segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O arsenal Trump-bolsonarista na guerra contra a reeleição de Lula

Está amplamente documentada a atuação dos EUA nos golpes, nos momentos de rupturas institucionais e de desestabilização do nosso país desde, pelo menos, meados do século passado. Esse intervencionismo continua no presente.

O inventário resumido da intromissão estadunidense abarca circunstâncias como: a oposição à campanha “O petróleo é nosso” e à criação da Petrobrás, a derrubada e suicídio de Getúlio, a resistência à posse do Jango em 1961, o golpe cívico-militar e implantação da ditadura em 1964, a ambientação da crise que culminou na derrubada da Dilma, a cooptação e apoio a agentes da Lava Jato e da mídia na prisão farsesca do Lula – para citar os eventos mais marcantes.

Não há, portanto, ineditismo na tentativa de interferência dos Estados Unidos na soberania brasileira.

O inédito, contudo, é o modo truculento, escancarado e até espalhafatoso como Donald Trump, Marco Rubio e extremistas republicanos atacam nosso país com o auxílio interno da família de gângsteres.

Nas agressões perpetradas contra o Brasil, o governo Trump e os Bolsonaro não adotam nenhuma discrição ou parcimônia. Ao contrário, fazem questão de dar publicidade e produzir enorme repercussão midiática com base em mentiras deslavadas.

Assim ocorreu no tarifaço, nas sanções a autoridades, na classificação de facções criminosas como terroristas, na retirada do visto da embaixadora do Brasil nos EUA.

O Departamento de Estado não esconde o plano para interferir e criar confusão na eleição brasileira.

Sem designar embaixador no Brasil desde o início do seu mandato, Trump agora quer acelerar a designação de Daniel Perez de olho no calendário eleitoral, para que seu representante se associe aos bolsonaristas na avacalhação das urnas e do resultado da eleição.

Na sabatina na Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA, Perez declarou sem cerimônia: “defenderei condições que permitam eleições livres e justas e a liberdade de expressão, pois um Brasil estável e democrático é um parceiro melhor”.

O jornal Washington Post reportou que Marco Rubio pretendia enviar ao Brasil funcionários com a missão de lançar dúvidas e questionamentos sobre a lisura do sistema eleitoral brasileiro.

Numa iniciativa atrevida, que viola totalmente a Convenção de Viena sobre relações diplomáticas, o Consulado dos Estados Unidos em São Paulo promove encontros com ativistas e influenciadores de direita e extrema-direita para organizar ações criminosas no esgoto digital.

É bastante plausível se supor que o desenvolvimento destas ações espalhafatosas integra uma estratégia para desviar a atenção de iniciativas operadas em camadas secretas, no subterrâneo, com ações clandestinas, de sabotagem, de terror e guerra híbrida por meio das big techs, das agências de inteligência estadunidenses e emprego de Inteligência Artificial.

É evidente que além dos ataques visíveis e escancarados, Trump e os bolsonaristas dispõem, também, de um arsenal oculto e poderoso na guerra contra a reeleição do presidente Lula.

Os achados nas pesquisas eleitorais podem ser sintomas da eficiência dessa ação “invisível”, porém, persistente, da extrema-direita no Brasil para fraudar a soberania popular e golpear a democracia.

Mesmo com a exploração diuturna do ódio antipetista, não é crível Lula manter um teto baixo de intenção de votos e de aprovação do governo, apesar das realizações do seu governo, ao passo que Flávio Bolsonaro consegue preservar, sustentar índices elevados de intenção de votos em meio à enxurrada de revelações sobre a trajetória corrupta e criminosa dele e da família.

Está em curso um processo brutal de deformação da opinião pública com técnicas sofisticadas de manipulação, inteligência artificial e propagação de fake news em escala industrial.

Trump adota uma ofensiva agressiva e brutal na América Latina, variando as formas de ação de país a país, e conforme cada realidade específica.

Na Venezuela, com invasão militar e sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa. Na Colômbia, Peru e Honduras, com bombardeios semióticos via redes digitais para eleger aliados de extrema-direita. Em Cuba, a CIA criou uma força-tarefa secreta para desestabilizar o país e tentar operar a mudança de regime.

A eleição brasileira deste ano está tão ou mais ameaçada que a de 2022. Em artigo publicado em junho passado, Trump escreveu que a eleição no Brasil será “como um grande teste para o ressurgimento conservador na América Latina”.

A descoberta de grupo extremista que disseminava conteúdos neonazistas, racistas e misóginos e planejava ataques terroristas durante o período eleitoral confirma que a democracia está em perigo.

•        PT, PV e PCdoB querem apurar se plataforma ‘Direita Já’ faz uso ilegal de Fundo Partidário

O Partido dos Trabalhadores, o PV e o PCdoB, que integram a Federação Brasil Fé da Esperança, pedem à Justiça Eleitoral que investigue, com urgência, a plataforma direitaja.com, criada pelo PL, por disseminar, em larga escala, conteúdos mentirosos, deep fakes e propaganda eleitoral negativa contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT. Com uma detalhada e robusta argumentação jurídica, a Federação questiona se o PL, sigla do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, está utilizando, de forma ilícita e irregular, recursos do Fundo Partidário para produzir e distribuir “materiais prontos para influenciadores selecionados, com o objetivo principal de atacar o presidente Lula e o PT”.

Além da suspeita de que o PL esteja usando dinheiro público para bancar ataques degradantes a Lula, a representação eleitoral levanta a hipótese de que a “replicação apresentada como espontânea pode encobrir disparo em massa vedado”, financiado indiretamente com recursos do Fundo Partidário”. A Justiça Eleitoral veda “qualquer tipo de disparo em massa, inorgânico, proveniente de partidos e candidatos”.

Os partidos pedem ao TSE que o PL seja obrigado a explicar quais recursos financeiros foram usados na plataforma, apresentando contratos, notas fiscais e financiamento, além de serem identificados os influenciadores e colaboradores envolvidos na produção de conteúdos. PT, PCdoB e PV também pedem a suspensão imediata dos materiais já reconhecidos como desinformação pelo TSE, e a proibição de qualquer novo impulsionamento pago enquanto o processo tramita.

A maior parte dos materiais da plataforma são conteúdos fartamente usados em 2022 e que o Tribunal Superior Eleitoral já carimbou como “fatos notoriamente inverídicos ou gravemente descontextualizados” que comprometem a integridade do processo eleitoral, aponta a equipe jurídica da Federação Brasil da Esperança. São, por exemplo, deep fakes e conteúdos de IA que associam Lula ao PCC, ao Comando Vermelho e ao narcotráfico — teses que o próprio TSE já reconheceu como desinformação em decisões anteriores.

<><> Programa Creators, influenciadores e pouca transparência

A plataforma criada pela extrema direita, uma central de produção de propaganda negativa contra Lula e o PT, oferta posts prontos para serem publicados por quaisquer usuários na internet – são liberados até 50 posts por semana. Nela funciona o “Programa de Creators”, definido como uma “parceria” com mais de 200 influenciadores e que permite 50 milhões de visualizações nos conteúdos.

“Em outras palavras, o sistema de parceria com influenciadores estabelecido pelo Partido Liberal pode fomentar uma parcela do mercado digital com base na disponibilização de propaganda eleitoral negativa contra Luiz Inácio Lula da Silva e o Partido dos Trabalhadores. Deixa-se de lado, portanto, a espontaneidade da manifestação política à medida em que o lucro se insere na equação deste fluxo comunicacional”, aponta o questionamento da Federação.

<><> Rede paralela de distribuição coordenada

A Federação Brasil da Esperança alerta que esse hub digital da extrema direita, na essência, é “uma forma alternativa ao impulsionamento (ou impulsionamento indireto)”. Ou seja, é uma forma de driblar a exigência legal de anúncios pagos e transparentes de conteúdos impulsionados.

“Em síntese, substitui-se o mecanismo tradicional de compra de anúncios junto ao provedor de aplicação por uma rede paralela de distribuição coordenada, que produz efeito de alcance e repercussão artificialmente amplificado — até mesmo superior ao de campanhas pagas de mídia —, sem se submeter a nenhum dos controles de transparência, rotulagem e responsabilização que a Justiça Eleitoral exige do impulsionamento regular”, denunciam os partidos.

Como ocorre uma distribuição segmentada dos conteúdos na plataforma, outro ponto de alerta é que se trata de uma disseminação opaca, que “escapa do escrutínio público e da fiscalização eleitoral, já que cada grupo recebe uma narrativa diferente e ninguém vê o quadro completo da campanha”.

<><> Estrutura profissional

Apesar de se apresentar como uma iniciativa do PL com apoio de voluntários, o material disponibilizado tem segmentação para várias mídias, de forma visivelmente profissional.

“Nesse ponto específico, é extremamente improvável que a manutenção de uma plataforma que produz dezenas de peças profissionais por semana, em múltiplos formatos e com padrão gráfico apurado, se concilie com essa afirmação de trabalho inteiramente não remunerado, traduzindo incompatibilidade que sinaliza, em tese, a existência de estrutura profissional e de custos subjacentes não revelados”, questiona a representação.

A agência Magic Beans, que tem clientes corporativos de grande porte, assina como desenvolvedora da plataforma. Mas o PL e o direitaja.com não são listados como seus clientes.

Outro ponto levantado diz respeito ao domínio do site, “registrado internacionalmente sob serviço de privacidade prestado pela Domains By Proxy, LLC, no dia 24.09.2025, com registro renovado em 30.05.2026”.

A equipe jurídica destaca ainda o fato de terem sido feitos 14 (quatorze) anúncios pagos sobre o direitaja.com, veiculados na página do PL no Facebook, que totalizam R$ 39.897,00 em investimento na plataforma da Meta.

<><> Sobre o Fundo Partidário

O uso do Fundo Partidário é regulamentado por lei e não pode, frisam os partidos, financiar “uma central de produção de conteúdo, em escala industrial, cujo objeto declarado e sistemático é o ataque ao pré-candidato adversário e ao partido que integra”.

O Fundo Partidário, destaca a representação, “constitui ferramenta útil ao desenvolvimento da democracia brasileira ao fomentar a atividade partidária”, sendo inconcebível “cogitar que no escopo de atividade dos partidos políticos se encontre a promoção coordenada de ataques, falsidades e enganos contra adversários políticos”.

<><> Os pedidos

Em resumo, os partidos pedem na representação que:

1. sejam apresentados ao TSE contrato, nota fiscal, recibos, comprovantes de pagamento do desenvolvimento da plataforma, produção de conteúdos e todos os serviços para realização do site;

2. que seja detalhada a origem dos recursos financeiros para custear o site, com apresentação de documentos de comprovação;

3. que sejam fornecidas informações sobre os colaboradores aprovados para produzir conteúdos, para garantir a plena transparência sobre a autoria;

4. que o TSE seja informado sobre grupos de WhatsApp, Telegram, Discord, E-mail, enfim, qualquer canal de mensagens ou transmissão de conteúdos ou materiais eletrônicos utilizados para fornecer os materiais do Direita Já aos usuários cadastrados, bem como identifique os responsáveis por esses grupos e suas regras de participação e fornecimento de conteúdo;

5. a identificação dos influenciadores beneficiados pelo Programa Creators;

6. a suspensão imediata, na plataforma e em todos os perfis de participantes, de conteúdos, materiais, vídeos, tweets, imagens estáticas ou áudios que propaguem ou divulguem qualquer dos “fatos notoriamente inverídicos ou gravemente descontextualizados que atinjam a integridade do processo eleitoral” já reconhecidos pelo TSE.

 

Fonte: Por Jeferson Miola, no Viomundo/Rede PT de Comunicação

 

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