terça-feira, 11 de agosto de 2026

Família Bolsonaro deve responder por ‘crimes de alta traição’, diz chanceler Mauro Vieira

O chanceler Mauro Vieira afirmou que membros da família Bolsonaro ”devem responder por crimes de alta traição e ofensas contra a nação”. Em entrevista publicada neste domingo pelo jornal Clarín, da Argentina, o ministro brasileiro fez uma avaliação dos ataques sofridos pelo país, tanto dos EUA como de Javier Milei. Parte de sua mensagem, porém, indica para o papel do clã do ex-presidente Jair Bolsonaro na crise. “(Os Bolsonaros) são responsáveis pela campanha que levou às sanções que causam sofrimento a empresários, capitalistas, servidores públicos e trabalhadores que estão perdendo seus empregos”, disse. O chanceler descreveu os atos de Washington contra a embaixadora brasileira, Maria Luiza Viotti, como “parte, sem dúvida, da ofensiva para interferir nas eleições”. “É verdade que houve duas reuniões entre os presidentes — uma de uma hora em Kuala Lumpur e outra de três horas em Washington. Muitos temas foram analisados, incluindo questões comerciais e a resolução da questão tarifária que afetava especificamente o Brasil”, disse.

Para ele, porém, “o episódio atual decorre do fato de terem submetido ao Congresso dos EUA a indicação de um embaixador para o Brasil”. “Os EUA ficaram mais de um ano e meio sem embaixador no Brasil — não estavam preocupados com isso — e, de repente, enviaram uma indicação ao Senado. Trinta dias depois, consultaram o governo brasileiro de uma maneira pública que, do ponto de vista diplomático e político, violou a Convenção de Viena”, indicou. “Tais consultas devem ser confidenciais, não públicas”, insistiu. “Além disso, isso ocorreu em meio a comentários de autoridades dos EUA e do Departamento de Estado sobre o sistema eleitoral brasileiro, juntamente com pedidos para visitar o Brasil e o ex-presidente (Bolsonaro), que está preso. Foi demais. Suspender o visto do embaixador brasileiro foi uma manobra para nos pressionar a aceitar aquele indicado, mas a Convenção de Viena não estabelece prazos para a concessão do agrément. Nós nem sequer encaminhamos o pedido ao presidente Lula, pois ele está extremamente ocupado com as eleições, faltando apenas dois meses para o pleito”, afirmou.

Questionado se o ato teria sido uma iniciativa exclusiva de Marco Rubio ou se seria uma política oficial dos EUA, o chanceler deixou claro que considera que vê o gesto como envolvendo “todo o governo dos EUA, incluindo Marco Rubio”. “Conversei com ele várias vezes — duas delas em Washington — e discutimos essas questões. Lembremos que tudo começou com tentativas de obstruir os processos legais contra o ex-presidente (Jair) Bolsonaro, que havia tentado um golpe de Estado fracassado. Aquele plano de golpe militar incluía o assassinato do presidente eleito e de um membro da Suprema Corte. Foi aí que a interferência começou — com sanções e exigências feitas ao governo para interromper os processos contra o ex-presidente; —algo que, aliás, não pode ser feito no Brasil, pois os poderes são independentes”.

Sobre a pressão dos EUA para afastar a China da região, Vieira destacou que “o Brasil mantém relações muito importantes com os EUA — é o nosso segundo maior parceiro comercial — e também tem laços significativos com a China. A China está presente não apenas no Brasil, mas em todas as Américas. O presidente Lula está implementando uma política de engajamento global em todos os continentes, visando a um comércio equilibrado; por exemplo, o comércio com o Sudeste Asiático está crescendo enormemente, assim como o comércio com a Europa. Não temos dúvidas sobre a importância de manter relações com todos os países”.

Para ele, “uma política de pressão e sanções não é útil; a negociação é o que funciona”. “O Brasil sempre privilegiou a negociação e o entendimento mútuo, seja com aqueles que compartilham nossas posições ou com aqueles com quem temos divergências”, disse. “Impor sanções é inadequado; o interesse nacional deve ser sempre a prioridade, e é isso que defendemos. Lula não tem interesse na política interna de outros países; como Chefe de Estado, ele está aberto a discutir e negociar com todas as nações, independentemente de sua postura política. Não é crível pensar que uma ação punitiva vá melhorar a posição de negociação de alguém”, insistiu.

Vieira também destaca o papel da família Bolsonaro. “Eles foram responsabilizados no Brasil e devem responder por crimes de alta traição e ofensas contra a nação”, disse. “São responsáveis pela campanha que levou às sanções que causam sofrimento a empresários, capitalistas, servidores públicos e trabalhadores que estão perdendo seus empregos”, disse. Segundo ele, o governo brasileiro implementou programas para proteger os setores mais afetados. “Quanto à família Bolsonaro, lembro que dois indivíduos já foram condenados: um pelo Supremo Tribunal Federal (o ex-presidente Jair Bolsonaro) e o outro — Eduardo, irmão do candidato à presidência Flávio — que está atualmente nos Estados Unidos e perdeu seu mandato na Câmara dos Deputados”. “No Brasil, ele enfrentará processos judiciais pelas declarações e ações com as quais atacou o país”, completou.

Para ele, todos os países da região enfrentam dificuldades com isso — inclusive a Argentina e também o Brasil. “Todos nós estamos sofrendo o impacto das tarifas dos EUA”, completou.

<><> Chanceler brasileiro diz que Milei deve parar as ‘agressões imediatamente’

Mauro Vieira, afirmou o Javier Milei deve parar de agredir o Brasil “imediatamente”. As declarações ocorrem depois de duas semanas de tensão entre os países, a retirada de embaixadores e de constantes ataques por parte do presidente da Argentina contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Questionado se Milei agiu a mando de Washington ao atacar Lula e o Supremo Tribunal Federal, o chanceler desconversou. “Não sei dizer; desconheço a natureza dos contatos do presidente Milei com o governo dos EUA. O que posso afirmar é que a situação bilateral entre Brasil e Argentina chegou a um ponto em que está sendo gerida por encarregados de negócios. Isso se deve às agressões — dirigidas não apenas a indivíduos, mas também ao Brasil, às suas instituições, aos seus poderes e ao presidente do Supremo Tribunal — cometidas pelo presidente argentino”, disse. “E o presidente Milei não fez isso apenas uma vez; ele o fez em várias ocasiões em menos de uma semana, começando na convenção do Partido Liberal. As imagens daquele evento — a postura do presidente argentino e suas palavras duras — chocaram tanto brasileiros quanto argentinos; foi um comportamento surpreendente, que ele repetiu posteriormente”, afirmou o ministro.

Segundo ele, o mais importante a ressaltar é que a relação entre Argentina e Brasil é vital e transcende quem quer que esteja no poder em um determinado momento. “O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina; compartilhamos programas bilaterais de longa data e mecanismos cruciais — basta lembrar o encontro entre os presidentes Raúl Alfonsín e José Sarney na fronteira, que inaugurou uma nova era nas relações mútuas. Chegamos até a estabelecer mecanismos de transparência em questões nucleares”, disse. Para ele, a Argentina “precisa valorizar sua relação com o Brasil, assim como o Brasil valoriza sua relação com a Argentina. Devemos ser muito claros: em prol dessa relação, esse tipo de agressão precisa cessar imediatamente para que possamos trabalhar no vínculo bilateral, que é tão importante. Para o governo brasileiro, a relação entre os dois países é primordial — absolutamente vital — e precisamos saber se o atual governo argentino pensa o mesmo em relação ao Brasil. Aqueles insultos foram muito graves. Portanto, devemos preservar essa relação, interromper as agressões e retomar um caminho de normalidade em nossos laços binacionais”, disse.

Vieira ainda desmente a acusação de Milei de que o governo brasileiro teria financiado uma suposta campanha internacional contra a Argentina. “Isso é totalmente falso. Não é preciso ser economista para perceber o absurdo das alegações sobre pagamentos que somariam bilhões… …ou das referências feitas ao ex-ministro da Economia da Argentina — que também foi candidato à presidência. Ele veio ao Brasil, mas o fez para visitar o ministro da Fazenda brasileiro enquanto este ainda chefiava a pasta da economia; é impossível afirmar que isso significou que favorecemos um candidato específico. Isso é totalmente falso”, disse o chanceler, numa referência a Sergio Massa.

Segundo o ministro, o embaixador brasileiro em Buenos Aires Julio Bitelli retornará “quando cessarem as condições que levaram à sua saída — assim como ocorreu com a saída do embaixador (da Argentina em Brasília, Guillermo Daniel) Raimondi, a quem conheço há 30 anos”. “Ele é um diplomata distinto. É necessário um gesto: parar com os ataques. É um gesto simples, dada a importância das relações bilaterais”, disse.

Vieira deixou claro que gostaria de visitar a Argentina. Mas diz que a decisão de Milei de chamar Lula de comunista “faz parte de todo o padrão de ataques. “É surpreendente porque o Brasil tem uma economia aberta — atualmente com a menor taxa de inflação de sua história, desemprego mínimo, comércio exterior robusto e enormes reservas internacionais. É um país que opera sob um modelo capitalista. O presidente Lula nunca negou nada nem tentou mudar esse padrão econômico. Não sei; talvez essa seja simplesmente a visão do presidente argentino”, disse.

O chanceler destacou ainda que respeita a eleição de movimentos de direita em toda a região e insiste que o Brasil não está isolado. “Isso é falso; o Brasil mantém amplo contato com todos os países da região. Falo com vocês neste momento de Cali, na Colômbia, para onde vim para a posse do presidente Abelardo de la Espriella — uma cerimônia à qual o presidente Lula da Silva não pôde comparecer devido às eleições que ocorrerão em poucos meses”, disse. “Na semana passada, também representei o presidente na posse da presidente peruana Keiko Fujimori. Mantemos excelentes relações com todos os líderes latino-americanos; o presidente chileno José Antonio Kast deve visitar o Brasil, e estamos definindo a data. Nossos laços com o presidente Rodrigo Paz, na Bolívia, são excelentes, e recebemos sinais muito positivos do governo peruano quanto à continuidade de nossa relação”, insistiu.

•        Genoino: “Múcio tem que deixar o Ministério da Defesa”

O ex-presidente do PT José Genoino defendeu a saída de José Múcio do Ministério da Defesa e afirmou que o governo Lula precisa formular uma nova política de Defesa Nacional baseada na soberania, na subordinação das Forças Armadas ao poder civil e na integração entre os países da América do Sul. Em entrevista ao Bom Dia 247, Genoino reagiu a uma declaração de Múcio sobre a hipótese de uma invasão dos Estados Unidos ao Brasil. Segundo o ex-presidente do PT, uma manifestação desse tipo não pode ser tratada como comentário informal quando parte do responsável pelo Ministério da Defesa. “Há muito tempo eu defendo a demissão do ministro da Defesa. Essa frase dele é uma vergonha, é inaceitável”, afirmou.

Genoino disse que o episódio reforça uma divergência que, segundo ele, já existia em relação à permanência de Múcio no cargo. “Eu faço oposição ao ministro Múcio. Acho que o governo não devia ter nomeado. Várias vezes eu já pedi para que ele fosse substituído”, declarou. Para Genoino, a questão vai além de uma declaração isolada. Ele argumentou que a condução do Ministério da Defesa deve estar vinculada a uma concepção de soberania nacional que envolva política externa, desenvolvimento tecnológico, capacidade de defesa do território e controle civil sobre as estruturas militares. “Eu defendo uma nova política de Defesa Nacional que se baseia na integração social do país, do povo, bem-estar social, acesso à tecnologia, parceria com os países vizinhos, integração da América do Sul, subordinação do poder militar ao poder civil que emana da soberania popular e uma reestruturação das Forças Armadas”, disse.

Segundo Genoino, discutir Defesa Nacional significa identificar as vulnerabilidades do país diante de pressões externas e definir como o Estado brasileiro deve responder a elas. Para ele, esse debate ganhou peso diante das disputas internacionais por petróleo, terras raras, minerais e tecnologia. “O ministro da Defesa está brincando de uma maneira irresponsável ao falar esse tipo de coisa numa questão tão delicada, em que o mundo está discutindo guerra, novas armas, novas técnicas e novas estratégias”, afirmou.

Genoino também relacionou a função das Forças Armadas à defesa do território diante de ameaças externas. Na avaliação dele, segurança pública e Defesa Nacional devem ser tratadas como áreas distintas. Nesse contexto, voltou a defender mudanças no artigo 142 da Constituição, que trata das Forças Armadas e estabelece, entre suas atribuições, a defesa da Pátria, a garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem. “Se nós vamos tratar a Defesa Nacional como questão estratégica, assim como devemos tratar a questão da segurança pública e separar os dois temas, temos que partir da ideia da subordinação do aparato militar ao poder civil”, afirmou.

Genoino também defendeu retirar do debate sobre as Forças Armadas o que chamou de “rabicho do artigo 142 da lei e da ordem”. Segundo ele, as instituições militares não devem ser organizadas a partir da lógica de segurança interna ou de combate a um “inimigo interno”. “Forças Armadas não são para cuidar de segurança, de ordem interna, de inimigo interno. São para cuidar da segurança diante de ameaças”, disse.

Para o ex-presidente do PT, essas ameaças não se limitam a uma ação militar. Ele afirmou que disputas por recursos naturais, sanções, tarifas, pressões econômicas e movimentos sobre setores estratégicos também precisam fazer parte de uma política nacional de Defesa.

Genoino citou, nesse ponto, a política do governo dos Estados Unidos para a América Latina e afirmou que o Brasil deve associar sua estratégia militar à defesa de seus recursos e de sua capacidade de decisão. “Qual é o pano de fundo de toda essa ofensiva em relação à nossa América Latina? É a crise que o imperialismo vive. Ele quer solucionar a crise econômica através de tarifa, de protecionismo nos Estados Unidos e de sugar a posse dos recursos naturais, como petróleo, terras raras e minérios críticos”, declarou. A partir desse diagnóstico, Genoino afirmou que a política do Ministério da Defesa precisa estar coordenada com a política externa conduzida pelo Itamaraty. Na avaliação dele, não pode haver posições divergentes dentro do governo sobre questões que envolvam soberania e relações internacionais.

“Nós temos que ter uma política de Defesa associada à política de soberania nacional do Itamaraty”, disse.

Genoino citou a atuação do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e afirmou que a posição adotada pela diplomacia brasileira diante das pressões externas entra em conflito com declarações como a atribuída a Múcio. “Não dá, no nosso governo, para o Itamaraty fazer o que está fazendo, o ministro Mauro Vieira declarar, tomar posição, e o ministro da Defesa dizer essa bobagem inaceitável. No mesmo governo não dá”, afirmou. Para Genoino, a manifestação de Múcio também produz um problema institucional porque atinge a própria função das Forças Armadas em um momento no qual o governo discute investimentos e uma política para o setor. “É uma deslegitimação das Forças Armadas. Deu um desprestígio. Ele está tratando uma coisa séria como se fosse uma conversa de boteco”, disse.

Ao defender a substituição de Múcio, Genoino afirmou que o debate não deveria se limitar à escolha de outro nome para o ministério. Segundo ele, um novo governo Lula deveria promover uma discussão sobre os objetivos da Defesa Nacional e definir os critérios para a condução da pasta. “Eu defendo que o governo que vai ser eleito em 2026 faça uma discussão sobre uma nova política de Defesa e coloque gente comprometida com os princípios de uma política de Defesa como política de Estado, como uma política pública do Estado brasileiro”, afirmou. Na formulação apresentada por Genoino, a mudança no Ministério da Defesa seria parte de uma revisão mais ampla da relação entre governo civil, Forças Armadas, soberania e política externa. Para ele, a definição dessa política deve partir do princípio de que o comando militar está submetido às instituições civis e à soberania popular. É nesse quadro que o ex-presidente do PT sustenta a saída de José Múcio. Para Genoino, a declaração sobre uma possível invasão dos Estados Unidos expôs uma diferença entre a postura que espera do Ministério da Defesa e a estratégia que considera necessária para o país. “Múcio tem que deixar o Ministério da Defesa”, defendeu.

 

Fonte: Por Jamil Chade, em ICL Notícas/Brasil 247

 

Nenhum comentário: