O
trabalho na escola pública
Sete e
dez de uma manhã qualquer. O sinal já tocou, as turmas subiram, e a escola
parece funcionar sozinha. Parece. Na sala do sexto ano, uma professora
abandona, nos primeiros minutos, o que havia planejado na véspera: três
crianças chegaram agitadas, cada uma com uma história diferente e uma delas sem
dormir contando que a polícia invadiu a casa de madrugada para prender o tio
traficante, e não há material didático no mundo que atravesse esse começo de
dia sem antes escutá-lo.
Na
cozinha, alguém separa leite e bolachas porque uma criança chegou com fome e
estava passando mal. Não há comida em casa. No portão, o inspetor chama pelo
nome o menino que chegou atrasado pela terceira vez na semana e, em vez de
registrar uma nova ocorrência, pergunta o que está acontecendo em casa. Nada
disso está previsto em documento algum. Nenhuma dessas decisões será
contabilizada, avaliada ou reconhecida como trabalho. E, no entanto, é disso
que a escola pública é feita.
Em
1973, no período mais duro da ditadura militar, a banda Secos & Molhados
gravou, no álbum de estreia, um poema de João Apolinário musicado por seu
filho, João Ricardo. Chama-se Primavera nos dentes e fala da coragem de quem,
sem sair do lugar em que está, inventa contra a mola que resiste. O disco
inteiro é feito assim, de poesia posta sob censura, e pede leitura política. A
que me interessa é a mais literal. Quem inventa não está fora da máquina. Está
dentro dela, é peça dela, e é exatamente daí que a invenção se faz: não apesar
da engrenagem, mas contra a mola, em atrito com ela. A invenção não vem de um
lugar limpo, exterior, protegido. Vem do lugar onde a coisa aperta.
Quem
trabalha na escola pública sabe disso antes de qualquer teoria. Nenhuma reforma
educacional foi jamais inventada dentro de uma sala de aula, mas todas elas só
existem, de fato, quando alguém que está dentro de uma sala de aula decide o
que fazer com elas. Entre o que se prescreve e o que se pratica há uma
distância que nenhum sistema conseguiu eliminar. É nessa distância que vive o
cotidiano escolar. E é essa distância que, há pelo menos três décadas, a
racionalidade que governa as políticas educacionais tenta suprimir.
Convém
nomear a mola. Ela tem forma de material apostilado que chega pronto, com o
número da página e o dia da semana em que cada atividade deve ser feita. Tem
forma de plataforma digital que registra tudo o que o professor faz e devolve o
registro em painel colorido. Tem forma de avaliação externa em larga escala, de
meta pactuada, de índice, de bonificação por resultado, de ranking entre
escolas da mesma rede que atendem territórios radicalmente diferentes.
Tem
forma de formação continuada que virou treinamento para uso de sistema. Tem
forma, sobretudo, de tempo: o tempo é o principal objeto de captura. Se sobra
tempo coletivo numa escola, alguma coisa é criada ali; por isso o tempo
coletivo é o primeiro a ser convertido em repasse de informação, preenchimento
de formulário e leitura de comunicado.
Chamo
isso, neste texto, de racionalidade gerencial, seguindo o que a pesquisa
educacional vem nomeando assim há pelo menos duas décadas, a forma que a razão
neoliberal assume quando entra na escola, não como recuo do Estado, mas como
excesso de prescrição, medição e controle.
Essa
racionalidade não se apresenta como autoritária. Ao contrário: apresenta-se
como eficiência, como equidade, como cuidado com a aprendizagem de quem mais
precisa. Fala a língua da qualidade, e é preciso reconhecer que essa língua é
sedutora justamente porque nomeia problemas reais. Há desigualdade brutal de
aprendizagem na escola pública brasileira e ela tem cor, tem renda e tem
endereço.
O que a
racionalidade gerencial faz é oferecer a essa desigualdade uma solução que a
converte em problema técnico, tratável por padronização, medição e controle do
trabalho docente. O professor deixa de ser alguém que decide e passa a ser
alguém que executa bem. José Contreras nomeou esse processo com precisão:
proletarização, perda de controle sobre o próprio trabalho, separação entre
quem concebe e quem realiza. O horizonte é o material didático à prova de
professor, que funcionaria igualmente bem em qualquer sala, com qualquer turma,
nas mãos de qualquer pessoa. É um horizonte que só faz sentido se o encontro
entre uma professora ou um professor e vinte e cinco, trinta, quarenta
estudantes for considerado irrelevante.
Mas a
engrenagem nunca fecha por completo. Michel de Certeau ofereceu, para pensar
isso, uma distinção que continua sendo das mais úteis que temos. A estratégia é
própria de quem dispõe de um lugar próprio, de onde pode calcular, planejar e
produzir o espaço em que os outros vão se mover: a secretaria de educação, o
sistema de ensino, o produtor do material.
A
tática é a arte de quem não tem lugar próprio e opera no terreno do outro,
aproveitando ocasiões, jogando com o tempo, fazendo com o que há. A tática não
muda a estrutura do jogo. Ela cria, dentro do jogo, um uso não previsto. Michel
de Certeau chamou isso de “artes de fazer”, e insistiu que o consumo, longe de
ser passivo, é uma produção silenciosa, dispersa, quase invisível porque não se
manifesta em produtos próprios, mas em maneiras de usar os produtos dos outros.
O
cotidiano da escola pública é um museu vivo de artes de fazer. A professora que
cumpre a sequência do material, mas inverte a ordem, corta a metade e usa o
tempo economizado para ler um livro inteiro com a turma. A que transforma a
atividade de interpretação de texto padronizada em roda de conversa sobre o que
aconteceu no bairro no fim de semana. A que aplica a avaliação externa porque é
obrigatória e, no dia seguinte, discute com as crianças o que aquela prova mede
e o que ela não mede.
As duas
professoras que trocam turma entre si por uma semana porque perceberam que o
assunto renderia mais assim, sem pedir autorização a ninguém, porque não há a
quem pedir e porque a autorização demoraria mais que o assunto. A equipe que
reescreve o projeto político-pedagógico sabendo que ninguém vai ler o documento
na diretoria de ensino, mas que o processo de reescrevê-lo é a única ocasião do
ano em que a escola inteira conversa sobre o que está fazendo.
Nilda
Alves e a tradição de pesquisa nos, dos e com os cotidianos escolares deram a
essas pessoas um nome que me parece decisivo: praticantespensantes. Escrito
assim, aglutinado, de propósito, porque a separação entre quem pensa e quem
pratica é precisamente o que se quer contestar. Professoras e professores não
aplicam conhecimento produzido fora; tecem saberesfazeres em redes, nos
espaçostempos da escola, misturando o que aprenderam na formação, o que viram
uma colega fazer, o que a experiência de vinte anos ensinou, o que a criança
devolveu ontem e o que a mãe disse no portão. Esse conhecimento existe, tem
consistência e tem história. O que ele não tem é reconhecimento, porque não se
apresenta na forma que o sistema aprendeu a ler.
Aqui,
porém, é preciso frear. Há um risco evidente em tudo o que escrevi até agora, e
é o risco de transformar a precariedade em poesia. Nem toda invenção cotidiana
é resistência. Muita coisa que fazemos na escola pública é improviso forçado
pela falta: a professora que compra papel sulfite com o próprio salário não
está inventando, está sendo espoliada.
A
escola que atende, sozinha, a criança em sofrimento psíquico porque a rede de
saúde mental não existe naquele território não está exercendo autonomia, está
tapando um buraco que o Estado abriu. E há um efeito perverso nesse tapar
buracos: a tática que resolve o problema imediato pode acabar sustentando
exatamente a estrutura que produz o problema. Quando a competência das
professoras compensa o subfinanciamento, o subfinanciamento fica menos visível.
Quando
o compromisso de uma equipe faz a escola funcionar apesar de tudo, o apesar de
tudo se naturaliza. Chamar isso de resistência, e parar por aí, é fazer o
serviço da outra parte. Não por acaso, o adoecimento docente deixou de ser
exceção: afastamentos por transtornos mentais e comportamentais tornaram-se
rotina administrativa nas redes públicas, e não é possível falar em invenção
cotidiana sem falar do preço que ela cobra de quem inventa.
O
segundo risco é o do heroísmo individual. A imagem de quem inventa contra a
mola pode facilmente ser lida como louvor ao professor extraordinário, aquele
que, sozinho, dá conta. É uma leitura que agrada muito ao discurso empresarial
sobre educação, aliás, que ama o professor herói tanto quanto detesta o
professor sindicalizado. Contreras é claro quanto a isso: autonomia não é
independência, não é isolamento, não é a liberdade de fazer o que se quer na
própria sala com a porta fechada.
Autonomia
é uma qualidade da relação, exercida como responsabilidade moral e pública,
construída no diálogo com colegas, com estudantes, com famílias, com a
comunidade. Um gesto isolado, por mais bonito que seja, não altera a escola;
pode até funcionar como válvula de escape que permite tudo continuar igual.
Paulo
Freire dizia que ninguém liberta ninguém e ninguém se liberta sozinho, que os
homens e as mulheres se libertam em comunhão. Aplicada ao trabalho docente, a
frase é menos consoladora do que costuma parecer. Ela significa que a autonomia
de uma professora e de um professor não é uma conquista pessoal a ser exibida,
mas um processo coletivo que precisa de condições materiais e institucionais
para existir.
Significa
também que a escola democrática não é concessão que vem de cima nem atributo
que a categoria já possui por definição: é criação cotidiana, feita e refeita
todos os dias por quem está ali, ou não é nada. E significa, ainda, que
denunciar não basta. A pedagogia freireana articula sempre denúncia e anúncio:
dizer o que é intolerável e, ao mesmo tempo, apontar o inédito viável, aquilo
que ainda não existe mas pode vir a existir porque já se anuncia em alguma
prática, em algum canto, em alguma escola.
O que
muda a escala da invenção, portanto, é o coletivo. É a diferença entre a
professora que fecha a porta e faz diferente e o grupo de professoras/es que
sustenta, publicamente, uma decisão pedagógica comum. É o horário de trabalho
pedagógico coletivo disputado como espaço de conversa sobre o que se faz, e não
como sessão de avisos. É o conselho de escola que delibera de verdade, o grêmio
que funciona, a assembleia de pais que não é só prestação de contas, o
sindicato, a rede de escolas que troca experiência sem intermediação da
secretaria.
É,
também, a escrita entre pares. Tenho acompanhado, em pesquisa de mestrado, o
que acontece quando professoras e professores são convidados a escrever cartas
pedagógicas uns aos outros ou a si mesmos, na tradição epistolar que Freire
cultivou a vida inteira. O que aparece nessas cartas não é queixa, embora haja
queixa. O que aparece é a formulação de um saber que estava ali, funcionando,
sem nunca ter sido dito em voz alta. Escrever transforma a tática em argumento.
E argumento, diferentemente da tática, pode ser sustentado coletivamente,
disputado publicamente, transformado em posição.
Há
ainda uma dimensão dessa disputa que ficou mais evidente nos últimos anos. A
escola pública brasileira é, hoje, uma das últimas instituições em que pessoas
muito diferentes entre si ainda são obrigadas a conviver diariamente no mesmo
espaço. Num país que se fragmenta em condomínios, igrejas, redes sociais e
bolhas algorítmicas, isso não é pouco: é uma das poucas experiências de comum
que restam.
Não por
acaso, é justamente aí que a extrema direita concentrou fogo na última década,
com projetos de mordaça, perseguição a professoras e professores, vigilância
sobre conteúdos, campanhas contra a discussão de gênero, de raça, de ditadura,
de desigualdade. O ataque não é acidental nem periférico. Quem quer sociedade
sem comum precisa destruir os lugares onde o comum ainda se produz. E o comum,
é bom dizer, não é o que sobra do público depois do desmonte: é o que se produz
cotidianamente, na relação entre pessoas que compartilham um problema e decidem
enfrentá-lo juntas.
Por
isso a escola pública não pode ser defendida apenas como serviço a ser
financiado, ainda que precise urgentemente de financiamento. Ela precisa ser
defendida como lugar de invenção, e isso implica defender as condições
concretas da invenção: tempo coletivo remunerado, jornada que caiba num corpo
humano, número de estudantes por turma que permita conhecer cada um pelo nome,
carreira, salário, formação que não seja treinamento, participação real nas
decisões da escola. Sem isso, a invenção continuará acontecendo, porque ela
sempre acontece, mas continuará custando caro demais a quem inventa e rendendo
pouco demais para quem estuda.
Volto à
imagem da canção. Ela não promete vitória. A mola resiste, continua resistindo,
e o verso não diz que ela cede. Diz que se inventa contra ela. Talvez seja essa
a lição mais útil para quem trabalha na escola pública brasileira em 2026: a
resistência da mola não é o fim da invenção, é a condição dela. Não há invenção
no vazio. O que dá forma ao que criamos é justamente aquilo que nos aperta, e
reconhecer isso não é conformismo, é lucidez sobre onde estamos e sobre a força
que temos.
Paulo
Freire chamaria isso de esperança, com a ressalva que ele sempre fazia:
esperança que não é espera, é verbo, é ação, é esperançar. O poema de João
Apolinário, a seu modo, dizia o mesmo: não prometia que a tempestade passasse
e, ainda assim, falava em primavera.
Sete e
dez da manhã seguinte. A professora do sexto ano volta a abrir o mesmo material
didático que abandonou ontem. Cumpre a página. Depois fecha o material e
pergunta às crianças o que elas querem saber. A engrenagem gira. Alguém, no
centro dela, inventa.
Fonte:
Por Sônia Maria Manetta Cobianchi de Oliveira, em A Terra é Redonda

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