O
que descobri com exame tecnológico que vasculha o corpo para prever doenças e
tem 100 mil pessoas na fila de espera
Não me
importo de tirar fotos — que são verificadas três vezes e recebem filtros antes
de ir para o Instagram —, mas ter 70 câmeras apontadas para mim enquanto estou
só de calcinha é um pouco intimidador.
Uma voz
robótica me diz para ficar imóvel e fechar os olhos enquanto estou em pé dentro
de um enorme scanner curvo, com música clássica tocando ao fundo.
Com um
flash de luz, são tiradas 2 mil fotografias do meu corpo, na esperança de
capturar cada marca, sardinha e pinta para analisar e detectar diferentes tipos
de câncer de pele.
Este
escaneamento de corpo inteiro está sendo realizado em uma clínica com estilo de
ficção científica no centro de Manchester, na Inglaterra, enquanto eu uso um
roupão e chinelos de borracha em formato hexagonal. Os milhões de dados
coletados criarão um avatar 3D do meu corpo usando inteligência artificial.
Nos
últimos dois anos, o mercado de exames preventivos (conhecidos na Inglaterra
como MOTs) para saúde teve um crescimento exponencial, com pessoas dispostas a
pagar centenas de libras, ou até mesmo milhares, por eles.
Empresas
como Prenuvo, Ezra e Neko Health estão captando milhões em investimentos de
capital de risco.
Embora
a Prenuvo e a Ezra ofereçam uma ressonância magnética de corpo inteiro, optei
pela Neko Health, que não é tão abrangente e tem um preço mais acessível de 299
libras (R$ 2 mil). Atualmente, há 100 mil pessoas na lista de espera.
Serei
submetido a exames para detectar uma série de condições diferentes, incluindo
câncer de pele, doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, problemas oculares
como glaucoma, além de distúrbios renais e sanguíneos.
Não
tenho nenhum sintoma, mas e se encontrarem alguma coisa? Falarei mais sobre
isso depois.
A
indústria de exames de imagem corporal se vê como uma nova fronteira na área da
saúde, prevenindo doenças antes que elas tenham a chance de se manifestar
completamente. Mas há ceticismo quanto aos reais benefícios desses exames para
pacientes saudáveis
No
Brasil, há serviços de tecnologia de escaneamento corporal, mas focados na
medicina estética, de emagrecimento e performance esportiva, e não pelo modelo
de medicina preventiva..
Minhas
redes sociais estão repletas de vídeos de clientes entusiasmados se filmando em
máquinas de escaneamento, fazendo exames de sangue e testando a força das mãos.
Hjalmar
Nilsonne, um dos fundadores da Neko Health, deseja que esse tratamento
preventivo esteja disponível para todos, não apenas para aqueles que podem
pagar por ele.
"Embora
a medicina tenha progredido muito no último século, a atenção primária ainda é
muito básica. Por que esperar até que os sintomas apareçam?", questiona
Nilsonne. "Os dados são muito claros: prevenir é melhor do que
remediar."
No
entanto, os médicos de clínica geral e do NHS, o serviço público de saúde
britânico, em geral são mais céticos. O NHS da Inglaterra alerta que a
popularidade desses exames está levando a mais "diagnósticos excessivos,
investigações desnecessárias e ansiedade evitável".
Além de
ter feito o exame eu mesma, conversei com duas mulheres que tiveram
experiências muito diferentes.
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'Minhas marcas de câncer de pele passaram despercebidas'
Annabel
Mason-Thompson fez um exame com a Neko Health em setembro do ano passado, pois
sabia que tinha uma marca suspeita nas costas, mas a tecnologia não a detectou.
"Para
ser sincera, fiquei um pouco decepcionada", diz a mulher de 50 anos.
"O scanner de IA deles não detectou nenhuma das minhas quatro lesões
cancerígenas."
"Só
quando entrei na sala do médico depois do exame e mostrei a minha marca
vermelha é que eles a examinaram."
Um
exame mais detalhado confirmou que a marca era suspeita, então a Neko Health
contatou Annabel para informar que ela precisaria de tratamento e escreveu uma
carta ao seu dermatologista particular dizendo que a "lesão requer
avaliação para uma possível excisão".
Sua
dermatologista encontrou mais três marcas cancerígenas que precisavam de
tratamento urgente.
"Por
sorte", diz ela, "todos eram carcinomas basocelulares de crescimento
lento. Tive que remover cirurgicamente dois e fazer crioterapia em dois
deles."
A Neko
Health afirma que "a excelência clínica estão no centro de tudo o que
faz". A empresa informou que sua equipe clínica identificou uma
"lesão preocupante" e que esta foi avaliada por dois de seus
dermatologistas antes do encaminhamento para possível tratamento.
"Sabemos
que nenhum sistema é infalível", diz Nilsonne, "e é por isso que
temos várias lentes — é crucial que a tecnologia e a experiência humana
trabalhem juntas."
Os
dados mais recentes da empresa mostram que, dos 4.362 exames realizados em
clientes que visitaram a sede da Neko Health em Estocolmo, na Suécia, no ano
passado, 1,2% detectaram doenças potencialmente fatais, como melanoma e
leucemia. Outros 4% identificaram problemas de saúde significativos que exigiam
tratamento adicional, e 1,2% sinalizaram condições que poderiam ser revertidas,
como níveis de açúcar no sangue pré-diabéticos.
Embora
os números não sejam representativos da população e levem em conta apenas
aqueles que podem pagar por esse tipo de cuidado preventivo de saúde, Nilsonne
afirma que isso indica como a medicina deveria ser no futuro.
Mas
clínicos gerais discordam. A professora Victoria Tzortziou Brown, presidente do
Royal College of General Practitioners (RCGP), afirma que não encontraram
"evidências convincentes" de que exames de rastreio privados em larga
escala "melhorem os resultados de saúde".
Ela
afirma que os resultados desses exames particulares também podem sobrecarregar
o NHS, já que os pacientes retornam para mais exames e possível tratamento,
mesmo "quando os resultados se mostram clinicamente insignificantes".
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'Salvou minha vida'
Mehvish
diz que nada poderia tê-la preparado para o que ouviu após o exame de corpo
inteiro. Ela saiu da clínica Neko Health em Birmingham, na Inglaterra, com um
diagnóstico que mudaria sua vida.
"Eu
esperava sentir alívio", diz a mulher de 33 anos. "Em vez disso, me
disseram que eu tinha uma forma rara de diabetes."
Após
seus níveis de açúcar no sangue a longo prazo apresentarem resultados muito
elevados, ela fez outro exame de sangue que confirmou a suspeita.
Ela foi
encaminhada de volta ao seu clínico geral, que a mandou para uma consulta
hospitalar urgente no mesmo dia, e foi diagnosticada com diabetes autoimune
latente em adultos (chamada pela sigla LADA), um tipo de diabetes que fica
entre os tipos 1 e 2.
Assim
como o tipo 1, é uma doença autoimune que ataca as células pancreáticas do
corpo, mas também compartilha características com o tipo 2, pois pode progredir
lentamente e, dependendo do estágio da doença, pode ser controlada inicialmente
com dieta e exercícios.
"Eu
não tinha nenhum dos sintomas", diz Mehvish, "Foi difícil de entender
— como eu poderia ter essa doença e não saber?"
Mas ela
afirma que a intervenção precoce e inesperada "salvou minha vida".
Agora
ela aplica insulina duas vezes ao dia, controla o que come e, apesar de sentir
falta da espontaneidade da sua antiga vida, está aprendendo a se adaptar à
nova.
"Sinto-me
muito melhor, com mais clareza mental, menos névoa cerebral e muito mais
equilibrada."
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O que descobri no meu exame
Após
meu próprio exame, me disseram que tenho 3.311 marcas na pele, em comparação
com as 845 da média dos clientes da Neko Health. Três delas precisam de uma
avaliação adicional pelo dermatologista da empresa na Suécia.
"Mas
eu não tenho nenhuma pinta ou marca grande", digo durante a consulta com o
médico após o exame. São as minhas sardas, me dizem, e ter sardas aumenta o meu
risco de câncer de pele.
Como
estava confiante de que receberia um atestado de saúde perfeito — especialmente
no que diz respeito à minha pele — fiquei um pouco nervosa ao descobrir que
precisaria fazer exames adicionais.
Além
das três pintas suspeitas que precisavam de atenção, descobri também que tenho
uma frequência cardíaca anormal. O traçado do eletrocardiograma (ECG) revelou
uma onda extra, conhecida como onda P bífida, que foi encaminhada ao
cardiologista da Neko Health para avaliação. Felizmente, o resultado foi
normal.
Alguns
dias depois, recebi uma mensagem de texto informando que não havia alterações
anormais na pele que exigissem tratamento.
Sou uma
entre milhares de clientes que tiveram algo sinalizado como um possível
problema, mas depois descobriram que nenhum tratamento adicional era
necessário.
Alguns
médicos dizem que isso causa ansiedade desnecessária e que os pacientes
deveriam confiar apenas nos programas nacionais de rastreio do NHS.
O
médico Stephen Harden, presidente da Royal Society of Radiologists, destaca a
tecnologia utilizada no NHS tem como alvo "áreas específicas" como
mamas, intestino ou colo do útero, e que, segundo ele, pode ser mais confiável
do que uma tomografia de corpo inteiro.
Mas o
ex-ministro da Saúde britânico Steve Brine, que atua como consultor de uma
empresa de saúde preventiva, afirma que exames preventivos como o que eu fiz
"estão em sintonia com a tendência de como as pessoas estão abordando a
sua saúde".
"Mudanças
estão em curso em todo o NHS — a prevenção é uma área política
importantíssima", diz Brine. "Queremos identificar os problemas das
pessoas antes que elas se tornem pacientes, então esses exames podem muito bem
se tornar parte do nosso futuro sistema de saúde, e as necessidades de atenção
primária precisam se adaptar."
E
quanto a mim? Disseram-me que a idade do meu coração era quatro anos menor do
que a minha idade cronológica e, no geral, eu gozava de ótima saúde. Mas também
aprendi uma lição valiosa: que eu poderia ter um risco maior de câncer de pele
por causa das minhas sardas.
Então,
graças ao tempo que passei no scanner, agora estou muito mais entusiasmada em
passar protetor solar em todo o meu corpo, em vez de apenas no rosto.
Fonte:
BBC News

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