“Não
rompemos com Chávez, rompemos com o governo”: Luciano Vasapollo vê capitulação
política na Venezuela
“Hoje
acreditamos que o que poderia ter sido uma tática se transformou em uma
capitulação política.” A afirmação é do economista italiano Luciano Vasapollo,
um dos mais conhecidos intelectuais marxistas europeus dedicados ao estudo
da Revolução
Bolivariana.
Depois
de mais de três décadas de solidariedade internacional à Venezuela, ele anuncia
o rompimento político com a atual direção do PSUV e com o governo interino
de Delcy Rodríguez, mas faz questão de
deixar claro: “não estamos rompendo com Chávez, nem com o povo venezuelano”.
Professor
da Universidade La Sapienza, em Roma, Vasapollo construiu uma longa relação com
a Venezuela por meio de universidades, movimentos sociais, sindicatos e
instituições do país. Tornou-se uma referência internacional na denúncia das
sanções impostas pelos Estados Unidos e na defesa da soberania venezuelana
diante da ofensiva imperialista.
Na
entrevista concedida ao Observatorio Crisis, o economista sustenta
que a atual direção venezuelana promove uma “capitulação política”, denuncia
uma crescente perda de soberania econômica e política, critica o distanciamento
de Cuba, questiona mudanças na política internacional do governo e afirma que o
internacionalismo “não é adulação” nem pode ser confundido com silêncio diante
dos erros.
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Leia a íntegra da entrevista:
·
Professor Vasapollo, sua posição surpreendeu a muitos.
Depois de décadas apoiando a Venezuela bolivariana, por que decidiu afastar-se?
Luciano
Vasapollo: Porque nossa
própria história exige que levantemos a voz hoje. Não estamos rompendo
com Chávez, não estamos
rompendo com o povo venezuelano, não estamos rompendo com o chavismo popular,
com os trabalhadores, com os camponeses, com os bairros, com os movimentos
sociais, com os intelectuais revolucionários.
Pelo
contrário: continuamos apoiando a vertente sadia, popular e revolucionária do
processo bolivariano. Estamos há mais de trinta anos construindo relações
políticas, culturais e humanas com a Venezuela.
Colaboramos
com universidades, sindicatos, movimentos sociais, cooperativas e instituições.
Defendemos a Venezuela quando foi objeto de ataques por parte da mídia
internacional.
Fizemos
isso quando era difícil. Por isso, nossa posição atual não nasce de um
distanciamento, e sim da convicção de que quem participou ativamente desse
processo tem o dever de levantar a voz quando acredita que existe um perigo.
·
Em seu documento, o senhor fala de um processo
contrarrevolucionário. Esta é uma acusação muito grave.
Não
falamos de um único episódio. Falamos de um processo. Estamos há meses tentando
compreender. Não chegamos a esta conclusão de imediato. Falamos com nossos
companheiros venezuelanos, ouvimos, analisamos.
Dissemos:
talvez estejamos enfrentando uma fase tática, talvez uma necessidade de
sobrevivência política determinada pelo enorme desequilíbrio na balança de
poder com os Estados Unidos.
Compreendemos
a dificuldade da situação. Compreendemos a pressão do imperialismo, as ameaças,
as sanções, as tentativas de desestabilização permanentes. Mas chega um ponto
em que temos que reconhecer a realidade: quando uma tática se torna uma linha
permanente, quando uma concessão temporária se torna uma opção estratégica,
então já não é possível que um comunista ou um revolucionário continue
mediando.
Hoje
cremos que o que pode ter sido uma tática tornou-se uma capitulação política,
uma rendição incondicional diante da perspectiva de tornar a Venezuela um país
subordinado, um protetorado político e econômico. Não podemos aceitar isso.
·
Ela insiste em que isto não supõe uma ruptura com a
Venezuela.
Exatamente.
Nestes meses, não ficamos encerrados em um laboratório teórico, observando a
Venezuela a partir de fora. Nos envolvemos. Continuamos estando com as pessoas,
dialogamos com os sindicatos, com os bairros populares, com as redes
intelectuais, com o mundo cultural e acadêmico, com as experiências das
comunas. Nos reunimos de boa fé com muitos companheiros que, como nós, tinham
perguntas.
Nos
dissemos: talvez sejam só táticas, talvez o governo, o partido e os líderes
estejam tratando de evitar serem aniquilados pelos Estados Unidos. Tentamos
compreendê-los a fundo.
Mas
hoje achamos que a situação mudou. Não somos nós que abandonamos a Venezuela
revolucionária. Continuamos nosso trabalho com os setores populares, com os
comunistas, com os revolucionários, com aqueles que querem defender o legado de
Chávez e evitar um processo de regressão.
·
Por que diz que não mudou sua posição sobre o
imperialismo estadunidense?
Porque
isso seria uma falsificação de nossa história. Continuamos denunciando o
imperialismo estadunidense, o bloqueio contra Cuba, as sanções, a
agressão econômica, as guerras híbridas e as tentativas de impor governos
subordinados aos interesses de Washington.
Precisamente
por ser anti-imperialistas, não podemos confundir solidariedade com silêncio. O
internacionalismo não significa defender qualquer decisão governamental que se
apresente como um processo revolucionário. Significa defender os princípios, a
soberania dos povos, a participação popular e a justiça social.
·
Também fez referência às mobilizações populares em
Caracas.
Sim.
Não fomos meros espectadores. Participamos das iniciativas, das manifestações
na Praça Bolívar, nas mobilizações contra a ingerência estadunidense, contra a
tentativa de invasão, contra a ideia de transformar a Venezuela em um
protetorado e contra todas as formas de colonialismo. Vimos um povo que
continua questionando-se, debatendo e defendendo sua história.
Nossa
relação não é com os centros de poder, e sim com as pessoas que experimentam
diariamente as contradições da sociedade venezuelana.
·
Um dos pontos mais controvertidos refere-se à relação com
Israel. Por que representa para o senhor um momento decisivo?
Porque
o chavismo tinha uma forte identidade internacionalista. A solidariedade com
o povo palestino, com os povos
oprimidos, com as lutas anti-imperialistas era parte integral desta história.
Quando vemos mudanças nesta direção, quando vemos aproximações políticas que
consideramos incompatíveis com esta tradição, surge uma profunda contradição.
Isto
não é um detalhe diplomático. É uma questão política e simbólica que se refere
à própria identidade do projeto.
·
E o que há sobre a relação com Cuba?
Cuba
não só foi um país amigo da Venezuela, foi parte integral do processo
bolivariano. Enviou médicos, professores e técnicos, contribuiu com missões
sociais e compartilhou enormes sacrifícios. Portanto, consideramos grave
qualquer desvio desta solidariedade histórica. Em um momento em que Cuba
continua submetida ao bloqueio estadunidense, o princípio de internacionalismo
deve fortalecer-se ainda mais.
·
Falou de uma traição sofrida por Cuba.
Sim,
porque a relação entre Cuba e a Venezuela não pode apagar-se da memória
histórica. Cuba não só manifestou solidariedade política, mas enviou dezenas de
milhares de médicos, capacitou pessoal de saúde, enviou professores, contribuiu
para o nascimento de missões sociais, compartilhou conhecimentos científicos,
culturais e organizativos e, sobretudo, pagou um enorme preço humano por
defender o processo bolivariano.
Por
isso, cremos que Cuba merece gratidão e uma solidariedade constante. No
entanto, observamos um distanciamento progressivo, inclusive enquanto a ilha
continua sofrendo o bloqueio econômico estadunidense. De nossa perspectiva
política, isto representa uma ruptura muito séria com a ética internacionalista
que caracterizou o projeto chavista.
·
Por que considera este aspecto tão grave?
Porque
Cuba não foi simplesmente um país amigo. Cuba compartilhou enormes sacrifícios
com a Venezuela. Apoiou o desenvolvimento do processo bolivariano nos momentos
mais difíceis. Por isso, é incompreensível para nós que esta solidariedade
histórica falte hoje.
De
nossa perspectiva política, Cuba merecia reconhecimento, não distanciamento. E
esta é uma das razões que contribuíram com nossa decisão de romper laços
políticos com a atual direção do PSUV.
·
Qual é sua relação com o chavismo hoje?
Continuamos
solidários com o chavismo popular, com o chavismo revolucionário, com aqueles
que nas fábricas, nos bairros, nas comunidades continuam defendendo um projeto
de emancipação social.
Estamos
rompendo laços políticos com o governo atual e a direção do PSUV porque cremos
que optaram por um caminho diferente. No entanto, estamos fortalecendo nossos
vínculos com aqueles setores que desejam continuar a luta revolucionária.
·
Um dos pontos mais críticos de seu documento refere-se às
relações com Israel. Por que atribui tanta importância política a este
episódio?
Para
nós, esta passagem representa um momento decisivo. As relações diplomáticas
entre estados podem ser complexas. Mas quando se desenvolvem relações políticas
diretas entre o partido governante e os representantes israelenses, o
significado muda inevitavelmente.
Em
nossa opinião, isto representa uma ruptura com o internacionalismo que
caracterizara o chavismo e suas históricas posições de solidariedade com o povo
palestino. É um fato que, a nosso ver, adquire um profundo significado político
simbólico.
·
Professor Vasapollo, uma parte fundamental de sua análise
refere-se ao papel da atual liderança venezuelana, e em particular, da
vice-presidente Delcy Rodríguez. Por que considera
que chegamos a um ponto sem retorno?
Porque
já não falamos de decisões individuais nem de erros políticos. Falamos de uma
direção geral que, a nosso ver, marca uma ruptura com o projeto histórico
construído por Hugo Chávez.
Durante
muitos meses, evitamos fazer declarações precipitadas. Continuamos dialogando
com nossos companheiros venezuelanos, ouvindo e verificando a informação.
Estávamos conscientes da pressão exercida pelos Estados Unidos e acreditávamos
que algumas aproximações poderiam representar concessões temporárias.
Mas
quando as opções convergem na mesma direção, quando as alianças internacionais
se redefinem, as estruturas econômicas se modificam e a autonomia política
conquistada durante vinte anos de revolução vai se perdendo gradualmente, então
já não se trata de táticas. Consideramos que está se produzindo uma verdadeira
capitulação política.
·
Sua posição é muito firme, mas reitera que não mudou de
opinião sobre o imperialismo estadunidense. Como concilia estes dois aspectos?
Este é
um ponto crucial. Não nos tornamos repentinamente indulgentes com os Estados
Unidos. Isto seria absurdo depois de uma vida inteira de ativismo
internacionalista. Continuamos considerando o imperialismo estadunidense como o
principal fator desestabilizador da América Latina. Continuamos denunciando o
bloqueio contra Cuba, as sanções, a agressão econômica, as operações de guerra
híbrida e toda tentativa de impor governos subordinados aos interesses de
Washington.
Precisamente
porque seguimos sendo firmemente anti-imperialistas, consideramos que a melhor
defesa da Revolução Bolivariana não é o silêncio diante dos erros, mas a
crítica política quando for necessária.
O
internacionalismo não é adulação. O internacionalismo significa assumir a
responsabilidade da verdade política, mesmo quando isso tem um custo.
·
Na declaração, o senhor afirma que a Venezuela está
cedendo partes de sua soberania política e econômica. A que se refere?
Nos
referimos a que observamos uma crescente subordinação das decisões estratégicas
do país a relações que, a nosso ver, acabam limitando a autonomia alcançada com
enormes sacrifícios durante os anos de Chávez. A Revolução Bolivariana nasceu
para romper a dependência do neoliberalismo, das multinacionais e dos
interesses estadunidenses.
Hoje,
no entanto, observamos o desenvolvimento de políticas que parecem ir na direção
oposta. Não se trata só da economia. O marco geral das relações internacionais
parece ter mudado profundamente.
·
Entre os críticos da situação atual na Venezuela, também
mencionou Luis Britto García. Por que considera significativa sua intervenção?
Porque
não se pode descartar Luis Britto García como um opositor do chavismo. É um dos
intelectuais marxistas mais destacados da América Latina. Acompanhou o processo
bolivariano desde o começo. Foi colaborador direto de Chávez. Fez parte do
Conselho de Estado. Foi um dos fundadores da Rede de Intelectuais e Artistas em
Defesa da Humanidade.
Quando
uma figura com este histórico expressa uma avaliação tão severa sobre a
situação do país, não estamos presenciando uma simples controvérsia. Estamos
presenciando o sofrimento político de um setor importante do mundo chavista,
que vê questionado o legado de Chávez.
·
Em sua declaração, o senhor também reflete sobre o tema
dos partidos revolucionários e o poder. Que lições tira deste evento?
Esta
reflexão transcende muito a Venezuela. A história do movimento operário e dos
processos revolucionários nos ensina que nenhuma conquista é irreversível.
Quando um partido se torna Estado e o controle popular se enfraquece, quando a
formação política dos quadros diminui, quando prevalecem o oportunismo, a
burocracia e os interesses pessoais, o risco de regressão se torna real.
Vimos
isso na Europa de Leste. Vimos isso em diversos processos latino-americanos. E
hoje, lamentavelmente, acreditamos estar presenciando dinâmicas similares na
Venezuela. Por isso, a vigilância revolucionária não é um exercício teórico,
mas uma necessidade permanente. Com o povo. Com os comitês populares dos
bairros. Com os trabalhadores. Com os camponeses. Com os estudantes. Com os
intelectuais que continuam lutando pelo socialismo. Com os militantes que
defendem a cada dia o legado de Chávez.
Estamos
rompendo laços políticos com o atual governo e com a direção do PSUV. Não
estamos rompendo, e sim fortalecendo, nossos laços com aqueles setores
populares que continuam acreditando na Revolução Bolivariana e que hoje,
frequentemente em condições difíceis, tentam evitar sua liquidação definitiva.
·
Que mensagem gostaria de enviar à esquerda internacional?
Não se
conformem com as aparências. Não transformem a solidariedade internacionalista
em uma forma de silêncio. Defender uma revolução significa defender seus
princípios fundacionais. Quando estes princípios são postos em questão, o dever
dos revolucionários é participar de um debate político sério, rigoroso e
honesto.
Seguiremos
lutando contra o imperialismo, defendendo Cuba socialista, exigindo a
libertação do presidente Nicolás Maduro e da companheira Cilia Flores, e
apoiando todas as forças populares venezuelanas que desejam relançar o projeto
do socialismo do século XX.
Esta
posição não nasce da hostilidade, e sim da responsabilidade política. Depois de
trinta anos de trabalho conjunto, estudo, cooperação e ativismo
internacionalista, teria sido muito mais fácil guardar silêncio. Em troca,
optamos por alçar a voz, assumindo plenamente todas as consequências.
A
história julgará nossas decisões, mas a coerência com os ideais de Chávez, do
internacionalismo e da libertação dos povos exigia que não permanecêssemos em
silêncio.
Fonte:
Observatório da Crise – Tradução de Ana Corbisier, em Diálogos do Sul Global

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