sábado, 8 de agosto de 2026

Quando a ciência aprende com a quebrada

A mais recente edição da revista Diálogos socioambientais, intitulada “Jovens e Territórios”, não se limita a documentar experiências de participação juvenil: opera como um dispositivo de descolonização epistemológica, tensionando os fundamentos mesmos da produção de conhecimento científico.

A edição é fruto do trabalho do Eixo 9 – Transformação Social face às Mudanças Climáticas, do Centro de Pesquisa em Resiliência a Crises e Desastres Climáticos (CLIMARES), e conta com a organização dos professores Pedro Roberto Jacobi, Leandro Luiz Giatti, Letícia Stevanato Rodrigues e Ariadne Dall’acqua Ayres, que reuniram contribuições de jovens pesquisadores, lideranças comunitárias e ativistas de diversos territórios do Brasil.

Estruturada em seis seções temáticas – contexto, entrevistas, jovens que pesquisam, interdisciplinar, engajamento e arte –, a publicação conduz o leitor por um percurso que vai da compreensão ampla das relações entre juventude e território até a expressão artística como linguagem de resistência. Ao reunir vozes de jovens pesquisadores de aldeias indígenas, quilombos, reservas extrativistas e periferias urbanas, a publicação coloca em questão uma pergunta central para o campo dos estudos de ciência, tecnologia e sociedade: o que conta como conhecimento legítimo sobre os territórios e quem está autorizado a produzi-lo?

A leitura dos trabalhos exige, contudo, um deslocamento de olhar e mergulhar em uma proposta epistemológica que coloca os jovens como produtores legítimos de conhecimento e os territórios como lócus privilegiado de produção teórica e política. Os jovens que habitam esses territórios não são apenas informantes ou objetos de pesquisa, mas sujeitos epistêmicos plenos, capazes de produzir saberes que frequentemente escapam aos protocolos acadêmicos convencionais. Essa afirmação dialoga com a tradição crítica da epistemologia, que desde Platão investiga as condições de possibilidade do conhecimento verdadeiro. No entanto, a revista opera um deslocamento fundamental: reconhecer a pluralidade de regimes de verdade que coexistem nos territórios.

<><> Extrativismo científico

O artigo de abertura da seção de contexto, escrito por Ariadne Dall’Acqua Ayres e Crizian Naori Carneiro Kaingang, funciona como um manifesto metodológico para toda a edição. As autoras propõem uma ruptura com o que denominam “pesquisa extrativista” – aquela que coleta dados, publica artigos e não devolve nada ao território. Essa crítica ressoa com a abordagem ciência, tecnologia e sociedade latino-americana, que desde os anos 1960 e 1970 tem enfatizado o caráter político das relações entre ciência, tecnologia e sociedade.

Como aponta o campo ciência, tecnologia e sociedade, os fatos e artefatos científico-tecnológicos não podem ser bem compreendidos se os aspectos técnicos forem separados dos aspectos sociais. A revista leva essa premissa às últimas consequências, argumentando que a própria produção de conhecimento é uma prática social situada.

A seção “Jovens que pesquisam” materializa essa nova epistemologia em ação. Ana Caroline Neres Kaingang, pesquisadora de seu próprio território, descreve sua pesquisa sobre conhecimentos ancestrais como um processo de escuta, vivência e reflexão a partir de sua experiência enquanto parte do território. Essa abordagem tensiona os modelos acadêmicos tradicionais que historicamente situaram os povos indígenas como objetos de estudo.

Trata-se do que o campo ciência, tecnologia e sociedade chama de “pesquisa colaborativa heterogênea”, na qual diferentes perspectivas se encontram para gerar insights inovadores. A posição da pesquisadora como moradora e pesquisadora simultaneamente produz um conhecimento que não seria acessível a um observador externo, por mais bem-intencionado que fosse.

A dimensão política dessa virada epistemológica é explicitamente assumida ao longo da publicação. Os jovens pesquisadores de Heliópolis, por exemplo, desenvolvem suas investigações a partir de um processo de geração cidadã de dados, contrapondo-se aos discursos do senso comum sobre favelas e comunidades urbanas. Essa prática ecoa o que o campo ciência, tecnologia e sociedade latino-americano identifica como uma característica distintiva da região: a ênfase política nas relações da ciência com a economia, a cultura e o desenvolvimento dos países. A questão aqui não é produzir conhecimento pelo conhecimento, mas gerar dados que possam incidir sobre políticas públicas e transformar realidades concretas.

Nesse sentido, tal perspectiva se alinha com a abordagem, também, de Paulo Freire, cuja Teoria da ação dialógica fundamenta metodologias de pesquisa colaborativa que resultam em transformação dos sujeitos envolvidos. Os encontros dialógicos propostos por essa tradição metodológica se configuram como espaços onde pesquisadores e participantes co-constroem conhecimento, produzindo uma “síntese cultural avançada”.

A revista documenta diversas experiências que operam nessa chave, como o projeto “Detetive climático” no Vale do Ribeira, onde estudantes e professores de escolas rurais cocriaram materiais didáticos sobre justiça climática, ou o comitê infantojuvenil do Jardim Pantanal, que envolveu crianças na elaboração de um plano de contingência comunitário.

<><> Diálogo de saberes e riscos

A crítica à ciência convencional que perpassa a publicação não implica uma negação do conhecimento científico, mas sua hibridização com outros saberes. Como mostram os estudos sobre educação do campo e abordagem ciência, tecnologia e sociedade, a integração contextualizada do conhecimento científico com as realidades dos estudantes é essencial para uma educação crítico-reflexiva.

A revista demonstra que essa integração pode ocorrer de forma produtiva, gerando inovações metodológicas e epistemológicas. O conhecimento empírico, construído a partir da vivência prática e transmitido ao longo de gerações, é valorizado não como complemento ao conhecimento científico, mas como tecnologia territorial fundamental.

Essa hibridização é especialmente visível nos relatos sobre reservas extrativistas e comunidades quilombolas. Os jovens extrativistas do Alto Juruá e da Resex Chico Mendes descrevem um conhecimento detalhado sobre os ciclos da floresta, as técnicas de manejo sustentável e os sinais de mudanças climáticas. O saber, que a epistemologia convencional classificaria como “conhecimento empírico” ou “senso comum”, é apresentado como fundamental para a adaptação climática. Não é um conhecimento inferior ao científico, mas um conhecimento diferente, produzido por uma relação de intimidade com o território que o pesquisador externo raramente alcança.

A revista também explicita os riscos e limites da pesquisa colaborativa em territórios vulnerabilizados. Os jovens pesquisadores de Heliópolis identificam, entre outros riscos, a possibilidade de que o trabalho seja percebido como denúncia por atores locais, expondo os pesquisadores a retaliações. Essa consciência reflete uma compreensão sofisticada das relações de poder que atravessam a produção de conhecimento – uma compreensão que o campo ciência, tecnologia e sociedade tem desenvolvido desde suas origens. A pesquisa, nesse contexto, não é uma atividade neutra, mas uma prática política que pode tanto fortalecer quanto fragilizar comunidades, dependendo de como é conduzida.

As experiências de mapeamento colaborativo descritas na revista ilustram com clareza o potencial transformador da nova epistemologia. Os mapas produzidos pelos jovens de Heliópolis e pelos moradores do Jardim Keralux não são meros registros cartográficos, mas instrumentos de incidência política. Eles revelam dimensões do território que os dados oficiais frequentemente ignoram: os pontos de alagamento, as áreas de calor extremo, os trajetos escolares afetados por enchentes.

Esse conhecimento situado, produzido a partir da vivência cotidiana, tem uma precisão territorial que o distingue dos diagnósticos técnicos convencionais. Trata-se do que a epistemologia contemporânea chama de “conhecimento por familiaridade” – um saber que não se reduz a proposições abstratas, mas que envolve uma relação direta com o objeto conhecido.

Ao reunir essas experiências, a revista Diálogos socioambientais documenta práticas inovadoras e também constrói um argumento epistemológico robusto: a ciência que se pretende relevante para o enfrentamento da crise climática precisa aprender com quem já está no território. Esse aprendizado é ético, epistemológico e amplia o escopo do que consideramos conhecimento válido.

Como mostra o campo ciência, tecnologia e sociedade, a complexidade dos problemas contemporâneos – da doença da vaca louca ao buraco na camada de ozônio – demanda novas ferramentas analíticas que integrem elementos humanos e não humanos, técnicos e sociais. A revista nos mostra que essas ferramentas já estão sendo forjadas nas periferias, nos quilombos e nas aldeias, por uma geração que se recusa a esperar que a ciência chegue até eles.

 

Fonte: Por Cidoval Morais de Sousa, em A Terra é Redonda

 

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