Militar
fraudou sistema e vendeu carteiras de piloto de barco de pessoas mortas até
para traficante do CV
Durante
quatro anos, o suboficial da Marinha Magno Alves de Almeida transformou o
sistema federal de controle de autorizações para pilotar barcos na Amazônia em
um balcão clandestino de venda de carteiras de habilitação para transporte
fluvial. A documentação falsa foi vendida inclusive para um traficante do
Comando Vermelho, o CV, facção que opera a rota Solimões para escoamento de
drogas na Amazônia. O esquema só veio à
tona por acaso, quando a funcionária de uma empresa de navegação decidiu
conferir os dados de um colega que havia sobrevivido a um dos maiores acidentes
fluviais já registrados no Pará, em 2017.
Ele teve a sua habilitação fluvial retida porque constava no sistema da
Marinha que morava em uma outra região, diferente daquela que aparecia no
documento físico. A divergência de informações deu início a uma investigação
que revelou uma fraude muito mais extensa.
As informações foram obtidas pelo Intercept Brasil a partir de uma
auditoria da Marinha, além de entrevistas com fontes e análises de documentos.
No processo, Almeida confessou os crimes. Cabe ainda um último recurso antes de
a decisão transitar em julgado.
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Retido pela fiscalização
Em
2019, pouco mais de um ano e meio depois do naufrágio nas águas do rio
Amazonas, próximo à cidade de Óbidos, no Pará, o sobrevivente César Lemos da
Silva, marinheiro fluvial de máquinas, acabou envolvido em um problema
inesperado. Durante uma fiscalização, sua Caderneta de Inscrição e Registro –
equivalente à carteira de motorista, mas usada para autorizar a navegação nos
rios – foi retida por autoridades fluviais por acreditarem ser falsa, em razão
de os dados do documento físico não terem batido com o que constava no sistema
da Marinha. Silva ficou surpreso. Ele tentou explicar aos militares que nunca
havia morado em Humaitá, cidade do Amazonas que aparecia no sistema como seu
domicílio, e que não conhecia ninguém de lá. Não adiantou. A carteira foi apreendida.
Em depoimento, Silva contou que, no momento da retenção de sua habilitação, não
foi ouvido para confirmar a veracidade das informações registradas no sistema.
Ao contrário. Ao procurar a Delegacia de Porto Velho, atualmente chamada de
Capitania de Porto Velho, em Rondônia, disse que um dos militares o tratou
extremamente mal e ameaçou chamar a polícia. Quem estava por trás das
alterações que levaram à perda da sua carteira era justamente quem deveria
garantir a segurança da navegação. O responsável pelas fraudes era Magno Alves
de Almeida, então suboficial da Marinha lotado na Agência Fluvial de Humaitá,
subordinada à Capitania de Porto Velho.
Almeida
ocupava uma posição de confiança dentro da estrutura da Marinha. Era
considerado o Zero Dois da unidade – abaixo apenas do comandante da agência – e
tinha acesso direto ao sistema responsável por registrar e controlar as
habilitações de aquaviários. A agência
onde ele trabalhava supervisiona uma vasta área da Amazônia, que inclui os
municípios de Humaitá, Manicoré, Novo Aripuanã e Apuí. Juntos, esses
territórios somam mais de 176 mil quilômetros quadrados, uma extensão maior que
a de muitos países. Toda essa região é cortada pelo rio Madeira, importante
hidrovia para o escoamento de produtos eletrônicos fabricados na Zona Franca de
Manaus, ligando o principal polo industrial amazonense ao restante do país. O
rio é também uma das principais rotas de transporte de soja e minérios entre
Rondônia e os portos do Amazonas e do Pará, permitindo o envio para outros
países.
Além de
sua centralidade para o transporte de pessoas e mercadorias, o rio é um
corredor estratégico usado pelo narcotráfico na região, conhecido como um dos
“rios de cocaína”, ligando a Bolívia, país produtor dessa droga, ao maior
centro urbano da Amazônia, Manaus. É nesse território que a Marinha tem a
missão de garantir a segurança da navegação e ordenar o tráfego aquaviário.
Almeida chefiava a seção de Ensino Profissional Marítimo, a EPM, da Agência
Fluvial de Humaitá e, com isso, tinha acesso direto ao Sistema Informatizado de
Cadastro de Aquaviário, o Sisaqua. Nessa plataforma ficam registradas as
Cadernetas de Inscrição e Registro, ou CIR, que autorizam profissionais
aquaviários a operarem embarcações e a trabalharem legalmente. Durante quatro
anos, Almeida agiu sozinho e conseguiu manipular um banco de dados federal,
usar registros de mortos e operar sem detecção efetiva. Em uma região onde a
navegação é infraestrutura básica, a fragilidade do controle mostra a dimensão
da vulnerabilidade da esfera pública. Ao permitir que pessoas sem o treinamento
técnico exigido assumissem funções de comando por não controlar as fraudes no
Sisaqua, a Marinha criou um risco direto de acidentes e mortes nos rios da
Amazônia, onde a navegação é infraestrutura básica. Com a fraude sistemática, o
país feriu a Convenção Internacional STCW-78, voltada a padronizar critérios
globais de formação e certificação de tripulantes para garantir a segurança na
operação de navios e proteção da vida marinha e das pessoas.
A
emissão de uma CIR para um traficante do Comando Vermelho também levanta outra
questão. O debate sobre o uso de rotas fluviais para o tráfico tem preocupado
países signatários do Tratado sobre o Comércio de Armas da Organização das
Nações Unidas, a ONU, do qual o Brasil faz parte. No início de março deste ano,
o tema voltou ao centro das discussões em um encontro sobre segurança marítima
promovido pela Control Arms, organização não-governamental sediada em Genebra,
na Suíça, que reúne mais de 150 membros ao redor do mundo com o objetivo de
prevenir o sofrimento humano causado por transferências irresponsáveis de
armas.
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Piratas do Madeira
Entre
2014 e 2018, a auditoria técnica da Marinha atribuiu 182 inserções de dados
falsos no sistema ao Número de Identificação Pessoal, o NIP, de Magno Alves de
Almeida. A fraude seguia um padrão: ele apagava os dados de aquaviários
regulares – e, em alguns casos, de pessoas já falecidas – e substituía essas
informações por outras de terceiros que não tinham feito cursos, não cumpriam
requisitos legais ou buscavam atalhos para ascender de categoria – incluindo um
traficante do CV. Uma advogada perita em
acidentes de navegação ouvida pelo Intercept, que preferiu não se identificar
com medo de sofrer represálias, disse que “o tráfico hoje, o Comando Vermelho,
está aliciando tripulantes, pela facilidade de você pilotar uma embarcação”.
Ela acrescenta que ter uma carteira “significa ter fácil acesso às áreas de
embarcações onde você pode esconder a droga”. No caso de Almeida, a própria
inteligência da Marinha identificou que um traficante do CV comprou uma
carteira com quatro categorias diferentes, incluindo uma de mestre fluvial. Com
este documento, o grupo ampliou significativamente sua capacidade de operar o
tráfico sob aparência de legalidade, já que mestres fluviais comandam
embarcações que transportam centenas de toneladas de carga e, formalmente, têm
a atribuição de fiscalizar e coibir contrabando, transporte de armas, munições
e cargas não declaradas.
Para
além do tráfico, o CV também ataca embarcações comerciais e comboios fluviais
ao longo do rio Madeira e seus afluentes. Segundo informações de inteligência
da Polícia Civil de Rondônia obtidas pelo Intercept, os chamados Piratas do
Madeira têm ligação com a facção e atuam no roubo de mercadorias e combustíveis
para abastecer garimpos ilegais e, quando sobram produtos, lucram com a revenda
no mercado clandestino. Segundo o Plano de Segurança Pública do Amazonas,
“esses ataques afetam a confiança do setor logístico, encarecem o transporte
fluvial e aumentam os riscos para tripulantes e passageiros das
embarcações”. Ao lado do CV, o
Primeiro Comando da Capital, o PCC, e seu aliado, o Primeiro Comando do Panda,
o PCP, também operam na região. De acordo com documento produzido pela Polícia
Militar de Rondônia, esses grupos se sustentam principalmente com o dinheiro
advindo do tráfico, alimentado sobretudo pela rota com a Bolívia. Segundo o
próprio Almeida, sua teia de relações alcançava até o gabinete da prefeitura da
cidade. Em depoimento, ele chegou a afirmar que, caso precisasse do apoio do
então prefeito ou vice-prefeito, tinha total certeza de que eles iriam depor a
seu favor. À época, o prefeito da cidade de Humaitá era Herivâneo Vieira de
Oliveira, condenado no ano passado pelo Tribunal de Contas do Estado do
Amazonas a devolver mais de meio milhão de reais por irregularidades no
transporte escolar.
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Mortos que navegam
O
episódio que deu origem a toda esta investigação ocorreu quando Almeida se
aproveitou de documentos de tripulantes mortos no naufrágio ocorrido em 2 de
agosto de 2017 perto de Óbidos, no Pará, envolvendo o cargueiro Mercosul
Santos, da empresa Mercosul Line, e um comboio de nove balsas graneleiras da
Transportes Bertolini Ltda. O naufrágio deixou 9 dos 11 tripulantes mortos.
Cerca de três meses após o acidente, Almeida se movimentou para transferir os
registros das vítimas para sua jurisdição – ou seja, para a Agência Fluvial de
Humaitá. Com a transferência, o suboficial passou a ter controle direto sobre
os prontuários dentro do sistema Sisaqua e conseguiu manipular os dados com
facilidade. Contudo, ele não contava que
entre os oito registros roubados estaria o do sobrevivente César Lemos da
Silva, que chegou a ser dado como morto em alguns noticiários. Entre janeiro e
maio de 2018, ele adulterou esses prontuários, excluindo dados das vítimas —
como nome, CPF e filiação — e inserindo no seu lugar as informações de pessoas
vivas.
No
interrogatório, Almeida admitiu que, ao assistir a notícia do naufrágio na
televisão, enxergou ali uma “oportunidade”, pois, como os tripulantes tinham
morrido, “não iriam mais utilizar essas carteiras”. Esse não foi um caso
isolado. Ele procurava nos jornais por notícias de fluviários mortos e usava
esses registros para distribuir carteiras. O caso dele foi apelidado dentro da
Marinha de “The Walking Dead” (ou “Os Mortos-Vivos”), uma referência à famosa
série de televisão sobre zumbis. A demonstração do uso de dados de pessoas que
já faleceram pesa no convencimento e na comprovação da vontade clara de cometer
o crime, explica o especialista em Direito Militar Julio Philbert. A presidente
da Comissão de Direito Militar da Ordem dos Advogados do Brasil do Rio de
Janeiro, a OAB-RJ, Alessandra Wanderley, afirmou ao Intercept que, em termos
práticos, isso significa que o juiz pode aumentar a punição acima do mínimo
previsto em lei. Os registros usados por Almeida incluíam: o de Dick Farney de
Oliveira Costa, capitão fluvial – posto mais alto da carreira dos fluviários –
cujo prontuário foi utilizado para habilitar indevidamente Raimundo Morais
Santiago Neto; o de Dárcio Vânio Rego de Sena, piloto fluvial; o de Carlos
Eduardo Bueno de Souza, mestre fluvial; o de Cleber Rodrigues Azevedo,
contramestre fluvial; o de Ivan Furtado da Gama, marinheiro fluvial de convés;
o de Wandel Ferreira de Lima, condutor maquinista fluvial, usado para
beneficiar Geraldo Raimundo Ribeiro; e até o do cozinheiro Juraci dos Santos
Brito, cargo que precisa de experiência e formação.
Em 2020
a Marinha instituiu novos controles. As mudanças impossibilitaram alterações
diretas, pois exigiam a análise de um órgão superior de aprovação. Mesmo assim
o sistema ainda se mostra vulnerável, pois em 2022 e 2023 voltou a ser fraudado
por um outro suboficial. As carteiras são almejadas porque a jornada para se
chegar ao topo da carreira dos fluviários não é tão simples. Um aquaviário
precisa, além de todos os cursos de formação, ter acumulado cerca de oito anos
de experiência nas categorias anteriores, passando dois anos em cada categoria
inferior até subir para a próxima e assim sucessivamente. Já para atingir os
cargos mais altos, como de capitão fluvial ou piloto fluvial, o aquaviário
precisa de recomendação, algo que não se fazia necessário nas mãos de Almeida,
que alterava somente os dados pessoais para que os pré-requisitos permanecessem
preenchidos e a burla ao sistema se perpetuasse. A recomendação precisa ser
dada por uma empresa de navegação, atual ou futura empregadora do aquaviário, e
tem que ser assinada pelo gerente de recursos humanos. Nos casos em que o
aquaviário não preste serviço para uma empresa em específico, a recomendação
tem que ser dada pelo proprietário ou pelo comandante (dono) de uma embarcação.
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O esquema naufragou
O
esquema de Almeida começou a ruir em 26 de fevereiro de 2019, a partir de uma
fiscalização de rotina da Delegacia Fluvial de Porto Velho (atual Capitania
Fluvial de Porto Velho), em Rondônia. Em depoimento, o sobrevivente César Lemos
da Silva disse que, ao despachar uma embarcação da Bertolini, militares da
delegacia informaram que “havia duas pessoas com o mesmo [meu] número de
inscrição, pois ao verificarem no sistema da Marinha, no meu número aparecia o
nome de outra pessoa”. Mas não identificaram nem quiseram saber o motivo da
divergência.
Silva,
morador da cidade de Santarém, no Pará, localizada a 1.417 quilômetros de
distância de carro de Humaitá, no Amazonas, viu seus dados sumirem do sistema
de Santarém e aparecerem na agência de Almeida, sem que tivesse pedido a
transferência de um lugar para o outro e sem nunca ter tido vínculo com a
cidade. Àquela altura, os nomes de João Anselmo Pereira Pessoa e Edycarmo
Pinheiro da Silva eram os que apareciam quando se buscava pelo número de
inscrição de Silva.
Naquele
momento, apareceu a figura da encarregada administrativa da Transportes
Bertolini Ltda, empresa na qual Silva trabalhava. Ela tinha sido informada por
e-mail por uma colega da Bertolini de Porto Velho de que a CIR de Silva havia
sido apreendida. A situação causou estranheza e ela decidiu pesquisar por conta
própria o prontuário dele no sistema. Foi quando se surpreendeu ao descobrir
que a carteira dele havia sido não só transferida para a jurisdição de Humaitá
como os dados tinham sido trocados para os de outra pessoa. Tudo sem a
autorização do titular. Como Silva era
sobrevivente do acidente, a funcionária resolveu buscar também pelos nomes dos
demais colegas que haviam morrido no naufrágio e encontrou o mesmo padrão:
transferências para Humaitá e adulterações cadastrais. Foi essa checagem, feita
fora da cadeia interna de controle da Marinha, que levou a denúncia à Capitania
Fluvial da Amazônia Ocidental, a CFAOC, e à instauração do Inquérito Policial
Militar, ou IPM, que levou à condenação de Almeida.
A
encarregada disse, em depoimento que, a partir daquele momento, “passou a
duvidar da credibilidade das informações contidas no sistema e, que, por isso,
decidiu fazer consultas periodicamente”. Durante as buscas, ela detectou que
todas as adulterações tinham sido realizadas na agência de Humaitá. Ela descreveu que “as adulterações eram bem
explícitas e mal feitas, exemplo: CPFs sequenciais (123457) incompletos,
certificados sem período de curso e Ordem de Serviço sem informações de outros
cursos de formação básica, transformando assim uma pessoa numa categoria
superior, sem registro histórico”. Mesmo assim, não foram detectadas pela
Marinha nem levantaram suspeitas durante os quatro anos da atuação do militar.
A situação de Silva somente foi regularizada com a emissão de uma nova CIR após
desgastantes sete meses desde a apreensão de sua carteira, quando teve que
comprovar, uma vez mais perante as autoridades, que possuía os requisitos
necessários. Ele relatou que, de fevereiro a setembro, ficou sem respostas e
sem sua CIR e ainda teve que gastar dinheiro com advogado para resolver o
problema.
As
fraudes tiveram impacto direto também para as famílias das vítimas do acidente.
Por mais de dois anos, elas ficaram impedidas de acessar o seguro, já que os
dados dos tripulantes mortos haviam sido alterados no sistema. Sem esses
registros, a empresa não conseguia emitir documentos básicos que comprovassem
os óbitos em função do trabalho deles. A situação só começou a ser resolvida em
14 de maio de 2020, quando as carteiras foram corrigidas e canceladas. A
embarcação Mercosul Santos tinha seguro para carga e passageiros, e o valor
destinado às famílias das vítimas do comboio da Bertolini chegava a R$ 1 milhão
— um direito que ficou travado porque, no sistema da própria Marinha, aqueles
mortos simplesmente deixaram de existir. Durante a investigação sobre a atuação
de Almeida, peritos fizeram uma auditoria no banco de dados do Sisaqua e
encontraram 5.109 ações vinculadas ao NIP 86.1657.63, pertencente ao
suboficial, entre 25 de novembro de 2014 e 28 de maio de 2018. Dentro desse
universo, os peritos isolaram as 182 alterações fraudulentas e identificaram,
além disso, 210 transferências de jurisdição — sobretudo entre Porto Velho e
Humaitá — e 468 acessos fora do horário de expediente, entre 18h e 22h. No
interrogatório, Almeida admitiu que trabalhava “depois da hora” sob a
justificativa de sobrecarga na agência e alegou que, em alguns momentos,
compartilhava sua senha com ajudantes para dar conta do volume de trabalho — o
que contraria as normas da Marinha. Ele chegou a alterar dados do sistema
depois das 17h do réveillon de dezembro de 2016 e, em tom sarcástico, respondeu
durante as investigações que eram “ossos do ofício”. No fim, Almeida admitiu
que fazia as falsificações sozinho, aproveitando-se do fato de manter o
controle das carteiras em papel moeda guardadas sob chave.
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Uma alma nem tão caridosa assim
Perante
o tribunal, Almeida – ou “comandante Magno” como gostava de ser tratado pela
população de Humaitá – confessou que alterou o Sisaqua, mas negou que tivesse
feito isso em benefício próprio, por dinheiro. A alegação central foi a de
“altruísmo” e “empatia”. Segundo ele, as alterações serviriam para ajudar
ribeirinhos humildes, muitas vezes analfabetos, que sabiam pilotar embarcações
na prática, mas não conseguiriam aprovação nos cursos formais por dificuldade
com as provas escritas. Para explicar a movimentação bancária considerada
“incompatível com a sua remuneração de militar” — apontada pela acusação como
superior a R$ 1,7 milhão, a defesa argumentou que Almeida agia de modo
humanitário, sem qualquer intenção criminosa ou busca por vantagem indevida.
Embora ele alegasse “empatia” pelos ribeirinhos, a quebra de sigilo bancário
revelou exatamente o contrário. A acusação apontou o nexo entre alterações no
sistema e depósitos realizados por quem se beneficiou das fraudes. Ele também
usou o esquema para beneficiar pessoas próximas. Fabricou uma carteira para o
chefe da sua esposa e, em outro caso, concedeu habilitação a um empresário do
setor de turismo para quem havia feito campanha para vereador nas eleições de
2016 e 2020, Luiz Gonzaga Benigno Siqueira, conhecido como Siqueira do Ônibus.
Situação semelhante ocorreu com Gaudêncio dos Santos Filho, dono da empresa
Gaudêncio Navegação, que também recebeu uma carteira emitida por ele.
A
Justiça Militar classificou a conduta de Almeida como um “claro perigo de dano”
e destacou riscos diretos à segurança da navegação e à salvaguarda de vidas
humanas, especialmente na Amazônia, onde os rios funcionam como as principais
vias de transporte. O suboficial Magno
Alves de Almeida foi formalmente acusado de três crimes principais, praticados
de forma reiterada entre 2014 e 2018: inserção de dados falsos em sistema de
informações (art. 313-A do Código Penal comum), corrupção passiva (art. 308, §
1º, do Código Penal Militar) e falsidade documental (art. 311 do Código Penal
Militar).
A
história judicial de Almeida atravessou anos. Ele assumiu a função de
supervisor da EPM em Humaitá em 1º de outubro de 2014. O acidente de 2017
ocorreu em 2 de agosto. A fraude só foi descoberta em 12 de março de 2019 e o
Inquérito Policial Militar foi instaurado oficialmente em 18 de julho daquele
ano. A denúncia foi oferecida pelo Ministério Público Militar em 12 de janeiro
de 2023 e recebida pela Justiça Militar em 25 de janeiro, tornando Almeida
réu. No tribunal, a defesa de Almeida
fez questão de relembrar que ele era um militar exemplar. Seu advogado
argumentou que ele recebeu o título de Cidadão Benemérito do Município de
Humaitá pela Câmara Municipal em 2018, possui o diploma de Amigo do 54º
Batalhão de Infantaria de Selva, o BIS, concedido pelo Exército Brasileiro em
janeiro de 2019, e recebeu a Medalha Militar de Ouro por mais de 30 anos de
serviço na Marinha em maio do mesmo ano – depois da descoberta das fraudes.
Contudo, tais honrarias e prestígio social não foram suficientes para blindar Almeida
de seu encontro com a justiça. Em primeira instância, Almeida foi expulso da
Marinha e condenado em março de 2025 – por inserção de dados falsos e corrupção
passiva – a 18 anos e meio de prisão em regime fechado – mas pode recorrer em
liberdade. Em recurso no Superior Tribunal Militar, o STM, a corte decidiu por
reformar parcialmente a decisão, absolvendo o réu da corrupção passiva, mas
mantendo os 15 anos de reclusão pelas 182 inserções de dados falsos – mais sua
exclusão das Forças Armadas.
No
último dia 11 de junho, o STM rejeitou – por unanimidade – os embargos de
declaração apresentados pela defesa. Esse tipo de recurso não serve, em geral,
para mudar a condenação, mas para pedir que o tribunal esclareça pontos da
decisão que possam estar confusos, incompletos ou contraditórios. Na prática, é
um instrumento usado para corrigir ou detalhar a decisão, sem alterar o
resultado principal do julgamento. Na
contramão desse entendimento, a defesa de Almeida não apontou omissões,
contradições ou qualquer confusão, muito pelo contrário, quis voltar a discutir
o que já havia sido analisado no recurso anterior. Agora, o STM deu aos
advogados de Almeida até o fim do dia 14 de agosto para tentar um último apelo
ao Supremo Tribunal Federal, o STF, antes que sua sentença finalmente transite
em julgado. Abrimos o espaço para que a defesa de Almeida se pronunciasse,
entretanto os advogados Dagmo Varela da Cunha e Thiago Marinho de Souza
disseram que a eles não interessa responder aos questionamentos feitos pela
reportagem. “A exclusão não é automática apenas com a sentença penal”, explica
a presidente da Comissão de Direito Militar da OAB-RJ, Alessandra Wanderley.
Embora a condenação seja a base, a perda do cargo e dos benefícios depende – no
caso do suboficial – de um processo próprio dentro da Marinha. Ou seja, mesmo
condenado, o militar ainda precisa passar por outra etapa formal para ser
efetivamente expulso — o que pode levar tempo indefinido.
Almeida
continua aparecendo como servidor público federal da reserva militar vinculado
à Marinha no Portal da Transparência, com remuneração mensal bruta de pouco
mais de R$ 13 mil — e assim deve permanecer. É o que explica o especialista em
Direito Militar Julio Philbert. “A questão previdenciária é uma celeuma à
parte. Embora a corte militar possa decidir pela expulsão de um militar, essa
classe tem a regra da morte ficta, na qual, mesmo quando expulsos depois de
aposentados, eles mantêm o salário como uma pensão. Por isso, a morte ficta”,
afirma. Na prática, o mecanismo criado
pelo artigo 20 da lei nº 3.765 de 1960 trata o militar expulso como se
estivesse morto para fins de pensão. Ou seja, mesmo afastado por decisão
judicial e condenado por crimes, o pagamento continua existindo na forma de
benefício previdenciário destinado aos dependentes. A regra foi criada
originalmente para proteger famílias de militares, mas hoje é alvo de críticas
por manter recursos públicos associados a pessoas expulsas das Forças Armadas,
muitas vezes após condenações graves. O
próprio Tribunal de Contas da União tem questionado o instituto, defendendo que
pensões militares deveriam existir apenas em casos de morte real, e não como
consequência indireta da expulsão. Em 2024 as Forças Armadas pagaram mais de R$
40 milhões por ano em pensão por morte ficta de militares que cometeram crimes
como homicídio, tráfico internacional de drogas e até tentativa de estupro.
Os
casos de venda de carteiras não são isolados — e mostram que a falha continua a
existir. Antes de Almeida, o sargento Paulo Soares da Silva Filho já havia
fraudado o Sisaqua entre 2009 e 2010; anos depois, em 2024, outro suboficial
foi denunciado pelo mesmo tipo de manipulação. Em comum, os três esquemas
atravessam mais de uma década sempre com acesso direto ao sistema e sem
controles efetivos — e nenhum deles foi descoberto pela própria Marinha. Ainda assim, não há evidência de correção
estrutural: entre 2014 e o início de 2026, apenas seis carteiras foram
canceladas em toda a região amazônica, sem que a própria força consiga explicar
os motivos. O resultado é um sistema que segue vulnerável, mesmo após
sucessivas fraudes que colocaram em risco a segurança da navegação e a vida de
quem depende dos rios. Questionada, a Marinha optou por não responder às
perguntas feitas pela reportagem.
Fonte:
Por Cecília Olliveira e Vinícius Madureira, em The Intercept

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