Dislexia:
'O que os meus professores consideravam defeitos foi o que me levou para
prosperar na vida'
Sam
Bell costumava ouvir na escola que era "muito barulhenta, travessa demais,
muito intensa". Ainda assim, ela tinha medo de ler em voz alta para os
colegas.
Bell
abandonou os estudos sem perspectivas de trabalho e, pouco tempo depois, foi
diagnosticada com dislexia.
Agora,
ela tem 47 anos, dirige seu próprio salão de beleza em Bristol, no sudoeste da
Inglaterra, e trabalha como estilista para o cinema, televisão e desfiles de
moda.
Além
disso, todos os anos ela contrata aprendizes, para ajudar outras pessoas com a
mesma condição.
Quando
Bell entrou em um salão de beleza procurando emprego, aos 17 anos, ela não
tinha muito o que oferecer, exceto pela sua personalidade extrovertida.
"Eu
não queria ser cabeleireira", contou ela à BBC. "Mas a minha mãe me
expulsaria de casa se eu não conseguisse um emprego", destacou ela.
O dono
do salão a contratou como aprendiz por um salário semanal de 45 libras (cerca
de R$ 310, pelo câmbio atual).
Ela se
lembra de ter ficado "surpresa" ao saber que seu trabalho consistia
em conversar com os clientes todo o dia, enquanto lavava cabelos e varria o
salão.
"Adorei
aquilo e foi muito libertador quando finalmente ouvi que eu era boa em alguma
coisa", destacou ela.
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'A dislexia é o meu superpoder'
Sam
Bell conta que, no colégio, ela enfrentava dificuldades. Para ela, ler em voz
alta na classe era "assustador".
"Eu
sabia que não iria conseguir ler tão bem quanto os demais e que as outras
crianças iriam zombar de mim", relembra ela. "Por isso, eu me
comportava muito mal, para que os professores me expulsassem de classe."
"Ninguém
nunca percebeu que eu era disléxica."
Para
Bell, sua dislexia, agora, é valiosa para sua vida e sua carreira.
"Acredito
que ser disléxica é o meu superpoder", segundo ela. "Tenho mais
imaginação do que outras pessoas e muita facilidade para me comunicar."
Bell
trabalhou naquele primeiro salão de beleza por mais de uma década. Ali, ela
aprendeu a profissão até abrir seu próprio salão em 2009.
Ao
longo da carreira, ela fez o penteado de atores e celebridades, para filmes e
programas de TV. E também atendeu modelos nas semanas de moda de Londres,
Paris, Nova York e Milão.
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O que é a dislexia?
Um
porta-voz da Associação Britânica de Dislexia descreveu a condição como uma
"diferença neurológica permanente, que atinge a forma de processamento das
informações pelo cérebro".
"Ela
pode representar dificuldades de educação, emprego e na vida cotidiana, mas
cada pessoa tem um perfil próprio de potencialidades e áreas de
dificuldade", declarou o porta-voz.
"Muitas
pessoas disléxicas desenvolvem resiliência, capacidades de solução de problemas
e outras capacidades valiosas."
É
difícil calcular exatamente quantas pessoas com dislexia existem no mundo. Mas
a organização Dislexia e Alfabetização Internacional afirma que pelo menos 10%
da população sofrem da condição, o que equivale a cerca de 800 milhões de
pessoas.
A falta
de técnicas básicas de alfabetização faz com que muitos adultos jovens não
possuam as capacidades funcionais necessárias para progredir no mundo moderno.
Mesmo
nos países mais ricos, onde há educação pública disponível para crianças de
todas as origens, a distribuição desigual de recursos pode criar sérias
omissões na oferta de serviços para estudantes com necessidades especiais.
Sem
identificar o problema para oferecer intervenções eficazes, o impacto da
dislexia pode ser significativo e duradouro, não só para o indivíduo, mas para
a sociedade como um todo.
"A
maior parte dos disléxicos adultos tem uma experiência de leitura ao longo da
vida que os ensina a realizar as tarefas por qualquer meio que seja
necessário", declarou, anos atrás, o professor de neurociência cognitiva
do desenvolvimento Joel B. Talcott, da Universidade de Aston, no Reino Unido.
"Em
alguns ambientes que exigem o desenvolvimento de uma capacidade de leitura
muito alta, estas exigências podem exceder a capacidade do indivíduo e é aí que
surgem as dificuldades."
Talcott
indicou que, em alguns casos, pode ser neste momento que as pessoas, pela
primeira vez, reconhecem suas dificuldades de leitura ou percebem que leem de
forma diferente dos seus colegas.
Uma
pesquisa realizada pela Fundação KPMG em 2006 analisou os custos sociais
gerados quando ignoramos o analfabetismo relacionado à dislexia.
Eles
incluem desemprego, problemas de saúde mental, programas de recuperação e os
custos causados pelo comportamento antissocial, que pode levar ao abuso de
drogas, gravidez precoce e penas de prisão.
No
Reino Unido, uma comissão parlamentar encontrou evidências de que existem
barreiras sistêmicas de emprego para milhões de trabalhadores em potencial que
são portadores de neurodivergências.
Isso
significa que seus cérebros funcionam, aprendem e processam informações de
forma diferente das demais pessoas.
O
relatório destacou falta generalizada de conscientização da sociedade, erros de
apoio governamental e discriminação nos locais de trabalho, mas também muitos
exemplos de boas práticas.
A maior
parte das pessoas neurodivergentes são capazes e qualificadas. O que as
incapacita são os processos de recrutamento das empresas.
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'Ninguém teve tempo de me ensinar'
Sam
Bell conta que os comportamentos que a transformavam em uma "má
aluna" na escola (como ser barulhenta e falar demais) a ajudaram a
progredir fora do sistema educacional.
Agora,
ela ajuda outros jovens a entrar no setor de cabeleireiros contratando
aprendizes.
"Acredito
que [os programas de aprendizado] são uma ótima oportunidade para aqueles que
não têm formação acadêmica", declarou ela. E destacou que fica muito feliz
ao ver os jovens progredirem.
Tony
Mitchell é um antigo aprendiz que trabalha no salão de beleza de Bell há mais
de uma década. Ele afirma que seu ambiente de trabalho é "muito
solidário".
Mitchell
entrou no salão com 20 anos de idade, quando deixou o ofício de carpintaria.
Agora com 33, ele é cabeleireiro.
"Em
um salão anterior, eles me disseram que eu era muito temperamental",
relembra ele. "Mas sinto que ninguém teve tempo de me ensinar os truques
do ofício, como fez Sam."
"Sempre
fui um menino tímido e este lugar me ajudou a ter mais confiança em mim mesmo e
a sentir que pertenço a este grupo."
Fonte:
BBC News

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