Família
Bolsonaro deve responder por ‘crimes de alta traição’, diz chanceler Mauro
Vieira
O
chanceler Mauro Vieira afirmou que membros da família Bolsonaro ”devem
responder por crimes de alta traição e ofensas contra a nação”. Em entrevista
publicada neste domingo pelo jornal Clarín, da Argentina, o ministro brasileiro
fez uma avaliação dos ataques sofridos pelo país, tanto dos EUA como de Javier
Milei. Parte de sua mensagem, porém, indica para o papel do clã do
ex-presidente Jair Bolsonaro na crise. “(Os Bolsonaros) são responsáveis pela
campanha que levou às sanções que causam sofrimento a empresários,
capitalistas, servidores públicos e trabalhadores que estão perdendo seus
empregos”, disse. O chanceler descreveu os atos de Washington contra a
embaixadora brasileira, Maria Luiza Viotti, como “parte, sem dúvida, da
ofensiva para interferir nas eleições”. “É verdade que houve duas reuniões
entre os presidentes — uma de uma hora em Kuala Lumpur e outra de três horas em
Washington. Muitos temas foram analisados, incluindo questões comerciais e a
resolução da questão tarifária que afetava especificamente o Brasil”, disse.
Para
ele, porém, “o episódio atual decorre do fato de terem submetido ao Congresso
dos EUA a indicação de um embaixador para o Brasil”. “Os EUA ficaram mais de um
ano e meio sem embaixador no Brasil — não estavam preocupados com isso — e, de
repente, enviaram uma indicação ao Senado. Trinta dias depois, consultaram o
governo brasileiro de uma maneira pública que, do ponto de vista diplomático e
político, violou a Convenção de Viena”, indicou. “Tais consultas devem ser
confidenciais, não públicas”, insistiu. “Além disso, isso ocorreu em meio a
comentários de autoridades dos EUA e do Departamento de Estado sobre o sistema
eleitoral brasileiro, juntamente com pedidos para visitar o Brasil e o
ex-presidente (Bolsonaro), que está preso. Foi demais. Suspender o visto do
embaixador brasileiro foi uma manobra para nos pressionar a aceitar aquele
indicado, mas a Convenção de Viena não estabelece prazos para a concessão do
agrément. Nós nem sequer encaminhamos o pedido ao presidente Lula, pois ele
está extremamente ocupado com as eleições, faltando apenas dois meses para o
pleito”, afirmou.
Questionado
se o ato teria sido uma iniciativa exclusiva de Marco Rubio ou se seria uma
política oficial dos EUA, o chanceler deixou claro que considera que vê o gesto
como envolvendo “todo o governo dos EUA, incluindo Marco Rubio”. “Conversei com
ele várias vezes — duas delas em Washington — e discutimos essas questões.
Lembremos que tudo começou com tentativas de obstruir os processos legais
contra o ex-presidente (Jair) Bolsonaro, que havia tentado um golpe de Estado
fracassado. Aquele plano de golpe militar incluía o assassinato do presidente
eleito e de um membro da Suprema Corte. Foi aí que a interferência começou —
com sanções e exigências feitas ao governo para interromper os processos contra
o ex-presidente; —algo que, aliás, não pode ser feito no Brasil, pois os
poderes são independentes”.
Sobre a
pressão dos EUA para afastar a China da região, Vieira destacou que “o Brasil
mantém relações muito importantes com os EUA — é o nosso segundo maior parceiro
comercial — e também tem laços significativos com a China. A China está
presente não apenas no Brasil, mas em todas as Américas. O presidente Lula está
implementando uma política de engajamento global em todos os continentes,
visando a um comércio equilibrado; por exemplo, o comércio com o Sudeste
Asiático está crescendo enormemente, assim como o comércio com a Europa. Não
temos dúvidas sobre a importância de manter relações com todos os países”.
Para
ele, “uma política de pressão e sanções não é útil; a negociação é o que
funciona”. “O Brasil sempre privilegiou a negociação e o entendimento mútuo,
seja com aqueles que compartilham nossas posições ou com aqueles com quem temos
divergências”, disse. “Impor sanções é inadequado; o interesse nacional deve
ser sempre a prioridade, e é isso que defendemos. Lula não tem interesse na
política interna de outros países; como Chefe de Estado, ele está aberto a
discutir e negociar com todas as nações, independentemente de sua postura
política. Não é crível pensar que uma ação punitiva vá melhorar a posição de
negociação de alguém”, insistiu.
Vieira
também destaca o papel da família Bolsonaro. “Eles foram responsabilizados no
Brasil e devem responder por crimes de alta traição e ofensas contra a nação”,
disse. “São responsáveis pela campanha que levou às sanções que causam
sofrimento a empresários, capitalistas, servidores públicos e trabalhadores que
estão perdendo seus empregos”, disse. Segundo ele, o governo brasileiro
implementou programas para proteger os setores mais afetados. “Quanto à família
Bolsonaro, lembro que dois indivíduos já foram condenados: um pelo Supremo
Tribunal Federal (o ex-presidente Jair Bolsonaro) e o outro — Eduardo, irmão do
candidato à presidência Flávio — que está atualmente nos Estados Unidos e
perdeu seu mandato na Câmara dos Deputados”. “No Brasil, ele enfrentará
processos judiciais pelas declarações e ações com as quais atacou o país”,
completou.
Para
ele, todos os países da região enfrentam dificuldades com isso — inclusive a
Argentina e também o Brasil. “Todos nós estamos sofrendo o impacto das tarifas
dos EUA”, completou.
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Chanceler brasileiro diz que Milei deve parar as ‘agressões imediatamente’
Mauro
Vieira, afirmou o Javier Milei deve parar de agredir o Brasil “imediatamente”.
As declarações ocorrem depois de duas semanas de tensão entre os países, a
retirada de embaixadores e de constantes ataques por parte do presidente da
Argentina contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Questionado
se Milei agiu a mando de Washington ao atacar Lula e o Supremo Tribunal
Federal, o chanceler desconversou. “Não sei dizer; desconheço a natureza dos
contatos do presidente Milei com o governo dos EUA. O que posso afirmar é que a
situação bilateral entre Brasil e Argentina chegou a um ponto em que está sendo
gerida por encarregados de negócios. Isso se deve às agressões — dirigidas não
apenas a indivíduos, mas também ao Brasil, às suas instituições, aos seus
poderes e ao presidente do Supremo Tribunal — cometidas pelo presidente
argentino”, disse. “E o presidente Milei não fez isso apenas uma vez; ele o fez
em várias ocasiões em menos de uma semana, começando na convenção do Partido
Liberal. As imagens daquele evento — a postura do presidente argentino e suas
palavras duras — chocaram tanto brasileiros quanto argentinos; foi um
comportamento surpreendente, que ele repetiu posteriormente”, afirmou o
ministro.
Segundo
ele, o mais importante a ressaltar é que a relação entre Argentina e Brasil é
vital e transcende quem quer que esteja no poder em um determinado momento. “O
Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina; compartilhamos programas
bilaterais de longa data e mecanismos cruciais — basta lembrar o encontro entre
os presidentes Raúl Alfonsín e José Sarney na fronteira, que inaugurou uma nova
era nas relações mútuas. Chegamos até a estabelecer mecanismos de transparência
em questões nucleares”, disse. Para ele, a Argentina “precisa valorizar sua
relação com o Brasil, assim como o Brasil valoriza sua relação com a Argentina.
Devemos ser muito claros: em prol dessa relação, esse tipo de agressão precisa
cessar imediatamente para que possamos trabalhar no vínculo bilateral, que é
tão importante. Para o governo brasileiro, a relação entre os dois países é
primordial — absolutamente vital — e precisamos saber se o atual governo
argentino pensa o mesmo em relação ao Brasil. Aqueles insultos foram muito graves.
Portanto, devemos preservar essa relação, interromper as agressões e retomar um
caminho de normalidade em nossos laços binacionais”, disse.
Vieira
ainda desmente a acusação de Milei de que o governo brasileiro teria financiado
uma suposta campanha internacional contra a Argentina. “Isso é totalmente
falso. Não é preciso ser economista para perceber o absurdo das alegações sobre
pagamentos que somariam bilhões… …ou das referências feitas ao ex-ministro da
Economia da Argentina — que também foi candidato à presidência. Ele veio ao
Brasil, mas o fez para visitar o ministro da Fazenda brasileiro enquanto este
ainda chefiava a pasta da economia; é impossível afirmar que isso significou
que favorecemos um candidato específico. Isso é totalmente falso”, disse o
chanceler, numa referência a Sergio Massa.
Segundo
o ministro, o embaixador brasileiro em Buenos Aires Julio Bitelli retornará
“quando cessarem as condições que levaram à sua saída — assim como ocorreu com
a saída do embaixador (da Argentina em Brasília, Guillermo Daniel) Raimondi, a
quem conheço há 30 anos”. “Ele é um diplomata distinto. É necessário um gesto:
parar com os ataques. É um gesto simples, dada a importância das relações
bilaterais”, disse.
Vieira
deixou claro que gostaria de visitar a Argentina. Mas diz que a decisão de
Milei de chamar Lula de comunista “faz parte de todo o padrão de ataques. “É
surpreendente porque o Brasil tem uma economia aberta — atualmente com a menor
taxa de inflação de sua história, desemprego mínimo, comércio exterior robusto
e enormes reservas internacionais. É um país que opera sob um modelo
capitalista. O presidente Lula nunca negou nada nem tentou mudar esse padrão
econômico. Não sei; talvez essa seja simplesmente a visão do presidente
argentino”, disse.
O
chanceler destacou ainda que respeita a eleição de movimentos de direita em
toda a região e insiste que o Brasil não está isolado. “Isso é falso; o Brasil
mantém amplo contato com todos os países da região. Falo com vocês neste
momento de Cali, na Colômbia, para onde vim para a posse do presidente Abelardo
de la Espriella — uma cerimônia à qual o presidente Lula da Silva não pôde
comparecer devido às eleições que ocorrerão em poucos meses”, disse. “Na semana
passada, também representei o presidente na posse da presidente peruana Keiko
Fujimori. Mantemos excelentes relações com todos os líderes latino-americanos;
o presidente chileno José Antonio Kast deve visitar o Brasil, e estamos
definindo a data. Nossos laços com o presidente Rodrigo Paz, na Bolívia, são
excelentes, e recebemos sinais muito positivos do governo peruano quanto à
continuidade de nossa relação”, insistiu.
• Genoino: “Múcio tem que deixar o
Ministério da Defesa”
O
ex-presidente do PT José Genoino defendeu a saída de José Múcio do Ministério
da Defesa e afirmou que o governo Lula precisa formular uma nova política de
Defesa Nacional baseada na soberania, na subordinação das Forças Armadas ao
poder civil e na integração entre os países da América do Sul. Em entrevista ao
Bom Dia 247, Genoino reagiu a uma declaração de Múcio sobre a hipótese de uma
invasão dos Estados Unidos ao Brasil. Segundo o ex-presidente do PT, uma
manifestação desse tipo não pode ser tratada como comentário informal quando
parte do responsável pelo Ministério da Defesa. “Há muito tempo eu defendo a
demissão do ministro da Defesa. Essa frase dele é uma vergonha, é inaceitável”,
afirmou.
Genoino
disse que o episódio reforça uma divergência que, segundo ele, já existia em
relação à permanência de Múcio no cargo. “Eu faço oposição ao ministro Múcio.
Acho que o governo não devia ter nomeado. Várias vezes eu já pedi para que ele
fosse substituído”, declarou. Para Genoino, a questão vai além de uma
declaração isolada. Ele argumentou que a condução do Ministério da Defesa deve
estar vinculada a uma concepção de soberania nacional que envolva política
externa, desenvolvimento tecnológico, capacidade de defesa do território e
controle civil sobre as estruturas militares. “Eu defendo uma nova política de
Defesa Nacional que se baseia na integração social do país, do povo, bem-estar
social, acesso à tecnologia, parceria com os países vizinhos, integração da
América do Sul, subordinação do poder militar ao poder civil que emana da
soberania popular e uma reestruturação das Forças Armadas”, disse.
Segundo
Genoino, discutir Defesa Nacional significa identificar as vulnerabilidades do
país diante de pressões externas e definir como o Estado brasileiro deve
responder a elas. Para ele, esse debate ganhou peso diante das disputas
internacionais por petróleo, terras raras, minerais e tecnologia. “O ministro
da Defesa está brincando de uma maneira irresponsável ao falar esse tipo de
coisa numa questão tão delicada, em que o mundo está discutindo guerra, novas
armas, novas técnicas e novas estratégias”, afirmou.
Genoino
também relacionou a função das Forças Armadas à defesa do território diante de
ameaças externas. Na avaliação dele, segurança pública e Defesa Nacional devem
ser tratadas como áreas distintas. Nesse contexto, voltou a defender mudanças
no artigo 142 da Constituição, que trata das Forças Armadas e estabelece, entre
suas atribuições, a defesa da Pátria, a garantia dos poderes constitucionais e,
por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem. “Se nós vamos tratar a
Defesa Nacional como questão estratégica, assim como devemos tratar a questão
da segurança pública e separar os dois temas, temos que partir da ideia da
subordinação do aparato militar ao poder civil”, afirmou.
Genoino
também defendeu retirar do debate sobre as Forças Armadas o que chamou de
“rabicho do artigo 142 da lei e da ordem”. Segundo ele, as instituições
militares não devem ser organizadas a partir da lógica de segurança interna ou
de combate a um “inimigo interno”. “Forças Armadas não são para cuidar de
segurança, de ordem interna, de inimigo interno. São para cuidar da segurança
diante de ameaças”, disse.
Para o
ex-presidente do PT, essas ameaças não se limitam a uma ação militar. Ele
afirmou que disputas por recursos naturais, sanções, tarifas, pressões
econômicas e movimentos sobre setores estratégicos também precisam fazer parte
de uma política nacional de Defesa.
Genoino
citou, nesse ponto, a política do governo dos Estados Unidos para a América
Latina e afirmou que o Brasil deve associar sua estratégia militar à defesa de
seus recursos e de sua capacidade de decisão. “Qual é o pano de fundo de toda
essa ofensiva em relação à nossa América Latina? É a crise que o imperialismo
vive. Ele quer solucionar a crise econômica através de tarifa, de protecionismo
nos Estados Unidos e de sugar a posse dos recursos naturais, como petróleo,
terras raras e minérios críticos”, declarou. A partir desse diagnóstico,
Genoino afirmou que a política do Ministério da Defesa precisa estar coordenada
com a política externa conduzida pelo Itamaraty. Na avaliação dele, não pode
haver posições divergentes dentro do governo sobre questões que envolvam
soberania e relações internacionais.
“Nós
temos que ter uma política de Defesa associada à política de soberania nacional
do Itamaraty”, disse.
Genoino
citou a atuação do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e afirmou
que a posição adotada pela diplomacia brasileira diante das pressões externas
entra em conflito com declarações como a atribuída a Múcio. “Não dá, no nosso
governo, para o Itamaraty fazer o que está fazendo, o ministro Mauro Vieira
declarar, tomar posição, e o ministro da Defesa dizer essa bobagem inaceitável.
No mesmo governo não dá”, afirmou. Para Genoino, a manifestação de Múcio também
produz um problema institucional porque atinge a própria função das Forças
Armadas em um momento no qual o governo discute investimentos e uma política
para o setor. “É uma deslegitimação das Forças Armadas. Deu um desprestígio.
Ele está tratando uma coisa séria como se fosse uma conversa de boteco”, disse.
Ao
defender a substituição de Múcio, Genoino afirmou que o debate não deveria se
limitar à escolha de outro nome para o ministério. Segundo ele, um novo governo
Lula deveria promover uma discussão sobre os objetivos da Defesa Nacional e
definir os critérios para a condução da pasta. “Eu defendo que o governo que
vai ser eleito em 2026 faça uma discussão sobre uma nova política de Defesa e
coloque gente comprometida com os princípios de uma política de Defesa como
política de Estado, como uma política pública do Estado brasileiro”, afirmou.
Na formulação apresentada por Genoino, a mudança no Ministério da Defesa seria
parte de uma revisão mais ampla da relação entre governo civil, Forças Armadas,
soberania e política externa. Para ele, a definição dessa política deve partir
do princípio de que o comando militar está submetido às instituições civis e à
soberania popular. É nesse quadro que o ex-presidente do PT sustenta a saída de
José Múcio. Para Genoino, a declaração sobre uma possível invasão dos Estados
Unidos expôs uma diferença entre a postura que espera do Ministério da Defesa e
a estratégia que considera necessária para o país. “Múcio tem que deixar o
Ministério da Defesa”, defendeu.
Fonte:
Por Jamil Chade, em ICL Notícas/Brasil 247

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