As
regalias e a influência do presidente da Fifa, o homem mais poderoso (e
polêmico) do futebol
Gianni
Infantino desembarcou em Cali, na Colômbia, na madrugada de sexta-feira (7/8) e
foi recebido na pista do aeroporto pelo presidente da Federação Colombiana de
Futebol, Ramón Jesurún.
Aliado
próximo de Infantino, Jesurún aproveitou a ocasião para demonstrar seu apoio,
sorrindo em uma foto publicada no perfil da federação no Instagram.
Infantino
não viajou à Colômbia para uma reunião comum. Ele foi ao país para participar
da posse do novo presidente, Abelardo de la Espriella.
Infantino
estava acompanhado de Alejandro Domínguez, presidente da Conmebol — entidade
que comanda o futebol sul-americano. Domínguez elogiou o histórico de Infantino
e a Copa do Mundo de 2026, classificando como um evento "enormemente
bem-sucedido", e afirmou: "Estamos com Gianni".
Essa é
a vida de um presidente da Fifa.
O cargo
envolve construir relações com algumas das pessoas mais poderosas do mundo —
como mostra a proximidade de Infantino com o presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump.
Antes
do maior escândalo de sua gestão — o plano abandonado da Fifa para "vender
a Copa do Mundo" — Infantino era uma figura extremamente poderosa, que
parecia imune a crises.
Agora,
após pedir desculpas e declarar que pretende resistir à reação negativa ao seu
projeto, Infantino parece tentar voltar à normalidade.
Mas
talvez isso não seja tão simples.
Uma
reportagem do jornal britânico Daily Telegraph afirmou que uma suposta amante
de Infantino recebeu uma indenização de rescisão da Uefa depois de ele ter tido
um caso extraconjugal enquanto era secretário-geral da entidade.
Em
resposta, neste sábado (8/8), a Fifa criticou duramente o que chamou de um
"esforço coordenado e contínuo" para "enfraquecer" a
organização e seu presidente. Um porta-voz disse ao Telegraph que Infantino
"nega veementemente" as alegações e que elas são
"categoricamente falsas".
A
ameaça da Uefa (União das Federações Europeias de futebol) de boicotar torneios
da Fifa contra ele também continua de pé. A questão será colocada à prova com o
início da Copa do Mundo Sub-20, na Polônia, daqui a 29 dias.
Talvez
fortalecido pelo apoio que recebeu de fora da Europa nos últimos dias,
Infantino não parece disposto a recuar facilmente.
Mas
afinal, qual é exatamente o papel do presidente da Fifa?
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As viagens de Infantino como um 'estadista' do futebol mundial
Uma
comitiva de Mercedes com vidros escuros, escoltada por carros da polícia,
chegou à sede da Fifa em Rabat, no Marrocos, no início desta semana.
Infantino
havia convocado alguns membros selecionados do conselho de administração da
Fifa para discutir seu plano de vender 21% do negócio comercial e de venda de
ingressos da entidade para uma empresa de private equity.
Esse é
o padrão de viagem do dirigente suíço-italiano — entre voos no jato executivo
da Qatar Airways disponibilizado para ele. A aeronave permitiu que Infantino
fizesse até três voos por dia durante a Copa do Mundo de 2026, acompanhando
duas partidas em um mesmo dia.
Esse
tipo de chegada passa uma imagem presidencial — mais parecida com a de um chefe
de Estado do que com a de um dirigente esportivo.
A
estrutura permite que ele percorra o mundo, visitando escritórios oficiais da
Fifa, como o de Rabat, onde ficou na última semana enquanto a controvérsia
sobre o plano da Fifa se desenrolava.
Em seu
cargo, espera-se que Infantino visite os 211 países-membros da Fifa para
acompanhar projetos de base financiados pela entidade.
Parte
de sua missão é unificar o futebol — algo que não pode ser feito apenas de
dentro da sede da Fifa, em Zurique.
Para
isso, são necessárias viagens internacionais para participar de reuniões das
confederações e dos torneios globais organizados pela Fifa. Infantino também
precisa construir relações com dirigentes esportivos e autoridades políticas.
Em
abril, antes do Congresso da Fifa em Vancouver, as autoridades locais
rejeitaram um pedido para uma escolta de nível quatro, normalmente reservada a
chefes de Estado ou ao papa.
A
polícia da Nova Zelândia informou que havia recusado um pedido semelhante
durante a Copa do Mundo Feminina de 2023.
Junto
com a comitiva de carros e os voos fretados particulares vem também um salário
elevado — três vezes maior do que o que Infantino recebia quando foi eleito, em
2016.
Infantino,
que recebia cerca de £ 1,3 milhão (R$ 8,9 milhões) há dez anos, agora ganha
aproximadamente £ 4 milhões (R$ 27 milhões) — sendo £ 2,2 milhões de
salário-base e £ 1,8 milhão em bônus variável.
Seu
antecessor, Sepp Blatter, recebeu um pacote de remuneração de £ 2,6 milhões em
seu último ano como presidente da Fifa.
Infantino
também recebe uma diária para cobrir despesas e custos de vida, no valor de £
20,5 mil por ano, além do salário.
Como
chefe do esporte mais popular do mundo, é esperado que haja uma remuneração
compatível com o cargo.
Infantino
argumentaria que, ao ampliar receitas recordes e aumentar o financiamento
destinado às associações-membro, provou que seu salário é justificável.
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Como Infantino construiu uma relação próxima com Trump
A
aliança de Infantino com Trump parece ter elevado ainda mais seu status.
No
mundo do futebol, muitos sentiraram que isso começou a acontecer às custas de
suas responsabilidades à frente do esporte.
Em maio
de 2025, Infantino acompanhou Trump em uma viagem diplomática pelo Oriente
Médio e chegou com duas horas de atraso ao Congresso da Fifa, no Paraguai. A
Uefa acusou Infantino de priorizar "interesses políticos privados" e
deixou o evento em protesto.
Houve
também o Prêmio da Paz da Fifa, concedido a Trump poucas semanas antes de os
Estados Unidos invadirem a Venezuela para prender o presidente Nicolás Maduro e
lançarem ataques aéreos contra o Irã.
Apesar
das críticas, o comitê de ética da Fifa não respondeu às reclamações sobre uma
possível violação da neutralidade política de Infantino por causa da premiação.
No
início do ano, Infantino fez uma aparição surpresa na primeira reunião do
Conselho da Paz de Trump, criado para supervisionar a reconstrução de Gaza.
O
Comitê Olímpico Internacional, do qual Infantino é membro convidado, afirmou
que suas regras sobre neutralidade política não haviam sido violadas.
Ainda
assim, muitos entenderam que o presidente da Fifa havia se aproximado demais do
presidente americano.
Essa
percepção aumentou quando o atacante da seleção dos Estados Unidos Folarin
Balogun escapou de uma suspensão após receber um cartão vermelho durante a Copa
do Mundo.
Foi uma
decisão sem precedentes do comitê disciplinar da Fifa. Trump afirmou que havia
telefonado pessoalmente para Infantino pedindo uma revisão da expulsão.
Infantino
insistiu que a decisão havia sido tomada por um órgão independente, sobre o
qual ninguém poderia exercer influência.
No
último fim de semana da Copa do Mundo, Trump e Infantino apareceram juntos na
Trump Tower, em Nova York. O presidente americano disse que havia ligado para o
presidente da Fifa, que "tomou outra grande decisão".
Então,
talvez o ponto máximo da associação de Infantino com Trump tenha sido o projeto
Fifa Forward Enterprise, para vender uma participação de 21% do negócio
comercial e de venda de ingressos da Fifa a uma empresa de private equity.
O
investidor privado que participaria do projeto seria uma empresa ligada ao
irmão do genro de Trump, Jared Kushner.
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Infantino raramente responde perguntas da imprensa
Questionamentos
independentes sobre os métodos e as decisões de Infantino são raros, porque ele
não costuma falar com a imprensa.
Nos
últimos quatro anos, ele concedeu apenas duas entrevistas coletivas, ambas com
duração de uma hora e realizadas antes do início da Copa do Mundo.
Fora
essas ocasiões, Infantino geralmente aparece em entrevistas produzidas pela
própria Fifa e divulgadas pelos canais oficiais da entidade.
Antes
da Copa do Mundo de 2026, Infantino tentou se antecipar a possíveis perguntas
sobre os preços elevados dos ingressos e os vistos para torcedores.
Mas,
sua resposta durante entrevista coletiva que antecedeu o Mundial, em que ele
disse que as pessoas deveriam "se acalmar e relaxar" ao ser
questionado sobre o árbitro somali Omar Artan — que havia sido impedido de
entrar nos Estados Unidos no aeroporto de Miami — provocou preocupação.
Ao
divulgar declarações por meio dos canais da Fifa, Infantino pode tentar
controlar a narrativa.
O
comunicado divulgado pela Fifa na quarta-feira trouxe um tom de mea-culpa. Mas
também houve uma repreensão.
O texto
deu a Infantino a oportunidade de reagir, afirmando que a Fifa "não
toleraria mais ataques à sua integridade, à boa governança e ao devido
processo".
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Controvérsias
O cargo
exerce grande fascínio — a Fifa teve apenas quatro presidentes permanentes
desde a eleição de Stanley Rous, em 1961.
Fora da
Europa, as receitas recordes obtidas por Infantino financiaram as atividades
relacionadas ao futebol de muitos países. Isso criou lealdades — e também
votos.
Para a
Uefa e algumas outras associações nacionais, porém, a lista de controvérsias
envolvendo Infantino já é longa demais.
Segundo
seus críticos — muitos deles ligados ao futebol europeu — a Fifa não pode mais
ser administrada como um projeto autocrático.
A
ampliação da Copa do Mundo estava no programa eleitoral de Infantino, e um
aumento para 64 seleções em 2030 parece bastante provável caso ele conquiste um
quarto mandato.
Houve
também a expansão do Mundial de Clubes para o verão. O troféu da competição
traz uma homenagem pessoal: "Inspirado pelo presidente da Fifa, Gianni
Infantino".
A
definição das sedes das próximas duas Copas do Mundo masculinas também ajudou a
garantir que a Arábia Saudita, outra aliada próxima de Infantino, recebesse o
Mundial de 2034.
O
sorteio da Copa do Mundo deste ano foi um evento longo, luxuoso e extravagante.
Trump ocupou um lugar de destaque, assim como Infantino.
Muitos
torcedores consideraram os preços dos ingressos altos demais, enquanto alguns
que estavam dispostos a pagar não conseguiram vistos.
A Fifa
optou por utilizar um mercado secundário de ingressos com preços sem limite
máximo e receber 30% do valor de cada ingresso vendido.
Críticos
afirmaram que o lucro havia se tornado mais importante do que a experiência dos
torcedores. Os procuradores-gerais de Nova York e Nova Jersey intimaram a Fifa
a responder a questionamentos sobre suas práticas de venda de ingressos.
Mesmo
com todas essas controvérsias, esperava-se que Infantino fosse reeleito,
tamanha era a força de seu apoio entre associações-membro de várias partes do
mundo.
De
fato, antes da Copa do Mundo, 111 delas já haviam declarado apoio a Infantino —
número suficiente para garantir sua reeleição.
Agora,
esse cenário é incerto diante das repercussões do fracassado plano de
investimento privado da Fifa.
A Uefa
vê neste momento uma oportunidade para pressioná-lo a deixar o cargo.
Mas,
como mostra a presença de Infantino na posse do presidente da Colômbia, isso
pode ser extremamente difícil de conseguir.
Fonte:
BBC Sport

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