'Milei
e Trump compartilham antipatia por Lula e ficariam satisfeitos com eleição de
Flávio Bolsonaro'
Primeiro,
o governo brasileiro negou a entrada no país de uma delegação oficial dos
Estados Unidos por suspeitas de que ela pretendia lançar dúvidas sobre a
confiabilidade do sistema eleitoral.
Depois,
o presidente da Argentina, Javier Milei, chamou Luiz Inácio Lula da Silva (PT),
de "ladrão e corrupto". Em resposta, o presidente brasileiro retirou
o embaixador do Brasil de Buenos Aires.
E,
nesta semana, os Estados Unidos cancelaram o visto da embaixadora do Brasil em
Washington, sob a alegação de que o governo Lula estaria demorando a aceitar o
novo representante diplomático americano no país.
Talvez
essa sequência de acontecimentos incomuns envolvendo três dos maiores países do
continente em menos de duas semanas seja apenas uma coincidência.
Mas o
fato é que as tensões entre Brasil, Estados Unidos e Argentina atingiram níveis
extraordinários após uma série de atritos diplomáticos, críticas políticas e
demonstrações de desconfiança.
Segundo
analistas, por trás desse cenário pode estar o interesse de dois presidentes de
direita — o americano Donald Trump e o argentino Javier Milei — em ver o
candidato da oposição, Flávio Bolsonaro, derrotar o presidente Lula, de
esquerda, nas eleições de outubro, permitindo que outro governo alinhado a eles
assuma o poder no maior país da América do Sul.
"Não
há evidência de que se trate de um ataque coordenado [contra Lula] por parte de
Trump e Milei, mas isso não me surpreenderia", afirma Cynthia Arnson,
professora adjunta de relações internacionais da Universidade Johns Hopkins, em
Washington.
"Milei
e Trump compartilham uma antipatia em relação a Lula e ficariam satisfeitos se
Flávio Bolsonaro fosse eleito", disse Arnson à BBC News Mundo, serviço em
espanhol da BBC.
Mas até
que ponto tudo isso pode influenciar as eleições no Brasil?
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'Cascas de banana'
A ideia
de que os Estados Unidos estariam tentando interferir de forma indevida nas
eleições brasileiras foi levantada pelo governo Lula e rejeitada pelo governo
Trump.
Em
comunicado divulgado na terça-feira (4/8), a Presidência da República afirmou
que os dois funcionários do Departamento de Estado dos EUA que tiveram o visto
de entrada no Brasil negado em 24 de julho pretendiam "colocar em dúvida a
integridade do sistema eleitoral brasileiro".
Lula
defendeu a decisão na quarta-feira (5/8).
"O
Brasil não está apenas preparado, mas vai enfrentar qualquer pessoa de fora que
queira interferir no nosso processo eleitoral", afirmou.
O
Departamento de Estado, por sua vez, afirmou que "qualquer insinuação de
uma 'manobra' para minar as eleições de uma nação democrática é uma mentira sem
fundamento".
O
governo americano acrescentou que os dois funcionários que tiveram os vistos
negados — um deles responsável por fortalecer os vínculos de Washington com a
direita radical europeia — pretendiam se reunir com autoridades no Brasil para
discutir a integridade eleitoral e as liberdades religiosa e de expressão.
Washington
também afirmou que a decisão de cancelar o visto da embaixadora do Brasil nos
Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, foi motivada pela demora do governo
brasileiro em conceder o agrément ao novo embaixador indicado
por Trump, Daniel Perez, deputado estadual republicano da Flórida.
Lula,
porém, classificou o cancelamento do visto de sua diplomata como
"irresponsável" e afirmou que os Estados Unidos passaram um ano e
meio sem enviar um embaixador ao Brasil.
Segundo
especialistas, a medida adotada por Washington não tem precedentes na relação
bilateral com Brasília e parece ter como objetivo pressionar o governo Lula.
"A
sensação que tenho é que o governo dos Estados Unidos está lançando cascas de
banana, na expectativa de que o Brasil escorregue em alguma delas e reaja de
uma forma que justifique novas medidas restritivas por parte dos EUA",
disse Guilherme Casarões, especialista em relações internacionais da
Universidade Internacional da Flórida em entrevista à BBC News Brasil.
O
governo Trump também impôs, em julho, tarifas de 25% sobre a importação de
diversos produtos brasileiros, sob o argumento de que o país adota práticas
comerciais desleais.
"Já
foram mobilizados tantos instrumentos políticos, econômicos e jurídicos contra
o Brasil que é difícil afirmar que os Estados Unidos não têm interesse nestas
eleições (brasileiras)", acrescentou Casarões. "Não consigo deixar de
classificar isso como uma tentativa de interferência."
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'Um jogo muito complexo'
Para
Trump e Milei, uma vitória da direita nas eleições brasileiras seria
especialmente importante devido ao peso político do Brasil em uma região onde
as forças conservadoras têm expandido seu poder.
Os dois
presidentes já demonstraram interesse em favorecer a chegada ao poder de
governos ideologicamente alinhados a eles na América Latina.
Antes
do segundo turno da eleição presidencial no Chile, em dezembro, por exemplo,
Milei declarou apoio a José Antonio Kast, o político ultraconservador que
venceu a disputa e hoje governa o país.
O
presidente argentino participou, no dia 25 de julho, da convenção partidária do
PL em São Paulo, que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à
Presidência. Na ocasião, Milei fez os primeiros ataques a Lula e pediu aos
eleitores que "parassem o lixo socialista" nas urnas.
Em
resposta, o governo brasileiro chamou para consultas seu embaixador em Buenos
Aires e pediu explicações ao representante da Argentina em Brasília.
Mas
Milei voltou a atacar Lula publicamente e, na última terça-feira, o Brasil
decidiu rebaixar as relações diplomáticas com a Argentina ao nível de
encarregado de negócios, na pior crise entre os dois maiores parceiros
comerciais do Mercosul em vários anos.
Enquanto
Lula tentou evitar um confronto direto com Milei — "Quem é esse
cara?", perguntou há alguns dias durante um evento público —, a
chancelaria argentina afirmou, em comunicado, que o Brasil está se isolando
"do restante da região por questões puramente ideológicas".
Trump
também manifestou apoio explícito a candidatos de direita em eleições recentes
na América Latina, como na Colômbia e em Honduras. Em maio, recebeu Flávio
Bolsonaro na Casa Branca, quando a campanha do senador enfrentava uma crise
devido à revelação de ligações suas com o banqueiro Daniel Vorcaro.
No ano
passado, Trump também impôs tarifas ao Brasil na tentativa de interferir no
julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, um antigo aliado seu que acabou
condenado a 27 anos de prisão por golpe de Estado e outros crimes.
A
medida provocou o primeiro grande embate entre Trump e Lula, que passou a
acusar Washington de tentar interferir indevidamente nos assuntos internos do
Brasil.
Mas as
pesquisas indicaram que esse confronto acabou beneficiando politicamente Lula
no país. Depois disso, Trump buscou se aproximar do presidente brasileiro: os
dois se reuniram em duas ocasiões, em um movimento que parecia indicar um
entendimento crescente entre ambos.
Agora,
porém, as tensões bilaterais voltaram a afastá-los e levantam dúvidas sobre os
efeitos desse cenário nas eleições brasileiras, em que Lula tentará conquistar
um novo mandato.
"A
opinião pública pode ser volátil, então a Casa Branca e a Casa Rosada
provavelmente apostam que essa hostilidade acabará favorecendo Flávio
Bolsonaro", avalia Arnson.
Maurício
Santoro, cientista político do Centro de Estudos Político-Estratégicos da
Marinha do Brasil, não acredita que as declarações de Milei sejam capazes de
alterar o voto dos brasileiros, mas avalia que as ações de Trump têm um impacto
diferente.
"Em
alguns casos, como na questão das tarifas e do comércio, elas podem acabar
beneficiando Lula, na medida em que o presidente se apresentou como defensor da
soberania brasileira diante de interferências externas", disse Santoro à
BBC Mundo.
Mas ele
ressalta que, por outro lado, a decisão dos Estados Unidos de classificar, em
junho, contra a vontade de Lula, duas facções criminosas brasileiras — o
Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) — como organizações
terroristas teve um efeito positivo sobre uma parcela da opinião pública
preocupada com a insegurança.
"Talvez
nunca uma eleição brasileira tenha sido tão marcada por questões
internacionais", observa Santoro.
"É
um jogo muito complexo, cujas regras ainda não compreendemos plenamente. O
Brasil não é o Irã nem a Rússia; não estamos acostumados a sofrer sanções. É a
primeira vez que isso acontece, e ainda estamos um tanto perplexos."
¨ Lula diz que Trump o
trata com respeito e que Marco Rubio é bolsonarista e não gosta do Brasil
O
presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) afirmou nesta sexta-feira (7) que o
presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump,
o trata com respeito e que Marco Rubio, secretário de Estado, é um bolsonarista
que não gosta do Brasil.
"Ele
[Trump] tem um cidadão que não gosta do Brasil. Que não gosta da América
Latina. E que é um bolsonarista. Que é o homem secretário de Estado, que é o
Marco Rubio. Sabe, ele não gosta", afirmou o presidente.
"Ele
é um anti-latino-americano ou um latino-americano frustrado porque ele foi
embora de Cuba, o avô dele, o bisavô, é de lá, ele nunca morou em Cuba.
Mas
ele foi embora, ele é um descendente de cubano de Miami, então ele odeia.
Odeia
Cuba, odeia a Colômbia, odeia o Brasil. E ele faz as coisas diferentes daquilo
que a gente conversa com o Trump", disse Lula.
O presidente
deu a declaração durante visita ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
(INPE), em São José dos Campos (SP).
No
evento, o presidente brasileiro lembrou seus encontros com o americano e
reforçou que foi bem tratado por Donald Trump.
"Eu
e o Trump já tivemos algumas reuniões. Ele sempre me tratou com muito respeito.
Eu
trato ele com muito respeito.
Quando eu encontrei
com o Trump na Malásia, eu disse ao Trump: olhe Trump, nós somos dois homens de
80 anos. Eu já fiz 80 anos. Ele fez agora dia 14 de julho.
Então
eu sou um pouco mais velho que você. E a gente tem que passar para o mundo a
responsabilidade das duas maiores democracias do mundo, que tem uma relação
diplomática com 201 anos", afirmou.
Afirmou
ainda que disse a Trump que Brasil e EUA tinham responsabilidade de manter a
harmonia entre "das duas maiores democracias do mundo".
A crise
ganhou novo capítulo nesta terça-feira (4), após os EUA
revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro
Viotti.
Segundo
o Departamento de Estado, a medida seria uma resposta à demora das autoridades
brasileiras em conceder o aval diplomático para que Daniel Perez assuma a
embaixada dos Estados Unidos no Brasil.
O nome da
Daniel Perez foi aprovado pelo Senado americano nesta sexta-feira (7) para o
posto. Agora, seu nome segue para aval do Itamaraty, que poderá
conceder – ou não – o agrément, a autorização necessária para que um embaixador
estrangeiro assuma suas funções.
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Foto para Trump
Lula
também falou que quer mandar para Trump uma fotografia dos dados do INPE que
mostram a queda do desmatamento no Brasil.
"Mas
porquê que eu vim aqui, porquê que eu vim aqui tirar uma fotografia com vocês?
Depois eu preciso colocar aqueles gráficos que vocês colocaram, que eu quero
tirar uma fotografia para mandar para o Trump", afirmou Lula.
O
presidente relacionou os gráficos do INPE, que mostram queda no desmatamento do
país, a uma das justificativas dadas pelos Estados Unidos para o tarifaço.
Desde o
início da campanha eleitoral, a relação entre Brasil e Estados Unidos passou
por uma escalada de tensão política e diplomática, especialmente após as
medidas tarifárias contra produtos brasileiros – o "tarifaço".
🔎 O
desmatamento ilegal foi um dos principais argumentos usados pelo governo
americano para a imposição das tarifas. Segundo a
investigação dos EUA, a oferta de produtos como madeira e carne do Brasil seria
mais competitiva porque eles eram produzidos em áreas associadas a crimes
ambientais.
Lula
também alfinetou o presidente americano em relação ao seu posicionamento sobre
a pauta verde.
"Eu
vi o Trump falando na ONU que não acredita nesse negócio de questão climática,
que é tudo mentira", disse Lula.
Fonte:
BBC News Brasil/g1

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