A
política sem culpa: por que o escândalo já não derruba ninguém
Durante
décadas, acreditou-se que grandes escândalos destruíam carreiras políticas.
Hoje, em muitos casos, ocorre exatamente o contrário. Este ensaio investiga a
arquitetura psicológica, cultural e tecnológica dessa inversão histórica e
propõe uma interpretação original: o escândalo não perdeu importância; ele
mudou de função. Em uma sociedade moldada pela fricção zero, pela
metaintermediação algorítmica e por operações permanentes de engenharia da
subjetividade, a denúncia pode deixar de produzir vergonha para produzir
pertencimento.
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O escândalo mudou de função
As
grandes transformações políticas raramente anunciam a própria chegada. Elas
preservam as instituições, mantêm o vocabulário da democracia e reproduzem a
aparência da normalidade. O que muda é mais difícil de perceber. Mudam as
relações invisíveis que organizam o comportamento coletivo. Foi exatamente isso
que aconteceu com o escândalo político.
Durante
muito tempo, a denúncia pública de um ato de corrupção, de um abuso de poder ou
de uma grave transgressão ética acionava um mecanismo relativamente previsível
de responsabilização. O escândalo produzia desgaste, o desgaste comprometia a
confiança e a perda da confiança limitava a capacidade de um líder preservar
sua legitimidade. Essa relação jamais foi automática. A história sempre
conheceu governantes capazes de sobreviver a crises profundas. O que existia
era outra coisa: um horizonte compartilhado segundo o qual a acumulação de
escândalos elevava progressivamente o custo político de permanecer ao lado do
acusado.
Esse
horizonte começou a desaparecer. Não porque a corrupção tenha deixado de
existir, nem porque as denúncias tenham perdido visibilidade. O que se alterou
foi a maneira como elas passaram a ser incorporadas ao comportamento político.
Em vez de produzir afastamento, passaram frequentemente a fortalecer vínculos.
Em vez de corroer lideranças, consolidaram identidades. Em vez de ampliar o
isolamento dos acusados, reforçaram comunidades inteiras organizadas em torno
deles. O escândalo permaneceu o mesmo. Mudaram as condições históricas que
determinam seus efeitos.
As
interpretações mais correntes continuam procurando respostas onde o problema já
não está. Ora atribuem essa transformação à ignorância do eleitor, ora ao poder
das plataformas digitais, ora à disseminação da desinformação. Nenhuma dessas
explicações é suficiente. Todas descrevem dimensões importantes da realidade,
mas permanecem prisioneiras da mesma premissa: a de que o escândalo continua
desempenhando a função política que desempenhava antes e que apenas alguns
fatores externos passaram a impedir seu funcionamento. Talvez a hipótese
correta seja exatamente a inversa. Talvez não estejamos diante de um mecanismo
interrompido, mas de um mecanismo transformado.
Essa
mudança desloca completamente a investigação. O problema já não consiste em
compreender por que determinados líderes sobrevivem aos escândalos, mas por que
o próprio escândalo deixou de exercer a função política que desempenhou durante
boa parte da experiência democrática moderna. É essa a hipótese que organiza
este ensaio. O escândalo não perdeu importância. Mudou de função. E, quando
muda a função política do escândalo, muda também a forma como a democracia
produz responsabilização, pertencimento e poder.
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A reorganização da subjetividade política
Se o
escândalo mudou de função, a transformação não pode ser explicada apenas pela
política institucional. Nenhuma sociedade altera tão profundamente seus
mecanismos de responsabilização porque determinados líderes aprenderam a
comunicar melhor ou porque novas tecnologias passaram a circular informações
com maior velocidade. Mudanças dessa natureza atingem um plano muito mais
profundo. Elas reorganizam a maneira como indivíduos constroem vínculos,
atribuem confiança, reconhecem autoridades e produzem sentido para a
experiência coletiva. Antes de modificar eleições, modificam subjetividades.
Esse
deslocamento rompe uma das ilusões mais persistentes da política moderna.
Costumamos imaginar que primeiro acreditamos e só depois agimos. A experiência
histórica sugere o inverso. Comportamentos não permanecem porque parecem
verdadeiros. Permanecem porque ambientes inteiros aprendem a recompensá-los. É
nesse terreno que a política deixa de ser apenas uma disputa entre ideias e
passa a ser uma disputa pelas condições que tornam determinados comportamentos
mais prováveis do que outros.
Essa
percepção aproxima a psicologia do problema clássico da hegemonia. Nenhuma
ordem social permanece porque convence continuamente todos os indivíduos. Ela
se estabiliza quando determinados modos de perceber, interpretar e agir deixam
de ser experimentados como escolhas e passam a parecer naturais. A hegemonia
não habita apenas os discursos. Habita hábitos, expectativas, rotinas, afetos e
formas de reconhecimento que, repetidas diariamente, transformam relações
históricas em evidências aparentemente espontâneas. É justamente nesse ponto
que comportamento e hegemonia deixam de ser temas distintos. Ambos tratam da
produção histórica daquilo que uma sociedade aprende a considerar normal.
A
identidade é o ponto em que essa transformação se torna politicamente decisiva.
Nenhum indivíduo julga um escândalo a partir de um vazio psicológico. Julga a
partir dos vínculos que o reconhecem, das comunidades às quais pertence e da
posição que ocupa dentro delas. Quando a identidade passa a organizar a
experiência política, a denúncia deixa de atingir apenas um líder. Atinge
também aqueles que aprenderam a reconhecer parte de si mesmos nesse vínculo. É
nesse momento que defender um projeto político pode ser vivido, antes de tudo,
como uma forma de defender a própria identidade.
É por
isso que denúncias frequentemente deixam de produzir os efeitos esperados. Não
porque as pessoas ignorem os fatos, mas porque esses fatos chegam a indivíduos
cuja experiência política já está organizada por vínculos afetivos, identidades
coletivas e mecanismos permanentes de reconhecimento. A racionalização,
descrita por Leon Festinger, e o desengajamento moral, desenvolvido por Albert
Bandura, deixam de ser anomalias psicológicas para se tornarem respostas
previsíveis em ambientes que recompensam a fidelidade mais do que a revisão
crítica das próprias posições. O comportamento protege a identidade porque a
identidade passou a organizar o comportamento.
Seria
um equívoco, contudo, compreender esse processo como um fenômeno exclusivamente
individual. A subjetividade não nasce encerrada na consciência. Ela é produzida
nas relações sociais, na linguagem, no trabalho, na cultura e nas formas
concretas de participação na vida coletiva. É nesse terreno que a psicologia
social crítica de Sílvia Lane e Martín-Baró amplia decisivamente o problema. O
sujeito não é apenas alguém que reage ao mundo. É alguém continuamente
produzido por relações históricas de poder. Quando essas relações se
transformam, transformam-se também as formas pelas quais medo, confiança,
pertencimento e lealdade passam a organizar o comportamento político.
Talvez
essa seja a mudança menos visível da democracia contemporânea. A disputa deixou
de concentrar-se apenas na conquista da opinião pública. Ela passou a incidir
sobre os próprios processos de formação da subjetividade. Antes de convencer,
tornou-se necessário organizar os ambientes nos quais as pessoas aprendem quem
merece confiança, quais vínculos devem ser preservados e que tipo de
comportamento será reconhecido como legítimo. O centro de gravidade da política
deslocou-se silenciosamente da persuasão para a produção das condições sociais
que tornam a persuasão quase desnecessária.
É nesse
ponto que emerge a questão decisiva deste ensaio. Se a subjetividade passou a
ser organizada por novas formas de reforço, reconhecimento e pertencimento,
quem reorganizou esse ambiente? É essa pergunta que nos conduz ao verdadeiro
centro da transformação política contemporânea.
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A arquitetura invisível do comportamento
Nenhuma
transformação descrita até aqui ocorreu espontaneamente. Se a subjetividade
política passou a organizar-se de outra maneira, é porque também se
transformaram os ambientes responsáveis por selecionar comportamentos,
distribuir reconhecimento e produzir confiança. Toda ordem social depende de
uma arquitetura que orienta, de forma mais ou menos invisível, aquilo que seus
membros percebem como normal, desejável ou legítimo. A novidade do capitalismo
informacional não está apenas na capacidade de produzir informação em escala
inédita. Está na capacidade de organizar, em tempo real, os ambientes onde essa
informação será interpretada.
A
transformação decisiva não ocorreu na circulação das informações, mas na
reorganização dos ambientes onde elas passam a adquirir significado. É esse
deslocamento que denomino metaintermediação algorítmica. As plataformas
deixaram de intermediar apenas conteúdos. Passaram a intermediar as próprias
mediações, selecionando antecipadamente os circuitos de confiança, os
enquadramentos da realidade e as comunidades de pertencimento. A consequência
mais profunda dessa reorganização é a redução contínua da fricção necessária ao
pensamento crítico. Quanto menor o intervalo entre estímulo e resposta, menor o
espaço para comparação, hesitação e revisão. A fricção zero deixa, assim, de
ser apenas uma característica técnica das plataformas. Torna-se a forma
dominante de organização da experiência política.
É nesse
contexto que emerge a ideologia da fricção zero. Toda experiência crítica
depende de algum grau de atrito. A dúvida, a comparação, a demora e a hesitação
não representam obstáculos ao pensamento democrático. Constituem sua condição
de existência. A fricção obriga o sujeito a confrontar diferenças, revisar
certezas e sustentar a complexidade do real. A lógica dominante das plataformas
segue o caminho inverso. Seu objetivo permanente consiste em reduzir o
intervalo entre estímulo e resposta, tornando a interação cada vez mais fluida,
previsível e contínua. O resultado não é apenas uma aceleração da comunicação.
É uma transformação da própria ecologia cognitiva onde decisões políticas
passam a ser produzidas.
Essa
mudança altera profundamente o funcionamento do escândalo. A denúncia já não
chega a um espaço aberto de deliberação. Ela desembarca em ambientes
previamente organizados por vínculos afetivos, comunidades de confiança e
sistemas permanentes de reforço. O fato continua importante, mas deixa de
ocupar sozinho o centro da interpretação. Antes que qualquer reflexão se
desenvolva, a arquitetura do ambiente já oferece enquadramentos, distribui
recompensas simbólicas e orienta respostas emocionalmente estáveis. A disputa
desloca-se do conteúdo da informação para as condições que determinam sua
recepção.
Talvez
seja esse o aspecto mais invisível da política contemporânea. O poder já não
depende apenas da capacidade de convencer. Depende, sobretudo, da capacidade de
organizar os ambientes onde o convencimento se torna desnecessário. Quando
pertencimento, reconhecimento e identidade passam a ser continuamente
reforçados por arquiteturas capazes de antecipar expectativas e reduzir a
fricção cognitiva, o comportamento político adquire uma estabilidade inédita. A
lealdade deixa de depender da força dos argumentos. Passa a depender da
qualidade do ambiente que a sustenta.
É
justamente por isso que o escândalo mudou de função. Ele não encontrou apenas
novos eleitores. Encontrou uma nova arquitetura do comportamento. E toda
arquitetura produz, inevitavelmente, uma nova forma de poder.
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A política sem culpa
Toda
ordem política produz uma determinada economia moral. Não porque elimine os
conflitos ou uniformize consciências, mas porque estabelece quais
comportamentos serão reconhecidos, quais desvios serão tolerados e quais
limites não poderão ser ultrapassados sem consequências. Durante grande parte
da experiência democrática moderna, o escândalo ocupou um lugar central nessa
economia. Funcionava como um mecanismo de responsabilização pública. Não
impedia a corrupção, nem garantia a integridade das instituições. Ainda assim,
preservava a expectativa de que determinadas transgressões produziriam custos
políticos capazes de limitar o exercício do poder.
Essa
expectativa deixou de organizar a democracia contemporânea da mesma maneira.
A
mudança não reside na perda dos valores morais nem na incapacidade dos cidadãos
de distinguir o certo do errado. Tampouco resulta exclusivamente da ascensão
das plataformas digitais ou da circulação de desinformação. O que se
transformou foi a arquitetura histórica que conecta julgamento moral,
identidade, pertencimento e comportamento político. A culpa continua existindo.
A responsabilização continua sendo um ideal democrático. O que deixou de
existir, em muitos contextos, foi a relação relativamente direta entre uma
denúncia pública e a reorganização do comportamento eleitoral.
É
precisamente nesse deslocamento que o escândalo muda de função. Quando
comunidades políticas passam a organizar-se em torno de identidades
continuamente reforçadas por ambientes de reconhecimento permanente, a denúncia
deixa de representar apenas um fato que exige avaliação. Ela passa a disputar
espaço com vínculos afetivos, lealdades acumuladas e formas de pertencimento
cuidadosamente produzidas ao longo do tempo. O comportamento deixa de responder
prioritariamente à gravidade da acusação e passa a responder às consequências
sociais de aceitá-la ou rejeitá-la. A política deixa de ser organizada
principalmente pela culpa. Passa a ser organizada pela administração do
pertencimento.
Talvez
essa seja a transformação mais profunda da democracia no século XXI. O centro
da disputa política deslocou-se silenciosamente das instituições para a
subjetividade. Já não basta conquistar governos, maiorias parlamentares ou
espaços de comunicação. Torna-se decisivo organizar os ambientes onde
identidades são produzidas, afetos são distribuídos e comportamentos são
continuamente selecionados. É nesse terreno que a extrema-direita demonstrou
uma capacidade estratégica superior à de seus adversários. Sua principal
vitória não consistiu em convencer milhões de pessoas de que seus líderes são
inocentes. Consistiu em construir ecossistemas sociais nos quais a lealdade
produz mais reconhecimento do que a responsabilização.
Essa
constatação possui consequências que ultrapassam em muito o destino eleitoral
de qualquer liderança. Se o escândalo deixou de cumprir a função disciplinadora
que durante décadas estruturou parte da imaginação democrática, talvez não seja
apenas a política que esteja mudando. Talvez tenham mudado também as premissas
sobre as quais continuam operando o jornalismo, o sistema de justiça, os
partidos e grande parte das instituições que ainda apostam na simples exposição
dos fatos como mecanismo suficiente de transformação da realidade. A informação
permanece indispensável. Mas já não basta. Nenhuma democracia consegue
sustentar-se apenas produzindo evidências quando outras forças passaram a
organizar, antecipadamente, as condições sob as quais essas evidências serão
percebidas.
É por
isso que compreender o presente exige deslocar o olhar. O problema já não
consiste apenas em denunciar mentiras, revelar escândalos ou desmontar
campanhas de desinformação. Tudo isso continua indispensável. Mas a disputa
decisiva deslocou-se para outro lugar: as condições históricas que organizam
confiança, pertencimento e lealdade. Enquanto continuarmos combatendo apenas as
mensagens, permanecerá intacta a arquitetura que produz seus efeitos.
O
escândalo continua existindo. A corrupção continua existindo. A mentira
continua existindo. O que deixou de existir foi a expectativa de que sua
simples revelação bastasse para reorganizar o comportamento político. Talvez
essa seja a transformação mais profunda da democracia contemporânea. A maior
vitória da extrema-direita não foi convencer milhões de pessoas de que seus
líderes eram inocentes. Foi alterar as condições históricas sob as quais a
democracia produz lealdade.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

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