Quando
a ciência aprende com a quebrada
A mais
recente edição da revista Diálogos socioambientais, intitulada “Jovens e
Territórios”, não se limita a documentar experiências de participação juvenil:
opera como um dispositivo de descolonização epistemológica, tensionando os
fundamentos mesmos da produção de conhecimento científico.
A
edição é fruto do trabalho do Eixo 9 – Transformação Social face às Mudanças
Climáticas, do Centro de Pesquisa em Resiliência a Crises e Desastres
Climáticos (CLIMARES), e conta com a organização dos professores Pedro Roberto
Jacobi, Leandro Luiz Giatti, Letícia Stevanato Rodrigues e Ariadne Dall’acqua
Ayres, que reuniram contribuições de jovens pesquisadores, lideranças
comunitárias e ativistas de diversos territórios do Brasil.
Estruturada
em seis seções temáticas – contexto, entrevistas, jovens que pesquisam,
interdisciplinar, engajamento e arte –, a publicação conduz o leitor por um
percurso que vai da compreensão ampla das relações entre juventude e território
até a expressão artística como linguagem de resistência. Ao reunir vozes de
jovens pesquisadores de aldeias indígenas, quilombos, reservas extrativistas e
periferias urbanas, a publicação coloca em questão uma pergunta central para o
campo dos estudos de ciência, tecnologia e sociedade: o que conta como
conhecimento legítimo sobre os territórios e quem está autorizado a produzi-lo?
A
leitura dos trabalhos exige, contudo, um deslocamento de olhar e mergulhar em
uma proposta epistemológica que coloca os jovens como produtores legítimos de
conhecimento e os territórios como lócus privilegiado de produção teórica e
política. Os jovens que habitam esses territórios não são apenas informantes ou
objetos de pesquisa, mas sujeitos epistêmicos plenos, capazes de produzir
saberes que frequentemente escapam aos protocolos acadêmicos convencionais.
Essa afirmação dialoga com a tradição crítica da epistemologia, que desde
Platão investiga as condições de possibilidade do conhecimento verdadeiro. No
entanto, a revista opera um deslocamento fundamental: reconhecer a pluralidade
de regimes de verdade que coexistem nos territórios.
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Extrativismo científico
O
artigo de abertura da seção de contexto, escrito por Ariadne Dall’Acqua Ayres e
Crizian Naori Carneiro Kaingang, funciona como um manifesto metodológico para
toda a edição. As autoras propõem uma ruptura com o que denominam “pesquisa
extrativista” – aquela que coleta dados, publica artigos e não devolve nada ao
território. Essa crítica ressoa com a abordagem ciência, tecnologia e sociedade
latino-americana, que desde os anos 1960 e 1970 tem enfatizado o caráter
político das relações entre ciência, tecnologia e sociedade.
Como
aponta o campo ciência, tecnologia e sociedade, os fatos e artefatos
científico-tecnológicos não podem ser bem compreendidos se os aspectos técnicos
forem separados dos aspectos sociais. A revista leva essa premissa às últimas
consequências, argumentando que a própria produção de conhecimento é uma
prática social situada.
A seção
“Jovens que pesquisam” materializa essa nova epistemologia em ação. Ana
Caroline Neres Kaingang, pesquisadora de seu próprio território, descreve sua
pesquisa sobre conhecimentos ancestrais como um processo de escuta, vivência e
reflexão a partir de sua experiência enquanto parte do território. Essa
abordagem tensiona os modelos acadêmicos tradicionais que historicamente
situaram os povos indígenas como objetos de estudo.
Trata-se
do que o campo ciência, tecnologia e sociedade chama de “pesquisa colaborativa
heterogênea”, na qual diferentes perspectivas se encontram para gerar insights
inovadores. A posição da pesquisadora como moradora e pesquisadora
simultaneamente produz um conhecimento que não seria acessível a um observador
externo, por mais bem-intencionado que fosse.
A
dimensão política dessa virada epistemológica é explicitamente assumida ao
longo da publicação. Os jovens pesquisadores de Heliópolis, por exemplo,
desenvolvem suas investigações a partir de um processo de geração cidadã de
dados, contrapondo-se aos discursos do senso comum sobre favelas e comunidades
urbanas. Essa prática ecoa o que o campo ciência, tecnologia e sociedade
latino-americano identifica como uma característica distintiva da região: a
ênfase política nas relações da ciência com a economia, a cultura e o
desenvolvimento dos países. A questão aqui não é produzir conhecimento pelo
conhecimento, mas gerar dados que possam incidir sobre políticas públicas e
transformar realidades concretas.
Nesse
sentido, tal perspectiva se alinha com a abordagem, também, de Paulo Freire,
cuja Teoria da ação dialógica fundamenta metodologias de pesquisa colaborativa
que resultam em transformação dos sujeitos envolvidos. Os encontros dialógicos
propostos por essa tradição metodológica se configuram como espaços onde
pesquisadores e participantes co-constroem conhecimento, produzindo uma
“síntese cultural avançada”.
A
revista documenta diversas experiências que operam nessa chave, como o projeto
“Detetive climático” no Vale do Ribeira, onde estudantes e professores de
escolas rurais cocriaram materiais didáticos sobre justiça climática, ou o
comitê infantojuvenil do Jardim Pantanal, que envolveu crianças na elaboração
de um plano de contingência comunitário.
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Diálogo de saberes e riscos
A
crítica à ciência convencional que perpassa a publicação não implica uma
negação do conhecimento científico, mas sua hibridização com outros saberes.
Como mostram os estudos sobre educação do campo e abordagem ciência, tecnologia
e sociedade, a integração contextualizada do conhecimento científico com as
realidades dos estudantes é essencial para uma educação crítico-reflexiva.
A
revista demonstra que essa integração pode ocorrer de forma produtiva, gerando
inovações metodológicas e epistemológicas. O conhecimento empírico, construído
a partir da vivência prática e transmitido ao longo de gerações, é valorizado
não como complemento ao conhecimento científico, mas como tecnologia
territorial fundamental.
Essa
hibridização é especialmente visível nos relatos sobre reservas extrativistas e
comunidades quilombolas. Os jovens extrativistas do Alto Juruá e da Resex Chico
Mendes descrevem um conhecimento detalhado sobre os ciclos da floresta, as
técnicas de manejo sustentável e os sinais de mudanças climáticas. O saber, que
a epistemologia convencional classificaria como “conhecimento empírico” ou
“senso comum”, é apresentado como fundamental para a adaptação climática. Não é
um conhecimento inferior ao científico, mas um conhecimento diferente,
produzido por uma relação de intimidade com o território que o pesquisador
externo raramente alcança.
A
revista também explicita os riscos e limites da pesquisa colaborativa em
territórios vulnerabilizados. Os jovens pesquisadores de Heliópolis
identificam, entre outros riscos, a possibilidade de que o trabalho seja
percebido como denúncia por atores locais, expondo os pesquisadores a
retaliações. Essa consciência reflete uma compreensão sofisticada das relações
de poder que atravessam a produção de conhecimento – uma compreensão que o
campo ciência, tecnologia e sociedade tem desenvolvido desde suas origens. A
pesquisa, nesse contexto, não é uma atividade neutra, mas uma prática política
que pode tanto fortalecer quanto fragilizar comunidades, dependendo de como é
conduzida.
As
experiências de mapeamento colaborativo descritas na revista ilustram com
clareza o potencial transformador da nova epistemologia. Os mapas produzidos
pelos jovens de Heliópolis e pelos moradores do Jardim Keralux não são meros
registros cartográficos, mas instrumentos de incidência política. Eles revelam
dimensões do território que os dados oficiais frequentemente ignoram: os pontos
de alagamento, as áreas de calor extremo, os trajetos escolares afetados por
enchentes.
Esse
conhecimento situado, produzido a partir da vivência cotidiana, tem uma
precisão territorial que o distingue dos diagnósticos técnicos convencionais.
Trata-se do que a epistemologia contemporânea chama de “conhecimento por
familiaridade” – um saber que não se reduz a proposições abstratas, mas que
envolve uma relação direta com o objeto conhecido.
Ao
reunir essas experiências, a revista Diálogos socioambientais documenta
práticas inovadoras e também constrói um argumento epistemológico robusto: a
ciência que se pretende relevante para o enfrentamento da crise climática
precisa aprender com quem já está no território. Esse aprendizado é ético,
epistemológico e amplia o escopo do que consideramos conhecimento válido.
Como
mostra o campo ciência, tecnologia e sociedade, a complexidade dos problemas
contemporâneos – da doença da vaca louca ao buraco na camada de ozônio –
demanda novas ferramentas analíticas que integrem elementos humanos e não
humanos, técnicos e sociais. A revista nos mostra que essas ferramentas já
estão sendo forjadas nas periferias, nos quilombos e nas aldeias, por uma
geração que se recusa a esperar que a ciência chegue até eles.
Fonte:
Por Cidoval Morais de Sousa, em A Terra é Redonda

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