segunda-feira, 10 de agosto de 2026

“Não rompemos com Chávez, rompemos com o governo”: Luciano Vasapollo vê capitulação política na Venezuela

“Hoje acreditamos que o que poderia ter sido uma tática se transformou em uma capitulação política.” A afirmação é do economista italiano Luciano Vasapollo, um dos mais conhecidos intelectuais marxistas europeus dedicados ao estudo da Revolução Bolivariana.

Depois de mais de três décadas de solidariedade internacional à Venezuela, ele anuncia o rompimento político com a atual direção do PSUV e com o governo interino de Delcy Rodríguez, mas faz questão de deixar claro: “não estamos rompendo com Chávez, nem com o povo venezuelano”.

Professor da Universidade La Sapienza, em Roma, Vasapollo construiu uma longa relação com a Venezuela por meio de universidades, movimentos sociais, sindicatos e instituições do país. Tornou-se uma referência internacional na denúncia das sanções impostas pelos Estados Unidos e na defesa da soberania venezuelana diante da ofensiva imperialista.

Na entrevista concedida ao Observatorio Crisis, o economista sustenta que a atual direção venezuelana promove uma “capitulação política”, denuncia uma crescente perda de soberania econômica e política, critica o distanciamento de Cuba, questiona mudanças na política internacional do governo e afirma que o internacionalismo “não é adulação” nem pode ser confundido com silêncio diante dos erros.

<><> Leia a íntegra da entrevista:

·        Professor Vasapollo, sua posição surpreendeu a muitos. Depois de décadas apoiando a Venezuela bolivariana, por que decidiu afastar-se?

Luciano Vasapollo: Porque nossa própria história exige que levantemos a voz hoje. Não estamos rompendo com Chávez, não estamos rompendo com o povo venezuelano, não estamos rompendo com o chavismo popular, com os trabalhadores, com os camponeses, com os bairros, com os movimentos sociais, com os intelectuais revolucionários.

Pelo contrário: continuamos apoiando a vertente sadia, popular e revolucionária do processo bolivariano. Estamos há mais de trinta anos construindo relações políticas, culturais e humanas com a Venezuela.

Colaboramos com universidades, sindicatos, movimentos sociais, cooperativas e instituições. Defendemos a Venezuela quando foi objeto de ataques por parte da mídia internacional.

Fizemos isso quando era difícil. Por isso, nossa posição atual não nasce de um distanciamento, e sim da convicção de que quem participou ativamente desse processo tem o dever de levantar a voz quando acredita que existe um perigo.

·        Em seu documento, o senhor fala de um processo contrarrevolucionário. Esta é uma acusação muito grave.

Não falamos de um único episódio. Falamos de um processo. Estamos há meses tentando compreender. Não chegamos a esta conclusão de imediato. Falamos com nossos companheiros venezuelanos, ouvimos, analisamos.

Dissemos: talvez estejamos enfrentando uma fase tática, talvez uma necessidade de sobrevivência política determinada pelo enorme desequilíbrio na balança de poder com os Estados Unidos.

Compreendemos a dificuldade da situação. Compreendemos a pressão do imperialismo, as ameaças, as sanções, as tentativas de desestabilização permanentes. Mas chega um ponto em que temos que reconhecer a realidade: quando uma tática se torna uma linha permanente, quando uma concessão temporária se torna uma opção estratégica, então já não é possível que um comunista ou um revolucionário continue mediando.

Hoje cremos que o que pode ter sido uma tática tornou-se uma capitulação política, uma rendição incondicional diante da perspectiva de tornar a Venezuela um país subordinado, um protetorado político e econômico. Não podemos aceitar isso.

·        Ela insiste em que isto não supõe uma ruptura com a Venezuela.

Exatamente. Nestes meses, não ficamos encerrados em um laboratório teórico, observando a Venezuela a partir de fora. Nos envolvemos. Continuamos estando com as pessoas, dialogamos com os sindicatos, com os bairros populares, com as redes intelectuais, com o mundo cultural e acadêmico, com as experiências das comunas. Nos reunimos de boa fé com muitos companheiros que, como nós, tinham perguntas.

Nos dissemos: talvez sejam só táticas, talvez o governo, o partido e os líderes estejam tratando de evitar serem aniquilados pelos Estados Unidos. Tentamos compreendê-los a fundo.

Mas hoje achamos que a situação mudou. Não somos nós que abandonamos a Venezuela revolucionária. Continuamos nosso trabalho com os setores populares, com os comunistas, com os revolucionários, com aqueles que querem defender o legado de Chávez e evitar um processo de regressão.

·        Por que diz que não mudou sua posição sobre o imperialismo estadunidense?

Porque isso seria uma falsificação de nossa história. Continuamos denunciando o imperialismo estadunidense, o bloqueio contra Cuba, as sanções, a agressão econômica, as guerras híbridas e as tentativas de impor governos subordinados aos interesses de Washington.

Precisamente por ser anti-imperialistas, não podemos confundir solidariedade com silêncio. O internacionalismo não significa defender qualquer decisão governamental que se apresente como um processo revolucionário. Significa defender os princípios, a soberania dos povos, a participação popular e a justiça social.

·        Também fez referência às mobilizações populares em Caracas.

Sim. Não fomos meros espectadores. Participamos das iniciativas, das manifestações na Praça Bolívar, nas mobilizações contra a ingerência estadunidense, contra a tentativa de invasão, contra a ideia de transformar a Venezuela em um protetorado e contra todas as formas de colonialismo. Vimos um povo que continua questionando-se, debatendo e defendendo sua história.

Nossa relação não é com os centros de poder, e sim com as pessoas que experimentam diariamente as contradições da sociedade venezuelana.

·        Um dos pontos mais controvertidos refere-se à relação com Israel. Por que representa para o senhor um momento decisivo?

Porque o chavismo tinha uma forte identidade internacionalista. A solidariedade com o povo palestino, com os povos oprimidos, com as lutas anti-imperialistas era parte integral desta história. Quando vemos mudanças nesta direção, quando vemos aproximações políticas que consideramos incompatíveis com esta tradição, surge uma profunda contradição.

Isto não é um detalhe diplomático. É uma questão política e simbólica que se refere à própria identidade do projeto.

·        E o que há sobre a relação com Cuba?

Cuba não só foi um país amigo da Venezuela, foi parte integral do processo bolivariano. Enviou médicos, professores e técnicos, contribuiu com missões sociais e compartilhou enormes sacrifícios. Portanto, consideramos grave qualquer desvio desta solidariedade histórica. Em um momento em que Cuba continua submetida ao bloqueio estadunidense, o princípio de internacionalismo deve fortalecer-se ainda mais.

·        Falou de uma traição sofrida por Cuba.

Sim, porque a relação entre Cuba e a Venezuela não pode apagar-se da memória histórica. Cuba não só manifestou solidariedade política, mas enviou dezenas de milhares de médicos, capacitou pessoal de saúde, enviou professores, contribuiu para o nascimento de missões sociais, compartilhou conhecimentos científicos, culturais e organizativos e, sobretudo, pagou um enorme preço humano por defender o processo bolivariano.

Por isso, cremos que Cuba merece gratidão e uma solidariedade constante. No entanto, observamos um distanciamento progressivo, inclusive enquanto a ilha continua sofrendo o bloqueio econômico estadunidense. De nossa perspectiva política, isto representa uma ruptura muito séria com a ética internacionalista que caracterizou o projeto chavista.

·        Por que considera este aspecto tão grave?

Porque Cuba não foi simplesmente um país amigo. Cuba compartilhou enormes sacrifícios com a Venezuela. Apoiou o desenvolvimento do processo bolivariano nos momentos mais difíceis. Por isso, é incompreensível para nós que esta solidariedade histórica falte hoje.

De nossa perspectiva política, Cuba merecia reconhecimento, não distanciamento. E esta é uma das razões que contribuíram com nossa decisão de romper laços políticos com a atual direção do PSUV.

·        Qual é sua relação com o chavismo hoje?

Continuamos solidários com o chavismo popular, com o chavismo revolucionário, com aqueles que nas fábricas, nos bairros, nas comunidades continuam defendendo um projeto de emancipação social.

Estamos rompendo laços políticos com o governo atual e a direção do PSUV porque cremos que optaram por um caminho diferente. No entanto, estamos fortalecendo nossos vínculos com aqueles setores que desejam continuar a luta revolucionária.

·        Um dos pontos mais críticos de seu documento refere-se às relações com Israel. Por que atribui tanta importância política a este episódio?

Para nós, esta passagem representa um momento decisivo. As relações diplomáticas entre estados podem ser complexas. Mas quando se desenvolvem relações políticas diretas entre o partido governante e os representantes israelenses, o significado muda inevitavelmente.

Em nossa opinião, isto representa uma ruptura com o internacionalismo que caracterizara o chavismo e suas históricas posições de solidariedade com o povo palestino. É um fato que, a nosso ver, adquire um profundo significado político simbólico.

·        Professor Vasapollo, uma parte fundamental de sua análise refere-se ao papel da atual liderança venezuelana, e em particular, da vice-presidente Delcy Rodríguez. Por que considera que chegamos a um ponto sem retorno?

Porque já não falamos de decisões individuais nem de erros políticos. Falamos de uma direção geral que, a nosso ver, marca uma ruptura com o projeto histórico construído por Hugo Chávez.

Durante muitos meses, evitamos fazer declarações precipitadas. Continuamos dialogando com nossos companheiros venezuelanos, ouvindo e verificando a informação. Estávamos conscientes da pressão exercida pelos Estados Unidos e acreditávamos que algumas aproximações poderiam representar concessões temporárias.

Mas quando as opções convergem na mesma direção, quando as alianças internacionais se redefinem, as estruturas econômicas se modificam e a autonomia política conquistada durante vinte anos de revolução vai se perdendo gradualmente, então já não se trata de táticas. Consideramos que está se produzindo uma verdadeira capitulação política.

·        Sua posição é muito firme, mas reitera que não mudou de opinião sobre o imperialismo estadunidense. Como concilia estes dois aspectos?

Este é um ponto crucial. Não nos tornamos repentinamente indulgentes com os Estados Unidos. Isto seria absurdo depois de uma vida inteira de ativismo internacionalista. Continuamos considerando o imperialismo estadunidense como o principal fator desestabilizador da América Latina. Continuamos denunciando o bloqueio contra Cuba, as sanções, a agressão econômica, as operações de guerra híbrida e toda tentativa de impor governos subordinados aos interesses de Washington.

Precisamente porque seguimos sendo firmemente anti-imperialistas, consideramos que a melhor defesa da Revolução Bolivariana não é o silêncio diante dos erros, mas a crítica política quando for necessária.

O internacionalismo não é adulação. O internacionalismo significa assumir a responsabilidade da verdade política, mesmo quando isso tem um custo.

·        Na declaração, o senhor afirma que a Venezuela está cedendo partes de sua soberania política e econômica. A que se refere?

Nos referimos a que observamos uma crescente subordinação das decisões estratégicas do país a relações que, a nosso ver, acabam limitando a autonomia alcançada com enormes sacrifícios durante os anos de Chávez. A Revolução Bolivariana nasceu para romper a dependência do neoliberalismo, das multinacionais e dos interesses estadunidenses.

Hoje, no entanto, observamos o desenvolvimento de políticas que parecem ir na direção oposta. Não se trata só da economia. O marco geral das relações internacionais parece ter mudado profundamente.

·        Entre os críticos da situação atual na Venezuela, também mencionou Luis Britto García. Por que considera significativa sua intervenção?

Porque não se pode descartar Luis Britto García como um opositor do chavismo. É um dos intelectuais marxistas mais destacados da América Latina. Acompanhou o processo bolivariano desde o começo. Foi colaborador direto de Chávez. Fez parte do Conselho de Estado. Foi um dos fundadores da Rede de Intelectuais e Artistas em Defesa da Humanidade.

Quando uma figura com este histórico expressa uma avaliação tão severa sobre a situação do país, não estamos presenciando uma simples controvérsia. Estamos presenciando o sofrimento político de um setor importante do mundo chavista, que vê questionado o legado de Chávez.

·        Em sua declaração, o senhor também reflete sobre o tema dos partidos revolucionários e o poder. Que lições tira deste evento?

Esta reflexão transcende muito a Venezuela. A história do movimento operário e dos processos revolucionários nos ensina que nenhuma conquista é irreversível. Quando um partido se torna Estado e o controle popular se enfraquece, quando a formação política dos quadros diminui, quando prevalecem o oportunismo, a burocracia e os interesses pessoais, o risco de regressão se torna real.

Vimos isso na Europa de Leste. Vimos isso em diversos processos latino-americanos. E hoje, lamentavelmente, acreditamos estar presenciando dinâmicas similares na Venezuela. Por isso, a vigilância revolucionária não é um exercício teórico, mas uma necessidade permanente. Com o povo. Com os comitês populares dos bairros. Com os trabalhadores. Com os camponeses. Com os estudantes. Com os intelectuais que continuam lutando pelo socialismo. Com os militantes que defendem a cada dia o legado de Chávez.

Estamos rompendo laços políticos com o atual governo e com a direção do PSUV. Não estamos rompendo, e sim fortalecendo, nossos laços com aqueles setores populares que continuam acreditando na Revolução Bolivariana e que hoje, frequentemente em condições difíceis, tentam evitar sua liquidação definitiva.

·        Que mensagem gostaria de enviar à esquerda internacional?

Não se conformem com as aparências. Não transformem a solidariedade internacionalista em uma forma de silêncio. Defender uma revolução significa defender seus princípios fundacionais. Quando estes princípios são postos em questão, o dever dos revolucionários é participar de um debate político sério, rigoroso e honesto.

Seguiremos lutando contra o imperialismo, defendendo Cuba socialista, exigindo a libertação do presidente Nicolás Maduro e da companheira Cilia Flores, e apoiando todas as forças populares venezuelanas que desejam relançar o projeto do socialismo do século XX.

Esta posição não nasce da hostilidade, e sim da responsabilidade política. Depois de trinta anos de trabalho conjunto, estudo, cooperação e ativismo internacionalista, teria sido muito mais fácil guardar silêncio. Em troca, optamos por alçar a voz, assumindo plenamente todas as consequências.

A história julgará nossas decisões, mas a coerência com os ideais de Chávez, do internacionalismo e da libertação dos povos exigia que não permanecêssemos em silêncio.

 

Fonte: Observatório da Crise – Tradução de Ana Corbisier, em Diálogos do Sul Global

 

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