transcorre uma crise migratória suspeita na Espanha e, ainda, Trump ameaça intervir nas eleições brasileiras – enquanto busca um pedaço da próxima Copa. Tudo junto e interligado.

Estaríamos às voltas com uma Terceira Guerra Mundial ou uma nova crise econômica? A bolha da Inteligência Artificial vai, finalmente, estourar? O que será do Japão? Ou a aceleração e convergência dos conflitos na Ucrânia e Irã vão nos arrastar? Trump fecha a fatura nas eleições brasileiras, depois de ter imposto suas marionetes em quase todas as eleições latino-americanas recentes?

<><> O bem (e o mal) contado

Uma nova lei americana de sanções antirrussas leva o nome do seu idealizador: Lindsey Graham, o recém-falecido e sempre ultrabelicista senador americano. Morto repentina e misteriosamente após uma visita a Kiev, há quem levante suspeitas sobre as circunstâncias do fato – Graham documentou visitas a fábricas de drone na Ucrânia, sendo que nos dias de sua estadia algumas delas foram destruídas por mísseis russos.

A hipótese de que Graham tenha ido onde não devia em Kiev e sido bombardeado acidentalmente (ou não) pelos russos, embora não tenha confirmação oficial – sua morte teria sido por causas naturais, logo após um apressado e velocíssimo retorno a Washington – entra no rol do se non è vero, è ben trovato (“se não é verdade, é bem inventado”) dos italianos. O que é mal contado, entretanto, são as inúmeras idas e vindas sobre o Irã, que agora, finalmente, desistiu de negociar com Trump.

Depois de ter anunciado uma paz vantajosa ao Irã, aparentemente mais esse acordo de paz foi também bombardeado por Israel, cujo premiê Benjamin Netanyahu parece entender que guerrear e agredir está para o governo como pedalar está para andar de bicicleta: se você para, via de regra, você cai. Netanyahu não para e ainda parece impor com altivez isso para Trump, a quem visitou mais de uma meia dúzia de vezes só neste mandato.

O cenário insano e interminável de Irã e Ucrânia, inclusive, correu o risco de se misturar definitivamente no Cáspio, mar pelo qual a Rússia abastece vitalmente o Irã e, justamente por isso, Volodymyr Zelensky resolveu lançar um ataque a um navio comercial iraniano – sim, Teerã fornece drones para os russos desde 2022, embora os ucranianos sejam abastecidos pela Turquia antes de desenvolver sua indústria própria, ou de montagem.

O outro ponto ignorado sobre o Cáspio é que, vejam só, é de lá que Israel recebe cerca de metade de seu abastecimento petrolífero. Talvez por isso, Netanyahu não parece ter ficado feliz com a tentativa de agrado que Zelensky lhe fez – e aí entraremos num ponto realmente insano dos dois conflitos, com riscos adicionais terríveis para Israel, cujas relações se deterioraram com Moscou, mas não no todo. 

<><> A economia estúpida

Mas o que importa vai mal para Trump. Sua relutância em ir à guerra contra o Irã não resistiu às pressões de Netanyahu, primeiro em meados do ano passado, depois no final de 2025 – com direito ao patrocínio a uma revolução colorida para derrubar “pacificamente” o regime iraniano e (re)entronizar o Xá – e, finalmente, com o infinito estado de guerra atual. Se Zelensky não arrastou Netanyahu para a guerra, por outro lado, este último fez isso com Trump.

Os impactos na economia americana são conhecidos: mais inflação, pressões variados por uma alta da taxa de juros americana – que se Trump não derrubou, ele força a estabilidade, inclusive com uma purga no seu banco central – e o perigo disso tirar capitais das bolsas de valores, que sustentam o investimento caro, porém ainda não muito rentável, da Inteligência Artificial, hoje enfrentando dura competição chinesa e seu modelo de código aberto.

No meio da pressão extrema sobre o mercado da dívida americana, o Japão se ressente das pressões inflacionárias sobre sua economia – em parte agravadas pela ausência de paz precisamente no Irã –, a necessidade de subir sua taxa de juros, seguida da pressão política americana para não fazer isso: assim, investidores que tomam empréstimos a juros baixíssimos no Japão, parariam de usar isso para comprar títulos americanos.

Se durante os últimos 30 anos os Estados Unidos fizeram os japoneses valorizar sua moeda, puxar o freio de investimentos produtivos e, assim, se tornarem financiadores da ciranda da dívida americana, agora se paga o preço: é verdade, o Irã, que é culpa também de Washington, impede o leal aliado de servir, mas as décadas de estagnação econômica e social parecerem ter posto fim, pelas vias erradas, ao Japão deflacionário e de juros negativos.

Com uma população envelhecida e em declínio – por um combo que passa pela derrubada da taxa de natalidade, epidemia de depressão, suicídios e eventos quetais –, sem o tal “investimento suficiente em automação para compensar o aumento da idade média”, os americanos veem o Japão fraquejar justo quando eles mais precisam – há, para além da conjuntura, uma mudança estrutural da forma da economia japonesa se comporta. 

Tudo isso sem mencionar que o cabo de guerra permanente de Trump contra a China, desde seu primeiro mandato, tirou de cena um importante financiador de sua dívida: os chineses tiraram o pé do mercado de títulos americanos, que eles adquiriam vorazmente inclusive para acessar ao mercado americano e, ao contrário de uma lógica financeira, para verem juros baixos de seu comprador de bens industrializados.

<><> As outras frentes de batalha: da América Latina à Espanha, passando pelo futebol

Com o aparente colapso dos governos progressistas – que viveram uma segunda e, ao que parece, efêmera onda na América Latina –, Trump se prepara para dobrar o Brasil, maior país da região, depois de ter imposto seus candidatos em Honduras, Chile, Peru e Colômbia com métodos mais ou menos heterodoxos, além da bem-sucedida e misteriosa operação na Venezuela. Ato contínuo, Trump ainda sustentou Milei.

A conjunção astral dessa crise de modelo das esquerdas latino-americanas com a sanha por vitórias e controle do “quintal” por parte de Trump – guiado por seu secretário de Estado, ex e potencial futuro rival, Marco Rubio – produziram essas vitórias, algumas duvidosas, mas que acabaram prevalecendo, enquanto segue-se uma pressão criminosa para dobrar e dominar Cuba.

Conseguirá Trump vencer no Brasil o experiente Lula, que até agora tem vencido os rounds dos constantes assédios da Casa Branca? As pesquisas, por ora, dizem que não, assim como andam mal as pesquisas do próprio Trump no seu plano interno, mas ainda é muito cedo para estabelecer uma posição definitiva. Não deixa de espantar as tantas frentes que o presidente americano resolveu abrir, contudo.

Junto a isso, ainda temos a anedótica tentativa de Trump fazer o cunhado de sua filha – sim, é isso que você leu – se tornar uma espécie de co-proprietário da Copa do Mundo e, ainda, os dedos suspeitos do governo americano, junto com Israel, na crise migratória de Ceuta, que afeta diretamente a Espanha – cujo governo bem-sucedido de Pedro Sánchez desafia Trump e o fracasso quase que diário da social-democracia europeia.

Posto isso, voltemos à obra de Huxley e seu presságio em uma miríade de pequenas tramas, que formam um fractal que ilustra bem uma época agoniada, em compasso de espera e que, ali, terminou mal. Aqui, resta a esperança equilibrista que os ganhos tecnológicos, inclusive militares dos chineses, seja um contraponto em relação ao abismo – ou que sirva de colchão de ar se o pior acontecer. 

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/Opera Mundi

 

Nenhum comentário: