Fundos
do Master entram na mira do STF em investigação que atinge aliado de Caiado
A
operação autorizada pelo ministro Flávio Dino nesta quinta-feira (06) e que
investiga um acordo de R$ 308,1 milhões firmado entre o governo de Mato Grosso
e a Oi colocou fundos administrados pelo Banco Master no centro de um suposto
esquema de lavagem de dinheiro que, segundo o Supremo Tribunal Federal (STF),
pode ter servido para transformar recursos públicos em investimentos privados
ligados às famílias do governador Mauro Mendes (União Brasil) e do deputado
federal Fábio Garcia (União Brasil).
Em
decisão de 64 páginas, o ministro Flávio Dino autorizou uma ampla operação
contra pessoas físicas e jurídicas suspeitas de integrar a estrutura financeira
investigada. Foram autorizadas buscas e apreensões, bloqueio de bens, quebra de
sigilos bancário e fiscal, retenção de passaportes, congelamento de contas e a
suspensão das atividades de 18 fundos de investimento.
O caso
tem potencial para extrapolar os limites de Mato Grosso. Mauro Mendes é um dos
principais aliados políticos do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União
Brasil), pré-candidato à Presidência da República, e figura entre os nomes mais
influentes da articulação política do Centro-Oeste.
A
decisão não representa condenação e não conclui pela responsabilidade criminal
dos investigados. O ministro entendeu, porém, que os elementos reunidos pela
Polícia Federal são suficientes para justificar o aprofundamento da
investigação sobre crimes como peculato, lavagem de dinheiro, organização
criminosa e uso indevido de informação privilegiada.
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O acordo que chamou a atenção da PF
A
origem da investigação está em um antigo litígio tributário entre Mato Grosso e
a antiga Brasil Telecom, posteriormente incorporada pela Oi.
Em
2009, o Estado executou judicialmente cerca de R$ 78 milhões da empresa. Anos
depois, o Supremo declarou inconstitucional a norma estadual que sustentava a
cobrança.
Em
outubro de 2023, a Oi vendeu os direitos relacionados ao crédito ao escritório
Ricardo Almeida Advogados Associados por R$ 80 milhões.
Poucos
meses depois, o escritório apresentou ao governo estadual um pedido de
restituição superior a R$ 583 milhões.
A
negociação terminou com um acordo de R$ 308,1 milhões, firmado em abril de
2024.
Segundo
a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral do Estado abriu mão de teses jurídicas
favoráveis a Mato Grosso, aceitou cálculos que elevaram significativamente o
valor devido e concordou em pagar a quantia fora do regime constitucional dos
precatórios, em apenas oito parcelas.
A
decisão também registra que o Estado não possuía previsão orçamentária
suficiente para suportar um desembolso dessa dimensão e precisou recorrer à
abertura de créditos suplementares para cumprir o acordo.
Fundos
surgiram antes da assinatura do acordo
Foi a
movimentação do dinheiro, porém, que despertou maior preocupação dos
investigadores.
Em 22
de fevereiro de 2024, quarenta e oito dias antes da assinatura do acordo, foram
criados os fundos Royal Capital FIDC e Lotte Word FIDC.
Depois
que o acordo foi celebrado, exatamente esses dois fundos passaram a receber os
R$ 308,1 milhões pagos pelo Estado, divididos praticamente em partes iguais.
Para a
Polícia Federal, a criação antecipada das estruturas indica que seus
organizadores já conheciam o resultado das negociações conduzidas pelo governo.
Na
decisão, Flávio Dino afirma que há indícios de que os fundos foram estruturados
previamente para receber os recursos públicos e distribuí-los por sucessivas
camadas financeiras, dificultando a identificação dos beneficiários finais e
ocultando a origem do dinheiro.
A
investigação descreve uma rede composta por mais de quinze fundos de
investimento, dez deles criados justamente durante o período em que o acordo
era negociado.
Segundo
a PF, muitos desses veículos sequer apresentavam atividade típica de mercado,
funcionando apenas como instrumentos para pulverizar os recursos antes de sua
chegada aos investimentos finais.
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Banco Master administrava os principais fundos
É nesse
ponto que aparece o Banco Master.
A
decisão mostra que a Master S.A. Corretora de Câmbio, Títulos e Valores
Mobiliários administrava originalmente cinco dos fundos apontados como centrais
na investigação: Royal Capital, Lotte Word, Zurich, London e Coliseu.
Embora
a decisão não atribua responsabilidade criminal ao banco nem afirme que seus
dirigentes tenham participado do suposto esquema, Dino determinou que os
administradores entreguem à Polícia Federal toda a documentação relacionada às
estruturas financeiras.
Entre
os documentos requisitados estão regulamentos, atas, extratos bancários,
contratos, registros de operações, documentos de compliance, identificação dos
cotistas, beneficiários finais, movimentação das cotas e relatórios de
auditoria.
Os
investigadores querem reconstruir todo o caminho percorrido pelos R$ 308
milhões para descobrir quem efetivamente controlava as operações e quais
pessoas ou empresas foram beneficiadas pelos investimentos realizados com os
recursos públicos.
A
decisão também alcança a REAG, que posteriormente passou a administrar o
Venture Finance, outro fundo apontado como elo entre as estruturas ligadas às
famílias Mendes e Garcia.
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O caminho do dinheiro
Segundo
a investigação, metade dos recursos foi destinada ao Royal Capital.
Desse
fundo, o dinheiro passou pelo Zurich e pelo London antes de chegar à compra de
participações da empresa Parecis Bioenergia.
As
cotas negociadas pertenciam ao fundo 5M Capital, controlado pelo GS Heritage,
que tinha entre seus cotistas três filhos de Mauro Mendes.
Na
avaliação da Polícia Federal, a operação permitiu que recursos públicos fossem
convertidos em patrimônio privado sob a aparência de investimentos societários
regulares.
A outra
metade do dinheiro percorreu uma estrutura semelhante.
Os
recursos destinados ao Lotte Word passaram pelos fundos Golden Bird, Geonix,
Coliseu e Venture Finance antes de serem utilizados em investimentos ligados à
Hotéis Global, empresa relacionada a familiares do deputado federal Fábio
Garcia.
A
decisão ressalta, contudo, que essas conclusões ainda fazem parte da fase
investigatória e não representam responsabilização definitiva dos envolvidos.
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Dino negou parte dos pedidos da Polícia Federal
Embora
tenha considerado robustos os indícios apresentados pela Polícia Federal,
Flávio Dino não acolheu integralmente todas as medidas solicitadas pelos
investigadores.
O
ministro rejeitou o pedido de afastamento de cinco integrantes do governo de
Mato Grosso diretamente envolvidos na negociação do acordo com a Oi.
Permanecem
nos cargos o secretário-chefe da Casa Civil, Mauro Carvalho Júnior; o
procurador-geral do Estado, Francisco de Assis da Silva Lopes; o
procurador-geral adjunto, Luiz Otávio Trovo Marques; e os procuradores Luiz
Antônio Poveda Velasco e Lucas Borges Valério.
Na
avaliação de Dino, a Polícia Federal não demonstrou risco concreto de
destruição de provas, intimidação de testemunhas ou continuidade das condutas
investigadas que justificasse o afastamento cautelar dessas autoridades.
O
ministro também negou o pedido para suspender as atividades das gestoras Acura
Capital e América P.E.
Segundo
a decisão, a interrupção das operações poderia atingir investidores e terceiros
de boa-fé sem relação com os fatos investigados.
Outro
pedido recusado foi a alienação antecipada dos bens bloqueados. Dino entendeu
que ainda não havia justificativa para determinar a venda imediata dos ativos
antes da conclusão das investigações.
Ao
mesmo tempo, manteve o congelamento das contas e a suspensão das atividades de
dezoito fundos de investimento, por considerar que há indícios consistentes de
que essas estruturas foram utilizadas como instrumentos para ocultação
patrimonial e lavagem de dinheiro.
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Pressão política sobre Mauro Mendes
Apesar
de manter auxiliares do governo nos cargos, Dino determinou que o governador
Mauro Mendes seja formalmente comunicado da decisão após o cumprimento das
diligências.
Na
prática, a decisão transfere ao governador a responsabilidade política sobre a
permanência ou não dos integrantes de sua administração citados na
investigação.
O
avanço da apuração também aumenta a pressão sobre um dos principais aliados de
Ronaldo Caiado justamente no momento em que o governador de Goiás trabalha para
consolidar sua candidatura ao Palácio do Planalto.
Nos
próximos 60 dias, a Polícia Federal deverá analisar os documentos apreendidos e
as informações que serão fornecidas pelo Banco Master, pela REAG e pelas demais
instituições envolvidas na administração dos fundos.
É dessa
documentação que os investigadores esperam responder à principal pergunta do
caso: quem controlava a sofisticada rede de fundos utilizada para movimentar os
R$ 308,1 milhões pagos pelo governo de Mato Grosso e quem foram, de fato, os
destinatários finais desses recursos.
• Jaques Wagner pede à PF para adiar
depoimento sobre caso Master
A
defesa do senador Jaques Wagner (PT-BA) solicitou à Polícia Federal o adiamento
do depoimento no âmbito do caso Master que seria realizado nesta sexta-feira
(7) por não ter tido acesso ao conteúdo da investigação.
A
Polícia Federal intimou em 21 de julho o ex-líder do governo Lula no Senado
Federal para prestar depoimento sobre suspeitas de recebimento de propina do
Master. O advogado Pablo Domingues, que atua na defesa do parlamentar, informou
que fez a solicitação aos delegados responsáveis pela oitiva "com
antecedência proporcional”.
Por
ordem do ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), o senador
foi alvo de mandados de busca e apreensão e de uma ordem de restrição de
atividades econômicas.
A PF
investiga um possível vínculo entre o entorno familiar de Jaques e suas
empresas com outros nomes conectados ao liquidado Banco Master.
A
ausência de Jaques será o segundo depoimento relativo a investigação do caso
Master que deixa de ser tomado nesta semana. Augusto Lima, ex-sócio de Daniel
Vorcaro, deveria ser ouvido na segunda-feira e não compareceu. Foi a terceira
vez que o empresário faltou.
Augusto
Lima é bastante próximo de Jaques Wagner. O nível de intimidade é tamanho que o
parlamentar se refere ao ex-sócio de Vorcaro como "Guga". Os
investigadores suspeitam que Jaques recebeu vantagens indevidas do empresário,
incluindo um apartamento avaliado em R$ 2,4 milhões.
Em uma
conversa interceptada pela PF, o parlamentar encaminhou o contato do gerente da
construtora a Augusto Lima junto a uma mensagem informando o imóvel desejado e
o valor. "A unidade é a 1702 e o preço é 2,45 mi."
Fonte:
ICL Notícias

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