A
disputa pelas urnas brasileiras
Em
editorial publicado nesta sexta-feira, 7 de agosto, o Valor Econômico registrou
uma constatação incomum: “Pela primeira vez nas eleições presidenciais desde a
redemocratização, há interferência externa na disputa.”
A frase
não encerra o debate sobre a dimensão dessa interferência. Mas registra um fato
novo: a eleição brasileira deixou de ser observada apenas como um processo
político interno.
Nos
últimos meses, Lula passou a agir cada vez mais como chefe de Estado. Publicou
artigo no Washington Post em defesa da soberania brasileira, intensificou o
diálogo com Xi Jinping, conversou com Vladimir Putin e anunciou que pretende
reunir-se também com Donald Trump durante a Assembleia Geral das Nações Unidas.
Ao mesmo tempo, passou a afirmar que o Brasil não aceitará interferências
externas em seu processo eleitoral.
Essa
mudança tem uma história.
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A tentativa de golpe
Em 8 de
janeiro de 2023, oito dias depois da posse presidencial, o país assistiu à
invasão das sedes dos Três Poderes por grupos que recusavam o resultado das
eleições de 2022. As investigações revelaram uma articulação destinada a romper
a ordem constitucional, vieram as condenações de Jair Bolsonaro e de
integrantes da cúpula militar e tornou-se público o chamado Plano Verde e
Amarelo, que previa o assassinato de Lula, do vice-presidente Geraldo Alckmin e
do então presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Alexandre de Moraes.
Pela
primeira vez desde a Constituição de 1988, uma tentativa de golpe de Estado foi
investigada, julgada e punida pelo próprio Estado brasileiro.
Mas
compreender a eleição de 2026 exige recuar ainda mais.
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Operação Brother Sam
Em
1964, a intervenção americana no processo político brasileiro não começou
quando as tropas saíram às ruas.
Documentos
posteriormente divulgados mostram que Washington acompanhava havia anos o
governo João Goulart. Em julho de 1962, John Kennedy discutiu com seus
assessores opções militares para o Brasil. Em dezembro, enviou seu irmão Robert
Kennedy, então procurador-geral dos Estados Unidos, para uma reunião de três
horas com Goulart, na qual pressionou o presidente brasileiro a alterar a
composição e os rumos de seu governo.
O
jornalista Jamil Chade recuperou nesta semana esse episódio ao analisar a atual
crise entre Brasília e Washington. Pesquisa do cientista político Anthony
Pereira mostra que, frustrada a tentativa de persuadir Goulart, a política
americana avançou, em 1963, para o apoio à sua derrubada.
Quando
o golpe começou, Washington já havia preparado a Operação Brother Sam: uma
força naval para a costa brasileira, combustível, armamentos e apoio aos
militares golpistas caso encontrassem resistência.
A
operação praticamente não precisou ser executada. O governo caiu antes.
Mas a
preparação existia.
Essa
talvez seja a principal lição daquele episódio: golpes não começam quando
aparecem os tanques. Começam muito antes.
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Como as Democracias Morrem
É
evidente que 2026 não é 1964. O Brasil e o mundo mudaram.
Em Como
as Democracias Morrem, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostram que, no século
XXI, democracias raramente desaparecem por quarteladas clássicas. Tendem a ser
corroídas por dentro, pela deslegitimação dos adversários, pelo enfraquecimento
das instituições e pela recusa em aceitar como legítima a vitória do oponente.
A
pergunta, portanto, não é se 1964 vai se repetir.
É
outra: estaria sendo preparado um ambiente político e internacional capaz de
sustentar o questionamento da legitimidade de uma eventual vitória de Lula?
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A resposta fora do Brasil
Em
análise divulgada nesta semana, Jamil Chade classificou o momento atual como a
maior ingerência contra a soberania brasileira desde 1964 e sustentou que a
ofensiva americana ultrapassa o apoio eleitoral a Flávio Bolsonaro. Na sua
interpretação, está em jogo a reafirmação da influência dos Estados Unidos
sobre a América Latina.
A volta
de Donald Trump à Casa Branca foi acompanhada por uma estratégia de
fortalecimento da presença americana no hemisfério ocidental, simultaneamente à
intensificação da disputa global com a China.
Essa
mudança aparece nas pressões sobre Cuba, na operação militar que resultou na
captura de Nicolás Maduro e Cilia Flores, na aproximação com governos
ideologicamente alinhados e na criação de novos mecanismos de segurança
regional.
Entre
eles está o Escudo das Américas, acompanhado por uma força-tarefa coordenada
pelo Comando Sul e integrada por dezoito países latino-americanos parceiros dos
Estados Unidos. Argentina e Paraguai, por sua vez, aprofundaram a cooperação
militar e de segurança com Washington.
Em
conjunto, esses movimentos desenham uma nova configuração geopolítica da
América do Sul.
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A Joia da Coroa
Foi
essa percepção que inspirou o artigo “O jogo mais importante para o futuro do
Brasil já começou”. O mapa político mostrava quase toda a América do Sul
governada por lideranças alinhadas, em maior ou menor grau, à nova política
hemisférica de Trump. Restavam Uruguai e Brasil.
Mas há
uma diferença decisiva.
O
Uruguai tem pouco mais de três milhões de habitantes. O Brasil é a maior
economia da América Latina, integrante dos BRICS, parceiro estratégico da China
e principal potência regional.
Daí
surgiu a ideia da Joia da Coroa: depois de ampliar sua influência sobre quase
toda a América do Sul, o Brasil passava a representar a peça decisiva da
disputa geopolítica no continente.
Os
acontecimentos seguintes reforçaram essa percepção.
Donald
Trump recebeu Flávio Bolsonaro em Washington. Marco Rubio intensificou críticas
ao governo brasileiro e ao Supremo Tribunal Federal. Representantes do
Departamento de Estado tentaram vir ao Brasil para discutir temas relacionados
ao processo eleitoral, mas tiveram os vistos negados pelo governo brasileiro.
Washington
revogou depois o visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti. A indicação
do novo embaixador americano tornou-se outro foco de atrito, enquanto tarifas
comerciais passaram a misturar-se com questões políticas.
No
mesmo período, o Consulado dos Estados Unidos em São Paulo promoveu reuniões
com influenciadores conservadores para discutir liberdade de expressão e
ambiente digital.
E a
campanha de Flávio Bolsonaro retomou um roteiro conhecido: questionamentos ao
sistema eleitoral e às urnas eletrônicas, defesa de observadores estrangeiros e
acusações de perseguição política.
Nenhum
desses episódios, isoladamente, demonstra uma estratégia destinada a contestar
o resultado da eleição.
Mas
existe um efeito cumulativo.
Cada
novo conflito reforça a narrativa de que as instituições brasileiras estariam
comprometidas e de que uma eventual derrota poderia ser atribuída não ao voto
popular, mas ao próprio sistema eleitoral.
A
lógica lembra os Estados Unidos em 2020. A narrativa da fraude começou antes da
votação e culminou na invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021. Dois anos
depois, o Brasil viveria sua própria tentativa de ruptura institucional em 8 de
janeiro de 2023.
Por
isso, a pergunta deixou de ser apenas quem vencerá a eleição.
É
também se todos aceitarão o resultado das urnas.
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Eduardo e a Venezuela
Foi
nesse ambiente que Eduardo Bolsonaro publicou, em 6 de agosto, um vídeo em
inglês dirigido à “comunidade internacional”.
Ao
comparar o Brasil à Venezuela e afirmar que Lula seguiria o caminho de Nicolás
Maduro, Eduardo levou para o exterior um discurso até então dirigido
principalmente aos apoiadores do bolsonarismo.
O
movimento coincidiu com outra característica da campanha: Flávio Bolsonaro
optou por uma chapa “puro-sangue”, exclusivamente do PL, em vez da ampla
coalizão partidária tradicionalmente buscada por candidaturas presidenciais
competitivas.
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A aposta internacional
Há um
paradoxo na reta final da campanha.
Quanto
mais Flávio Bolsonaro encontra dificuldades para ampliar sua base política no
Brasil, maior parece tornar-se sua importância para a estratégia internacional
da administração Trump.
A
dificuldade para construir alianças e o distanciamento de antigos aliados
contrastam com a crescente aproximação com o trumpismo. O encontro de Flávio
com Trump, a interlocução com integrantes da administração americana e a
atuação internacional de Eduardo Bolsonaro projetam a candidatura para além das
fronteiras brasileiras.
Isso
não permite antecipar como a campanha ou seus aliados reagiriam diante de uma
derrota.
Mas
ajuda a compreender por que a eleição brasileira passou a integrar uma disputa
política e geopolítica mais ampla.
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E se Lula for reeleito?
Se
Flávio Bolsonaro vencer, dificilmente seus apoiadores colocarão em dúvida o
resultado das urnas.
E se
Lula for reeleito?
Até o
momento, Trump não declarou que deixará de reconhecer uma eventual vitória de
Lula. Ao contrário: um alto funcionário do Departamento de Estado afirmou nesta
sexta-feira, 7, que os Estados Unidos respeitarão “qualquer governo que o povo
brasileiro escolha livremente por meio de eleições livres e justas”.
É uma
declaração relevante e precisa ser considerada.
Mas não
apaga os acontecimentos que a precederam: o apoio ao campo bolsonarista, a
escalada diplomática, as tarifas associadas ao conflito político, os atritos
envolvendo representantes do Departamento de Estado, os questionamentos ao
sistema eleitoral e a atuação internacional de Eduardo Bolsonaro.
Nenhum
deles comprova a preparação de uma futura contestação do resultado. Em
conjunto, porém, explicam por que essa hipótese passou a integrar o debate
político brasileiro.
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A virada de Lula
É nesse
ponto que a atuação de Lula ganha outro significado.
Mais do
que responder como candidato, o presidente passou a agir como chefe de Estado e
a sustentar que o processo eleitoral brasileiro é assunto exclusivo dos
brasileiros.
Pode-se
interpretar a crise como resultado de divergências entre governos
ideologicamente opostos. Mas já é difícil separar completamente a campanha
presidencial das disputas diplomáticas e geopolíticas que hoje envolvem Brasil
e Estados Unidos.
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A verdadeira questão
Em
1964, os brasileiros só compreenderam plenamente a dimensão da participação
americana no golpe contra João Goulart quando documentos oficiais começaram a
ser desclassificados.
Em
2026, essa perspectiva histórica ainda não existe. Estamos acompanhando os
acontecimentos enquanto eles se desenrolam.
Por
isso, prudência significa não transformar hipóteses em certezas — mas não
ignorar sinais que merecem atenção.
A
democracia brasileira chega à primeira eleição presidencial depois da tentativa
de golpe de 8 de janeiro de 2023 diante de uma pergunta inédita desde a
redemocratização:
o
Brasil conseguirá realizar sua primeira eleição presidencial pós-8 de janeiro
preservando a soberania nacional, a autoridade das instituições e o
reconhecimento do resultado das urnas?
A
resposta pertence aos próximos meses de outubro ou novembro.
Mas
democracias não são testadas apenas quando seus cidadãos votam.
São
testadas quando todos — vencedores, derrotados e a comunidade internacional —
aceitam que a vontade das urnas deve prevalecer.
Fonte:
Por Gustavo Tapioca, em Brasil 247

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