Propriedades
misteriosas: a curiosa rede de rádios de Eduardo Cunha
Eduardo
Cunha, homem que derrubou Dilma Rousseff antes de ser preso por corrupção, vai
às compras. Com o patrimônio bloqueado, ele está montando uma rede de rádios
para alavancar sua candidatura (sub judice) a uma vaga de deputado federal.
Para tanto, montou também uma rede de testas de ferro — o mais importante
deles, seu próprio genro, Daniel Cardoso de Sá.
Cidade
por cidade, no interior de Minas Gerais, ele sobe ao palanque das inaugurações,
dá entrevistas às próprias emissoras e anuncia a chegada da Rede 89 Maravilha,
“a rádio de todas as igrejas”.
São
mais de duas dezenas de frequências, de Belo Horizonte a Teófilo Otoni, de
Uberlândia a João Pinheiro, quase todas na faixa dos 89 FM. Há apenas um
detalhe, e não é pequeno: em nenhuma delas o nome de Eduardo Cunha aparece nos
registros de propriedade. Nem na Receita Federal, nem nos cadastros de
radiodifusão, nem em sua declaração de bens entregue ao TRE de Minas Gerais
quando do registro de sua pretensa candidatura. No papel, as rádios de Eduardo
Cunha não são de Eduardo Cunha.
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Quem é o comprador
Eduardo
Cunha foi o político mais poderoso do Congresso na década passada. Presidente
da Câmara dos Deputados, foi ele quem, em dezembro de 2015, acolheu o pedido de
impeachment que levaria à queda de Dilma Rousseff.
Meses
depois, a mesma engrenagem virou contra ele: em setembro de 2016, a Câmara
cassou seu mandato por quebra de decoro. Preso ainda naquele ano, foi condenado
na Operação Lava Jato por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas,
em um esquema de propinas ligado a contratos da Petrobras, com dinheiro
escondido em contas na Suíça ( as condenações no âmbito da Lava Jato acabaram
anuladas pelo Supremo Tribunal Federal, pelo reconhecimento de que os casos
deveriam ter sido julgados na Justiça Eleitoral). Tornou-se inelegível pela Lei
da Ficha Limpa.
Passados
dez anos, Cunha quer voltar, a despeito de ainda ter o nome sujo na Justiça
Eleitoral, onde a candidatura está registrada como “sub judice”. Formalizou o
registro pelo Republicanos, sob o número 1089. Deslocou a base política para
Minas Gerais — para onde transferiu o domicílio eleitoral, para não concorrer
com a própria filha, a deputada federal pelo Rio de Janeiro Danielle “Dany”
Cunha.
É nesse
enredo que entram as rádios: uma malha de comunicação capilar, de perfil
evangélico, espalhada pelas cidades médias do estado, cada estreia marcada por
uma mesa-redonda com um advogado, um pastor e um político local — em geral o
prefeito.
E nada
nisso é casual, a começar pelo número. A rede se chama 89 Maravilha e opera
quase toda na faixa dos 89 FM; o número de urna de Eduardo Cunha é 1089. Há
mais de um ano, portanto, as emissoras vêm repetindo aos ouvintes de dezenas de
cidades mineiras, dia após dia, exatamente os dois dígitos que ele pedirá nas
urnas em 2026. É uma pré-campanha que já toca no rádio — antes mesmo de existir
oficialmente.
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Uma rede erguida às pressas
O
levantamento aponta para emissoras em pelo menos 24 praças mineiras: Belo
Horizonte, Barbacena, Uberaba, Uberlândia, Juiz de Fora, Patos de Minas,
Varginha, Montes Claros, Ipatinga, João Pinheiro, Governador Valadares, Teófilo
Otoni, entre outras. A expansão foi rápida e não passou despercebida.
A
Polícia Federal apura se Cunha direcionou cerca de R$ 6,1 milhões em emendas
parlamentares — boa parte da área da saúde — justamente para os municípios onde
comprava ou instalava rádios, apesar de estar sem mandato desde 2016. Para os
investigadores, ele seria o “verdadeiro solicitante” das indicações, com
deputados e lideranças partidárias registrados como autores formais apenas
para, nas palavras da apuração, “escamotear o real interessado”. No campo
eleitoral, o deputado Rogério Correia (PT-MG) protocolou representação na
Justiça Eleitoral por abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de
comunicação.
Mas há
uma pergunta que essas apurações não responderam, e que é o objeto desta
reportagem: de quem são, no papel, essas rádios?
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Primeira camada: o genro
Boa
parte da rede está registrada em nome de Daniel Cardoso Sá, genro de Cunha e
marido da deputada federal Danielle Cunha (União-RJ). A consulta ao quadro
societário da Receita Federal, via Projeto Sherlock (projetosherlock.com),
mostra Daniel como sócio-administrador ou administrador de um verdadeiro
cluster de emissoras, constituído em sua maior parte na janela da pré-campanha,
entre 2023 e 2025: a Rádio Guarani Novidades FM, na região de Ubá, desde março
de 2025; a Rádio Sociedade Entre Rios, em Raul Soares, desde novembro de 2024;
a Rádio Carangola, em 2024; além de Juventude FM, LL Rádio e Comunicações e da
90 Atividades de Comunicação e Consultoria. A rede transborda ainda para o Rio
de Janeiro, com a Rádio Litoral de Casimiro de Abreu e a Rádio Jornal Rio
Bonito, também no nome do genro.
No topo
da estrutura, holdings igualmente ligadas a Daniel — a Valore Holding, a D2C e
a LL Participações, entre outras — completam o desenho. A colunista Andreza
Matais, do Metrópoles, já havia identificado “sete CNPJs de rádios ligados a
Cunha e a familiares em Minas”, parte deles no nome do genro. As datas de
entrada, quase todas nos dois anos anteriores à eleição, revelam a velocidade
com que a rede foi montada.
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Segunda camada: os antigos donos
Se em
algumas cidades o genro já é o proprietário formal, em outras a compra
anunciada por Cunha simplesmente não chegou ao registro. O caso mais eloquente
está em João Pinheiro, no Noroeste mineiro.
Em 24
de outubro de 2025, o jornal local JP Agora estampou a manchete: “Eduardo Cunha
compra duas rádios em João Pinheiro”. Cunha esteve na cidade, anunciou a
aquisição da Terra FM e da Tropical FM para integrá-las à Rede 89 Maravilha e,
na mesma visita, confirmou a pré-candidatura. À emissora, falou das estações
como coisa sua: “Eu vim cuidar é dos interesses de comunicação que nós temos
aqui, da implantação da Rede 89 Maravilha no estado de Minas Gerais.”
Disse
que “as duas rádios que nós estamos aqui em João Pinheiro elas vão ter
destinações diferentes” e que mudariam de frequência “porque a nossa rede ela
opera só em 89 — então provavelmente uma vai por 89.3 e a outra por 89.7”, com
a potência ampliada “para abarcar a região como um todo”. A compra foi
noticiada também pelo regional Clube Notícia e reafirmada pelo próprio JP Agora
em abril de 2026. Em julho, a representação de Rogério Correia listou, entre as
emissoras assumidas por Cunha, “João Pinheiro (Terra FM e Tropical FM)”.
Só que,
nos registros da Receita Federal consultados por esta reportagem em agosto de
2026, as duas emissoras continuam inteiramente nas mãos de uma mesma família —
e não há sinal de Eduardo Cunha. A Tropical FM pertence à Rede Joia de
Comunicação Ltda., empresa ativa, com atividade registrada de radiodifusão, na
Rua Geraldo Rios, 98, no centro de João Pinheiro. Seus sócios são Carlos
Eduardo, Paulo Fernando e Vanessa Bianca Furtado. A Terra FM é da Rádio Terra
FM Ltda., que funciona no mesmo endereço e tem no quadro Carlos Eduardo, Paulo
Fernando, Vanessa Bianca e Maria Zilda Pereira Furtado.
É um
negócio de família, e antigo. Um cadastro do Ministério das Comunicações de
2003 já mostrava a Rede Joia nas mãos de Manoel Furtado de Oliveira e Maria
Zilda Pereira Furtado, pai e mãe dos três irmãos, que entraram formalmente nas
empresas em 2018.
E quem
é Carlos Eduardo Pereira de Oliveira Furtado? Não é um radialista qualquer. É
ex-vice-prefeito de João Pinheiro e foi candidato a deputado estadual em 2014,
pelo PSD — eleição em que teve as contas de campanha desaprovadas pela Justiça
Eleitoral, com determinação de devolver cerca de R$ 53 mil ao Tesouro. Depois,
fez carreira em Brasília: foi assessor no Senado, na gestão de Rodrigo Pacheco,
chegando a representar o então presidente da Casa em entregas de recursos em
Minas, e, mais recentemente, segundo biografia divulgada pelo conselho de
desenvolvimento de João Pinheiro, passou a atuar como assessor do Ministério de
Minas e Energia. Em João Pinheiro, portanto, Cunha anuncia ter comprado duas
rádios cujo dono formal é um empresário com carreira eleitoral própria e
trânsito na cúpula de Brasília — e que, no papel, segue sendo o dono.
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O que sustenta em púbico, Cunha nega à Justiça Eleitoral
Cunha
fala das rádios abertamente. Na visita a João Pinheiro, tratou a rede como sua
e ainda foi além: disse estar “radicado, cuidando dos meus interesses em Minas
Gerais”, admitiu ter “outros negócios, não é só de comunicação” e falou em
cuidar da “atividade empresarial da minha família”. Em outra entrevista, em São
Lourenço, foi além: chamou a Maravilha de “certamente a maior rede estadual de
comunicação” de Minas — uma rede que, disse, “começou no Rio de Janeiro”, já
“está entrando em São Paulo” e avança pelo Sul mineiro (“nós vamos pegar todo o
sul de Minas com esse conjunto dessas quatro rádios”). Mas a declaração de bens
que ele mesmo entregou à Justiça Eleitoral ao registrar a candidatura conta
outra história.
Nela,
Cunha informa um patrimônio de R$ 14,1 milhões — dos quais R$ 12,6 milhões
estão presos em uma conta judicial na Caixa, resquício da Lava Jato. O restante
se resume a um Corolla 2007, à metade de um apartamento e a três salas no Rio,
a um plano de previdência, a um adiantamento de capital “de empresa própria” de
R$ 53 mil e a duas participações societárias genéricas, identificadas apenas
como “Sociedade Ltda”. Em nenhuma linha aparecem emissoras de rádio, a Rede 89
Maravilha ou qualquer empresa de comunicação. Cunha fala como dono de mais de
duas dezenas de rádios; declara ao TSE como se não tivesse nenhuma.
E aí
surge uma segunda pergunta, tão incômoda quanto a primeira: com que dinheiro se
compra uma rede de mais de vinte emissoras? Descontado o depósito judicial
bloqueado, que responde por quase todo o patrimônio informado, o que sobra na
declaração de Cunha — um carro de 2007, frações de imóveis no Rio, um plano de
previdência de menos de R$ 2 mil — está longe de formar o capital de quem sai
adquirindo rádios pelo interior de Minas. A rede existe, cresce, leva o seu
nome e o número de campanha. O dinheiro que a ergueu, esse, não aparece — assim
como as emissoras não constam em lugar nenhum entre os seus bens.
Resta
saber apenas até quando o Ministro Gilmar Mendes vai permanecer sentado em cima
do processo que pode banir os três piores bad boys da politica brasileira – o
próprio Eduardo Cunha e os ex-governadores Anthony Garotinho e José roberto
Arruda, todos eles dependendo de uma decisão que o STF parece não querer tomar.
A
trajetória de Cunha por seu misterioso universo das telecomunicações deveria
ensejar no mínimo alguma preocupação institucional, pois quem já teve contra si
acusações de maracutaia na Petrobras e dissimulada com um fantasioso trust pode
não ter aprendido nada em matéria de ética pessoal e honestidade eleitoral.
A
reportagem entrou em contato com a assessoria de Eduardo Cunha e repassou as
seguintes perguntas, ainda não respondidas:
• Quantas rádios o ex-deputado Eduardo
Cunha tem em Minas Gerais?
• Por que elas não aparecem na relação de
bens entregue por ele à Justiça Eleitoral?
• Por que a mudança dos prefixos para
89,x? Só na Rede Maravilha, 16 emissoras agora transmitem na frequência de 89
mhz.
• O número de campanha dele é 1089. Por
que Eduardo Cunha escolheu esse número? É coincidência ou é intencional, para
vincular os prefixos ao número de candidatura dele?
• Por que ele se apresenta como dono de
emissoras com as quais, ao menos formalmente, não mantém nenhum vínculo
societário?
• Ele se apresenta como dono da Rede
Maravilha. Há entrevistas dele em São Lourenço e João Pinheiro assumindo essa
condição e falando sobre fundamentos religiosos, ideológicos e comercias de
suas emissoras. Que papel ele ocupa na gestão dessas emissoras?
• A declaração de bens dele registra um
patrimônio total de pouco ais de R$ 14 milhões, com mais de R$ 12 milhões
bloqueados por determinação judicial. Como ele conseguiu comprar essas rádios?
Fonte:
Por Fábio Pannunzio, no ICL Notícias

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