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bolsonaristas destinaram R$ 1,37 milhão da cota parlamentar para rede com
ex-assessor e “fantasma” na FAB
Cinco
deputados federais da base bolsonarista destinaram ao menos R$ 1.373.250 da
Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP) a três empresas
conectadas a um mesmo núcleo de empresários da área de comunicação.
Levantamento da Fórum em dados públicos encontrou empresa ligada a ex-assessor
cobrando seu antigo gabinete apenas sete dias depois da exoneração, um CNPJ
emitindo sua primeira nota de cota parlamentar 48 horas após ser aberto e um
empresário ligado a empresas pagas pelo deputado Carlos Jordy (PL-RJ)
aparecendo em documento oficial como assessor do parlamentar durante uma viagem
em aeronave da FAB, apesar de não constar entre os funcionários do gabinete.
No
centro da rede aparecem Alexandre Bueno Camargo e Bruno Lara Martins, ligados
ao Instituto Mais Cidades, à AB Comunicação Digital e à Agência Viralis. Os
pagamentos identificados pela reportagem partiram dos gabinetes de Giovani
Cherini (PL-RS), Carlos Jordy (PL-RJ), Albuquerque (Republicanos-RR), Delegado
Caveira (PL-PA) e Dr. Flávio (PL-RJ).
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R$ 1,37 milhão de cinco gabinetes
O maior
volume identificado pela Fórum saiu da cota de Giovani Cherini: R$ 600.150. Em
seguida aparecem Carlos Jordy, com R$ 331.900; Albuquerque, com R$ 320 mil;
Delegado Caveira, com R$ 69.200; e Dr. Flávio, com R$ 52 mil.
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Da folha de pagamento à nota fiscal em sete dias
Um dos
episódios mais relevantes envolve Bruno Lara Martins. Ele ocupava o cargo de
secretário parlamentar SP22 no gabinete de Giovani Cherini e teve sua
exoneração registrada com efeitos a partir de 4 de janeiro de 2023.
Sete
dias depois, em 11 de janeiro, o Instituto Mais Cidades, do qual Bruno figurava
como sócio-administrador, emitiu uma nota fiscal de R$ 6 mil justamente para o
gabinete de Cherini. O documento utilizava ainda o e-mail pessoal de Bruno como
contato.
As
regras da Câmara estabelecem restrições ao ressarcimento de despesas com
empresas ligadas a servidores e a pessoas que tenham deixado a Casa há menos de
seis meses. A previsão consta do Ato da Mesa nº 102/2019 e do Ato da Mesa nº
43/2009.
O
Instituto também entrou na cota de Carlos Jordy em 16 de maio de 2023, ainda
dentro dos seis meses contados desde a exoneração de Bruno.
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O CNPJ que chegou à cota em 48 horas
A AB
Comunicação Digital foi constituída formalmente em 27 de maio de 2024. Apenas
dois dias depois, em 29 de maio, emitiu sua primeira nota identificada pela
reportagem relacionada à CEAP.
O
primeiro gabinete foi o de Dr. Flávio, suplente que havia assumido a cadeira de
Jordy durante o afastamento do deputado para disputar a Prefeitura de Niterói.
Quando
Jordy retomou o mandato, a AB passou a aparecer repetidamente entre suas
despesas de comunicação.
O
levantamento encontrou também alternância entre empresas do núcleo. Em novembro
de 2023, o Instituto Mais Cidades cobrou de Jordy R$ 6,5 mil por gerenciamento
de Facebook e Instagram e edição de vídeos. Em janeiro de 2026, a AB
Comunicação cobrou R$ 15 mil por atividades semelhantes.
Duas
empresas, duas notas, no mesmo dia
No
gabinete do deputado Delegado Caveira, a sobreposição aparece de forma ainda
mais explícita. Em 28 de abril de 2026, duas empresas ligadas ao mesmo núcleo
emitiram notas no mesmo dia. Juntas, as despesas chegaram a R$ 19,4 mil.
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De empresário pago pela cota a “assessor” na FAB
A
contradição mais evidente encontrada pela reportagem envolve Alexandre Bueno
Camargo e Carlos Jordy.
O
levantamento identificou R$ 331,9 mil em pagamentos da cota de Jordy a duas
empresas relacionadas ao núcleo de Alexandre: R$ 207 mil para a AB Comunicação
Digital e R$ 124,9 mil líquidos para o Instituto Mais Cidades.
Nos
dias 26 e 27 de junho de 2025, Alexandre integrou uma diligência oficial da
Comissão de Direitos Humanos do Senado ao arquipélago do Marajó, no Pará.
Participavam da agenda, entre outros, Jordy, Damares Alves, Delegado Caveira e
Éder Mauro.
A
comitiva utilizou aeronave da Força Aérea Brasileira. No relatório oficial da
missão, Alexandre aparece na seção de assessores da Câmara dos Deputados como
“Alexandre Bueno Camargo — assessor do deputado Carlos Jordy”.
A
relação pública de funcionários do gabinete de Jordy, entretanto, não registra
Alexandre entre seus integrantes em 2025.
Uma
publicação do próprio Senado sobre a diligência atribui ainda a Alexandre o
crédito de uma fotografia produzida durante a missão.
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Fórum procurou os cinco deputados
A Fórum
procurou formalmente, em 5 de agosto de 2026, os gabinetes dos cinco deputados
citados no levantamento e encaminhou questionamentos específicos sobre os
pagamentos. Foi solicitado retorno até as 12h daquele dia.
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Carlos Jordy recebeu 14 perguntas. A reportagem questionou o deputado sobre os
R$ 331,9 mil pagos à AB Comunicação e ao Instituto Mais Cidades; o processo de
seleção das empresas; contratos, pesquisas de preços e relatórios de execução;
a quarentena relacionada ao ex-servidor Bruno Lara; a alternância do
faturamento entre as empresas; e a relação de Jordy com Alexandre Bueno
Camargo.
O
gabinete também foi questionado diretamente sobre a viagem ao Marajó: se
Alexandre havia sido nomeado, contratado ou credenciado como assessor; por que
o relatório do Senado o identificou nessa condição; quem forneceu essa
informação ao Senado; se o gabinete pediu sua inclusão na comitiva ou no voo da
FAB; se houve gastos públicos com sua participação; e se atividades realizadas
durante a missão foram posteriormente faturadas à cota parlamentar.
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Giovani Cherini foi questionado sobre os R$ 600.150 identificados pela
reportagem, sobre os serviços contratados, documentos comprobatórios e,
especificamente, sobre a nota de R$ 6 mil emitida pelo Instituto Mais Cidades
apenas sete dias após a exoneração de Bruno Lara. A Fórum perguntou se o
gabinete verificou a quarentena de seis meses, se consultou formalmente a
Câmara e quem atestou a conformidade das despesas.
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Albuquerque recebeu perguntas sobre os R$ 320 mil, a seleção das empresas,
eventual pesquisa de preços, os serviços realizados, vínculos anteriores do
gabinete com Alexandre ou Bruno, contratações simultâneas ou sucessivas e a
verificação das restrições aplicáveis a empresas ligadas a ex-servidores.
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Delegado Caveira foi questionado sobre os R$ 69,2 mil e, especificamente, sobre
as duas notas emitidas no mesmo dia, em 28 de abril de 2026, que somaram R$
19,4 mil. A reportagem perguntou quais serviços distintos justificaram as duas
cobranças, além de questioná-lo sobre a presença de Alexandre na diligência ao
Marajó.
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Dr. Flávio foi questionado sobre os R$ 52 mil e sobre a contratação da AB
Comunicação Digital apenas dois dias depois da abertura formal da empresa. O
gabinete foi instado a informar quando ocorreram o primeiro contato, a
apresentação da proposta, a contratação e o início efetivo dos serviços, além
de apresentar documentação que comprovasse a execução.
Até a
conclusão da reportagem, nenhum dos cinco gabinetes havia respondido aos
questionamentos enviados pela Fórum.
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Jordy já é alvo de outra investigação sobre cotas
Os
novos achados surgem enquanto despesas parlamentares de Carlos Jordy já estão
sob escrutínio em outra frente.
A Fórum
revelou anteriormente que a Polícia Federal mirou assessores ligados a Jordy e
a Sóstenes Cavalcante em investigação sobre suspeitas envolvendo cotas
parlamentares.
O novo
levantamento acrescenta outra trilha documental: três empresas conectadas, mais
de R$ 1,37 milhão pagos por cinco gabinetes, um ex-assessor ligado a empresa
que faturou uma semana depois de sua exoneração, um CNPJ que chegou à cota
parlamentar em apenas 48 horas e um empresário privado apresentado em documento
oficial como assessor de um deputado que destinou centenas de milhares de reais
às empresas do núcleo.
• Antes de empresa faturar R$ 207 mil de
Jordy, dono foi indiciado como suspeito de atuar como “cobrador” de rachadinha
Anos
antes de uma empresa ligada a Alexandre Bueno Camargo receber R$ 207 mil da
cota parlamentar de Carlos Jordy (PL-RJ), o empresário foi indiciado em uma
investigação no Rio Grande do Sul sob suspeita de peculato e associação
criminosa em um caso que apurava o recolhimento de parte dos salários de
servidoras públicas. Nos relatos reunidos durante a investigação, Alexandre foi
apontado como a pessoa que buscava pessoalmente valores.
ENTENDA:
O
episódio ocorreu em Bagé (RS) e integra o histórico reconstruído pela Fórum
durante o rastreamento dos personagens relacionados às empresas que
posteriormente passaram a receber recursos da Cota para o Exercício da
Atividade Parlamentar em Brasília.
O
desfecho precisa ser registrado: Alexandre foi posteriormente absolvido pela
Justiça, que considerou insuficiente o conjunto probatório para condená-lo.
O
histórico volta a ganhar interesse público porque, anos depois, Alexandre
aparece ligado à AB Comunicação Digital, que recebeu R$ 207 mil da cota
parlamentar de Carlos Jordy.
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Dos gabinetes de Bagé aos CNPJs de Brasília
Alexandre
Bueno Camargo ocupou diferentes funções públicas em Bagé, entre elas cargos de
chefe de gabinete, assessor técnico e diretor da TV Câmara.
Seu
nome aparece em investigações produzidas no contexto político e eleitoral do
município ao lado de Bruno Lara Martins, personagem que anos mais tarde também
apareceria no núcleo de empresas de comunicação identificado nos pagamentos de
deputados federais.
No
Inquérito nº 79-88.2016.6.21.0142, da Procuradoria Regional Eleitoral do Rio
Grande do Sul, relatórios produzidos a partir de material apreendido
registraram Alexandre e Bruno durante atividades investigadas no contexto do
uso da estrutura política local.
Uma
consulta processual relacionada ao núcleo de Bagé registra ainda ação do
Ministério Público do Rio Grande do Sul envolvendo Alexandre Bueno Camargo e
outros.
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O suspeito de recolher o dinheiro
Um
despacho da Polícia Federal, de nº 1244/2016-DPF/BGE/RS, registrou o
indiciamento de Alexandre sob suspeita de peculato e associação criminosa.
A
investigação reuniu relatos de ex-servidoras sobre a suposta devolução de parte
dos salários recebidos.
Jane
Morales e Dejane Machado aparecem entre as pessoas que prestaram depoimentos
sobre o funcionamento do sistema investigado.
Os
relatos mencionavam devolução de parte dos vencimentos e, em um dos episódios
descritos, um empréstimo bancário de R$ 10 mil cujo dinheiro teria sido
repassado ao núcleo político.
Alexandre
foi apontado no curso da investigação como a pessoa que comparecia a locais de
trabalho e residências para recolher valores.
É desse
conjunto de depoimentos que surge a descrição de seu papel como uma espécie de
“cobrador” do esquema investigado.
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Alexandre foi absolvido
O
indiciamento não resultou em condenação.
Na fase
judicial, Alexandre acabou absolvido. A Justiça entendeu que contradições
existentes nos depoimentos e as provas reunidas não eram suficientes para
sustentar uma condenação criminal.
Portanto,
houve investigação, indiciamento e acusações formalizadas, mas não houve
condenação de Alexandre por esses fatos.
Anos
depois, R$ 207 mil da cota de Jordy
O nome
de Alexandre reaparece anos depois em outra ponta do financiamento público.
A AB
Comunicação Digital, ligada ao empresário, recebeu R$ 207 mil em despesas
atribuídas à cota parlamentar de Carlos Jordy.
A
relação com o entorno de Jordy ultrapassou as notas fiscais. Em junho de 2025,
Alexandre integrou a missão oficial ao Marajó e foi identificado em relatório
do Senado como “assessor do deputado Carlos Jordy”, apesar de não constar na
relação funcional pública do gabinete.
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Fórum questionou Jordy sobre sua relação com Alexandre
Antes
da publicação, a Fórum procurou formalmente Carlos Jordy em 5 de agosto de 2026
e perguntou, entre outros pontos, qual era a relação do deputado e de seu
gabinete com Alexandre Bueno Camargo.
O
gabinete foi questionado sobre os R$ 331,9 mil destinados à AB Comunicação
Digital e ao Instituto Mais Cidades, sobre o processo de seleção das empresas,
a comprovação dos serviços e a relação mantida com Alexandre.
A
reportagem perguntou ainda se Alexandre havia sido nomeado, contratado ou
credenciado formalmente como assessor de Jordy em algum momento e por que o
relatório oficial da viagem ao Marajó o identificou nessa condição sem que
houvesse registro funcional público correspondente.
Até a
conclusão desta reportagem, Carlos Jordy não havia respondido aos
questionamentos encaminhados pela Fórum.
O
histórico de Bagé não demonstra, por si só, irregularidade nas contratações
posteriores. Ele compõe, porém, a trajetória de um personagem que passou por
investigação e indiciamento no Rio Grande do Sul, foi absolvido pela Justiça e
anos depois reapareceu ligado a empresas abastecidas por verbas parlamentares
em Brasília — incluindo R$ 207 mil provenientes apenas da cota de Carlos Jordy.
Fonte:
Fórum

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