sábado, 8 de agosto de 2026

A extrema-direita investe pesado nas mulheres submissas, ajudadoras e cuidadoras

O deputado Alfredo Gaspar, escolhido como vice de Flávio Bolsonaro, passou por um constrangimento logo depois do anúncio do seu nome na chapa do filho ungido. Espalhou-se por jornais, sites e redes sociais que o político do PL de Alagoas é investigado pela Polícia Federal pela acusação de ter estuprado uma criança de 13 anos.

Era uma informação incorreta. A Polícia Federal quer investigar o deputado do PL de Alagoas. Quer, mas não consegue desde 15 de abril, quando o pedido de abertura de inquérito foi encaminhado ao Supremo por causa do foro privilegiado.

O caso está com o ministro Gilmar Mendes, que solicitou manifestação da Procuradoria-Geral da República. A PGR pediu mais diligências à PF, e não se sabe mais nada. Mas nós sabemos que o filho de Lula, que eles chamam de Lulinha, já é investigado em três inquéritos abertos em tempo recorde por ser amigo de uma lobista. Não há prova de que pegou dinheiro de ninguém, de que foi corrompido ou de que cometeu algum crime com violência contra vulnerável.

Mas é investigado em três inquéritos e pode ter a vida devassada por outros tantos. Os jornalões dizem saber tudo sobre a vida de Fábio Luís e da amiga dele, mas não sabem nada e nunca saíram atrás do caso em que o vice de Flávio é acusado de violentar uma criança.

A Folha mobilizou três repórteres – Laura Scofield, Luísa Martins e Augusto Tenório – para informar na edição desta quinta-feira que não conseguiu nenhuma informação sobre a evolução da tentativa da PF de abrir o inquérito. Nada.

Mas repetiu o que todos sabem: que o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) e a senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) dizem ter evidências e indícios do estupro e por isso apresentaram notícia-crime contra o deputado à PF em março.

A Folha, O Globo, o Estadão e todos os veículos de corporações sabem quantas vezes a amiga do filho de Lula passou por cancelas de órgãos do governo. Mas não sabem nada sobre o caso do homem escolhido para ser vice de Flávio.

Desde abril, quando a PF pediu a abertura de inquérito, nada sabem além do que todo mundo sabe: que a menina que teria sido estuprada tem hoje 22 anos, que teve uma filha hoje com oito anos e que essa criança foi registrada com o nome da avó; que o deputado apresentou um exame de DNA para confrontá-lo com o de uma criança indicada por ele, mas essa criança seria outra, e não a que nasceu do estupro; e que emissários do deputado estariam tentando subornar a família para que tudo fique como está.

Se depender da grande imprensa que caça o filho de Lula, tudo ficará. Porque o importante, como ficou explicitado na tática do fascismo, é ter um vice moralista para cercar Lula. Alfredo Gaspar teria estofo moral para ajudar nesse cerco por ter presidido a CPMI do INSS.

O vice de Flávio pode ser usado contra Fábio Luís pelas informações que reuniu na CPMI. Saberemos mais coisas comprometedoras sobre a amiga do filho de Lula e talvez não tenhamos muita coisa sobre o vice de Flávio. E assim caminha a candidatura do filho ungido, sempre no sentido de fortalecimento dos valores éticos e morais.

O próprio candidato a presidente, na tentativa de aproximação com o eleitorado feminino, disse no anúncio do vice que mulheres são cuidadoras de homens velhos. Michelle, a madrasta dele, repete um aconselhamento bíblico para que mulheres sejam ajudadoras dos homens.

O enteado oferece outra abordagem: “Muitas vezes, na grande parte das vezes, quem tem que tomar conta dos idosos são as mulheres. Eu fiz duas filhas exatamente para isso. Quando eu ficar velhinho, eu vou ter quem vai tomar conta de mim porque as mulheres são assim”.

Parece uma barbeiragem, mas não é. Flávio calibrou seu discurso para ficar bem com as mulheres, que preferem Lula. Mas seu foco é bem orientado. Análises da mais recente pesquisa Quaest mostram que ele cresceu entre eleitores ultraconservadores e conservadores.

A orientação da campanha é esta: que reafirme os valores da família, da moralidade e da fé cristã, como o pai dele sempre fez e conseguiu conquistar metade do eleitorado brasileiro. O bolsonarismo acredita que a fala de Flávio e a escolha do vice andam nessa direção.

Flávio desiste de chegar à eleitora que o rejeita e decide investir na fidelização e no alargamento do alcance do seu discurso entre as conservadoras e submissas, mesmo que não sejam bolsonaristas. Que sejam exaltadas como ajudadoras e cuidadoras e sigam o voto dos seus homens. As outras que votem em Lula.

(Mulheres cuidadoras, na maioria das vezes invisíveis, que cuidam de parentes ou de familiares de pessoas que nem conhecem, mereceriam maior respeito de um sujeito que a própria madrasta definiu como machista e autoritário.)

•        Chapa Flávio-Gaspar perpetra a maior agressão às mulheres e à sociedade civilizada. Por  Marco Damiani

As mulheres, em primeiro lugar, os homens, as pessoas de bem que fazem parte de todos os gêneros e, ainda, os vulneráveis e menores de idade encontram na chapa Flávio Bolsonaro-Alfredo Gaspar, do PL, a maior ameaça eleitoral desde a redemocratização do País. Até onde a vista alcança, a oferta do PL à disputa, consumada ontem, é a maior provocação e incentivo a crimes de misoginia de toda a história das eleições presidenciais.

Na mão contrária, aos que defendem e praticam o ódio ao feminino, a violência contra os semelhantes e os abusos de toda espécie contra crianças e adolescentes têm agora, na dupla bolsonarista, a chapa de seus sonhos, equivalente a um pesadelo vivo para toda a sociedade. Não menos.

Mesmo ciente das suspeitas que pesam contra o deputado federal alagoano, alvo de investigação policial em inquérito que apura crime de estupro contra vulnerável, Flávio escolheu Gaspar como seu companheiro de chapa, fez festa e piadinhas para recebê-lo  Uma definição que, internamente, humilha e rebaixa o partido que se orgulhava de ter uma seção chamada PL Mulher. Para o lado de fora, indica o grau de desrespeito à toda a sociedade encerrada na chapa para presidente e vice.

E se esse pessoal chegar ao poder? A quais níveis irão subir os crimes de feminicídio? Como ficarão as estatísticas da violência sexual contras as mulheres, adolescentes e crianças? Qual mulher poderá se sentir segura? Quantos homens não se sentirão incentivados ao uso da força contra suas parceiras? Quais exemplos ‘de cima’ o presidente e seu vice darão para a pacificação da sociedade brasileira?

Interessada em ser vice de Flávio, mas barrada por seu partido, o PP, é de se questionar agora, à luz da preferência do candidato bolsonarista por um homem suspeito de estuprar um ser humano vulnerável, se a ex-ministra Tereza Cristina continua empolgada pela candidatura extremista.

E cadê Michelle Bolsonaro? Até agora, nenhum protesto da parte dela. Presente ao evento que definiu Gaspar como postulante a vice-presidente da República, a senadora Damares Alves brincou, em nome da ex-primeira-dama, que Michelle estava em casa cuidando do marido, referindo-se ao papel que Flávio delegou para suas filhas, o de cuidar dele na velhice. Muito pouco para marcar oposição. Gracinhas como essa não são mais suficientes a partir da alternativa encontrada.

No caso da indicação de Gaspar, quem cala consente. Quem brinca, normaliza.

Ciente da gravidade da indicação do deputado, a Procuradoria-Geral da República pediu à Polícia Federal a realização de diligências em torno do caso de estupro que têm o vice de Flávio como suspeito. É de se projetar, pela péssima repercussão da escolha, que ele não se sustente como candidato ao segundo cargo eletivo mais importante do país.

Pegou muito mal. Para quem precisa enganar o eleitorado feminino para obter os votos das mulheres, Flávio Bolsonaro mostrou perigosamente quem verdadeiramente é e o que pensa sobre respeito, segurança e proteção a esse público.

•        Um vice para enterrar de vez a candidatura de Flávio Bolsonaro. Por Paulo Henrique Arantes

As rainhas de bastidores políticos que trabalham na GloboNews são as pessoas mais indicadas para fazer previsões eleitorais — e errar. Mas este vetusto jornalista também possui sua bola de cristal — falível, é claro. Nossa aposta é que Alfredo Gaspar, bolsonarista empedernido do PL de Alagoas, será a âncora definitiva da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.

Brilhantes, os estrategistas da campanha reacionária entendem que, por ter sido relator da CPMI do INSS, Gaspar será um potente instrumento de exploração política da figura de Lulinha, ora triplamente investigado. Esquecem-se de que isso já é feito pela mídia e continuará sendo, mediante vazamentos seletivos da Polícia Federal e ilegalidades do gênero, independentemente da presença do parlamentar na chapa.

Para quem busca amealhar os votos dos eleitores que antipatizam com Lula e ao mesmo tempo repudiam o medievalismo bolsonarista, o nome do truculento Alfredo Gaspar não agrega. A simples hipótese, mesmo sem comprovação, de que o deputado alagoano esteve envolvido em estupro de vulnerável é eleitoralmente devastadora.

Para quem procurava uma mulher para suavizar o matiz misógino da candidatura Flávio, a figura de Gaspar constitui inversão diametral de estratégia, ou seja, óbvio improviso que se fez necessário pela completa ausência de quadros dispostos a entrar na barca.

Só extremistas votarão na dupla Flávio-Gaspar, e esses votos já estão contabilizados faz tempo. Todos aqueles que votariam num “Bolsonaro moderado” repudiarão, diante da urna, nome tão identificado com o golpismo. Em discursos veementes na tribuna da Câmara, Gaspar afirmou categoricamente que o Brasil vive sob uma “ditadura judicial”, acusando diretamente o Supremo Tribunal Federal.

O parlamentar alagoano posicionou-se como um dos principais defensores da urgência dos projetos de lei que visavam conceder anistia aos envolvidos nos ataques do 8 de Janeiro. Foi relator da proposta que tentou suspender a ação penal contra o ex-diretor da Abin e deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), hoje foragido nos Estados Unidos.

Com Alfredo Gaspar como vice, Flávio Bolsonaro não ganhará nenhum voto além dos que já tem. E corre o risco de perder alguns. O fato de o deputado do PL ter enviado R$ 6,2 milhões a uma prefeitura alagoana sem que o destino dos recursos pudesse ser rastreado, como constatado pelo Tribunal de Contas da União, também não o ajuda muito.

Vale recordar que, na campanha de Jair Bolsonaro em 2022, a escolha do general Braga Netto como vice também se deveu à falta de outros nomes dispostos a abraçar tão intimamente o capitão, em especial a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que, ontem como hoje, não embarcou — antes, por decisão própria; hoje, pela neutralidade do seu partido, o PP.

Quase ninguém quer ser vice de um Bolsonaro.

•        Sem alianças, Flávio Bolsonaro admite improviso na escolha de Alfredo Gaspar para vice

O senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), afirmou, na quinta-feira (6), que a escolha do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) para compor a sua chapa como candidato a vice-presidente ocorreu “em cima da hora”. A declaração foi feita durante sua transmissão ao vivo semanal na internet, na qual o parlamentar contrariou publicamente o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, que havia dito anteriormente que o nome de Gaspar fora definido há mais de seis meses.

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Durante a transmissão, Flávio fez questão de esclarecer os bastidores da decisão e desmentiu a versão do dirigente da sua própria legenda. “O Valdemar falou na hora ‘estamos aqui há seis meses guardando esse nome’. Pô, presidente, não foi isso. Foi realmente em cima da hora que o [Rogério] Marinho teve essa ideia. Eu achei a ideia fantástica”, afirmou o pré-candidato, atribuindo a sugestão ao senador Rogério Marinho (PL-RN).

<><> O fracasso das negociações com o centrão

A definição por uma chapa pura — formada exclusivamente por filiados ao próprio PL — deu-se após uma sequência de negativas de partidos do centrão, que preferiram optar pela neutralidade na disputa do pleito presidencial.

Antes do desfecho, o senador havia manifestado abertamente sua preferência por indicar uma mulher para o posto. Ele chegou a fazer um convite público à senadora Tereza Cristina (PP-MS). Embora a parlamentar tenha aceitado a proposta, a coalizão foi travada pela direção nacional do Progressistas (PP), que não deu aval para a aliança.

Outro nome avaliado pela campanha foi o de Daniella Marques, filiada ao Republicanos. O perfil da executiva agradava ao pré-candidato por conta de seu bom trânsito e diálogo com o mercado financeiro e o setor empresarial. No entanto, o Republicanos optou por não lançar e nem integrar candidaturas na chapa presidencial, inviabilizando mais uma tentativa de coligação.

<><> Flávio diz “não entender tanto de economia” e pergunta a Daniella Marques sobre Selic

O candidato à Presidência pelo PL, senador Flávio Bolsonaro, afirmou que “não entende tanto de economia” ao questionar a ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques sobre o comportamento da taxa Selic em caso de vitória eleitoral.

A declaração foi feita durante entrevista ao podcast Market Makers e divulgada na quinta-feira (6). No diálogo, Flávio buscou saber se as sinalizações de um eventual governo teriam efeito rápido sobre os juros.

“Não entendo tanto de economia. Vamos supor, ganhamos a eleição. Como funciona a próxima taxa de juro com as sinalizações que vamos fazer? Ela cai rápido ou demora a cair?”, perguntou o senador.

Daniella respondeu que a redução poderia ocorrer rapidamente, associando parte do movimento à reação da curva de juros. “Cai rápido. Um pedaço do ajuste vem na curva. Cada um ponto de Selic custa R$ 90 bilhões. Se você faz um corte de 1,5 ponto, 2,5 vem do próprio ajuste da curva. O Brasil não precisa de presidente que entenda de economia, precisa de presidente que tenha vontade política de aprovar o que tem que ser aprovado no Congresso.”

A fala ocorre em meio ao debate sobre o custo dos juros e a condução da política fiscal. Flávio tem defendido que um corte de gastos poderia provocar, em pouco tempo, uma redução da taxa básica de juros.

Na véspera, quarta-feira (5), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual pela quarta vez consecutiva, levando a taxa a 14% ao ano. Apesar do corte, o colegiado indicou que seguirá acompanhando o cenário para manter uma “restrição adequada” nos juros.

As projeções do relatório Focus apontam Selic de 13,75% ao fim de 2026 e de 12% ao fim de 2027. O tema deve permanecer no centro da campanha, especialmente diante da tentativa de Flávio Bolsonaro de vincular ajuste fiscal, expectativas do mercado e redução do custo da dívida pública.

 

Fonte: Por Moisés Mendes, em Brasil 247

 

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