segunda-feira, 10 de agosto de 2026

5 bolsonaristas destinaram R$ 1,37 milhão da cota parlamentar para rede com ex-assessor e “fantasma” na FAB

Cinco deputados federais da base bolsonarista destinaram ao menos R$ 1.373.250 da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP) a três empresas conectadas a um mesmo núcleo de empresários da área de comunicação. Levantamento da Fórum em dados públicos encontrou empresa ligada a ex-assessor cobrando seu antigo gabinete apenas sete dias depois da exoneração, um CNPJ emitindo sua primeira nota de cota parlamentar 48 horas após ser aberto e um empresário ligado a empresas pagas pelo deputado Carlos Jordy (PL-RJ) aparecendo em documento oficial como assessor do parlamentar durante uma viagem em aeronave da FAB, apesar de não constar entre os funcionários do gabinete.

No centro da rede aparecem Alexandre Bueno Camargo e Bruno Lara Martins, ligados ao Instituto Mais Cidades, à AB Comunicação Digital e à Agência Viralis. Os pagamentos identificados pela reportagem partiram dos gabinetes de Giovani Cherini (PL-RS), Carlos Jordy (PL-RJ), Albuquerque (Republicanos-RR), Delegado Caveira (PL-PA) e Dr. Flávio (PL-RJ).

<><> R$ 1,37 milhão de cinco gabinetes

O maior volume identificado pela Fórum saiu da cota de Giovani Cherini: R$ 600.150. Em seguida aparecem Carlos Jordy, com R$ 331.900; Albuquerque, com R$ 320 mil; Delegado Caveira, com R$ 69.200; e Dr. Flávio, com R$ 52 mil.

<><> Da folha de pagamento à nota fiscal em sete dias

Um dos episódios mais relevantes envolve Bruno Lara Martins. Ele ocupava o cargo de secretário parlamentar SP22 no gabinete de Giovani Cherini e teve sua exoneração registrada com efeitos a partir de 4 de janeiro de 2023.

Sete dias depois, em 11 de janeiro, o Instituto Mais Cidades, do qual Bruno figurava como sócio-administrador, emitiu uma nota fiscal de R$ 6 mil justamente para o gabinete de Cherini. O documento utilizava ainda o e-mail pessoal de Bruno como contato.

As regras da Câmara estabelecem restrições ao ressarcimento de despesas com empresas ligadas a servidores e a pessoas que tenham deixado a Casa há menos de seis meses. A previsão consta do Ato da Mesa nº 102/2019 e do Ato da Mesa nº 43/2009.

O Instituto também entrou na cota de Carlos Jordy em 16 de maio de 2023, ainda dentro dos seis meses contados desde a exoneração de Bruno.

<><> O CNPJ que chegou à cota em 48 horas

A AB Comunicação Digital foi constituída formalmente em 27 de maio de 2024. Apenas dois dias depois, em 29 de maio, emitiu sua primeira nota identificada pela reportagem relacionada à CEAP.

O primeiro gabinete foi o de Dr. Flávio, suplente que havia assumido a cadeira de Jordy durante o afastamento do deputado para disputar a Prefeitura de Niterói.

Quando Jordy retomou o mandato, a AB passou a aparecer repetidamente entre suas despesas de comunicação.

O levantamento encontrou também alternância entre empresas do núcleo. Em novembro de 2023, o Instituto Mais Cidades cobrou de Jordy R$ 6,5 mil por gerenciamento de Facebook e Instagram e edição de vídeos. Em janeiro de 2026, a AB Comunicação cobrou R$ 15 mil por atividades semelhantes.

Duas empresas, duas notas, no mesmo dia

No gabinete do deputado Delegado Caveira, a sobreposição aparece de forma ainda mais explícita. Em 28 de abril de 2026, duas empresas ligadas ao mesmo núcleo emitiram notas no mesmo dia. Juntas, as despesas chegaram a R$ 19,4 mil.

<><> De empresário pago pela cota a “assessor” na FAB

A contradição mais evidente encontrada pela reportagem envolve Alexandre Bueno Camargo e Carlos Jordy.

O levantamento identificou R$ 331,9 mil em pagamentos da cota de Jordy a duas empresas relacionadas ao núcleo de Alexandre: R$ 207 mil para a AB Comunicação Digital e R$ 124,9 mil líquidos para o Instituto Mais Cidades.

Nos dias 26 e 27 de junho de 2025, Alexandre integrou uma diligência oficial da Comissão de Direitos Humanos do Senado ao arquipélago do Marajó, no Pará. Participavam da agenda, entre outros, Jordy, Damares Alves, Delegado Caveira e Éder Mauro.

A comitiva utilizou aeronave da Força Aérea Brasileira. No relatório oficial da missão, Alexandre aparece na seção de assessores da Câmara dos Deputados como “Alexandre Bueno Camargo — assessor do deputado Carlos Jordy”.

A relação pública de funcionários do gabinete de Jordy, entretanto, não registra Alexandre entre seus integrantes em 2025.

Uma publicação do próprio Senado sobre a diligência atribui ainda a Alexandre o crédito de uma fotografia produzida durante a missão.

<><> Fórum procurou os cinco deputados

A Fórum procurou formalmente, em 5 de agosto de 2026, os gabinetes dos cinco deputados citados no levantamento e encaminhou questionamentos específicos sobre os pagamentos. Foi solicitado retorno até as 12h daquele dia.

>>> Carlos Jordy recebeu 14 perguntas. A reportagem questionou o deputado sobre os R$ 331,9 mil pagos à AB Comunicação e ao Instituto Mais Cidades; o processo de seleção das empresas; contratos, pesquisas de preços e relatórios de execução; a quarentena relacionada ao ex-servidor Bruno Lara; a alternância do faturamento entre as empresas; e a relação de Jordy com Alexandre Bueno Camargo.

O gabinete também foi questionado diretamente sobre a viagem ao Marajó: se Alexandre havia sido nomeado, contratado ou credenciado como assessor; por que o relatório do Senado o identificou nessa condição; quem forneceu essa informação ao Senado; se o gabinete pediu sua inclusão na comitiva ou no voo da FAB; se houve gastos públicos com sua participação; e se atividades realizadas durante a missão foram posteriormente faturadas à cota parlamentar.

>>> Giovani Cherini foi questionado sobre os R$ 600.150 identificados pela reportagem, sobre os serviços contratados, documentos comprobatórios e, especificamente, sobre a nota de R$ 6 mil emitida pelo Instituto Mais Cidades apenas sete dias após a exoneração de Bruno Lara. A Fórum perguntou se o gabinete verificou a quarentena de seis meses, se consultou formalmente a Câmara e quem atestou a conformidade das despesas.

>>> Albuquerque recebeu perguntas sobre os R$ 320 mil, a seleção das empresas, eventual pesquisa de preços, os serviços realizados, vínculos anteriores do gabinete com Alexandre ou Bruno, contratações simultâneas ou sucessivas e a verificação das restrições aplicáveis a empresas ligadas a ex-servidores.

>>> Delegado Caveira foi questionado sobre os R$ 69,2 mil e, especificamente, sobre as duas notas emitidas no mesmo dia, em 28 de abril de 2026, que somaram R$ 19,4 mil. A reportagem perguntou quais serviços distintos justificaram as duas cobranças, além de questioná-lo sobre a presença de Alexandre na diligência ao Marajó.

>>> Dr. Flávio foi questionado sobre os R$ 52 mil e sobre a contratação da AB Comunicação Digital apenas dois dias depois da abertura formal da empresa. O gabinete foi instado a informar quando ocorreram o primeiro contato, a apresentação da proposta, a contratação e o início efetivo dos serviços, além de apresentar documentação que comprovasse a execução.

Até a conclusão da reportagem, nenhum dos cinco gabinetes havia respondido aos questionamentos enviados pela Fórum.

<><> Jordy já é alvo de outra investigação sobre cotas

Os novos achados surgem enquanto despesas parlamentares de Carlos Jordy já estão sob escrutínio em outra frente.

A Fórum revelou anteriormente que a Polícia Federal mirou assessores ligados a Jordy e a Sóstenes Cavalcante em investigação sobre suspeitas envolvendo cotas parlamentares.

O novo levantamento acrescenta outra trilha documental: três empresas conectadas, mais de R$ 1,37 milhão pagos por cinco gabinetes, um ex-assessor ligado a empresa que faturou uma semana depois de sua exoneração, um CNPJ que chegou à cota parlamentar em apenas 48 horas e um empresário privado apresentado em documento oficial como assessor de um deputado que destinou centenas de milhares de reais às empresas do núcleo.

•        Antes de empresa faturar R$ 207 mil de Jordy, dono foi indiciado como suspeito de atuar como “cobrador” de rachadinha

Anos antes de uma empresa ligada a Alexandre Bueno Camargo receber R$ 207 mil da cota parlamentar de Carlos Jordy (PL-RJ), o empresário foi indiciado em uma investigação no Rio Grande do Sul sob suspeita de peculato e associação criminosa em um caso que apurava o recolhimento de parte dos salários de servidoras públicas. Nos relatos reunidos durante a investigação, Alexandre foi apontado como a pessoa que buscava pessoalmente valores.

ENTENDA:

O episódio ocorreu em Bagé (RS) e integra o histórico reconstruído pela Fórum durante o rastreamento dos personagens relacionados às empresas que posteriormente passaram a receber recursos da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar em Brasília.

O desfecho precisa ser registrado: Alexandre foi posteriormente absolvido pela Justiça, que considerou insuficiente o conjunto probatório para condená-lo.

O histórico volta a ganhar interesse público porque, anos depois, Alexandre aparece ligado à AB Comunicação Digital, que recebeu R$ 207 mil da cota parlamentar de Carlos Jordy.

<><> Dos gabinetes de Bagé aos CNPJs de Brasília

Alexandre Bueno Camargo ocupou diferentes funções públicas em Bagé, entre elas cargos de chefe de gabinete, assessor técnico e diretor da TV Câmara.

Seu nome aparece em investigações produzidas no contexto político e eleitoral do município ao lado de Bruno Lara Martins, personagem que anos mais tarde também apareceria no núcleo de empresas de comunicação identificado nos pagamentos de deputados federais.

No Inquérito nº 79-88.2016.6.21.0142, da Procuradoria Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul, relatórios produzidos a partir de material apreendido registraram Alexandre e Bruno durante atividades investigadas no contexto do uso da estrutura política local.

Uma consulta processual relacionada ao núcleo de Bagé registra ainda ação do Ministério Público do Rio Grande do Sul envolvendo Alexandre Bueno Camargo e outros.

<><> O suspeito de recolher o dinheiro

Um despacho da Polícia Federal, de nº 1244/2016-DPF/BGE/RS, registrou o indiciamento de Alexandre sob suspeita de peculato e associação criminosa.

A investigação reuniu relatos de ex-servidoras sobre a suposta devolução de parte dos salários recebidos.

Jane Morales e Dejane Machado aparecem entre as pessoas que prestaram depoimentos sobre o funcionamento do sistema investigado.

Os relatos mencionavam devolução de parte dos vencimentos e, em um dos episódios descritos, um empréstimo bancário de R$ 10 mil cujo dinheiro teria sido repassado ao núcleo político.

Alexandre foi apontado no curso da investigação como a pessoa que comparecia a locais de trabalho e residências para recolher valores.

É desse conjunto de depoimentos que surge a descrição de seu papel como uma espécie de “cobrador” do esquema investigado.

<><> Alexandre foi absolvido

O indiciamento não resultou em condenação.

Na fase judicial, Alexandre acabou absolvido. A Justiça entendeu que contradições existentes nos depoimentos e as provas reunidas não eram suficientes para sustentar uma condenação criminal.

Portanto, houve investigação, indiciamento e acusações formalizadas, mas não houve condenação de Alexandre por esses fatos.

Anos depois, R$ 207 mil da cota de Jordy

O nome de Alexandre reaparece anos depois em outra ponta do financiamento público.

A AB Comunicação Digital, ligada ao empresário, recebeu R$ 207 mil em despesas atribuídas à cota parlamentar de Carlos Jordy.

A relação com o entorno de Jordy ultrapassou as notas fiscais. Em junho de 2025, Alexandre integrou a missão oficial ao Marajó e foi identificado em relatório do Senado como “assessor do deputado Carlos Jordy”, apesar de não constar na relação funcional pública do gabinete.

<><> Fórum questionou Jordy sobre sua relação com Alexandre

Antes da publicação, a Fórum procurou formalmente Carlos Jordy em 5 de agosto de 2026 e perguntou, entre outros pontos, qual era a relação do deputado e de seu gabinete com Alexandre Bueno Camargo.

O gabinete foi questionado sobre os R$ 331,9 mil destinados à AB Comunicação Digital e ao Instituto Mais Cidades, sobre o processo de seleção das empresas, a comprovação dos serviços e a relação mantida com Alexandre.

A reportagem perguntou ainda se Alexandre havia sido nomeado, contratado ou credenciado formalmente como assessor de Jordy em algum momento e por que o relatório oficial da viagem ao Marajó o identificou nessa condição sem que houvesse registro funcional público correspondente.

Até a conclusão desta reportagem, Carlos Jordy não havia respondido aos questionamentos encaminhados pela Fórum.

O histórico de Bagé não demonstra, por si só, irregularidade nas contratações posteriores. Ele compõe, porém, a trajetória de um personagem que passou por investigação e indiciamento no Rio Grande do Sul, foi absolvido pela Justiça e anos depois reapareceu ligado a empresas abastecidas por verbas parlamentares em Brasília — incluindo R$ 207 mil provenientes apenas da cota de Carlos Jordy.

 

Fonte: Fórum

 

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