Profissionais
da educação: entre a “miragem da valorização” e as lutas em 2026
Há doze
anos, mais especificamente em dezembro de 2014, a Lei nº 13.034 instituiu o dia
6 de agosto como Dia Nacional dos e das Profissionais da Educação. Segundo o
Ministério da Educação (MEC), “a data homenageia o trabalho qualificado dos
profissionais que lidam com a educação no espaço escolar e com a formação das
novas gerações”. O texto legislativo é brevíssimo, composto por apenas dois
artigos dos quais não se desdobram outras medidas ou ações que possam,
materialmente, cumprir com o objetivo de reconhecimento dessas trabalhadoras e
desses trabalhadores.
Fazer
uma ode a nós, profissionais que trabalhamos no campo da educação, por meio da
instituição de uma data celebrativa parece se tornar um preito de gratidão
esvaziado de sentido(s), uma vez que, na verdade, nos faltam motivos concretos
para comemorar. O trabalho tem se mantido em um cenário umbroso, caracterizado
pela intensificação da precarização, pelo adoecimento massivo da categoria e
pelo longo caminho de luta por condições dignas de trabalho, formação e
carreira que precisamos ainda trilhar. Nesse contexto, como resistir à sedução
de voluntarismos idealistas sem que nos deixemos sucumbir a determinismos
reprodutivistas? Pelo que lutar na educação em 2026? E que pautas devemos
mobilizar, como categoria, em tempos de eleições?
<><>
A “miragem da valorização”
A
valorização, enquanto princípio constitucional, permanece como horizonte não
realizado para a nossa categoria. A data comemorativa (simbólica, já que, além
de não constituir folga ou dia de descanso, ainda é pouquíssimo lembrada nas
próprias instituições) está longe de constituir conquista material: é quase um
“tapinha nas costas”. É justamente para essas “migalhas de afagos” que
precisamos ter olhos atentos na ofensiva política de 2026. O cenário eleitoral
que se avizinha converte a “valorização” em mercadoria eleitoral, capturando as
angústias da classe trabalhadora para transformá-las em capital político de
ocasião. Retomar a vacuidade da lei de 2014 que nos celebra sem nenhuma
materialidade de conquistas, neste momento, é uma necessidade tática para desmascarar
as promessas que virão, revelando que a esterilidade normativa de ontem é o que
permite o estelionato eleitoral de amanhã.
A
despeito da ausência de caracterização no texto da lei, é fundamental frisar
que falar sobre profissionais da educação inclui um grupo heterogêneo no que se
refere às diferentes categorias profissionais: docentes, gestores,
profissionais de apoio escolar, agentes de inclusão, merendeiras, cuidadoras,
berçaristas. Essa diversidade expressa a complexidade da organização do
trabalho na educação pública, onde cada segmento desempenha funções
indissociáveis e, no entanto, submetidas a regimes jurídicos e condições
materiais profundamente desiguais. A fragmentação da categoria é uma tecnologia
de controle que facilita a precarização seletiva. Não é possível pensar em
valorização docente quando ela se dá em detrimento da precarização de outros
setores, por exemplo.
Ressalta-se
ainda a predominância feminina no setor – como em outras profissões ligadas ao
cuidado –, fator historicamente associado à desvalorização profissional.
Conforme apontam Danièle Kergoat e Helena Hirata, a divisão sexual do trabalho
decorre da relação social de sexo e implica na separação e hierarquização entre
atividades realizadas por homens e mulheres. Ela “rebaixa o gênero ao sexo
biológico, reduz as práticas sociais a ‘papéis sociais’ sexuados que remetem ao
destino natural da espécie”. Não se trata de coincidência: a divisão sexual do
trabalho, herdeira de uma longa genealogia colonial e patriarcal, reserva às
mulheres as atividades de cuidado e reprodução social, historicamente mal
remuneradas e constituídas como uma extensão natural do trabalho doméstico não
pago. A escola pública, nesse sentido, reproduz no seu interior essa lógica,
concentrando nos segmentos mais feminizados – merendeiras, cuidadoras,
berçaristas, agentes de inclusão – as piores condições salariais, os vínculos
mais precários, uma maior suscetibilidade à flexibilização e terceirização e,
sem dúvida, o menor reconhecimento social.
É nesse
cenário que se inscreve a hipótese orientadora desta reflexão: as políticas de
“valorização” dos profissionais da educação, sob a égide do neoliberalismo e do
gerencialismo, operam menos como garantia de direitos e mais como instrumentos
de regulação e controle sobre toda a categoria. Em análises rigorosas, críticas
e radicais dos programas e políticas públicas, a “valorização” aparece como
legitimação e administração da precariedade, sustentada pelo esvaziamento da
formação e pela reconfiguração do trabalho dos profissionais da educação, tendo
o processo de valorização do capital como elemento norteador fundamental. O que
se apresenta como reconhecimento traduz-se em dispositivos de intensificação do
trabalho, vigilância digital, metas de desempenho, bônus vinculados a práticas
meritocráticas punitivistas e terceirização. A aparência da valorização
encobre, portanto, sua essência: a subordinação crescente do trabalho
educacional às exigências da acumulação capitalista em sua fase financeirizada.
Esse
quadro adquire contornos especialmente dramáticos em anos eleitorais como o
vigente. A eleição de 2026 configura-se como terreno de disputa onde as
promessas de valorização revelam-se, na realidade concreta, mecanismos de
aprofundamento da exploração de toda a cadeia produtiva da educação. A própria
noção de “valorização” é apropriada e ressignificada pelo discurso neoliberal,
seja na esfera federal, seja na estadual ou na municipal, como retórica de
legitimação de políticas que, na prática, desmontam direitos, fragmentam
carreira, flexibilizam vínculos e entregam funções públicas à lógica mercantil.
A disputa eleitoral, portanto, não pode se restringir à escolha entre gestores
mais ou menos benevolentes. Trata-se de confrontar um projeto político de longa
data que, sob diferentes matizes partidários, vem promovendo a deterioração
progressiva das condições de trabalho na educação pública brasileira,
especialmente a partir dos anos 1990, quando as reformas neoliberais
legitimaram e reforçaram um ciclo de precarização que se sofisticou e segue se
aprofundando até os dias atuais.
O
Programa Mais Professores (Decreto nº 12.358/2025), sob a retórica da
“valorização, qualificação e atração”, materializa a face mais recente da
administração da precarização no cenário educacional brasileiro. Por meio do
dispositivo “Pé-de-Meia Licenciaturas”, o Estado busca responder ao diagnóstico
de um apagão docente, mas o faz não pelo enfrentamento das causas estruturais
do desprestígio da carreira e do sucateamento da formação, mas sim pela indução
de escolhas individuais via incentivos financeiros. Essa abordagem desloca a
valorização do trabalho educativo para a lógica da financeirização, convertendo
a formação em um ativo financeiro e os profissionais em consumidores de
benefícios condicionados. Além disso, ao não contemplar ações afirmativas ou
reservas de vagas para grupos historicamente marginalizados, a política
reproduz as desigualdades de classe, raça e renda que marcam o acesso à
formação docente no Brasil.
Nessa
mesma toada, a Bolsa Mais Professores foi anunciada no perfil oficial do
Presidente Lula nas redes sociais como uma iniciativa que “visa ampliar a
atuação de professores em regiões e áreas do conhecimento com carência destes
profissionais”. À primeira vista, pode-se entender como conquista. Mas a
“miragem” esmaece quando entende-se que a bolsa de R$2.100,00 funciona também
como um mecanismo ludibriante para afastar a exigência e a luta pelo piso
salarial nacional com “alguns trocados” em forma de incentivo financeiro
temporário (duração de dois anos) para que a precarização, o trabalho em
condições precárias, lugares remotos, de difícil acesso ou em locais com pouca
segurança e infraestrutura, pareça mais palatável.
Outra
risível iniciativa que compõe o programa faz parte da Carteira Nacional Docente
e do sistema de “valorização com benefícios”, como anunciado pelos canais
oficiais do governo. Dentre as ditas “vantagens” destacam-se parceiras com a
iniciativa privada, empresas de tecnologia e dados, os cartões de crédito sem
anuidade (Banco do Brasil e Caixa) – subsidiando e ampliando o endividamento da
classe –, dentre outros que se revelam como mais um fio na teia de
aprofundamento do processo de financeirização de toda a vida social e da
transfiguração da classe em consumidores.O desenho desse programa intensifica
também a fragmentação da classe trabalhadora ao focalizar exclusivamente o
segmento docente, ignorando a totalidade dos profissionais que fazem a educação
pública acontecer. A hierarquização interna que se cristaliza rompe com a
solidariedade necessária à luta coletiva e estabelece assimetrias de
reconhecimento entre docentes e demais trabalhadores, como os de apoio e
cuidado. A lógica gerencialista é coroada pelo Prêmio MEC da Educação
Brasileira (Decreto nº 12.521/2025), que utiliza indicadores como o Ideb para
impor um regime de performatividade e autovigilância. Ao vincular premiações
financeiras a metas de desempenho, o programa invisibiliza as vulnerabilidades
socioeconômicas dos territórios e converte o processo pedagógico em treinamento
intensivo para exames padronizados. O resultado é uma cultura de competição que
marginaliza ainda mais as instituições em contextos de privação, forçando os
profissionais a uma escolha perversa entre a submissão aos ditames gerenciais e
o isolamento institucional. Configura-se, portanto, uma verdadeira gamificação
da precariedade.
Em
última análise, o Programa Mais Professores atua como um simulacro de
valorização que preserva intactas as bases da exploração. A substituição de
direitos consolidados e carreiras estáveis por benefícios transitórios e bolsas
financeiras de curta duração atende às exigências da acumulação capitalista em
sua fase financeirizada. Enquanto a aparência da política sugere o resgate da
atratividade da profissão, sua essência consolida a temporariedade
institucionalizada e o controle sobre o trabalho intelectual, esvaziando a
autonomia da categoria em favor da eficiência mercadológica.
Enquanto
isso, outros profissionais da educação vivenciam um cenário de arquitetura do
financiamento educacional no Brasil, pautada pela lógica de fundos setoriais,
que fragmenta ainda mais a educação pública ao privilegiar níveis isolados em
detrimento de um sistema nacional articulado, que deveria abranger desde a
educação infantil até a pós-graduação. Essa desarticulação torna-se funcional à
política de austeridade imposta pelo Teto de Gastos e pelo Arcabouço Fiscal,
cujas travas impediram o cumprimento das metas do Plano Nacional de Educação
(PNE) no último decênio.
A
atomização do fundo público em compartimentos orçamentários isolados esvazia o
compromisso estatal com o desenvolvimento humano pleno, convertendo a política
educacional em um dispositivo de administração da precarização. Sob essa
lógica, a gestão das insuficiências locais opera como uma forma discursiva e
material de salvaguardar os interesses do capital em detrimento da unidade
formação-trabalho-carreira.
Diante
desse regime de rigidez fiscal, os percentuais mínimos destinados aos fundos
educacionais são operados como limites máximos, revelando-se insuficientes para
sustentar uma educação socialmente qualificada. Enquanto o fundo público é
asfixiado sob o pretexto da responsabilidade fiscal, o orçamento federal é
drenado pelo pagamento de juros e amortizações da dívida pública, que chega a
consumir quase metade dos recursos da União. Esse cenário asfixia os
investimentos em infraestrutura e a valorização real de toda a categoria, o que
torna as promessas de “valorização”, contidas em programas de bônus e
benefícios pontuais, apenas uma estratégia discursiva para o horizonte
eleitoral de 2026.
<><>
A luta concreta, para além das miragens
Ainda
que um tanto exaustos, reconhecer a luta exige enfrentar a tensão dialética
entre o otimismo da vontade e o pessimismo da razão, retomando aqui o aforismo
gramsciano. Não se trata, porém, de opor esperança e desencanto, tampouco de
transformar a vontade em uma profissão de fé e fruto de uma suposta “vocação”.
O otimismo da vontade só adquire sentido político quando se recusa a confundir
desejo(s) com possibilidade concreta e histórica e politicamente construída.
Sem o pessimismo da razão, a vontade corre o risco de se converter em ilusão,
ingenuidade ou apelo moral abstrato. É a razão que nos obriga a olhar de frente
os limites objetivos inscritos na sociabilidade capitalista, suas determinações
materiais e as relações sociais de produção que sustentam a exploração.
É
precisamente nesse terreno, e não fora dele, que os profissionais da educação
podem se apresentar como classe portadora de interesses potencialmente
revolucionários. Nossa emancipação não pode ser pensada como simples conquista
de melhores condições no interior da ordem que a explora. A possibilidade de
emancipação está indissociavelmente vinculada à superação das próprias relações
sociais de produção que estruturam sua exploração. Não há, portanto,
emancipação sem enfrentamento das bases materiais que reproduzem a exploração;
não há transformação radical sem a compreensão das contradições que constituem
a sociabilidade capitalista.
A
construção de outra forma de organizar a unidade formação-trabalho-carreira , a
defesa de uma educação pública de qualidade e a elaboração de políticas de
valorização efetivas não nascerão de voluntarismos pueris, tampouco de projetos
idealistas que ignoram as condições materiais nas quais o trabalho se realiza.
Não basta desejar outra educação. Não basta bater palmas em celebração. É
preciso compreender as relações sociais que determinam, limitam e atravessam
sua existência concreta.
É por
isso que a disputa não pode ser reduzida ao plano das intenções e às homenagens
simbólicas ou discursivas. Precisamos partir da concepção materialista da
história, da análise histórico-social da luta de classes e do reconhecimento do
trabalho como categoria fundante da produção da vida social. É necessário
compreender que a precarização do trabalho não é um acidente, um desvio
ocasional ou resultado de escolhas individuais equivocadas. Ela se inscreve em
relações sociais concretas e em uma determinada forma de organização da
produção e reprodução da vida. É na análise da concretude, da totalidade e das
contradições que atravessam a realidade que o otimismo da vontade deixa de ser
uma palavra de ordem vazia e adquire densidade política. A vontade de transformar
não se alimenta de promessas abstratas: alimenta-se da compreensão das forças
sociais em disputa, das contradições objetivas do capitalismo e da capacidade
histórica de organização e luta da classe trabalhadora.
É desse
lugar que devemos olhar para o locus de luta em 2026. Não com ingenuidade
diante das promessas que costumam acompanhar os ciclos eleitorais, nem com a
expectativa de que soluções individuais possam responder a problemas que são
estruturalmente produzidos. O que está em jogo não é apenas escolher entre
diferentes discursos sobre a educação e sobre os seus profissionais, mas
reconhecer as contradições materiais que determinam as condições de trabalho,
formação e carreira daqueles que sustentam cotidianamente a educação.
É
preciso, portanto, recusar as saídas que, sob a aparência de pragmatismo,
naturalizam a ordem existente. Recusar a conciliação que transforma conflito em
consenso. Recusar a individualização que converte problemas coletivos em
fracassos pessoais. E recolocar no centro da disputa aquilo que o discurso da
valorização frequentemente procura ocultar: as condições materiais de
existência e de trabalho da classe trabalhadora da educação.
O
otimismo da vontade, quando informado pelo pessimismo da razão, não é esperança
ingênua. É disposição para a luta fundada na análise concreta da realidade. É a
capacidade de reconhecer os limites objetivos sem transformar esses limites em
destino. É compreender que a história não se move pela vontade isolada de
indivíduos, mas pelas contradições e pelas lutas que atravessam a sociedade.
Nosso
desejo é, portanto, celebrar o nosso dia como profissionais da educação com
desejo de luta, organizando-nos coletivamente e munidos de olhos atentos para
não nos deixarmos iludir por promessas de valorização do tipo “miragens vagas e
trêmulas”. E é justamente por isso que, diante de 2026, precisamos construir
pautas capazes de expressar as necessidades concretas da classe trabalhadora da
educação e de disputar, coletivamente, os rumos da sociedade.
Fonte:
Por Fátima Machado e Ricardo Normanha, no Blog da Boitempo

Nenhum comentário:
Postar um comentário